Golpistas fazem tentativas de 171 fantásticas. O nível de cara-de-pau necessário para aplicar o golpe com o qual tentaram me enrolar esta semana é impressionante – mas poderia ter dado certo se eu fosse um pouquinho só mais crédulo, ou menos experiente, ou se eu não confiasse em minha própria intuição. Que este artigo sirva de alerta para ninguém cair em uma roubada semelhante.

Eram quase dezoito horas, final de expediente, todo mundo com pressa de ir embora. Eu estava terminando de guardar o notebook na mochila pra cair fora quando entrou na biblioteca um sujeito bem vestido, com ares de autoridade, apresentou-se como “Fernando, assessor do Direitor Administrativo” e perguntou se eu tinha o Diário Oficial do Estado do dia 13/09/2011. Por coincidência outra pessoa havia perguntado pelo mesmo DOE, então eu já sabia que não tinha o exemplar requerido. Aí ele perguntou se eu tinha o do dia 14/09/2011.

Assim que o sujeito perguntou por um segundo número do DOE, uma luzinha vermelha acendeu no meu cérebro, tímida mas perceptivelmente. Quase sempre as pessoas procuram o DOE em função da publicação de algo muito específico e cuja data de publicação já é conhecida. É raro alguém procurar alguma coisa num DOE antigo sem saber a data exata de publicação. Mas eu tinha o exemplar do dia 14/09/2011 e eu ainda não tinha motivo algum para uma desconfiança.

Alcancei o DOE para o sujeito, que ficou folheando o jornal vagarosamente, como se estivesse procurando alguma coisa muito importante. A luzinha vermelha no meu cérebro começou a piscar intermitentemente, porque o cara não estava procurando algo em uma seção específica e sim ao longo de todo o jornal. Não é assim que se procura algo no DOE.

Passados 10 minutos das 18h, ele olhou acintosamente o relógio de pulso, virou para mim e disse meio como quem não quer nada, com um tom condescendente: “olha, se tu quiseres podes ir, depois a gente fecha a seção, não tem problema”. Virou mais uma página do jornal e seguiu a leitura. A essas alturas a luzinha vermelha piscante passou a ser acompanhada de uma sirene de alerta.

– Como é que é? – perguntei.

– É, se quiseres pode ir, não tem problema – repetiu ele – depois a gente fecha a biblioteca com a chave extra que fica na Direção.

– Negativo! – disse eu com firmeza. A biblioteca está sob minha responsabilidade, eu não te conheço e não vou te deixar aqui dentro sem que tu sejas apresentado por alguém que eu conheça e sem um memorando informando teu nome e o propósito da tua permanência na seção fora do horário de expediente usual.

O cara se levantou abruptamente, aparentando indignação.

– Mas que que é isso? Olha aqui, cara – disse ele – tu me respeita! Se eu estou te dizendo que o Diretor Administrativo me pediu para procurar uma publicação, é isso que eu vou fazer. Pode ir verificar com ele se quiser.

-E desde quando os postes mijam nos cachorros? – perguntei. Tu chegas aqui sem seres apresentado por ninguém, sem nenhum memorando para permanecer além do horário e queres que eu vá confirmar as tuas alegações? Eu não vou deixar a biblioteca aberta sem a minha presença nem mesmo por um segundo. E eu estou saindo, pode cair fora.

– Mas que abuso! – disse ele. Eu vou chamar a segurança!

– É um favor que me fazes. – respondi sorrindo ironicamente.

O sujeito então jogou o Diário Oficial em cima da mesa e saiu da sala a passos largos. Não se dirigiu ao prédio administrativo. Foi rápido em direção à saída da instituição, tanto que fiquei bem para trás só pelo tempo necessário para trancar a porta da bibliioteca e a grade de ferro. Só tive tempo de vê-lo passar acelerado pelos vigias do prédio, sem falar com eles.

Agora vem a parte interessante: descobri que não há nenhum Fernando assessor do Diretor Administrativo, nem que trabalhe no prédio da administração. Só há dois Fernandos na instituição e eu conheço os dois. O tal indivíduo era mesmo um safado querendo roubar alguma coisa.

Cara-de-pau é poder

Isso deveria ser óbvio, mas é algo que a gente freqüentemente esquece: o malandro que consegue nos enganar não é aquele que a gente fareja à distância, é aquele de quem a gente menos desconfia. Quanto maior a cara-de-pau dos golpistas, maior a chance de eles obterem sucesso.

O sujeito que tentou me enrolar agiu com frieza premeditada, blefou sem ter carta alguma na mão e só não conseguiu alguma coisa – mesmo que fosse um pequeno furto – porque lidou com um macaco velho que não põe a mão em cumbuca.

