Eu não entendo os humanos.

Um dia desses parei o carro para conversar com um pedinte de sinaleira. Não parei no meio da rua, é claro. Manobrei o carro e estacionei corretamente em local permitido e na sombra. Minha intenção era mesmo conversar com o pedinte, pois achei o sujeito interessante.

Desacostumado com esse tipo de atenção, o cara se entusiasmou e começou a contar alegremente que tinha se recuperado do uso de crack porque encontrou Jesus. Ouvi com atenção, fiz uma pergunta ou outra para saber se ele estava mesmo no caminho da recuperação ou se estava apenas trocando uma droga por outra e tive a impressão que ele era bem mais lúcido que a média dos novos convertidos.

Papo vai, papo vem, dali a pouco chegou um policial… observou a cena… e veio me perguntar se o cara estava me incomodando. Eu disse que não, que estávamos apenas conversando. O policial então fez a maior cara de quem foi cheirar uma flor e cheirou um gambá, mudou de tom de voz e resolveu xeretar.

Pediu os documentos do carro. Pediu meus documentos. Pediu para eu descer do carro e me revistou com cuidado. Pediu para que eu esperasse na calçada enquanto ele revistava o interior do veículo. Pediu para para eu abrir o porta-malas. Pediu que eu voltasse para a calçada enquanto ele revistava o porta-malas. Tudo com muita educação e profissionalismo. Neste aspecto conduta dele foi exemplar, nada tenho a reclamar. O que me intriga até agora são as motivações dele e o comportamento irracional e abusivo que ele exibiu depois.

Terminada a revista, o policial me devolveu meus documentos, me comunicou que eu podia circular e fez um gesto com a mão como quem diz “por favor, saia daqui”. Ora, eu sei que eu posso circular e entendi que ele estava me dispensando de sua atenção, mas eu não queria circular. Eu queria ouvir o resto da história do pedinte. Então eu agradeci a atenção do policial (a sério, quem me conhece sabe) e disse que pretendia continuar estacionado onde estava, porque “ainda não tinha terminado a conversa com o camarada ali”.

E aí o policial saiu do transe e resolveu mostrar que era um Homo sapiens.

Primeiro ele mudou de cor, de branco para vermelho, coisa que eu pensava que só os camaleões e os polvos faziam. Depois ele começou a rugir, coisa que eu pensava que só os grandes felinos faziam. Então ele começou a bater os pés no chão e escavar o solo, coisa que eu pensava que só os animais de casco fendido faziam. Mas, de acordo com o que me contaram depois, parece que esse conjunto de carcaterísticas é típico do Homo sapiens em estado de estupefação misturada com ira contida. Muito estranho.

Em seguida ele proferiu um discurso confuso no qual entrou diversas vezes em contradição, confundindo o direito de ir e vir com a obrigação de ir e vir. Expôs desnecessariamente sua incompreensão quanto a minhas motivações, o que afinal de contas é natural, pois que eu não as havia explicitado, uma vez que não eram mesmo da conta dele. E ficou furioso e ameaçou violar meia dúzia de leis se eu insistisse em cometer o ato que ele considerava absurdo e injustificável: conversar com o pedinte.

Eu ainda tentei explicar, com toda a boa vontade, que meu interlocutor estava narrando uma interessante história de superação de dificuldades pessoais e que seu exemplo era meritório e inspirador, mas tive que parar devido ao risco de provocar um AVC no pobre policial, ou de ter que explicar tudo novamente a um delegado, convite este que me foi feito de modo não muito respeitoso e que preferi declinar porque tinha outro compromisso para aquele horário…

Esses (romanos) humanos são mesmo uns neuróticos.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 29/09/2011

21 thoughts on “Eu devo ser um ET

  1. Mas a explicação é tão simples…

    Um cara de “boa vida” como você conversando com um morado de rua só podia estar querendo comprar drogas!! Só podia ser drogas, mais nada! E os policiais estão costumados a usar o “peso” da sua “autoridade” e as pessoas respondem. Você, que nesse sentido acho que deve ser como eu, não se impressiona e sabe que o policial não tem “autoridade” nenhuma sobre sua vida não correspondeu as expectativas dele e ele ficou putinho.

