Relendo antigas postagens na comunidade Budismo eu encontrei uma menção a este meu antigo apelido na comunidade. Isso porque eu sempre argumentei que tudo pode ser usado com sabedoria, em benefício de todos seres – inclusive a violência. E eu mantenho a afirmação de que eventualmente a compaixão amorosa exige porrada.

Como vocês sabem muito bem, basta falar em violência para o pessoal dos Direitos Humanos, os pacifistas, os ecologistas fru-fru e os religiosos terem tremeliques e começarem a recitar seu mantra alienante de que “violência só gera violência”. Mas isso não é verdade. A violência pode e deve ser usada com sabedoria e levar ao benefício e à paz.

Vamos analisar esta afirmação por dois ângulos: religioso e político.

O pavão vajra

O pavão vajra é um ensinamento do budismo vajrayana (o budismo tibetano, aquele do Dalai Lama). Trata-se de pavão que se alimenta de cobras venenosas, a cujos venenos é imune, e transforma seus venenos em belos pigmentos para a sua colorida plumagem.

O significado desta metáfora é claro: ao invés de permitirmos que os venenos da mente nos intoxiquem (ou seja, que a ignorância, o apego, a aversão, o orgulho, a inveja, a indiferença, etc. perturbem nossa clareza de visão, atrapalhem nossa ponderação e conduzam nossas decisões e ações no mundo), devemos identificar cada emoção (positiva ou negativa), questionar se ela está nos levando às ações que consideramos corretas e então utilizá-las como motivadores para “produzir benefício a todos os seres”. (Lembre-se, este é um ensinamento budista.)

Por exemplo, alguém pode nos dizer algo ofensivo e nos deixar com muita raiva. Ao invés de nos permitirmos intoxicar por essa emoção, podemos utilizar essa percepção como motivador para praticarmos mais meditação, a fim de acalmar a mente, evitar cometer atos não-virtuosos devido às reações automáticas a que a raiva nos conduz e assim transformar a raiva em um estímulo para nosso próprio aperfeiçoamento. Este é o pavão vajra em ação, transformando venenos em belas cores para sua plumagem.

Direitos Humanos na porrada

Quando recentemente o Timor Leste enfrentou uma terrível onda de violência, em que estavam sendo assassinadas milhares de pessoas por dia, a solução daquele conflito não podia ser negociada com belas palavras, cartas de intenções, acordos de boa vontade ou quaisquer outras alternativas não-violentas. O custo em vidas humanas da simples titubeação de outros países em enviar tropas para conter o conflito à força foi imenso.

A matança no Timor Leste só parou quando as tropas da Malásia, da Austrálila, da Nova Zelândia, de Portugal e do Brasil invadiram o país, dominaram o território, impuseram um toque de recolher e reprimiram a onda de assassinatos na porrada. A operação militar internacional em Timor Leste prova que a violência pode ser usada de modo sábio para proteger as pessoas e garantir o tempo e o espaço necessário para tomar outras medidas que tragam benefícios mais permanentes.

Tá, ‘bora distribuir “porrada amorosa”, então…

Não, né? Se tem uma coisa que eu acho ridícula é algum aloprado mal intencionado lançar a falácia de que eu estaria defendendo a universalização irrestrita da violência só porque eu aleguei que a violência é um recurso que pode ser usado de modo sábio e compassivo.

Quais os critérios para o uso sábio e compassivo da violência?

São dois:

O primeiro é que a intenção do agente violento não seja aplicar a violência em si, mas trazer proteção ou benefício.

O segundo é que a escolha da violência como meio hábil seja precedida de uma análise ponderada e neutra entre os diversos recursos disponíveis para produzir a proteção ou o benefício pretendido.

Ou seja: a violência é apenas mais um recurso, que pode ou não ser usado para produzir benefício, desde que seja usado com pureza de propósitos e sabedoria.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 21/09/2011

16 thoughts on “O Charles Bronson da Compaixão Amorosa

  1. Isso é ou deveria ser o óbvio. Inclusive sempre houve grandes lutadores budistas, é só lembrar do Templo Shaolin. O Zen está ligado a várias práticas marciais. A violência às vezes é necessária. Mas claro que para alguem em harmonia é sempre o ultimo recurso. Aqui no Ocidente muitas pessoas tem uma visão idílica do pensamento oriental.

    Mas não consigo deixar de ter a impressão que no 2° trecho, O Pavão Vrajra, você está escrevendo pro seu afamado fígado…

    1. Pobre do meu fígado, precisa aprender essa lição urgente…

  2. Manga-Larga

    21/09/2011 — 07:25

    “Todo mundo vai se dar bem nessa porra, nem que seja debaixo de cacete!”

    1. É, tipo isso! 😀

  3. Não tenho opinião sobre intervencionismo e quais seriam os limites do uso de violência pelo estado e outras instituições. Entretanto, gostei da sua argumentação, clara e lúcida como sempre.

    A metáfora do pavão é uma daquelas coisas que parecem muito óbvias mas contem grande sabedoria.

    Arthur, você já escreveu sobre o conflito entre palestinos e israelenses? Se sim, desculpa te usar como “Google”, mas poderia me mostrar onde está o texto? Se não, eu adoraria saber, nem que seja em poucas linhas, para você, qual seria a solução para o problema, quem está “errado”, etc.

