Sete de setembro – o dia dos escravos comemorarem a independência do feitor

O seu carro não é seu, é do Estado. A sua casa não é sua, é do Estado. A sua vida não é sua, é do Estado. O que você comemora no sete de setembro, escravo do Estado?

O seu carro não é seu, é do Estado

Ontem eu estava dirigindo de volta para casa quando avistei uma quadrilha fortemente armada fazendo uma barreira no meio da avenida, seus integrantes ávidos por me privarem de minha propriedade. Eles forçavam os cidadãos a parar seus automóveis, exigiam a apresentação de documentos e, caso alguma coisa não estivesse como eles exigiam – ou seja, impostos pagos – confiscavam de arma em punho a propriedade dos cidadãos .

Mas peraí… de quem é afinal a porcaria do carro? Do cidadão ou do Estado? Se você parar bem para pensar, seu carro não é seu, é do Estado. Sim, porque se fosse seu, você poderia ser parado em uma barreira de fiscalização e, caso não estivesse com os impostos daquele ano em dia, receberia uma multa e poderia prosseguir viagem. Mas não é isso que acontece.

O IPVA não é um imposto sobre propriedade: é um aluguel que você paga para o verdadeiro dono do que você acha que é seu “só” porque pagou por ele. Você pode estar no meio de uma viagem de férias com sua família, ou a trabalho em outra cidade, ou enfrentando uma dificuldade financeira temporária, nada disso importa: se você não alimentar o monstro em dia, o monstro devorará você e sua propriedade na hora em que bem entender.

De longe eu vi gente discutindo com os quadrilheiros do Estado, apontando para o relógio (quase meia-noite de véspera de feriado), abrindo os braços como quem diz “mas o que é isso?”, erguendo o dedo na cara de alguém e recebendo de volta uma ameaça de voz de prisão. Estas pessoas estavam sendo despojadas de seus bens e deixadas a pé longe de casa no meio da noite, pela força das armas, porque estavam com um imposto atrasado.

A sua casa não é sua, é do Estado

Se você resolver construir a sua própria casa, segundo seu gosto e seu planejamento pessoal, ou se resolver ampliar a casa e construir mais uma peça, seja um quarto porque teve mais um filho ou um viveiro de sucuris porque acha o bichinho simpático, não importa: você não pode fazer isso sem a autorização do verdadeiro dono da casa, o Estado.

O verdadeiro dono da casa que você pensa que é sua exigirá de você a contratação de profissionais de que você não precisa, para assinar os projetos que você já fez, e imporá trãmites demorados e inúteis, para os quais cobrará taxas desnecessárias, caso contrário não aprovará as reformas que você quer fazer, com o seu dinheiro, na casa que você mora.

Se você não se submeter às exigências do verdadeiro dono de sua casa, adivinhe: você será multado e não conseugirá vender sua casa enquanto não pagar as multas.

E, se não pagar o aluguel anual chamado IPTU, o verdadeiro dono da casa pela qual você pagou e que você acha que é sua simplesmente a tomará de volta. À força, é claro.

A sua vida não é sua, é do Estado

Tente comprar com o seu dinheiro, para consumir com seu próprio corpo, dentro da sua própria casa, uma substãncia que o Estado se acha no direito de dizer que você não pode consumir. Ou tente plantar em um vaso na janela da área de serviço uma plantinha que o Estado se acha no direito de dizer que você não pode ter em casa. Você pode ser preso e ter sua casa confiscada se tentar fazer isso na privacidade de seu lar, sem prejudicar ninguém.

Ou tente adquirir uma substãncia que o Estado permite que seja vendida exclusivamente sob a autorização de um profissional cujos serviços você não quer contratar. Veja se consegue fazer isso dentro da lei, sem se submeter a gastos desnecessários e enfrentar filas desnecessárias para que receber (ou não!) a autorização de um estranho para fazer o que você acha que deve fazer com a própria saúde.

Ou tente celebrar com alguém, de livre e espontânea vontade, um acordo que o Estado acha que você não tem o direito de celebrar – por exemplo, um acordo para que um terceiro tire sua vida de modo rápido e indolor caso você esteja sentindo dores insuportáveis e não tenha condições físicas para dar um tiro na própria cabeça. Aliás, tente dar um tiro na própria cabeça com uma arma legalmente adquirida para este fim declarado.

