Quem matou o repórter da Band Gelson Domingos foi a Portaria nº 18, de 19/12/2006, do Ministério da Defesa

Não, não foi um tiro de fuzil que matou o repórter da Band. Quem matou Gelson Domingos foi a Portaria n° 18, de 19/12/2006, do Ministério da Defesa.

Peguem as gravações da notícia da morte dele, ouçam de novo. Observem que, sempre que a notícia diz que ele estava usando um colete à prova de balas, a notícia diz que ele “estava usando um colete à prova de balas de uso permitido“.

Agora vamos ler as entrelinhas do que está sendo dito para o povo.

Sabem o que significa isso que a mídia desarmamentista está noticiando? Que existem coletes à prova de bala de uso restrito.

Não por coincidência, os coletes à prova de balas de uso permitido agüentam um tiro de pistola mas não resistem a um tiro de fuzil.

Já os coletes à prova de balas de uso restrito agüentam com facilidade um tiro de pistola e também resistem a um tiro de fuzil.

E por que existem coletes à prova de balas de uso permitido e coletes à prova de balas de uso restrito?

Simples: porque o Estado brasileiro não quer que os cidadãos brasileiros possam se defender dos tiros que pela legislação só as Forças Armadas brasileiras podem desferir.

Interessante, não é?

O Estado brasileiro não se contenta em desarmar os cidadãos honestos, ele também exige que os cidadãos honestos permaneçam indefesos ao poder de fogo que ele resguarda legalmente apenas para si. Noutras palavras, o Estado brasileiro reserva para si o direito ser o único ente capaz de matar seus cidadãos honestos com facilidade. O único furo neste raciocínio é que os bandidos não acham uma boa idéia que só o Estado possa matar os cidadãos honestos, eles querem poder fazer o mesmo e por isso usam cada vez mais armas de uso “restrito”.

Vejamos o que diz a Portaria n° 18 do Ministério da Defesa:

Art. 2o Coletes à prova de balas são produtos controlados pelo Exército, relacionados sob os números de ordem 1090 e 1100 e incluídos na Categoria de Controle no “3” e “5”, respectivamente.

Art. 3o Os coletes à prova de balas são testados e classificados quanto ao nível de proteção segundo a Norma “NIJ” Standard 0101.04, do Instituto Nacional de Justiça dos Estados Unidos da América.

Art. 4o Os coletes à prova de balas são classificados quanto ao grau de restrição, conforme art. 18 do Regulamento para a Fiscalização de Produtos Controlados (R-105), em:

I – uso permitido: os coletes à prova de balas que possuem níveis de proteção I, II-A, II e III-A; e

II – uso restrito: os coletes à prova de balas que possuem níveis de proteção III e IV.

Eis a classificação segundo a norma NIJ Standart 0101.04 acima citada:

Type I (22 LR; 380 ACP)
Type IIA (9 mm; 40 S&W)
Type II (9 mm; 357 Magnum)
Type IIIA (High Velocity 9 mm; 44 Magnum)
Type III (Rifles)
Type IV (Armor Piercing Rifle)

Ou seja, para mim, para você e para o cidadão honesto em geral, o Estado brasileiro diz com todas as letras o seguinte: “vocês cidadãos honestos só podem se defender de tiros de pistolas; vocês  cidadãos honestos não tem o direito de se defender dos tiros que só as Forças Armadas brasileiras podem disparar“.

O repórter da Band Gelson Domingos não era agente do Estado brasileiro, portanto não tinha o direito de defender sua vida de um tiro de fuzil. E, por não ter o direito de defender sua vida usando um colete à prova de balas com a proteção adequada para resistir a um tiro de fuzil, foi morto por cumprir a lei.

Esse é o país em que vivemos.

Esse é o país que os desarmamentistas querem.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 06/11/2011

38 thoughts on “Quem matou o repórter da Band Gelson Domingos foi a Portaria nº 18, de 19/12/2006, do Ministério da Defesa

  1. Está aí uma coisa que eu ignorava.

    Posso copiar ?

    Informação divulgada,é informação que voa,rs.

    1. Todos os textos do Pensar Não Dói estão sob licença Creative Commons BY-NC-SA 3.0, ou seja, podem ser livremente distribuídos, desde que sem propósito comercial, bastando citar a fonte. 😉

  2. Beleza,rs.

    Estou em Campanha pelo Respeito Autoral,e contra o plágio.

  3. Tenho que me controlar pra não escrever um palavrão aqui. O cara morreu à toa! Deixou família.

    Isso TEM que ser divulgado. Vou postar no meu fórum.

    1. Em duas horas este já é o meu artigo mais lido a partir do Twitter nos últimos dois meses. Mandei agora o link pro presidente do Movimento Viva Brasil, acho que ele vai retuitar. Mas, quanto mais divulgação, melhor.