    Eu não falaria nada, mas não pude deixar de pensar que você, logo depois de ter dito que usaríamos as emoções negativas como motivadores para agir em benefício de todos os seres, talvez sem ter essa intenção, me desarmou ao dizer:
    “Lembre-se, este é um ensinamento budista.”

    hahahahhahahah (:

    1. O interessante é que eu coloquei esse argumento de autoridade no texto para me precaver dos budistas que costumam chegar questionando: “ah, é? Então me mostra quando e onde o Dalai Lama sugeriu dar porrada como meio hábil!” Entre localizar um exemplo do atual Dalai Lama dizendo isso e citar o ensinamento do Vajrayana em si, achei melhor ir logo à fonte para evitar discussões estéreis.

      O fato, entretanto, é que, independentemente de ser um ensinamento budista, converter as emoções em motivação para produzir benefício é uma ótima idéia. E isso pode ser provado por reductio ad absurdum: que outra alternativa seria melhor que “produzir benefício para todos os seres”?

      Quanto ao conflito árabe-israelense… boa dica para a postagem de hoje. 🙂

  4. Sou bem categórico a respeito. Se a violência causa violência, então devemos evitá-la AO MÁXIMO. Mas se ela for necessária, se, e somente se, não houver nenhuma outra alternativa senão ser bruto, incisivo e claro, não vejo porque proibi-la.

    Apenas, melhor deixar como último recurso, quando todas as demais tentativas (diplomacia, educação, ativismo etc.) falharem.

    1. Anders Behring Breivik chegou numa convenção da juventude do partido trabalhista norueguês berrando “vou matar todos vocês!!!” e de fato matou 65 pessoas.

      Um único balaço na cara do desgraçado, sem nenhuma tentativa prévia de diálogo ou negociação (porque, convenhamos, seria estupidez) teria salvo quantas vidas e poupado quantas famílias da dor da perda das pessoas que amavam?

      Por essas e outras é que eu abomino “escolhas que eliminam escolhas” como a pseudo-solução desarmamentista, que, com o perdão da piadinha infame, não passa de um tiro no próprio pé. O que tem que ser feito é aumentar a sabedoria para que se possa escolher melhor as opções, não reduzir as opções para adaptá-las a um nível baixo de sabedoria.

  5. Athur,

    acho que você está confundindo a urgência de um momento com o último recurso usado realmente como último recurso. Se alguém chega com uma arma, me manda ajoelhar que, ali, vai me matar, vou partir para a violência, pois o próprio agressor me poupou o trabalho de eliminar todas as demais alternativas.

    1. Ué, mas o caso em que “o próprio agressor me poupou o trabalho de eliminar todas as demais alternativas” não é um ótimo exemplo de caso em que “eventualmente a compaixão amorosa exige porrada”?

      Fosse tu mesmo a reagir, fosse alguém próximo que estivesse armado ou disposto a partir pra pedrada, paulada, soco e pontapé, inúmeras vidas não teriam sido salvas? (Lógico que alguém ainda poderia ser atingido no processo, mas não 65 pessoas!)

      Claro que este é só um caso particular, mas creio que há outros em que o raciocínio é válido.

      Uma vez, há muito tempo, vi um bêbado com uma faca na mão entrar em um baile de carnaval gritando por uma mulher que ele pretendia matar porque o estaria traindo (depois viemos a descobrir que a tal mulher era a esposa dele, que havia morrido um ano antes em um acidente de automóvel com o amante, ou seja, o cara bebum estava delirando mesmo). Um karateca esperou o bêbado passar perto e sem falar nadica de nada *pá* deu um único golpe com a palma da mão no meio da testa do bêbado, que caiu 100% nocauteado.

      Considerações:

      1. Dava pra tentar conversar antes? Bem, eu estava lá e acho que não adiantaria, tamanha a alteração etílica do sujeito.

      2. Dava pra tentar segurar o bêbado sem porrada? Até dava, mas havia risco de ele se ferir ou ferir alguém.

      3. A intenção foi ferir o bêbado? Não, o karateca imediatamente juntou o cara, levou-o até a DP que ficava do outro lado da rua, em frente ao clube, e pediu que o levassem até o posto médico, o que foi feito imediatamente.

      Creio que a ação foi realizada com pureza de propósitos e de modo muito habilidoso. O exemplo não se encaixa em nosso tema?

      .
      .
      .

      Outros exemplos: acabar com o genocídio no Sudão, a pirataria na Somália, as mutilações de crianças na África inteira, etc. E também sou a favor de dar um pau nos “defensores” de Direitos Humanos que preferem proteger “culturas” ao invés de defender pessoas. 🙂

  6. “Compaixão amorosa?”

    E existe compaixão odiosa?

    kkkkkkkkkkk

    1. A expressão é tradicional.

  7. Tradicionalmente errada.

    hehe…

    1. Não vejo o motivo. Quando muito é redundante.

  8. Um experimento interessante sobre a compaixão e meditação:
    http://www.nytimes.com/2013/07/07/opinion/sunday/the-morality-of-meditation.html?_r=2&

    Também serve pra aclarar as escolhas.

    1. Três anos e meio de meditação com a sangha do Lama Samten não mudaram minha visão de mundo nem meu modo de agir com as pessoas. Ou eu nunca aprendi a meditar, ou eu já estava em boa forma antes de começar, porque eu sou um dos que cederiam o lugar para a pessoa que entrou naquela sala independentemente de ter feito cursinho de meditação antes.

      Mas eu acredito que em termos de média populacional a meditação ajude. No estudo em questão, a diferença foi de 16% para 50%. É um ótimo aumento.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *