Volta e meia eu vejo “ecologistas” defenderem idéias baseadas em ideologias que não somente não encontram respaldo algum na ciência como ainda produzem resultados opostos aos desejados. A idéia de “proteger os animais” através da proibição da caça desportiva é uma destas abobrinhas injustificáveis que violam tanto a lógica da ciência quanto a lógica econômica. Vamos aos fatos.

Em primeiro lugar, é necessário estabelecer o que queremos fazer de fato: “proteger os animais” é uma coisa, “proteger as populações de animais silvestres” é outra bem diferente.

“Proteger os animais” é coisa de sociedade protetora dos animais, não de ecologista. Não que a mesma pessoa não possa se enquadrar em ambas as categorias, mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. É perfeitamente possível ser um sádico torturador de bichinhos e ser ecologista, assim como é possível ser um piedoso protetor dos animais, não dar a menor bola para o meio ambiente e querer que o mundo se exploda.

“Proteger os animais” é lutar contra maus tratos e sofrimento evitável. É chamar a polícia quando um carroceiro chicoteia um cavalo, é exigir do Estado normas adequadas para a criação e abate de animais de corte, é colocar anúncios na internet procurando gente para adotar filhotinhos de cães e gatos, é procurar sensibilizar as pessoas para o fato que os animais também sentem dor, desconforto, cansaço, sede, fome, frio, calor, solidão. É uma causa boa e digna, mas não tem nada a ver com ecologia.

“Proteger as populações de animais silvestres” é coisa de ecologista e de associação ecológica, não de protetor de animais. Novamente afirmo: é claro que a mesma pessoa pode se enquadrar nas duas categorias, mas isso não torna as causas equivalentes, nem sequer similares.

“Proteger as populações de animais silvestres” é garantir sua permanência através da preservação ou da conservação dos ecossistemas necessários à sobrevivência das espécies-alvo. É chamar a polícia quando um agricultor promove uma derrubada de árvores ou uma queimada, é exigir do Estado normas adequadas para a proteção de matas ciliares e de corredores ambientais, é bolar estratégias de valorização econômica de paisagens conservadas.

Bolar estratégias de valorização econômica de paisagens conservadas. Lembrem desta expressão, porque voltaremos a ela.

Em segundo lugar, é necessário entender que nem tudo aquilo que é estético é ético, e vice-versa. Esclarecer este ponto é extremamente importante, porque o pessoal da defesa dos animais faz muita confusão a respeito. Por exemplo, quando dizem a bobagem de que “a caça desportiva é cruel”.

Cruel, caríssimos defensores dos animais, é o que fazem com os gansos para produzir patê de fígado de ganso. Cruel é o abate por sangria. Cruel é permitir ao animal ver ou sentir o cheiro de outros animais abatidos, o que o faz pressentir a própria morte. Cruel é manter os animais em cativeiros de dimensões minúsculas para produção de carne mais macia. Cruel é manipular o ciclo de iluminação para obrigar os animais a comerem o dia inteiro sem jamais conseguir descansar.

Um único balaço fatal, imprevisto e repentino, não é cruel.

Em terceiro lugar, é necessário parar com a frescura e o puritanismo e pensar em termos do que é melhor para o ambiente.

Quando proibimos a caça, sinalizamos para o dono das terras que ele só poderá extrair seu sustento delas de três maneiras: agricultura ou pecuária,  turismo e urbanização. Em todas estas alternativas, modificar o ambiente é sempre mais lucrativo do que preservar o ambiente.

A agricultura e a pecuária por definição arrasam com o equilibrio ambiental. Não me venham com aquele papinho mole pra boi dormir de que a “agricultura ecológica” é feita em “plena harmonia” com o meio ambiente porque isso é muito bonitinho pra enrolar garotos de 17 anos no primeiro semestre de agronomia, mas eu sou um ecólogo velho de guerra.

