Hoje em dia todo mundo defende “a educação” como solução para todos os males da humanidade. Eu não sou tão otimista assim. Mas quando eu vejo “que educação” muita gente defende, aí eu me torno realmente pessimista. Até poucas décadas atrás, a educação formal era pelo menos um filtro. Hoje em dia, nem pra isso serve.

Exemplo 1

Eu tive colegas que concluíram um mestrado em ecologia e que não eram capazes de ler um texto longo com entendimento, não sabiam calcular uma “regra de três” simples, não entendiam que não existe “petróleo ecológico”, não conseguiam entender que não adianta criminalizar os atos de capturar e manter passarinhos em gaiolas enquanto é perfeitamente lícito destruir o habitat desse mesmo passarinho para criar gado, que tomavam anti-ácido e Coca-cola ao mesmo tempo, que acreditavam em astrologia e que votavam em um candidato de cada partido “pra equilibrar o poder”.

Exemplo 2

Em um dos cursos que fiz, tivemos uma “professora” que nunca deu uma aula, só distribuía cópias xerox de capítulos de livros para que os alunos apresentassem “trabalhos em grupo” para os colegas, fazendo assim o trabalho dela.

Quando ela distribuía textos em inglês, acontecia sempre a mesma coisa: um de nossos colegas “traduzia” o texto palavra-a-palavra e simplesmente lia para nós a maçaroca sem sentido que resultasse deste processo. Vez após vez. E a “professora” nem aí.

A palhaçada só acabou quando eu, indignado com aquela farsa, comecei a interromper a “aula” a cada frase dizendo “não entendi”. Ele lia de novo, eu repetia “não entendi”. Ele lia de novo, eu reclamava “essa frase não tem sentido, explica com tuas próprias palavras”. E aí ele embatucava e reconhecia que também não tinha entendido.

Neste ponto eu virava para a professora e dizia: “professora, o colega não conseguiu explicar o conteúdo de modo a se fazer entender, por favor, explique essa parte para que a turma não seja prejudicada”.

Fiz isso umas dez ou doze vezes em cerca de trinta minutos e a “professora” entendeu que eu estava disposto a comprar essa briga até as últimas conseqüências, o que poderia expô-la a algum constrangimento.

Sabem como ela “resolveu” o problema? Nunca mais deu textos em outra língua que não fosse português para aquele colega apresentar. E continuou não dando aula.

Exemplo 3

Em um outro curso, uma professora apresentou na prova uma questão muito fácil sobre uma aula que eu não havia assistido. Como se tratava de um problema elementar de física, eu deduzi o funcionamento do sistema sobre o qual versava a questão e consegui responder as perguntas pertinentes com facilidade. Qual não foi minha surpresa quando recebi a prova corrigida com um grande “xis” vermelho em cima desta questão.

Tratei de reler o que eu havia escrito. Estava tudo correto. Questionei a professora e ela me deu uma bronca por ter faltado à aula correspondente e disse que todos os meus colegas menos eu acertaram aquela questão.  Esta é justamente a parte preocupante, porque a explicação que ela deu em aula e que nenhum colega questionou estava totalmente errada e violava nada mais, nada menos que as leis da termodinâmica.

Eu tentei alertá-la de que aquilo estava errado e ela se saiu com dois argumentos típicos: primeiro, que a professora era ela (argumentum ad verecundiam), depois, que toda a turma ouviu a explicação e ninguém questionou, só eu (argumentum ad populum). Como ela se negou a ler a demonstração matemática de que eu estava correto, levei a questão para um professor do departamento de físca da universidade, pedi que ele a respondesse por escrito e então chamei a tal professora e o coordenador do curso para uma reunião em que mostrei a resposta do professor de física, igual à minha, e perguntei se minha nota iria ser corrigida por razoabilidade e bom senso ou como resultado de escândalo e processo.

Exemplo 4

Em ainda outro curso, tive uma “professora” que se orgulhava de rodar no mínimo 70% dos alunos. A aula dela era péssima, ela insistia em apresentar um volume imenso de informações de modo superficial, não respondia a maior parte das perguntas da turma “porque não dava tempo”, nunca estava disponível para dar alguma explicação fora do horário de aula e tipicamente aplicava provas com apenas duas questões, cada uma com peso 5, sendo que a média necessária para ser aprovado é 6. Ou seja, os alunos eram obrigados a acertar 100% da prova para ter certeza de aprovação, porque em caso de “acerto parcial” ela simplesmente atribuía conceitos conforme suas preferências pessoais.