Fosse eu um novato, alguém crédulo ou impressionável com alegações de autoridade, eu poderia tê-lo deixado alguns instantes sozinho na biblioteca para ir confirmar as informações – e poderia descobrir ao retornar que um dos computadores da biblioteca ou algum outro material tinha “evaporado”.

Observe, entretanto, que a execução da pantomima foi quase perfeita: o sujeito planejou o ataque, esperou o momento certo ao final do expediente, contou com meu provável cansaço e minha provável vontade de ir embora logo, apresentou-se como superior hierárquico e agiu como tal, cozinhou minha paciência uns dez minutos além do horário, sugeriu com toda a naturalidade do mundo que eu podia ir embora sem problemas, fingiu indignação quando foi tratado de modo inadequado a sua pretensa posição de autoridade e blefou até o último instante sem esmorecer.

Esse cara vai roubar muita gente antes de ser pego, se é que o será, porque ele também sabe identificar muito bem até que ponto forçar e a partir de que momento deve desistir, escafeder-se e partir pra próxima.

Intuição também é poder

Excetuando-se os verdadeiros psicopatas, contra os quais somos muito vulneráveis porque eles não dão a mínima pista de preocupação, tensão, conflito ou dúvida, mesmo os mais experientes canalhas e estelionatários apresentam pequenas incongruências em seu comportamento que podem ser detectadas por nossos sentidos.

Pode ser um ínfimo tique nervoso, um olhar receoso ou confiante demais, um tom de voz que trai uma incerteza, uma postura corporal ou um padrão de gesticulação pouco habitual, enfim, alguma mostra de conflito interno, ou de receio de ser descoberto, ou de impaciência para concluir o golpe, enfim, sempre há algum indício de que há gato na tuba.

O grande problema é que, quanto mais cara-de-pau e quanto mais experiente é o golpista, menos perceptíveis são estes sinais, ao ponto de muitas vezes não conseguirmos identificá-los conscientemente. Mas o nosso subconsciente percebe coisas que nosso consciente não percebe, e comunica essa percepção de um modo não-verbal que nos faz “ter a impressão” de saber algo que não conseguimos colocar rapidamente em palavras.

Esse tipo de processamento “subterrâneo” de informação chama-se intuição. Ter uma intuição, portanto, não é nada místico ou paranormal, significa apenas que o subconsciente já está ciente de alguma informação que o consciente ainda ignora.

O grande problema é aprender a lidar com esse tipo de informação.

Como usar a intuição

A primeira coisa que você deve fazer para aproveitar melhor a sua capacidade natural de processamento subconsciente de informações – a intuição – é aceitar que ela existe, que é um fenômeno absolutamente natural, que faz parte da sua cabeça e que portanto reflete as tendências da sua psiquê.

Se você é uma pessoa de boas intenções, com boa auto-estima e com um relacionamento sincero com o mundo, então sua intuição é sua melhor amiga.

Se você cultiva más intenções ou se tem um relacionamento hipócrita com o mundo, então sua intuição pode aprontar surpresas que eu não posso antever, mas como eu quero mais é que gente assim se dane mesmo, então não preciso me preocupar com isso neste artigo.

A segunda coisa que você deve fazer para aproveitar melhor sua intuição é aprender a confiar nela. Se a luzinha vermelha acender, não a ignore.

Por definição você não tem como saber, no estágio em que tem uma intuição, qual é exatamente a informação que fez acender a luz vermelha. Se isso fosse possível, o fenômeno não seria intuição, seria insight. Portanto, a coisa mais adequada a fazer perante a intuição de que há algo errado é assumir uma postura cautelosa, atenta e racional.

Minimize riscos. Ganhe tempo. Procure avaliar a situação segundo criterios objetivos. Faça uma análise do tipo “pior cenário possível”. Se não houver tempo hábil para formar uma convicção profunda antes de tomar uma decisão, decida pela alternativa mais conservadora e segura possível.

A terceira coisa a fazer para tirar o melhor proveito possível da sua intuição é não permitir que terceiros pressionem você a agir do modo contrário ao que a sua intuição sugere.

Golpistas são mestres na arte de induzir as pessoas a agirem contra suas intuições. Eles percebem nossa insegurança e desconforto e sabem que já intuímos que eles representam risco, então usam toda sorte de estratégias emocionais para bloquear nossa lucidez e impedir que nos coloquemos no controle da situação.

