Não tem coisa que me incomode mais do que a utilização de clichês supostamente racionalistas para sustentar posições irracionais (e freqüentemente mal intencionadas). Um exemplo claro é a falácia do “prove”: você diz em um fórum de debates que “o céu é azul”, um interlocutor mal intencionado diz “prove” e uma claque de safados e inocentes úteis misturados assume que o céu não é azul porque você não sabe citar um artigo científico que diga isso. O mesmo vale em relação às chamadas “Teorias da Conspiração”, que são descartadas pelo simples fato de serem assim rotuladas, como se não fosse possível haver conspirações de fato.

Eu passei a assumir uma postura bem mais flexível em relação às chamas “Teorias da Conspiração” na época em que fazia meu mestrado, depois que comprei um livro editado pelos nazistas em um sebo. Menos de dois meses depois, minha casa foi invadida e completamente revirada em um feriado que fomos passar na praia, mas nada foi roubado – exceto aquele livro.

Não sei o nome do livro, não sei do que tratava, só lembro que tinha uma grande e imponente suástica na capa e que estava em razoáveis condições de conservação, embora as páginas estivessem soltas.

Comprei o livro porque achei um absurdo que uma edição com possível valor histórico, que talvez devesse ser guardada em um museu para estudos, estivesse sendo vendida a qualquer um por um precinho mixaria. E se algum intolerante que não dá valor à história resolvesse adquirir o livro apenas para queimá-lo? Decidi comprar o livro para depois doá-lo a uma biblioteca universitária, onde seu valor histórico poderia ser adequadamente aferido.

Coloquei o livro em um saquinho plástico com uma folha de ofício dobrada na frente da capa e outra na frente da contracapa, para que ninguém visse a suástica no meu caminho de volta para casa. Cheguei em casa, coloquei o conjunto em pé numa estante, com o livro dentro do saquinho plástico e sem retirar as folhas de ofício, e não voltei a mexer nele, para não correr o risco de danificar o material.

Talvez por eu ter guardado o livro deste modo os invasores tenham revirado tanto a casa: embora o livro estivesse em uma estante à vista de todos, sua capa não estava visível. Uma pessoa comum procurando um livro teria simplesmente procurado melhor nas estantes, mas alguém procurando um documento que considera valioso, perigoso ou confidencial provavelmente imaginaria que eu tivesse adquirido o livro por já conhecer sua suposta importância e portanto presumiria que eu o havia escondido e faria uma busca com varredura completa no ambiente para encontrá-lo, inclusive em lugares absurdos como o interior do piano – que encontramos aberto.

E aí, gente? Quem é que arromba uma casa, revira tudo, não rouba nada de valor, procura alguma coisa que supõe escondida até mesmo dentro do piano e leva apenas um livrinho velho com as páginas caindo?

É “Teoria da Conspiração” ou de fato tinha gato nessa tuba?

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 02/09/2011

18 thoughts on “Teoria da Conspiração ou conspiração de fato?

  1. nuss,assustado com vc. Vamos te blokiá. rsrsrs. Nao deu nem uma lida? Ah, o homem foi pra lua sim, heim, por favor. RSRSRS

    1. Li o blog um monte nos últimos dois dias. Muito bom. 🙂

      E quem garante que o homem pisou na Lua? Não ponho a mão no fogo…

  2. Joaquim Salles

    02/09/2011 — 07:00

    Humm, banho de sal grosso com arruda, uma passada num templo “pra tirar do teu corpo o que não te pertence”, um exorcismo basico, chamar um padre para abençoar a sua casa, virar vegan radical por 6 meses pra limpar o corpo…que mais…consultar o “Santo Google” para ver se acha mais alguma dica de como deixar de ser “para-raio” pra esse tipo de coisas 🙂 Bom dia!:)

    1. Ih, meu pai diz que eu sou pára-raio-de-maluco há umas três décadas e eu não tomo jeito. Este aqui nem São Google conserta. 😛

  3. Mas te seguiram desde a loja? Como e’ que sabiam para onde o livro tinha ido? quando foi que ocorreu?

    1. Como é que eu vou saber essas coisas? 😛

      Aconteceu (acho) no segundo ano do meu mestrado, portanto em 1991. Até a data tem um formato meio cabalístico…

  4. Podia ser um ladrão cigano ou judeu com raiva, o dono da livraria arrependido ou um colecionador de livros raros. Vai saber.

    1. Ou um nazista abduzido por ETs e mantido congelado por algumas décadas que ao retornar ao planeta começou a localizar por P.E.S. (Percepção Extra-Sensorial) fragmentos de uma informação cifrada pelo próprio Hitler para reconstruir um livro de sortilégios que permitirá ressuscitar o Führer e criar o Quarto Reich para dominar a Terra por dez mil anos…

      Sei lá, essa hipótese é tão plausível quanto dizer que aquilo foi obra de um ladrão comum.