Se alguém pedisse revisão de prova, ela dizia que iria rever a prova e que comunicaria ao aluno se a nota dele havia mudado – o que sempre acontecia, invariavelmente para baixo. Se alguém pedisse para assistir ou participar da revisão da prova, ela dizia que ninguém tinha o direito de dizer a ela como trabalhar. Se alguém apelasse para o coordenador do curso para obter justiça, descobria que ele era marido dela. Se resolvesse ir até o nível do colegiado do curso, descobria que era composto por três pessoas: ela, o marido mais um professor, e o colegiado decidia por maioria simples.

A universidade recebia dezenas de reclamações contra ela, em todos os semestres, e sempre dizia que “não podia fazer nada”. Pelo contrário, disponibilizava os serviços do departamento jurídico para defender a “coitadinha” contra as ações movidas contra ela. E a maior parte das ações dava em nada porque “a avaliação de um docente é muito subjetiva, mas certamente não pode ser feita por um estudante que não tem capacidade de acompanhar o curso, enquanto vários outros têm”, conforme alegavam pernosticamente os advogados da universidade. Ou seja, ela tinha respaldo jurídico para ser uma péssima profissional, cometer injustiças e humilhar os alunos, que terminavam duas vezes prejudicados e duas vezes humilhados caso buscassem justiça.

Exemplo 5

Tive aulas com um professor que fumava em sala de aula e dizia que, se alguém achasse ruim, podia chamar a polícia. A aula dele era péssima, com muito pouca informação e muita história sobre as supostas façanhas acadêmicas e sexuais do maluco, que passava a maior parte do tempo exaltando as próprias inteligência e virilidade, mas como ele não fazia provas e aprovava todo mundo que tivesse 75% de presenças no total do semestre e no último mês (para evitar que todo mundo abandonasse o último mês de aulas), quase ninguém reclamava.

Conclusão

Cientista que acredita em astrologia. Professor que não dá aula e não se importa em protagonizar uma farsa pseudo-educacional. Professor que ensina tudo errado e se nega a se corrigir mesmo alertado. Dezenas de alunos de nível superior incapazes de identificar uma grave violação das leis da física. Professor que gosta de rodar e humilhar os alunos. Proteção jurídica para a manutenção do descalabro na educação. Professor que usa a sala de aula como espaço para terapia particular. Gente acomodada que está ali só pela aprovação.

Com exemplos assim, todos ocorridos em nível de graduação e de pós-graduação, eu fico espantado que o país ainda não tenha pegado fogo.

Eu poderia contar histórias ainda mais escabrosas ocorridas em nível de ensino médio e de ensino fundamental, e talvez o faça em outro artigo, mas o importante aqui é mostrar três “coisinhas”:

1. Os péssimos recursos humanos de que se dispõe para a educação.

2. Os péssimos sistemas burocráticos que impedem a depuração dos estabelecimentos de ensino para se livrarem dos péssimos profissionais.

3. Os péssimos usuários do sistema educacional brasileiro, desinteressados e acomodados, que adotam o lema “vocês fingem ensinar, nós fingimos aprender”.

Se esses são o tipo de gente que hoje se chama de “educador”, o tipo de estabelecimento em que estão sendo “educados” nossas crianças, adolescentes e jovens e o tipo de aluno que está saindo do topo do sistema educacional, então a educação formal não é a solução para os grandes males da humanidade, ela é um dos grandes males da humanidade.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 27/08/2011

62 thoughts on “A qualidade do ensino formal

  1. Arthur tu estas enganado. A pessoa nao e’ uma maquina e muitas vezes ou que se apresenta como disfuncao na tuba de Eustaquio e’ manifestacao de doenca sistemica, que otorrino vai ser a pessoa a identificar. A unica especialidade medica que se provou capaz de andar separada do resto da medicina em 4000 anos foi a odontologia.

    1. Hehehehe… previsível essa reação. 🙂

      Não vai esquartejar o computador a machadadas com o que vou dizer agora, OK?

      Paulinha, não é verdade que seja necessário ver “tudo”, até porque ver “tudo” com uma mínima qualidade é impossível dada a imensidão do corpo de conhecimentos existente. Qualquer ativdade que parta do princípio que o impossível é necessário padece de um gravíssimo problema.

      A medicina é uma forma de engenharia (não uma ciência) que tem duas ciências como núcleos unificadores: a fisiologia e a patologia.

      São estes núcleos unificadores que devem ser bem dominados para que seja possível transitar entre o funcionamento sistêmico e a especialidade, não um mero somatório de especialidades com a pretensão de ver “de tudo um pouco” (a famosa “colcha de retalhos”).