A estratégia mais óbvia do golpista é a pressa: a decisão precisa ser tomada agora, ou a promoção acaba, a proposta perde a validade, o desconto deixa de valer, a vaga será preenchida, etc. Ligue agora e receba inteiramente grátis um espelhinho e um colar de contas escrito “eu sou otário”. Se você não quer ir pra cama comigo é porque não gosta de mim. É o último ingresso, o jogo já está começando. Confie em mim. Mas tem que ser agora, ou o brinde acaba, ou o amor acaba, ou a graça acaba.

Já a estratégia mais eficaz do golpista é o constrangimento: a decisão precisa ser aquela porque o seu caráter ficaria diminuído se a decisão fosse outra. Você pareceria uma pessoa desconfiada se não aceitasse uma declaração de amor tão pura, você pareceria um otário se não aproveitasse um negócio tão bom, você estaria ofendendo o golpista se não acreditasse no que ele está dizendo.

Lembre-se: o constrangimento é uma arma poderosa que costuma ser muito bem explorada por pilantras. Não caia nessa armadilha. Ninguém pode legitimamente exigir que você se exponha a qualquer risco. Sem tranqüilidade, sem acordo.

Os limites da intuição

Entenda bem isso aqui: eu disse para confiar na intuição, mas não disse para confiar cegamente na intuição. A intuição pode ser muito útil, mas não é infalível.

É possível que a promoção seja realmente boa, mesmo com prazo determinado. É possível que aquele seja mesmo o último ingresso, algum ingresso tem que ser o último. É possível que a pessoa que se ofereceu para cuidar de sua mala só esteja sendo gentil e prestativa. É possível que você esteja prejulgando alguém ou alguma situação inadequadamente em função de uma má experiência no passado. É por isso que eu disse para “não ignorar” a luzinha vermelha e não para “obedecer sempre” a luzinha vermelha.

Eu gostaria de poder oferecer uma fórmula perfeita para evitar encrencas e não cair em golpes, mas isso non ecziste. E, se alguém oferecer tal fórmula, pule fora que é golpe. Confie em mim. Mas tem que ser agora, não pense muito nisso…

Conclusão

Lembre-se dos princípios básicos de como lidar com a intuição:

1. Reconheça sua intuição como um fenômeno natural;

2. Aprenda a confiar nela, não ignore a luzinha vermelha;

3. Não se deixe pressionar, mantenha-se no controle;

4. Lembre-se que a intuição não é mágica e tem limites.

Você precisa se manter atento e desenvolver sua sabedoria.

E não aceite balinhas de estranhos.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 24/09/2011

6 thoughts on “Como usar a intuição para evitar encrencas e não cair em golpes

  1. acho que tiveste sorte de o cara nao querer demais algo da biblioteca.

    1. Talvez.

      Ou talvez ele tenha tido sorte…

  2. Muito oportuno o artigo. Acrescento apenas que saber identificar encrencas é uma habilidade que vai se aprendendo ao longo dos anos, conforme se ganha experiência. Se você já caiu em um golpe uma vez, dificilmente isso acontecerá de novo.

    E o conselho da balinha é muito válido. Não é atoa que o sigo desde a infância. 😛

    1. Ah, sim, a experiência ajuda muito. Mas a gente tem que estar alerta e lembrar de nossas prioridades. Já vi muita gente se ferrar por não querer parecer desconfiada. Grande erro.

      Balinha de estranhos, nem de caixa de supermercado. 😛

  3. Já vi uma lista num site descrevendo os principais tipos de embustes,171, contos do vigário (na verdade há vários sites com esse tipo de informação, eu achei pelo google) e o incrível é que todos eles empregam a estratégia da “decisão rápida” e/ou constrangimento de parecer desconfiado, dado o caráter descarado do golpe, algumas vezes outros que estejam perto e que sejam mais crédulos podem acentuar esse constrangimento, favorecendo o meliante .
    Eles passam a idéia de “não vai perder essa, não seja bobo, é uma grande oportunidade”, aí por mais cautelosa que seja a “vítima”, não liga para a intuição, e sim para a pressão no momento e isso explica porque pessoas inteligentes podem cair em golpes que requerem muita ingenuidade.

    1. Mas quem se mantém em “boa forma ética” praticando a ética no dia-a-dia não tem a menor dificuldade de evitar o golpe, não porque lhe seja mais fácil identificar a safadeza, mas porque ele não é vulnerável a tentações morais. No caso do golpe do bilhete premiado, por exemplo, a pessoa em boa forma ética não vai querer comprar o bilhete, porque isso significaria lesar um inocente ingênuo. Pelo contrário, ela se ofereceria para ajudar no processo de garantir que o prêmio seja recebido realmente pela pessoa que está ali a lhe pedir ajuda, criando assim uma situação embaraçosa para o meliante!

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