Hoje quero apenas compartilhar um conto budista que traz um ensinamento muito útil para a vida de qualquer pessoa, de qualquer idade, em qualquer cultura, independentemente de religião.

“Um velho monge e um jovem monge estavam andando por uma estrada quando chegaram a um rio que corria veloz. O rio não era nem muito largo nem muito fundo, e os dois estavam prestes a atravessá-lo quando uma bela jovem, que esperava na margem, aproximou-se deles. A moça estava vestida com muita elegância, abanava o leque e piscava muito, sorrindo com seus olhos muito grandes.

– Oh – ela disse -, a correnteza é tão forte, a água é tão fria, e a seda do meu quimono vai se estragar se eu o molhar. Será que vocês podem me carregar até o outro lado do rio?

E ela se insinuou sedutora para o lado do monge mais jovem.

O jovem monge não gostou do comportamento daquela moça mimada e despudorada. Achou que ela merecia uma lição. Além do mais, monges não deveriam se envolver com mulheres. Então, ele a ignorou e atravessou o rio. Mas o monge mais velho deu de ombros, ergueu a moça e a carregou nas costas até o outro lado do rio. Depois os dois monges continuaram caminhando pela estrada.

Embora andassem em silêncio, o monge mais novo estava furioso. Achava que o companheiro tinha cometido um erro ao ceder aos caprichos daquela moça mimada. E, pior ainda, ao tocá-la tinha desobedecido às regras dos monges. O jovem reclamava e vociferava mentalmente, enquanto eles caminhavam subindo montanhas e atravessando campos. Finalmente, ele não agüentou. Aos gritos, começou a repreender o companheiro por ter atravessado o rio carregando a moça. Estava fora de si, com o rosto vermelho de tanta raiva.

– Ora, ora – disse o velho monge. – Você ainda está carregando aquela mulher? Eu já a pus no chão há uma hora.

E, dando de ombros, continuou a caminhar.”

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Retirado do livro Contos Budistas, de Sherab Chodzin

Fonte: blog de Paulo Pegorini

O artigo original de hoje não pode ser publicado porque foi escrito com o fígado e ia dar problema. Vou tratar de meditar sobre o ensinamento do conto e volto amanhã.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 15/09/2011

 

11 thoughts on “Não se deve sofrer por um problema resolvido

  1. A mensagem é bem bonita, mas eu não conseguiria responder calmamente, parecer cool e sair caminhando numa boa com meu colega aos berros e vermelho ;D

    1. É, muitos contos budistas são aparentemente “insensíveis” assim, especialmente os do zen. Mas quando lemos os contos com calma e no contexto dos ensinamentos budistas em geral fica fácil perceber a razão de ser assim.

      O monge mais jovem, ao invés de questionar o monge mais velho assim que teve a primeira oportunidade, ficou moendo e remoendo a raiva, alimentando-a, envenenando a própria mente desnecessariamente, quando bastava ter perguntado: “irmão, você não acha que violou a vinaya (disciplina monástica) ao tocar naquela mulher?”.

      Se ele tivesse agido assim, o outro teria tido a oportunidade de responder alguma coisa com tranqüilidade, seja reavaliando o pŕoprio comportamento, seja justificando-o, mas de qualquer modo com capacidade de refletir e tirar proveito da reflexão.

      Como ele agiu com destempero, o outro simplesmente não comprou o destempero e seguiu seu caminho. Ele poderia ter tentado dar alguma explicação? Bem, eu mesmo faço isso com freqüência, só para descobrir a cada vez que as pessoas não mudam de opinião por causa de uma explicação razoável.

  2. Rafael Holanda

    15/09/2011 — 21:36

    Legal estas lições/contos budistas. É uma doutrina que eu nunca tive muita oportunidade de conhecer.

    E pq vc não publica estes artigos escritos com o fígado? Fico extremamente curioso de ler estes artigos ricos em ferro 🙂

    1. Há dois links sobre budismo na coluna da esquerda aqui no blog. Quando eu coloquei os links ali, eles eram um bom começo para ler os conceitos básicos, os sutras e alguns conto, Agora faz tempo que eu não visito os links, mas depois vou dar uma olhada e uma pesquisada e verificar se eles continuam bons e se há outros igualmente bons para sugerir a leitura.