E você acha que a sua vida é sua? Não, não é. Se a vida fosse sua, você decidiria sobre qualquer coisa em sua vida que não causasse danos a terceiros. Se você não pode nem mesmo acabar com a própria vida porque o Estado não deixa, então você é propriedade do Estado. Você é um escravo.

Pensar Não Dói

O que você está comemorando o que neste sete de setembro?

A sua independência ou a independência de quem o escraviza?

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 07/09/2011

15 thoughts on “Sete de setembro – o dia dos escravos comemorarem a independência do feitor

  1. Eu estou comemorando que pessoas carentes tenham cada vez mais opcao e oportunidade do que antes.
    Eu estou comemorando a manutencao do ensino publico em todos os niveis no Brasil, apos forte resistencia para que ocorresse o contrario.
    Eu estou comemorando a instalacao de milhares de bolsas de estudos para brasileiros terem as melhores oportunidades de estudo fora do pais, se assim o desejarem.
    Eu estou comemorando os meritos nacionais e salto economico desde as pesquisas financiadas pelos pagadores de impostos do Brasil, revertidos para a empresa que explora energia no Brasil, uma estatal, e consequente descobrimento da camada pre-sal.
    Eu estou comemorando centenas de contratos de colaboracao tecnico e cientifica entre o Brasil e TODOS os paises do mundo, desequilibrando um monopolio que era indesejavel para o Brasil.
    Eu estou comemorando o aumento gradual mas consistente do salario minimo, que influencia pessoas de todas as camadas sociais, aquece o mercado interno, melhora a qualidade de vida de todos, assim garante autosuficiencia aos brasileiros em situacao de crise de proporcoes internacionais.
    Eu estou comemorando o respeito que hoje outros povos tem pelo Brasil e pelo povo brasileiro, ja’ que isto mudou significativamente desde os anos 70.
    Eu estou comemorando a liberdade de imprensa e o espaco destinado a debate de topicos de toda a natureza.
    Eu estou comemorando o sucesso de projetos de preservacao ambiental que apos decadas de funcionamento comecam a dar sinais de sucesso pratico.
    Eu estou comemorando a permanencia de um regime politico distante da ditadura militar.
    Eu estou comemorando uma mulher no cargo mais alto do poder no Brasil.
    Eu estou comemorando uma pessoa que fez parte ativa da resistencia ao regime militar chegando a presidencia da republica, e ver os militares prestarem continencia para ela.
    Eu estou comemorando que esta pessoa ‘e madura o suficiente para se colocar na posicao de presidente e governar o Brasil para os interesses do Brasil, e nao com revanchismo ou outros sentimentos menos produtivos para o cargo.
    Eu estou comemorando uma mulher “descasada” no cargo mais alto do poder do Brasil, pois a sua vida pessoal nada tem a ver com sua capacidade tecnica de governar o Brasil, bem como nao interferiu na sua escolha pela populacao.
    Eu estou comemorando que o Brasil nao elegeu o habitual politico de boa labia, de beleza estetica, mas a pessoa que entendeu ser capaz de Governar o Brasil.
    Eu estou comemorando o numero crescente de sobreviventes de cancer e de outras doencas terriveis, mesmo no Brasil.
    Eu estou comemorando 7 de setembro, a data da nossa patria, porque eu me orgulho muito de ser quem sou, de dizer que sou brasileira e das coisas maravilhosas que acontecem no pais.
    Sim Arthur, o pais nao ‘e perfeito. Nos todos sabemos. Mas fechar os olhos para o que tem de bom, criticar constantemente tudo que ‘e dito, silenciar quando o Governo considera algo que a gente tinha debatido aqui no Blog, para mim e’ muita falta de amor proprio.

    Eu sou uma brasileira muito feliz, e aceito o desafio de trabalhar para melhorar isso ainda mais.