Não existe agricultura nem pecuária que não substituam uma boa parte do ambiente pelas espécies produzidas e não existe isso de não causar impacto ambiental só porque se faz consorciação de culturas, compostagem e não usa agrotóxicos. Qualquer produção agrícola ou pecuária causa um grande impacto ambiental, sem exceção.

O turismo ambiental, mesmo quando é “ecológico”, nem de longe é opção para todas as áreas. E, nos locais onde é uma boa opção, só vinga quando acompanhado de confortos e facilidades que exigem investimentos em infraestrutura – que obviamente causam impacto ambiental. Se não é feito assim, simplesmente não dá lucro, porque o público do verdadeiro turismo ecológico é de fato muito pequeno.

O que as pessoas gostam mesmo é de visitar belíssimas paisagens e ao cair da noite retornar para o conforto do hotel, com ar condicionado e sem mosquitos, com banho quente e sem cobras e aranhas. Isso estimula tanto a alteração da paisagem visual (com vista ao embelezamento) quanto funcional (com vista ao conforto), e dê-lhe impacto de tratamento de água, de rede de esgoto, de rede elétrica, de trânsito de automóveis, de pisoteio, etc.

E a urbanização… bem, preciso comentar se a urbanização preserva ou não preserva o meio ambiente? Acho que não, né?

Até aqui, suponho eu, pouca gente terá discordado muito de mim. É a partir do próximo parágrafo que o javali torce o rabo.

Lembram da frase que eu pedi para memorizar? “Bolar estratégias de valorização econômica de paisagens conservadas.” Pois é de permitir novamente a caça desportiva que eu estou falando.

Quando permitimos a caça desportiva, sinalizamos para o dono das terras que ele poderá extrair seu sustento delas de uma maneira bem distinta da agricultura, da pecuária, do turismo e da urbanização, que são todas atividades de alto ou pelo menos médio impacto.

Quando permitimos a caça desportiva, sinalizamos para o dono das terras que ele poderá tornar sua propriedade lucrativa através da conservação ativa dos recursos cinegéticos, para que as populações cinegéticas se mantenham atraentes para os caçadores.

A maneira de conservar os recursos cinegéticos é, por definição, conservar todo o ambiente em que as populações cinegéticas vivem. Não podem ser feitas nem a substituição de partes importantes da paisagem, nem alterações estéticas, nem alterações funcionais, caso contrário o equilíbrio ecológico pode se alterar e as espécies cinegéticas podem desaparecer ou pelo menos se reduzir. Ora, se as populações cinegéticas desaparecem ou se reduzem, os lucros do dono das terras também desaparecem ou se reduzem, o que torna lucrativo conservar o ambiente o melhor possível.

O público caçador desportista, por sua vez, devido à própria natureza de seu esporte predileto, não tem as mesmas frescuras do turista “ecológico” típico. São pessoas que sabem que o acampamento deve ser discreto e causar o mínimo impacto ambiental possível se quiserem voltar para casa com os troféus desejados. Não exigem infraestrutura elaborada nem gostam de muvuca, porque isso espanta a caça. E ainda colaboram com a fiscalização ambiental, porque o caçador que age de maneira predatória prejudica seu esporte.

A caça exige um conhecimento do meio ambiente que o turismo ecológico não exige, porque a linda e modificada paisagem está sempre lá para ser fotografada, mas a caça é arisca e foge, precisando ser estudada em seus hábitos, tocaiada e abatida de modo eficaz e preciso, porque não haverá chance de um segundo tiro tão cedo.

Como este é um esporte cuja tradição passa de pai para filho, o conhecimento ambiental necessário para a prática da caça é também transmitido de geração em geração e aprimorado nas rodas de contar vantagem dos clubes de caça.

Isso significa que, além de ajudar a proteger ecossistemas inteiros e estimular o contato com a natureza, a caça desportiva promove também a educação ambiental e a interação social.

Mas… se a caça desportiva tem todas essas vantagens, por que raios não vemos hordas de ecologistas bradando por sua legalização?

Basicamente por três motivos: ignorância, frescurite e wishful thinking.

