Muita gente diz, hoje em dia, que com o advento da “Era da Informação” o nerd passou a ser valorizado, respeitado e até admirado. Talvez isso seja verdade nos RHs das empresas de Tecnologia da Informação, mas no meio social a situação do nerd não é muito diferente da incompreensão e do isolamento de algumas décadas atrás.

O nerd é alguém com um grande interesse em algum assunto que exige pensar. Tipicamente é considerado nerd o sujeito que entende de programação e vive na frente de um computador, mas existem nerds em todas as áreas do conhecimento, da computação à biologia, do planejamento de sistemas de energias alternativas à construção de navios dentro de garrafas.

Ora, ter um grande interesse em algum assunto que exija pensar e adquirir conhecimento específico normalmente faz com que o indivíduo se torne um especialista (amador ou profissional) em sua área de interesse. E, como todo mundo gosta de falar sobre aquilo de que mais entende, o nerd acaba falando predominantemente sobre um assunto que exige conhecimentos que os demais não detém e não estão interessados em aprender.

Como quase ninguém gosta de conversar com alguém com um conhecimento sólido e profundo em qualquer área, porque não consegue sustentar uma opinião contrária à de quem por puro prazer estuda o assunto intensamente, para o nerd tornar-se um pária basta um único comentário em público rotulando-o de “sabe-tudo” ou simplesmente de “chato”.

É por isso que o nerd dificilmente tem vida social… a não ser que construa uma imensa e pesada máscara de “sujeito como qualquer outro” e se abstenha do prazer de conversar sobre o que mais lhe interessa.

O resultado disso é que os nerds acabam ou migrando para o subterrâneo, onde podem ser quem são sem constrangimentos, ou mimetizando comportamentos que consideram fúteis para obter algum grau (normalmente insatisfatório) de aceitação social e assim poderem interagir com as outras pessoas – o que inclui até mesmo arranjar uma namorada ou um namorado, pois os nerds também amam.

Eu, por exemplo, decidi simplesmente viver uma vida dupla. Por uma questão de sobrevivência na selva de pedra onde comentários sobre o clima, futebol, novela, fofoca da vida alheia e reclamação sobre política ocupam 95% ou mais da vida “intelectual” a meu redor, eu oculto minhas áreas de “nerdice” até mesmo de minha família e de meus amigos. Evito discutir os assuntos que conheço melhor. Não banco o nerd no meu próprio blog, para não espantar a já pequena quantidade de interlocutores que dialogam comigo aqui. Prefiro ser mais enciclopédico, o que também é problemático, mas nem tanto.

Ou o isolamento, ou a frustração – eis a maldição do nerd.

As pessoas então perguntam: mas por que os nerds não se agrupam segundo seus interesses, formando assim círculos sociais por afinidade? Simples: isso não acontece justamente porque, ao contrário da lenda que praticamente iguala os nerds aos programadores de computador, há milhares de interesses que atraem os nerds. Um nerd em taxidermia não tem muito o que conversar com um nerd em eletrônica: para cada um dos dois, nerd é o outro.

E não adianta tentar fundar um “Clube dos Nerds” para socializar esse pessoal entre si, porque só quem vai aparecer serão adolescentes interessados em animes, mangás e RPGs devido à deturpação do termo nerd na atualidade.

É, nerd é um bicho amaldiçoado…

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 27/10/2011

36 thoughts on “A maldição do nerd

  1. Apenas como dado. Interessados em peças mais focadas em hobby e entretenimento, como focado no final do texto, não são nerd’s no sentido clássico da coisa, pra eles existe um termo menos conhecido que é o “geek”.

    Já fui nerd quando tinha tempo pra estudar, e já fui geek quando tinha tempo pra me entreter. Hoje em dia só me consumo na minha maldição que são as notas fiscais.