    Mas pode ter por certo que o policial tem certeza até hoje que você estava tentando comprar dorgas!

    E se você foi embora sem ver o fim da história, provavelmente o cidadão foi preso como traficante.

    1. Manga-Larga

      29/09/2011 — 16:29

      Isso mesmo Bruno. Demonstra claramente que a proibição das drogas serve na verdade como controle social: pobre e “rico” não se falam, a não ser que o pobre seja empregado do rico, ou se for traficante vendendo droga pro rico. É isso mesmo, e pode ter certeza que tais critérios fazem parte do “filtro” do guardinha. E tenha mais certeza ainda que o guardinha acha que tava fazendo uma coisa boa.

    2. Bruno:

      Sim, agora eu sei que o policial deve ter pensado isso. Mas eu estava tão pasmo com a atitude irracional do sujeito que não me caiu a ficha disso na hora. Quem me alertou para o fato foi uma amiga para quem eu contei a história. Aí caiu a ficha e eu não sabia se dava risada do absurdo ou se ficava aliviado por ter escapado ileso do erro de julgamento do policial.

      Mas fica tranqüilo: felizmente o pedinte não se ferrou na história. Eu o vi de novo na mesma rua no dia seguinte.

    3. Manga-Larga:

      Tens idéia do quanto eu estive perto de ganhar uns “carinhos” e um passeio grátis de viatura por causa disso?

    4. Manga-Larga

      29/09/2011 — 17:15

      E assim a proibição cumpre sua função: poder dar umas porradas em maltrapilhos toda vez que for necessário.

    5. Manga-Larga

      29/09/2011 — 17:19

      Eu diria que não tão perto quanto o pedinte. Se tivesse alguma coisa errada na documentação que o cara checou, poderia sim. Se tivesse com uma pontinha que fosse, também. Mas assim, sem nada? Só se ele “plantasse” alguma coisa.

    6. Não precisaria ter nada a não ser a suspeita. Bastaria que ele me agredisse, carregasse para a delegacia e alegasse “desacato” e “resistência à prisão” e quem teria que provar em juízo o abuso de autoridade seria eu. Sistema FDP esse.

    7. Manga-Larga

      29/09/2011 — 18:07

      Ah com certeza, mas o cara tem mais liberdade pra fazer isso com o maltrapilho, que é ignorante, do que com o tiozão com cara de professor, que poderia acionar a corregedoria.

    8. Corregedoria, judiciário e imprensa.

  2. Triste isso. Até onde vão as pessoas para alimentar seu ego.

    Já tive a oportunidade de conversar com alguns moradores de rua. Foram experiências edificantes.

    1. Acho que aquele policial não tinha nem sequer consciência de que havia outras hipóteses possíveis e plausíveis para alguém querer conversar com um pedinte além das hipóteses preconceituosas dele.

      Pelo menos o cara teve a dignidade de não se exceder fisicamente e de não cometer um abuso de autoridade e me dar voz de prisão apenas em função da irritação que sentiu. Já é louvável.

    2. Manga-Larga

      29/09/2011 — 18:11

      Oh! Ele resistiu à tentação de abusar de sua autoridade e ceder ao preconceito!

    3. Já é alguma coisa. Tem uns quantos que cedem.

  3. Eu pensando que essas coisas só aconteciam comigo! Ainda bem que não tô sozinho!

    1. Então, bem-vindo ao clube! 🙂

  4. Por que você não disse que era Jesus e estava salvando aquele pobre homem? Aí você “enquadrava” o tira! 🙂

    1. Eu enquadrava o cara e ele me enjaulava… bela troca…

  5. …ou um Médico Sem Fronteiras, vindo da Australásia (falando com sotaque inglo-turístico). É só dizer que está fazendo um trabalho sobre indigência no lado subdesenvolvido do planeta para uma ONG do casal Jolie-Pitt. (Isso pega bem!). Tentar explicar prum guarda!… só você mesmo! Bem alien…!

    1. Faz pouco que estou neste planeta, ainda não consegui entender o funcionamento mental da espécie dominante. Tens o telefone intergaláctico do Pierre aí pra eu pedir umas dicas?

  6. O cerumano é mesmo um bicho intrigante. Para o bem e para o mal… 🙂

    1. Especialmente para o mal…

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