Assim a sigla da entidade será INEPTO, o que fará justiça a sua competência para gerenciar o ENEM.

Estava todo mundo discutindo este assunto há alguns dias e eu nem bola, até que alguém me mandou um link do iG comentando que o MEC, a quem o INEP é subordinado, vai recorrer da decisão judicial que anulou 13 das 14 questões que “vazaram”.

O fato é que não houve vazamento algum. A não ser, é claro, um imenso vazamento de estupidez na organização do ENEM, só pra variar um pouco e tornar as coisas mais emocionantes, já que o ENEM nunca deu problema

A história toda é de uma simplicidade ímpar:

1. O INEP distribuiu, em 2010, um pré-teste para avaliar a dificuldade das questões do ENEM.

2. As escolas que participaram do estudo aplicaram o pré-teste do INEP.

3. Um ano depois, o INEP usou as mesmíssimas questões do pré-teste no próprio ENEM.

4. Logo em seguida, o INEP ficou “espantado” com o fato de as questões que ele mesmo distribuiu um ano antes já serem conhecidas dos alunos de uma escola.

5. Finalmente, o INEP acusou essa escola de ter vazado o material que ele mesmo distribuiu e o país inteiro passou a jogar vocês sabem o quê no ventilador, na “justiça”, nos jornais e na internet.

Seria engraçado se não fosse trágico.

Pelo que li na internet, o jogo de empurra já está bem avançado. A processa B que processa C que processa D que processa NRA. Estão criando um novelo de processos administrativos e judiciais cruzados em que a verdade simples e límpida será engolida pela confusão e alguma decisão absurda vitimará alguns estudantes pela segunda vez, beneficiará alguns, prejudicará alguns e que se dane o óbvio: que o ENEM inteiro foi comprometido mais uma vez.

O INEP já está tão perdido na confusão – ou comprometido em gerar ainda mais confusão para abafar sua incompetência – que anulou as provas dos 639 alunos do Colégio Christus, que tiveram acesso às questões da prova, mas não dos 320 alunos do cursinho do Colégio Christus, que também tiveram acesso às mesmas questões da mesma prova. Dois pesos, duas medidas.

Mas…

Será que eu sou o único que percebeu até agora que todos os alunos das 50 escolas que foram testados com estas questões “tiveram acesso às questões da prova” um ano antes?

Será que os professores das outras 49 escolas que tiveram acesso a este material um ano antes não usaram as questões do pré-teste em suas salas de aula, ensinando seus alunos a resolver aquelas questões específicas?

Afinal,  é óbvio que as questões que fazem parte de um pré-teste usado para avaliar a dificuldade de uma prova serão representativas do conteúdo e do estilo de avaliação usados na prova em si, caso contrário não faria sentido algum aplicar o pré-teste!

Este é um caso óbvio de pesquisa geradora de distorções no universo pesquisado: basta aplicar o pré-teste a uma amostra de estudantes em um ano para automaticamente favorecer a amostra pesquisada no ano seguinte, se não pela igualdade das questões, como fez estupidamente o INEP, então pela similitude das questões, o que já é uma vantagem considerável em um concurso altamente competitivo.

Se o INEP não sabe disso, então merece a mudança de sigla. E, se sabe, então merece ainda mais.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 03/11/2011

21 thoughts on “Mudem a sede do INEP para Tocantins!

  1. Não sei se é a melhor solução do ponto de vista ético ou qualquer coisa assim, mas se não anulassem nada e deixassem tudo como foi eu estaria felizão. Eu já errei, em provas no colégio, questões praticamente idênticas a outras que eu fizera em ocasião distinta. Acho que os custos de anular a prova de qualquer número de pessoas são maiores do que a “enorme vantagem” de 14 questões que alguns alunos receberam.

    Não é novidade desse ano o ENEM ser uma prova que cobra pouco conhecimento mas exige muita concentração, leitura de gráficos, interpretação de textos. Eu praticamente não tive surpresas nessa prova, vi o que era de se esperar, questões parecidas com as que eu tinha feito em simulados do ENEM. Creio que isso atenua consideravelmente a vantagem que eu teria se algumas das questões nos simulados fossem as mesmas do ENEM. Eu já sabia o que era de se esperar!