    1. Paulinha, eu poderia rebater praticamente 80% do que escreveste, mas já que tua provocação foi longa vou pegar somente o essencial:

      1. O atual “crecsimento econômico” do Brasil não é sólido: http://arthur.bio.br/2010/08/12/economia/o-programa-bolsa-familia-e-a-farsa-dos-indicadores-economicos

      2. A educação brasileira é um lixo: http://arthur.bio.br/2010/04/13/educacao/meus-filhos-nao-irao-a-escola

      3. A lógica de remuneração do serviço público tende a piorar cada vez mais a educação: http://arthur.bio.br/2009/10/28/educacao/como-qualificar-o-ensino-publico

      4. A exploração do pré-sal é a pior coisa que poderíamos fazer: http://arthur.bio.br/2009/09/28/solucoes-radicais/as-consequencias-do-pre-sal

      5. O avanço na consciência ecológica é de fachada: http://arthur.bio.br/2009/11/27/meio-ambiente/ganancia-falta-de-cultura-cientifica-e-negligencia-causarao-a-extincao-da-humanidade

      6. A eleição da Dilma não significa nada disso que disseste: http://arthur.bio.br/2010/08/19/politica/por-que-nao-votarei-em-dilma-roussef

      7. O governo Lula (político de boa lábia) foi extremamente corrupto: http://arthur.bio.br/2010/09/03/politica/galeria-de-personalidades-notaveis-que-marcaram-o-governo-lula

      É, eu já tinha escrito algo sobre quase tudo que citaste. 🙂

      Ah, sim…

      “Eu estou comemorando o numero crescente de sobreviventes de cancer e de outras doencas terriveis, mesmo no Brasil.” (Paula)

      É, pode ser, mas poderia ser muito melhor se não fosse tanta corrupção e ineficiência administrativa.

      Então, Paulinha, apesar do teu contraponto otimista, eu não consigo me sentir nada entusiasmado. E um dos motivos pelos quais eu não consigo me sentir entusiasmado é justamente que mesmo as pessoas mais esclarecidas estão achando razoáveis “avanços” (que ou são pífios ou são aparentes) como os que tu citaste. Eu acho que temos que ir muito além disso.

      Do meu ponto de vista, tem gente demais sofrendo, gente demais morrendo, gente demais sendo enganada, gente demais se enganando, para que possamos “deixar a vida nos levar” do jeito que deixamos.

      Eu costumo apontar princípios em minhas críticas. Mas é raro que eu veja debates políticos baseados em princípios. Isso me preocupa imensamente, porque toda nossa política acaba sendo dirigida por conveniências de momento, não pelos princípios que deveriam guiá-la. Fico louco com isso.

  2. Parece piada de mau gosto comemorar a liberdade de imprensa enquanto tramam para acabar com ela. Só pra citar um ponto que o Arthur não citou acima.

    E noutro ponto, o pré-sal ainda é só propaganda. Felizmente.

    1. É… tem esse “detalhe”… hoje eu não preciso temer a censura antes de postar algo no blog… mas, se depender do PT, talvez daqui a um ano eu tenha…

  3. Olha Arthur, eu nao escrevi nada para te provocar. Eu respondi a uma pergunta que deixaste aberta, para os teus leitores.

    Acho otimo que tenhas escrito sobre tudo. Sinal de que tens tido tempo de sobra para trabalhar como escritor. Eu nao vou poder ler todos os teus artigos retrospectivamente, pois minha carga horario de trabalho nao me permite.

    Mas nos temos aproximadamente a mesma idade. Vivemos os anos 70 e aqueles foram terriveis. A corrupcao existia so’ que ninguem podia dizer nada. E claro que a repressao era a tonica.

    Vivemos a inflacao galopante de 35% ao mes nos anos 80, e aquilo foi certamente diferente do que vivemos hoje.

    Vivemos a loucura privatizante dos anos 90, e quase que nossa universidade vira privilegio para muito poucos.

    Eu tenho certeza absouluta que os anos 2000 sao melhores para o cidadao brasileiro do que os periodos citados acima. Nao posso dar relato pessoal sobre os anos antecedentes.

    Por favor, nao pense que eu estou cega aos problemas. Eu apenas escolhi FAZER e desta forma ME RESPONSABILIZAR pela coisa, em vez de ficar criticando descontente, e livre das cobrancas.

    Tu que tens acesso ao funcionalismo publico do estado, pergunte aos funcionarios que estao por se aposentar, e que tiveram o privilegio de interagir diretamente com a Sra. Rousseff. Pergunte a eles quem ‘e esta funcionaria publica convicta.