Ignorância porque desconhecem desde a diferença entre ser “protetor dos animais” e “ecologista”, passando pelas características do esporte sobre o qual fazem acusações descabidas de crueldade, até a fundamentação teórica em ecologia e ambientalismo para distinguir “preservação” de “conservação”. Muito mais fácil repetir clichês do que queimar pestana.

Frescurite porque acham malvadinho matar o coitadinho do bichinho com um tirinho. Decerto a carne que eles comem é produzida em laboratório, né? Nada de bicho degolado ou morto a pancadas de martelete pneumático. Nããããão, é tudo muito certinho no mundinho limpinho e purinho desse tipinho de ecologistazinho.

E wishful thinking porque não se protege animal algum nem ecossistema algum através da proibição da caça desportiva, como eles gostariam que fosse. Como eu demonstrei, na verdade o resultado que se obtém é justamente o oposto.

Então, pelo bem da proteção do meio ambiente e pelo desenvolvimento da educação ambiental, que se permita novamente a caça desportiva no Brasil!

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 06/09/2011

40 thoughts on “Sou biólogo, ecologista, carnívoro e a favor da caça desportiva

  1. Boa tarde,

    Caro Arthur, respeito as suas opiniões e acho que toda tentativa de instar um debate é louvável.
    Gostaria apenas humildemente de salientar algumas ressalvas. Quando você diz que ser ecologista não é a mesma coisa do que ser protetor dos animais, vejo um problema nesta afirmação. Existem muitos conceitos do que é ser ecologista. Um ecologista adepto da vertente da ecologia profunda, por exemplo, não concordaria com essa afirmação. Para eles não é possível distinguir as duas coisas, porque o que os move é o respeito a toda e qualquer forma de vida. Não é possível dizer que o seu conceito de ecologia está errado. Respeito a sua forma de ver a ecologia, e a admiro, como admiro todo aquele que se afirma defensor da causa ambiental, mas apenas gostaria de dizer que existem outras formas de enquadrar a questão e que a palavra ecologista não tem um significado em si, independente do uso que as pessoas dão a ela (e as pessoas dão, muitas vezes, o significado da defesa incondicional da vida, como faz o Norueguês Arnee Naess.) Aliás, essa é uma postura ideológica que lentamente, porém com constância, vem ganhando mais força junto a sociedade na minha visão.
    Em segundo lugar, a questão da necessidade da produtividade das práticas ambientais é também algo complexo. Concordo que a sociedade tem necessidade produzir a sua própria sobrevivência, mas em diversas situações a sociedade vai ter que optar pela preservação ou pela geração de renda. Por exemplo, o Butão estabeleceu por lei que nada menos que 60% de suas terras permanecerão cobertas por floresta nativa. Isso poderá se chocar com uma perspectiva de modernização econômica, expansão das fronteiras agrícolas? Possivelmente. O Butão optou pela preservação ambiental em detrimento de um crescimento econômico vigoroso. Não estou aqui fazer apologia da política ambiental do governo butanês, mas estou apenas salientando que existem outras possibilidades e escolhas. O imperativo (e as leis econômicas) não nos são inevitáveis como são as leis da física. Ao contrário, as “leis” da economia são apenas construções teóricas que nos ajudam a resolver problemas práticos, mas estão sujeitas revisão e mudança. A ganhadora do prêmio nobel de economia de 2009, Elionor Olstrom, por exemplo, buscou demonstrar com o seu trabalho que a iniciativa individual voltada para o lucro (que parece ser a solução proposta pelo seu texto para a preservação ambiental), é, via de regra, muito menos eficiente para a coletividade como o todo, do que arranjos instituicionais adequados geridos por uma governança coletiva. Gostaria, aliás, de recomendar a leitura da revista da sociedade brasileira de economia ecológica, número 21 que trata do trabalho eminente economista norte-americana. Você pode baixá-la no link abaixo:
    http://www.ecoeco.org.br/backup/conteudo/publicacoes/boletim_ecoeco/Boletim_Ecoeco_n021.pdf

    Abraços cordiais!
    Azamor

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