    Além disso, quais as chances de um aluno que não saberia responder uma das questões “vazadas” lembrar-se da resposta quando visse a prova por que já a fez anteriormente? Acho que praticamente nula, né?

    1. Elvis, um bom percentual de estudantes tem o saudável hábito de refazer e estudar novamente os assuntos cujas questões errou na prova. Tá cheio de professor preguiçoso por aí que usa as mesmas questões das provas nas recuperações. Eu mesmo tive um professor na universidade que era famoso por fazer isso. Quase todo mundo ficava de recuperação e quase ninguém rodava…

  2. Pois é…..e mais uma vez,esse refrão é chato pra caramba,o Nordeste fica no alvo de pessoas burras e preconceituosas.

    Quando esses idiotas irão perceber que somos todos brasileiros?

    Ou será que pensam,em suas cabecinhas tortas,que sulista é outra raça?

    Afinal……pra que serve o ENEM ?

    Por que não adotam de vez o sistema americano?

    Iria facilitar a vida de todos.

    1. O ENEM serve para tornar o sistema de ingresso na universidade confuso, inauditável e ainda mais falho que o sistema de vestibulares. Simples assim.

  3. Li, no dia que adotarem o sistema de mérito aqui, o “mérito” $$erá tomado pelo $jeitinho$ bra$ileiro. Qual a escola que não irá facilitar o desempenho e melhorar automaticamente as notas de seus alunos?

    1. Olha o lado positivo… os índices oficiais da educação no Brasil subitamente se tornarão os melhores do mundo! 😛

      Nunca na história do planeta se viu ou se verá outra medida tão simples de tão grande e “positivo” impacto! 😛

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      Putzgrila… pensando bem… é bem capaz de fazerem isso, mesmo… daria pra eleger (ou reeleger) um presidente da República só com um canetaço desses… afinal, quando a casa finalmente cair já será tarde demais…

  4. É mió num dá ideia mermu!

    1. ‘Bora deletar o blog. 😛

  5. Nos USA todos os participantes de um determinado exame que eu vou chamar de “X” sao submetidos a uma prova com, vamos dizer, 500 questoes. Destas, 400 sao utilizadas para avaliacao dos candidatos pelo exame X. As outras 100 sao questoes teste, que servem para determinar dificuldade de conteudo, formato de questoes, etc. Estas nao sao utilizadas na avaliacao para o exame X. Desta forma, o projeto “piloto” ‘e aplicado para todos os alunos participantes do exame nos anos anteriores.

    Por ocasiao da inscricao no exame X, voce recebe um link ou um CD (a escolha do candidato) com questoes estilo exame X para preparacao pre-prova. Todos os candidatos tem acesso as mesmas questoes. Volta e meia uma questao muito semelhante a estas aparece na prova. Mas nao tem problema, pois TODOS tiveram as mesmas oportunidades de ver as questoes.

    Eu nao sei quantas provas eu ja’ fiz fora do Brasil. Inumeras. Nunca vi problemas como os que vejo anualmente nos noticiarios brasileiros em relacao ao ENEM. A minha impressao ‘e de que haja um sistema de sabotagem sistematico para o ENEM, o que ‘e uma pena. Pena mesmo. Eu sou favoravel a meritocracia e esta foi uma das razoes para ter me mudado de minha cidade natal.

    1. Olha… desse jeito até que parece não haver problemas, apesar de que eu apresentaria 500 questões e as utilizaria todas como base de estudo para calibrar as provas do ano seguinte.

      Já a parte de receber o link ou o CD com as questões… embora eu não tenha entendido bem o propósito… sim, está perfeito assim, porque se todos tiveram acesso, o processo é justo e igualitário.

      E o ENEM é mesmo sabotado… pela incompetência do INEP. Minha Santa Aquerupita, os caras conseguem cometer com uma facilidade incrível erros que eu teria que me esforçar muito para imitar!

    2. Sim, o processo de avaliacao interno engloba as 500 questoes, mas 1/5 delas nao entram no escore pq sao exclusivamente experimentais.