    1. Geek é o cara que gsabe brincar com brinquedinhos eletrônicos. Nerd é o cara que sabe consertar os brinquedinhos eletrônicos. 😀

  2. Eu passo por isso por causa do interesse em linguística, literatura, religiões e filosofia, e por ser cinéfilo.

    1. Nerd em humanas é coisa rara. Mas o Félix consegue. 🙂

    2. É raro nada! Os pensadores sérios têm de aguentar meio mundo de reaça que põe meia dúzia de conceitos na cabeça e já se considera pós-doutor em qualquer coisa.

    3. Difícil é achar os pensadores sérios no meio da montanha de picaretagens ideológicas que infestam as chamadas “humanidades”…

  3. Conheço esse sentimento.

    1. Bem vindo ao clube…

  4. A gente viaja pra fazer vestibular, fica doze horas no ônibus, a namorada passa mal, vai mal na prova, e quando volta não tem artigo novo! Assim não dá, Arthur! :p

    Não gosto de usar a palavra “nerd”. Sei lá, parece que estou aderindo à ideia de que ser inteligente ou estudar ou ter algum hobby é um defeito.

    Já passei por situações em que fiquei espantado com o baixo nível das conversas. Para mim, é muito chato quando parece que estão me segregando porque me percebem como inteligente. É ridículo estar debatendo qualquer coisa e ouvir “nossa, como você é nerd” e ver as costas do seu interlocutor diminuindo.

    Mas acho que é uma coisa difícil encontrar uma pessoa bastante compatível com você, independentemente dos seus interesses. Se você prestar atenção, vai ver que os que rotularia de “fúteis que fofocam e falam sobre novela, futebol, etc.” não se dão bem com qualquer outro “fútil”.

    1. Pois é, o WordPress disse que vai descontar do meu salário esses dias sem escrever… 😛

      Eu fiz milagre em setembro (27 artigos), acabei acostumando mal o pessoal aqui. Em outubro eu bati pino e só consegui escrever 15 artigos, sendo que uns nem deveriam contar como tal, porque fazem parte da categoria “rapidinhas”, que são simples comunicados aos leitores. Mas vejamos se em novembro eu consigo passar dos 20 novamente. 🙂

      Voltando à vaca fria, eu nunca me incomodei com o rótulo de nerd, pelo contrário, até curto. Quem acha que eu sou “nerd demais” para conversar comigo em geral cansa minha paciência tanto quanto eu a ele/ela. Então, que me chamem logo de nerd e me virem as costas de uma vez, porque isso me poupa o trabalho de inventar alguma desculpa para cair fora sem ser deselegante.

      Eu diria que, como é impossível encontrar alguém 100% compatível, temos que nos habituar a traçar uma “linha de corte” na compatibilidade. Eu defini uma linha de corte alta para o quesito “caráter” e uma linha de corte bem mais baixa para “interesses em comum”. Consegui sobreviver bem até aqui usando essa estratégia.

  5. eu concordo com elvis: rotular alguem de nerd e’ uma tentativa desesperada de diminuir o impacto de atos ou palavras do rotulado, tentando preservar a auto-suficiencia na interlocucao.

    eu estou acostumada a viver numa comunidade que preza e reconhece com atos a capacidade e conhecimento do individuo, e isto ‘e prazeroso.

    mas eu adoro parar para conversar sobre uma novela boa, ou um filme bom, mesmo que seja para lamentar a falta de aproveitamento de oportunidades potenciais criadas no entretenimento em questao. mas nem por isso me acho futil.

    1. Verdade. O que me incomoda, Paulinha, é que tem gente que só fala sobre assuntos fúteis, do tipo futebol, novela, noitada, sexo casual, bebida, condições climáticas e Trending Topics do Twitter. Aí é pra matar.

      Mas eu sempre fui chamado de nerd (depois que deixamos de estudar juntos) e isso nunca me incomodou. Não é muito diferente de “CDF” ou de “Professor Pardal”, com o que eu já estava acostumado… 🙂

    2. sim, eu tb era cdf. mas no segundo grau (ainda existe isso) eu liderei uma campanha para acabar com o sentido pejorativo do termo.

    3. Como foi essa campanha?

      Quando alguém me chamava de CDF na escola, eu simplesmente respondia com um sorrisinho. E só. Dificilmente alguém insistia, porque percebiam nitidamente que eu não encarava isso como algo ruim.