      Conheces o seriado “House”? Pois é, aquele é meu modelo ideal de medicina: duas etapas bem definidas de atuação, diagnóstico e tratamento, a primeira realizada por especialistas em diagnóstico sob coordenação de um generalista e a segunda realizada por especialistas em tratamento sob a coordenação do mesmo generalista, o que impede a dissociação do processo e garante feedback contínuo entre ambas as etapas.

      Respira fundo…

      Conta até dez…

      Pronto, pode responder agora. 🙂

    2. Eu nao disse que voce precisa ver “tudo” para ser capaz de desempenhar a sua profissao.

      O seriado “House” e’ uma ficcao. Por favor, nao tente fazer um paralelo entre a realidade e o seriado, pois o segundo tem como unica finalidade a geracao de lucros atraves do entretenimento. Desta forma, usar o seriado para justificar o teu pensamento se torna menos do que ideal.

    3. Paulinha, por que não posso usar o seriado como exemplo se ele mostra um bom exemplo de como eu acho que deve ser o funcionamento da medicina? No que o fato de ser uma ficção prejudica a qualidade do exemplo? O fundamental é a lógica ali exposta, o que independe do caráter ficcional da série.

      Repetindo, então, independentemente do exemplo: o funcionamento adequado é “duas etapas bem definidas de atuação, diagnóstico e tratamento, a primeira realizada por especialistas em diagnóstico sob coordenação de um generalista e a segunda realizada por especialistas em tratamento sob a coordenação do mesmo generalista, o que impede a dissociação do processo e garante feedback contínuo entre ambas as etapas”.

    4. o especialista em diagnostico ‘e uma figura ficticia.

    5. meu comentario sumiu.

    6. Recuperado.

      Minha resposta: se o especialista em diagnóstico é um personagem fictício, isso só torna mais urgente a necessidade de trazê-lo à tona para a realidade, porque o modelo descrito é extremamente eficaz e seguro.

  2. Arthur, tu te consideras excepcional positivo?

    1. Paulinha, pra falar sobre assuntos de natureza pessoal eu prefiro que a gente converse pelas mensagens privadas do Facebook ou por e-mail.

      Qualquer resposta que eu pudesse dar a esta pergunta – qualquer uma mesmo – seria usada por algumas pessoas mal intencionadas que eu sei que acompanham o blog na surdina para usar tudo que puderem coletar de informação aqui para me atacar nas redes sociais.

    2. Desculpe, nao me pareceu que fosse diferente do que o que esta’ disponivel publicamente no Blog a teu respeito. Nao levantarei a questao de novo.

    3. Bem, o que está disponível publicamente no blog é que eu gosto de pensar, de ler, de estudar, de resolver problemas, que eu admiro a excelência e que eu tenho horror à preguiça mental, ao descaso, à resignação na mediocridade. Isso eu confirmo com todas as letras.

      Já sobre minha opinião a respeito de minha própria capacidade intelectual, quem quiser inferir isso ou aquilo tem toda a liberdade, mas eu não faço comentários porque sei bem o que acontece quando alguém fala sobre si nestes termos, fale o que falar.

      O fenômeno está aproximadamente descrito em uma postagem sobre a maconha: “Mas afinal, você fuma maconha ou não fuma?” – minha experiência me mostrou que sempre acontece a mesmíssima coisa quando alguém fala explícitamente de si ao invés de suas idéias.

      Mas em privado, falando com os amigos que conheço pessoalmente e em quem confio, não tenho esse tipo de reserva.

  3. Arthur, como bom ivan-illichiano, eu sustendo os itens 1, 3 e 7.

    Primeiro, pq o aluno tem de aprender a viver em sociedade, em vez de viver uma idealização da mesma. Ele precisa aprender a lidar com os revezes, com as pessoas, com problemas sociais, ter consciência de classe, e outras coisas importantes para a vivência que, no Brasil, só desenvolvemos depois dos 30.

    O item 7 sustento pq o aluno produz mais personalizando o conhecimento que sendo obrigado a estudar as mesmas coisas dos demais colegas e que ele pode não produzir nada naquilo. Nisso, a chamada inclusão seria realmente eficiente, uma vez que é justamente na socialização que o aprendizado ocorre.

    1. Félix, treino é treino e jogo é jogo. Ninguém aprende a jogar durante o campeonato. Há etapas preparatórias – e essas etapas não podem acontecer já nas condições do jogo em si, ou o indivíduo não somente será massacrado como não conseguirá aprender coisa alguma em função desse massacre.

      Observa o que faz a gata para ensinar o gatinho a caçar: ela não leva o filhote direto para a caçada, ela primeiro traz um rato ferido que ainda está se debatendo para o filhote treinar os movimentos básicos da captura e do abate da presa.