    1. Paulinha, querida, volta pro Brasil pra passar umas férias longas, que a cultura desse povo aí já começou a te influenciar demais… não estou reclamando da “provocação”, usei a palavra no mesmo sentido em que a gente diz que “a Justiça só age quando provocada“. Relaxa. Prometo que se a gente brigar eu te aviso. 😛

      Claro que eu não espero que tenhas tempo de ler tudo que eu escrevi… foram mais de 270 artigos em dois anos. É artigo bagarái. Muitos nem mesmo eu lembro, às vezes tenho que fazer uma busca dentro do blog pra saber se já escrevi a respeito!

      Mas foi ótimo o “gancho” sobre teu trabalho, porque eu gostaria de conversar contigo sobre um assunto da tua área. Pode ser pelo Facebook?

      Quanto às privatizações… olha, Paulinha, eu já fui mais estatizante e mais privatizante do que estou hoje. Na verdade, creio que nenhuma das soluções é boa. E também não acredito mais em um “caminho do meio” entre uma e outra, porque não acredito na suposta capacidade do consumidor regular o mercado. Creio que precisamos de um modelo completamente novo.

      Qual? Ainda não sei. Me dá duas horas que eu invento algo. 😛

      Concordo contigo quanto ao FAZER. Estou com um projeto grande amadurecendo na cabeça, na área educacional, pra daqui a alguns anos. Primeiro tenho que me reorganizar financeiramente, pois estou em época de profundas mudanças, mas em breve vou começar a colocar o projeto no papel e começar as análises de viabilidade. Se isso der certo, vai incomodar bastante.

      Mas quanto à Dilma, pouco importa quem ela é, Paulinha. Mesmo que eu acreditasse que ela é tudo que puderes me dizer de bom sobre ela, uma andorinha só não faz verão, ela é membro de um partido. E o partido dela, convenhamos… http://www.youtube.com/watch?v=5Y6HSHwhVlY

    2. Mas e a que partido tu achas que a Sra. Rousseff deveria se filiar, se o PT e’ imperfeito? Qual ‘e o partido perfeito?

  4. Acho que esta charge combina perfeitamente com esta discussão:

    http://charges.uol.com.br/2011/09/07/cotidiano-descontente-a-mae-gentil/

    Já dá pra ver a serpente dentro do ôvo.

    1. Alguns vêem. A maioria não vê. E muitos fingem que não vêem.

  5. Estado é uma coisa. A pátria é outra. To cansado de ver gente que não canta o hino nacional por estar se ”rebelando contra o estado.” Se você administração atual é ineficiente, tudo bem, concordo. Eu posso estar errado, mas não vejo nada errado em comemorar a independência do Brasil.

    1. Jorge, o que me incomoda é a alienação e a apatia política. Gente que acha lindo ir ver desfile e nem sabe em quem votouo nas últimas eleições, há menos de dois anos. Gente que acha tudo ruim, mas não faz nada para mudar. Gente que não se dá o trabalho de analisar nenhum princípio por trás da fachada seja lá de que assunto for.

    2. exatamente.

      Eu sou brasileira com muito orgulho, momentaneamente fora do pais. Visito ou brasil regularmente e estou em contato constante com familiares, amigos e midia.

      Nem o estado nem a patria tem culpa de as pessoas serem alienadas ou apaticas. Como eu disse antes, isso e’ uma questao de escolha.

      Ou Brasil deu uma guinada no setor internacional e’ esta’ decolando. Entre a bordon quem quiser. Agora, estes que escolherem contunuar apaticos, e nao entrarem nesse bonde, nao vao poder reclamar amanha. Tem gente que acha que a maracutaia habitual vai prevalecer; eu ja’ tenho minhas duvidas.

      A patria esta’ acordando do “adormecimento” e’ o atual Estado esta’ fomentando este processo. Nao e’ hora de esticar a soneca!!!

    3. Não compartilho deste otimismo, Paulinha. A minha visão é de que a política está cada vez mais corrupta e que a economia nem de longe está tão sólida quanto dizem.

    4. Mas me aponta o pais que seja solido com economia solida em setembro de 2011.

    5. Hmmm… Disneylândia? 😛

      É, o mundo vai mal.

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