      Quando passaram a me chamar de nerd, eu passei a responder com o mesmo sorrisinho e acrescentei uma fala: “com muito orgulho”. O resultado era o mesmo.

      Mas eu já tive colegas que eram muito mais parecidos que eu com o estereótipo do nerd sem habilidade social alguma… aqueles sofriam. E não adiantava EU tentar socializar aqueles caras, eles simplesmente não queriam contato com os demais. Ou seja, os caras não eram isolados por serem nerds, eles se tornavam nerds por se isolarem devido a sua misantropia. Era só o que lhes sobrava fazer, creio.

  6. tambem amo esportes, incluindo futebol, e paro para ouvir programas de comentarios.

    1. Eu curto gibi. 🙂

  7. Camarada Moderado

    04/11/2011 — 01:12

    Discuti isso com uma amiga há muito tempo. Que nerd é a pessoa apaixonada por uma assunto que engloba qualquer ramo do conhecimento. Ela não concordando, afirmou que nerd é só aquele que gosta de algo da cultura pop(filmes, revista em quadrinhos, rpg, videogame, etc).

    Hoje em dia ainda penso da mesma forma. Mas sempre há um denominador comum entre os nerds, do meu grupo de nerds é videogame. Os outros interessem divergem, mas o videogame é o ponto em comum.

    1. Ih, Camarada Moderado… na minha opinião, esse pessoal que se diz nerd porque “gosta de algo da cultura pop” está simplesmente viajando na maionese e utilizando o termo de modo inadequado. Nerd que é nerd só é nerd se dedicar um grande percentual de seu tempo a e desenvolver grande expertise (como se diz isso em português?) em um determinado ramo do conhecimento que não seja de domínio ordinário.

      Fulano pode ter assistido todas as novelas da Globo nos últimos vinte anos, mas ele só será um “nerd em novelas da Globo” se ele souber de cabeça o nome, o figurino e as críticas à interpretação de todos os personagens de cada uma delas.

      Ser nerd não é para qualquer um, não. 🙂

    1. Imagem salva. 🙂

    1. O único geek de verdade ali é o gadget geek, mas, deixando o rigor conceitual de lado um pouco, eu estou representado mais de uma vez na imagem… 🙂

  8. Tinha que ter um geek com meu nick de orkut? Nem sabia que tinha definição geek pra “War Hammer”.

    1. HUAHUAHUA!!! 😀

  9. Quando a sede pelo conhecimento supera as futilidades sociais…são os nerds que fazem o mundo evoluir..o preconceito sempre existiu…talvez quem inventou a roda já foi rotulado de nerd

    1. Muita gente queria ser rica como Bill Gates ou Steve Jobs. pouca gente está disposta a pagar o preço que eles pagaram por isso.

  10. Prezado Arthur,
    É interessante como as coisas funcionam, exatamente como voce descreve no seu texto. Sou apaixonado por fisica, e o pessoal da minha escola sempre estao no meu pé. Nao deixo de estudar fisica uma semana se quer, e todos ficam sem entender. O problema, é que pessoas de 16, 17 anos, estao preocupados com o o fim da novela, com a volta do time pra serie A ( essas coisas futeis da vida ) e enxergam tudo que ve na escola como uma coisa chata que ele é obrigado a DECORAR.
    Entao, quando aparece alguem que realmente esteja interessado nao apenas em notas, mas sim em APRENDER como a natureza funciona, comentarios toscos e denominaçoes, como NERD, aparecem.

    Um abraço !

    1. Jonas, o simples fato de destacares a diferença entre “decorar” e “aprender” já mostra que tens um grande potencial de sucesso em qualquer estudo a que te dedicares. Meus parabéns. Espero que cultives sempre o gosto pelo aprendizado. 🙂

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      Um conselho, porém: não entra em choque com o pessoal do futebol e da novela. Podes (acho que deves) expressar livremente tuas opiniões sobre estes assuntos, mas evita o conflito aberto. Sabes por quê? Porque não vale a pena. Explico.

