Todo mundo fala de política. Mas o que é que as pessoas falam da política? Que não presta, que todo político é ladrão e fim. E, claro, há os amam ou odeiam este ou aquele partido ou este ou aquele personagem e que só falam de política para falar bem ou mal daquilo pelo que são obcecados. Debate político mesmo há muito pouco. E, quando há, a qualidade é de chorar.

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O rebaixamento da qualidade do debate político hoje chegou a tal ponto que praticamente só o que se discute é “ser a favor ou contra”, normalmente ser a favor ou contra o partido que ocupa a presidência da República ou o governo do estado ou a prefeitura. Um nível de debate extremamente raso, que em nada contribui para entendimento do panorama político e muito menos para o desenvolvimento do país.

Vejamos, por exemplo, os seis principais temas que costumam ser utilizados na propaganda política: saúde, emprego, segurança, educação, moradia e transporte. Em todos estes itens, os políticos prometem sempre a mesma coisa no horário eleitoral: investir na saúde, investir na geração de empregos, investir em segurança, investir na educação, investir no financiamento da casa própria e investir na melhoria do transporte coletivo e das vias públicas. A solução é sempre “investir”.

Sim, a solução é investir, mas em que tipo de sistema de saúde? Em que tipo de emprego? Em que modelo de segurança? Em que modelo de educação? Em que tipo de estrutura urbana? Em que modelo de deslocamento? Idéias isoladas aqui e ali, uma ou outra iniciativa ideológica lá e cá… mas ninguém promove um verdadeiro debate com a população para construir um modelo sólido de país com o qual a população se sinta comprometida por ter participado ativamente na tomada de decisões.

Saúde

Estamos satisfeitos com o modelo do SUS? Ele está funcionando a contento? Quando ocorre uma epidemia como a da gripe A (H1N1) é uma boa idéia todo mundo se amontoar nas filas das emergências? (Aliás, é razoável que haja filas nas emergências?) Ou em caso de epidemias deveríamos ter um sistema de atendimento domiciliar? E nos casos de faltas ao trabalho devido à doença, faz sentido exigir que o doente que não consegue ir ao serviço tenha que ir à perícia ao invés de ficar em casa para se recuperar? Queremos manter o sistema de “linha de produção” em que as pessoas ficam na fila à espera de senha desde às duas da madrugada e são marcadas todas as consultas para às 8h da manhã, sendo o último paciente exausto atendido por uma equipe exausta às 14h? Que modelos alternativos existem? Que países implementaram modelos alternativos? Quais os méritos e os vícios de cada um destes sistemas? Algum deles pode ser implementado na realidade brasileira sem dar margem a distorções graves? Onde está este debate?

Emprego

Temos um sistema de pleno emprego? Queremos um sistema de pleno emprego? Temos estímulo ao empreendedorismo? Em que áreas o país precisa investir para gerar uma economia equilibrada e robusta, com grande resiliência? Temos um adequado sistema de formação de recursos humanos para construir uma economia deste tipo? Ou estamos inchando o mercado com meras alternativas de sobrevivência (vender cachorro-quente e alugar uma pecinha) ao invés de estruturar uma economia diversificada e diversificante? As escolas técnicas estão preparadas para formar mão-de-obra especializada? Ou isso é atribuição das empresas? Neste caso, deve haver incentivo fiscal pela formação de mão-de-obra?

Segurança

Existe um pensamento estratégico em segurança pública no Brasil? Ou estamos jogando para a platéia, enxugando gelo em troca de votos? Faz sentido manter uma “guerra às drogas” que mata e mutila muito mais do que todas as drogas juntas são capazes de matar e mutilar? Temos polícias atuando realmente na proteção da lei e da ordem? Ou as polícias estão atuando como guerrilheiros urbanos contra um “inimigo” que nós mesmo criamos através de um sistema econômico excludente e uma educação pífia? Queremos permitir que um grupo de servidores públicos detenha o controle de todas as armas do país? E se tivermos que lutar contra o próprio Estado caso ele seja convulsionado por um novo golpe? Cadê o respeito à decisão da população, que votou NÃO ao desarmamento? Por que não adotamos um sistema de segurança semelhante ao da Suíça?

Educação

Que habilidades e conhecimentos o ensino fundamental e o ensino médio promovem? Os estudantes terminam a primeira série do ensino fundamental sabendo ler com entendimento e com gosto pela leitura? Os estudantes sabem as quatro operações e calcular uma regra-de-três ao final da quarta série do ensino fundamental? Os conteúdos apresentados no ensino fundamental e no ensino médio são úteis para a cidadania e para a vida profissional? Já temos matemática finaceira e já eliminamos os números quânticos dos currículos? Que tipo de cidadão estamos formando? Inteligentes, conscientes, questionadores, participativos, proativos, empreendedores, modelos para uma sociedade desenvolvida, justa, harmônica, solidária e feliz?

Moradia

Todo brasileiro tem casa própria?

Transporte

As cidades estão limpinhas, com o trânsito fluindo rápido e sem poluição? Há linhas de transporte coletivo de boa qualidade funcionando com amplos horários para todos os bairros? A estrutura de transporte satisfaz a população? A população respeita os equipamentos instalados na via pública para organizar o transporte? O poder público procura educar o usuário do sistema de transporte público e os motoristas ou usa o poder de multar para fazer caixa? O preço dos combustíveis é barato, os combustíveis são carbono-zero e poluição-zero? O transporte individual é acessível à maioria sem que isso cause engarrafamentos? Os veículos são seguros e econômicos?

Conclusão

Sim, a solução é investir. Mas talvez o principal investimento que precise ser feito atualmente seja no debate político, porque não se pode “investir” em coisa alguma sem saber o que se quer, sem comprometimento com metas razoáveis e sem a participação consciente de todos os envolvidos no processo.

Se nem mesmo os itens mais importantes da agenda política são discutidos de modo objetivo, bem fundamentado e com amplo entendimento e posicionamento pela maioria da população, com certeza não podemos dizer que temos um modelo de país em direção ao qual avançar. Ou seja, estamos caminhando às cegas.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 20/10/2011

4 thoughts on “Cadê o debate político?

  1. Com a reeleição o candidato governista sempre pode prometer continuar fazendo o que o governo já vem fazendo (só não vale prometer continuar o que está bom e melhorar o que não está). Já o candidato da oposição tem um compromisso maior com o debate, precisa detalhar melhor suas propostas mesmo que a população não dê a mínima para esse debate.

    1. Isso significa que não existe oposição no Brasil.

  2. E eu aqui pensando em fundar partido.

    1. Entra na fila. 😀

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