  5. …brrrrrrrrrrrrrrr…

    Assustador.

    1. …brrrrrrrrrrrrrrr…

      Assustador.

      [2]

  6. Bom de qualquer forma, acho que a historia de seres “para-raio” agora vai comecando a fazer mais sentido…

    Eu te garanto que isso NUNCA aconteceria comigo, pq eu NUNCA compraria um livro contendo uma suastica na capa, por mais que isso representasse uma oportunidade de conservacao como peca de museu, ou qualquer que seja o valor que o tal livro possa ter (se e’ que tem algum valor).

    Assim, Arthur, como tu ja’ deves saber, tua posicao na curva de Gauss esta’ muito mais perto das caudas do que a minha. E portanto, nao me admiro que coisas “estranhas” acontecam contigo mais frequentemente do que com a maior parte das outras pessoas.

    A unica coisa que eu tenho a te dizer a respeito disso, e’ que como nao estas perto da “barriga” da curva, te tornas “desgarrado” e, assim sendo, um alvo facil. E’ bom ser unico em sua individualidade, mas `as vezes, e’ mais seguro caminhar com a manada.

    Toma cuidado.

    1. Paulinha, eu não consigo nem imaginar a possibilidade de encontrar um livro daqueles sendo vendido por uns míseros R$ 15,00 ou R$ 20,00 – não lembro o valor, mas lembro que era o preço de umas três revistinhas em quadrinhos – e deixá-lo sumir pelo ralo da história. Sou da opinião que não podemos deixar passar as oportunidades de fazer a diferença.

      Teve uma vez que o pai de um menino começou a espancar o fedelho dentro de um supermercado em Porto Alegre. Não foram umas meras palmadinhas pra encerrar uma teimosia abusiva, o cara deu uns tabefes que derrubaram a criança no chão e passou a chutar a criança violentamente. E ninguém ao redor tentou impedir, nem mesmo os seguranças, que estavam olhando a cena!

      As pessoas simplesmente se afastavam da cena. Um enorme brutamontes chutando “às ganha” uma criança de seis anos e ninguém tentou impedir, provavelmente com medo do tamanho do gorila.

      E o que eu fiz?

      Pois é, já cheguei na voadora.

      O cara entrou de peixinho numa pilha de latas de milho e ervilha, se esparramou no chão com as latas caindo por cima e eu nem deixei o troglodita levantar, já juntei o desgraçado a pontapés do mesmo jeito que ele estava agredindo a criança. Então, e somente então, os seguranças resolveram intervir!

      Já esclareço que isso aconteceu quando eu era menor de idade, então não deu nada pra mim.

      O que importa é o seguinte: o cara tinha o dobro e meio do meu tamanho e estava ensandecido espancando uma criança, então não dava pra chegar pedindo licença e bom senso. Mas ninguém interveio, só eu.

      Então, não é que não aconteçam coisas estranhas ao redor de outras pessoas. Essas coisas acontecem com todo mundo. Mas eu nunca tiro o corpo fora por comodismo.

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      Aliás, este episódio merece um artigo próprio. 🙂

  7. Pois e’, esta e’ uma historia muito ilustrativa. Apesar de nao conviver diariamente contigo, o pouco que sei de teus relatos me faz NAO ficar admirada. A verdade e’ que te admiro por essas e por outras.

    Mas nao vejo muita relacao entre a compra de um livro com o salvamento de uma crianca que esta sendo brutalmente espancada.

    1. Ih, Paulinha, eu já pulei na frente de um ônibus em movimento para salvar uma criança de ser abandonada, já entrei em uma casa em chamas para tirar um senhor de idade lá de dentro enquanto a família dele só ficava berrando na frente, já comprei uma mulher para evitar um assalto e possivelmente coisa pior… enfim, já fiz umas poucas e boas. 🙂

      O livro podia ter valor histórico e custava muito pouco para que eu não o comprasse. E a integridade física e a vida de uma criança custam muito para que eu não me envolva.

      A relação que há entre uma coisa e outra, bem como com as demais acima citadas, é o princípio ético envolvido: em todos os casos eu era a pessoa certa no lugar certo no momento certo para fazer a coisa certa. Não dava para eu me omitir.

  8. Vou ter de ler o artigo citando sua compra inusitada.

    1. Hehehehe… e as outras eu contarei depois. 🙂

  9. Francisco Monteiro Kamisaka

    05/09/2011 — 15:23

    Arthur, essa história de ter comprado uma mulher está no hall das maiores maluquices que já ouvi… AHAHAH! Sensacional!

    1. Foi o que me ocorreu para evitar violência… ainda mais que o sujeito era forte. 😛

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