    3. Pois é, saquei. Mas achei isso ruim porque alguém pode perder um bom tempo se dedicando às questões experimentais, que não entrarão no escore final, enquanto outro concorrente pode gastar um bom tempo nas questões que entrarão no escore.

  6. Qdo ainda no Brasil, participei de concursos em varios locais de trabalho para minha especializacao.
    Os criterios/pesos na epoca eram mais ou menos assim:
    1) local relacionado `a Universidade Federal: prova 60%; curriculo 30%; entrevista 10%. Fiquei em 1o. lugar (15 vagas).
    2) local relacionado a uma Fundacao Federal: prova 40%; CV 20%; entrevista 40%; fiquei em 9o. lugar (10 vagas)
    3) local relacionado aos servidores publicos do estado: prova 10%, CV 30%; entrevista 60%; fiquei em 24o. lugar (2 vagas).

    Ou seja: migrar para classificacao baseada em desempenho em um exame publico ‘e a forma mais justa e menos suscetivel a “jeitinho bra$ileiro” ou QI (quoeficiente de indicacao, com ou sem $$ envolvido).

    1. Pois é…

      Uma vez eu perdi uma vaga numa seleção para estágio (num local onde acho que tu já estagiaste ou trabalhaste) para uma concorrente que tinha somente metade do meu currículo porque ela usava uma minissaia que cobria somente metade do que deveria…

      E isso numa instituição pública.

    2. Sim, sempre irritante ver gente tecnicamente desqualificada ser contrada pelas dimensoes das roupas ou pela abertura obviaa programas extra emprego…

  7. kkkkkkkkkkk meu portugues esta’ horrivel!
    QI – Quociente Intelectual –> “Quociente de Indicacao”

    1. Tenta em Esperanto. 😀

  8. Arthur!
    Tento achar onde estão os erros nos problemas recorrentes referentes à prova do ENEM, mas não os vejo! Há, me parece, uma intencionalidade de tornar confusa a análise da elaboração e da aplicação do processo. Isto não é erro! É maquiagem! Qualquer um que tentar ir fundo nas entranhas da coisa certamente escorregará nas paredes e não acompanhará o fluxo. Em pouco tempo a opinião pública se esquecerá que a mesma coisa não é uma minhoca dando ré. Vai ser como votar! É pra fazer e pronto! Prejudicou um milhão a mais ou a menos? Mixarias na maior democracia do planeta. O que vale é a coisa grossa! Quem se importa com o ruído da flatulência?
    O importante não é solucionar a questão da avaliação dos alunos pra saber quem está apto para seguir adiante! O importante é dar a impressão de que a solução definitiva foi encontrada. E logo a massa burra estará beijando apaixonadamente o buraco errado da minhoca e a chamando de “meu amor!”

    1. Hehehehe… originalmente este artigo continha uma segunda parte, dedicada a avaliar as conseqüências do uso da TRI (Teoria da Resposta ao Item), mas o texto ficou pesado demais e eu resolvi deletar. Basicamente o processo se torna totalmente inauditável devido ao uso da TRI. Como bem percebeste, essa escolha não é técnica, é política.

  9. Sempre trabalhei com exames de proficiência em língua estrangeira e o que vejo é que o pré-teste nunca é aplicado com apenas um ano de intervalo entre ele e o exame propriamente dito. Como o banco de questões é enorme (cá oo Brasil o pessoal resolveu aplicar o exame para admissão na universidade em um ano e no ano seguinte já estava valendo) e o intrevalo entre o aparecimento de uma questão no pré-teste e no exame pode ficar em torno de 3 ou 4 anos, a probabilidade de um aluno participar das duas etapas é quase nenhuma…

    1. Basta UM aluno ou professor fazer cópia das questões e pronto, acabou a segurança, mesmo com essa diferença de 3 a 4 anos. Se eu fosse professor de cursinho, já estaria pensando em uma maneira de montar meu próprio banco de dados com estas questões. E, se eu tive esta idéia, podes ter certeza que mais alguém também teve – e um desses caras vai dar um jeito de ganhar uma grana com isso.

      Não tem jeito, o único modo de garantir a não utilização das questões de modo indevido é jamais utilizá-las nos testes reais.

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