    2. Ah, sim: a razão pela qual eu evito postar textos escritos com o fígado é que eles tendem a gerar reações igualmente figadais – e isso acaba inviabilizando o diálogo racional. Seria como o monge mais velho ficar furioso com as acusações do mais jovem e devolver a agressão assim: “ah, é? E você, seu imbecil, que está carregando aquela mulher até agora!?”

      Pode até ser o mesmo conteúdo, mas a chance de ser recebido com razoabilidade e gerar bom entendimento é muito, muito, muito menor. E a chance de terminar em pancadaria verbal é grande. Portanto…

  3. MUITO BOM o final:”O artigo original de hoje não pode ser publicado porque foi escrito com o fígado e ia dar problema. Vou tratar de meditar sobre o ensinamento do conto e volto amanhã.” Um abraço!

    1. É, eu ando estressado. Não consegui escrever neste sábado, ainda pelo mesmo motivo. Tudo que eu escrevo sai manchado de bílis. Nem parece que eu fiz três anos e meio de meditação com uma sangha budista. Mas vou tentar voltar no domingo.

    2. A culpa é da carrrrrne!

    3. A culpa é do Urko. 😉

  4. Casamento

    Nasrudin estava proseando com um conhecido , que lhe indagou:
    – Mullah, responda-me, você nunca pensou em se casar?
    – Sim, claro que já. Quando eu era jovem, determinei-me a achar o meu par perfeito. Cruzei o deserto,
    cheguei em Damasco, e conheci uma mulher belíssima e espiritualmente muito evoluída; mas as coisas triviais, do dia a dia, a atrapalhavam.
    Mudei de rumo e lá estava eu, em Isfahan; ali pude conhecer uma mulher com dom para as coisas materiais, da vida caseira, e além disso se mostrou muito espiritualizada. Porém, carecia de beleza física. Pensei: o que fazer?
    E resolvi ir ao Cairo. Lá cheguei e logo fui apresentado a uma linda jovem, que também era religiosa, boa cozinheira e conhecedora dos afazeres do lar. Ali estava a minha mulher ideal.
    – Entretanto você não se casou com ela. Porquê?
    – Ah, meu prezado amigo,
    ela também estava buscando o homem ideal.

  5. O Cavaleiro Apressado

    Era uma vez um homem que estava dormindo. Enquanto dormia engoliu um animal venenoso que lhe ficou entalado na garganta.

    Levantou-se numa espécie de delírio e começou a tossir e a se sacudir, tentando livrar-se de um mal que absolutamente não compreendia.

    Um cavaleiro que passava por ali naquele momento viu, num relance, tudo o que havia acontecido. Imediatamente ergueu o chicote e começou a açoitar o homem, golpeando-o sem piedade, até que ficou negro e azulado.

    0 homem, meio enlouquecido, tentou gritar-lhe que parasse, mas não conseguia fazer com que as palavras saíssem. Enquanto corria, ou se espojava no chão, ou se revirava, sempre recebia uma chuva de golpes implacáveis.

    0 cavaleiro não dizia uma palavra.

    Finalmente, como resultado de uma terrível náusea, o animal venenoso foi vomitado pelo ressentido estômago do homem aflito. 0 animal caiu ao chão e estrebuchou. 0 cavaleiro, sem uma palavra, esporeou o cavalo e partiu.

    Somente então o homem percebeu que aquilo que lhe parecera um assalto injustificado, havia sido, na verdade, a única forma de se livrar do animal antes que o veneno fosse injetado em seu sangue.

    Este tipo de coisa não acontece todos os dias, nem a todas as pessoas, nem todo o tempo. Mas, às vezes, há na vida de todas as pessoas ocasiões em que se pode estar recebendo ajuda embora se acredite que se esteja recebendo um malefício, e vice-versa. No ensinamento superior, o mestre não se exime de um dever tão penoso como o do cavaleiro em nossa parábola; como tampouco se pode esperar que ele seja invariavelmente duro.
    Extraído de ‘O Sufismo no Ocidente’
    Edições Dervish 1988

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