      Tenho duas amigas que só ouvem funk. Emprestei a elas um livro de crônicas da Martha Medeiros há cerca de dois meses – elas ainda não terminaram de ler. “Calma, Arthur, é muita coisa! Não deu tempo de ler tudo ainda!” Perguntei a diferença entre esquerda e direita políticas e uma delas respondeu que às vezes não sabia nem qual era a mão direita e qual era a esquerda, que dirá na política. Sacaste o estilo, né? Mas eu, que sou um intelectual, visito estas amigas com freqüência e bato papo legal com elas.

      Umas duas semanas atrás uma delas me disse que alguém perguntou a ela “como é que ela conseguia conversar com o Arthur”, devido ao fato de termos interesses e assuntos tão diferentes. Ora… É simples: eu não tento falar com elas sobre o papel da retroalimentação negativa na manutenção da estabilidade de sistemas dinâmicos. Eu às vezes analiso a letra de algum funk e questiono os conceitos ali contidos. Eu empresto um livro de crônicas que fazem pensar sobre o cotidiano. E dou risada das histórias que elas me contam sobre pequenos eventos do cotidiano.

      Eu e elas sabemos que temos visões de mundo diferentes, interesses diferentes e gostos diferentes, mas conseguimos conviver e curtir bons momentos juntos porque focamos mais no pouco que temos em comum do que no muito que temos de incompatível – e porque cada lado se contenta em explicar como e por que pensa como pensa, mais ou menos como acontece quando dois cidadãos de países completamente diferentes se encontram. Se tentássemos forçar o outro a mudar seu modo de ser, não adiantaria nada. E ainda estragaríamos a amizade.

      Lógico que chega uma hora em que eu tenho que conversar com outras pessoas, com outro tipo de interesses, gostos e cultura, ou eu enlouqueceria. (Este blog não deixa de ser uma ferramenta para não pirar de vez.) Mas isso não me impede de conviver com elas o tempo que é possível conviver. Basta que haja respeito mútuo.

  11. Arthur,
    Obrigado pelos parabens, e sim, sempre vou cultivar o gosto pelo conhecimento 😀
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    Concordo plenamente com voce, ao citar o exemplo de suas amigas e ressaltar que deve-se focar no comum que se tem nas amizades. É preciso, realmente, aceitar as diferenças em uma amizade. Isso se chama nao ser prepotente e nem ignorante. Legal ;D

    1. É isso aí. 🙂

      Não esquecendo, é claro – acho que isso deve ser óbvio, mas não custa registrar – que “aceitar as diferenças” não significa nem implica “violentar-se”. Não vou “aceitar as diferenças” para ser amigo de um maníaco homicida serial, só pra citar um exemplo cujo mérito não precisa ser discutido. A mesma lógica vale, respeitadas as devidas proporções, para inúmeras outras situações.

  12. Fui chamada de nerd por muito tempo, na escola. Mas acho que, de tanto não ter com quem conversar sobre o que me interessava, “emburreci”. O modus operandi acadêmico deve ter contribuído e o TPB botou uma pedra em cima, não sei. Fato é que nem por tradução eu não consigo mais me interessar… snif.

    1. TPB?

      Ah, não te preocupa… Ou te preocupa sim, não se qual é o caso… Toda nerdice tem altos e baixos, mas nunca desgruda da gente. E a gente vai aprendendo a lidar com os Flash Thompson da vida. 🙂

    2. Vendo aranhas radioat… geneticamente modificadas! Baratinho aqui pro freguês! Vai querer?

      …o melhor meio de lidar…

    3. É a sigla de um probleminha de saúde com tratamento a longo prazo, às vezes ele me atrapalha e muito e eu me enrolo em todos os aspectos da minha vida. Daí tenho que distribuir prioridades e meu lado nerd vai pro fundo da caverna…

    4. Gerson, acho que vou aceitar as aranhas para obter os grandes poderes, porque já tou cheia de grandes responsabilidades aqui hehehehe =)

    5. 🙂 Pensar Não Dói, o pequeno paraíso dos nerds!

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