      Por que os filhotes de mamíferos gostam tanto de “brincar de luta”? Resposta: porque é assim que aprendem a lutar, primeiro desenvolvendo gradualmente em cenários “idealizados” as habilidades necessárias e depois aplicando estas habilidades no enfrentamento dos revezes reais da vida.

      Sem essa gradualidade, que a escola ou o devido educador deve propiciar, o aprendiz seria simplesmente aniquilado pelas dificuldades que enfrentaria, pois os problemas da vida, quando se apresentam, não levam em consideração nosso preparo para enfrentá-los, eles simplesmente acontecem com toda a intensidade que lhes for peculiar.

      Tu gostarias de aprender a lutar boxe enfrentando o Myke Tyson num ringue pra valer? Ou é melhor primeiro desenvolver certas habilidades (rezar, talvez) em um ambiente idealizado e devidamente protegido? 😉

  4. Já que o Felix tocou no assunto, Arthur, você leu Sociedade sem escolas do Illich e A escola esté morta de Everett Reiner?

    Acho que a proposta de redes educacionais com o professor atuando mais como um orientador para o aluno utilizar a rede s tornou viável com a informatização. A Internet poderia ser uma ferramenta fantástica. Mesmo hoje já se pode fazer muito com ela.

    1. Gerson, trabalho com educação a distância na UFPB, e garanto que não somente funciona como a evasão escolar é até menor, e os funcionários saem mais preparados.

    2. Não li e não li. 🙁

      Dá pra dar uma idéia geral?

      Sugeres algum link?

  5. Sugiro um texto interessante que li ha’ uns anos atras na NG. http://ngm.nationalgeographic.com/2008/10/neanderthals/hall-text/1
    E’ sobre as teorias que explicam o desaparecimento dos neandertais. O que me parece relevante para o debate do blog ‘e o fato (e consequencias) de os neandertais atingirem a idade adulta muitos anos antes do humano que vivia na mesma epoca.
    Em consequencia, eles saiam da casa/convivio com os pais muito antes para acasalamento. Isto era impeditivo para a passagem do conhecimento de geracao em geracao, e cada individuo somente contava com o conhecimento adquirido no seu tempo de vida. Vivia menos que 30 anos e era isso. Esta teria sido uma grande desvantagem, e possivelmente uma das grandes diferencas entre humanos e neandertais, explicando porque somente os humanos sobreviveram: os humanos ficavam mais tempo com seus mentores e puderam acumular conhecimento de geracao em geracao, a ponto de se tornarem tecnologicos.

    “(…) In contrast, the “growth rings” in the 100,000-year-old tooth of a young Neanderthal discovered in the Scladina cave in Belgium indicated that the child was eight years old when it died and appeared to be on track to reach puberty several years sooner than the average for modern humans. (…) “This would certainly affect Neanderthal social organization, mating strategy, and parenting behavior,” says Hublin. “Imagine a society where individuals start to reproduce four years earlier than in modern humans. It’s a very different society. It could also mean the Neanderthals’ cognitive abilities may have been different from modern humans’.”

    ” (…) According to Erik Trinkaus, a Neanderthal social unit would have been about the size of an extended family. But in early modern human sites in Europe, Trinkaus said, “we start getting sites that represent larger populations.” Simply living in a larger group has biological as well as social repercussions. Larger groups inevitably demand more social interactions, which goads the brain into greater activity during childhood and adolescence, creates pressure to increase the sophistication of language, and indirectly increases the average life span of group members. Longevity, in turn, increases intergenerational transmission of knowledge and creates what Chris Stringer calls a “culture of innovation”—the passage of practical survival skills and toolmaking technology from one generation to the next, and later between one group and another. (…)”

  6. Sistema de educação público
    http://www.youtube.com/watch?v=qx8G7vwyDSs&feature=plcp
    Entenda porque o sistema de ensino público foi criado e porque ele existe e como ele modelou a nossa sociedade desde antes da primeira guerra mundial até a atualidade.

    Alternativa interessante
    Seus filhos estudam em escola pública? O que você acharia se alguém do governo o abordasse e dissesse: “Ei, este cheque é seu. Você pode usá-lo para pagar a escola que quiser para seus filhos. Pode ser privada ou pública. O que acha?” Parece bom? Pois é mais ou menos isso que os governos de algumas cidades e estados americanos estão fazendo. Em meados da década passada, eles começaram a adotar um mecanismo conhecido como voucher escolar, uma espécie de bolsa de estudos. O poder público paga os estudos de alunos dos ensinos básico e médio que optam por colégios privados, em vez das escolas públicas.
    http://super.abril.com.br/cultura/pelo-direito-escolher-443943.shtml

    1. Interessante. Algo a se pensar. Mas tenho a impressão que aqui viraria fraude (mas o que não vira?).

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