      (Que fórum é esse? Fiquei curioso…)

  4. O MBB, fórum de quadrinhos. Mas pra entrar na pasta de assuntos gerais, (OFF-Topic) cê tem que ser cadastrado. Acho que uma vez você tentou e não conseguiu, eu tinha colocado outro post teu lá.

    1. Manda aí o link que eu tento de novo. 🙂

    2. http://www.mbbforum.com/mbb/viewtopic.php?t=44732&postdays=0&postorder=asc&start=0

      Mas acho que não vai funcionar a não ser que você se cadastre.

  5. E teoricamente o desarmamento é para impedir que o cidadão cometa um erro num momento de raiva, mate alguem por acidente, tenha sua arma roubada, etc. Mas qual o objetivo de proibir um colete com boa proteção? Ele poderia matar alguem a coletadas? Um ladrão ficaria protegido contra a polícia com um colete pior. Então o objetivo é militar mesmo. Colocar o povo submisso pra as F.A..

    1. Isso. Na mosca.

    2. Quando li o seu comentário pela primeira vez senti um ar de teoria da conspiração. Mas lembrando que recentemente foi divulgado um documento interno dos milicos qualificando o povo como inimigo, e que nossa última ditadura militar terminou muito recentemente, eu tendo a concordar.

    3. André, o grande problema de rejeitar as teorias da conspiração apenas sob a alegação de que são teorias da conspiração é que existem conspirações reais.

      A legislação brasileira reserva exclusivamente às Forças Armadas e às polícias o uso de armas de grosso calibre. Ora, se o povo é proibido de usar um aparato de defesa passiva capaz de resistir aos tiros que de acordo com a lei somente as Forças Armadas e as polícias podem disparar, a conclusão lógica é qual?

      Não se trata de teoria da conspiração – é conspiração escancarada, maquiavelicamente planejada e convertida em norma exigível. Um descalabro total.

    4. Realmente, é um manual de contra-inteligência! 🙂

  6. Manga-Larga

    07/11/2011 — 10:30

    Coloca no OP, este foi o melhor artigo a respeito que eu li, parabéns!

    1. Pois é, esqueci de colocar lá ontem. É pra já.

  7. Inconformado

    07/11/2011 — 15:20

    Mesma regra se aplica aos carros blindados! No Brasil além de ser obrigatória a autorização do exercito para blindar seu carro, vc não pode blindar com nivel máximo…. blindagem máxima por aqui é só um eufenismo para o que acontece com políticos envolvidos em escandalos! (obs: esses muitas vezes andam em carros com blindagem máxima e escolta da polícia federal mas infelizmente é só para a segurança deles … sonho em ver eles sendo conduzidos ao presídio….. )

    1. Mesma lógica, mesma regra!

      “Você só pode se proteger com nossa autorização!”

      Se isso não é FASCISMO, então nada é fascismo.

  8. Excelente sua visão do ocorrido. Parabéns pelo artigo escrito. Muito esclarecedor.

    1. Grato.

      Esse “Português” é uma declaração de nacionalidade ou é o apelido de um brasileiro?

  9. Uma coisa é certa: as elites precisam do povo existindo, mas precisam dele desprotegido. Povo desprotegido é garantir o privilégio à elite de fazer o que bem entende com o povo. O povo não se defende da elite, mas dos bandidos que, como os demais do povo, não têm muitas opções a seguir. Enfim, a elite apenas nos usa para seu benefício, mas não nos mata por completo, pois assim garante o medo o suficiente para, vez por outra, prometer dar mais segurança e enganar os idiotas úteis.

    1. Acabei de ler. Fantástico.

    2. Leitura e retweet em dois minutos? Vou te contratar pra RT meus posts meia hora por dia, em três turnos de dez minutos. 🙂

  10. Rafael Holanda

    08/11/2011 — 12:18

    Putz! Essa portaria tem que ser derrubada imediatamente!

    Gostaria de ver o que o Rodrigo Pimentel (inspiração para o Cpt. Nascimento) e outros especialistas em segurança pública e defensores do desarmamento argumentariam frente a esse absurdo do “não, vc não pode ter esse colete pq ele te protege demais”.

  11. [“Cinegrafista foi mandado para a morte”, diz advogado da família da vítima

    Ana Cláudia Barros

    A notícia de que o colete à prova de balas utilizado pelo cinegrafista da TV Bandeirantes Gelson Domingos, 46 anos, não garantia proteção contra tiros de fuzil deixou os familiares do repórter “atônitos”. A informação é do criminalista Nélio Andrade, que representa os parentes da vítima. Em entrevista a Terra Magazine, o advogado fez duras críticas à TV Bandeirantes, onde o profissional trabalhava há dois meses.

    Na visão de Andrade, Gelson, assassinado numa troca de tiros no último dia 6 quando acompanhava ação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) na favela de Antares, em Santa Cruz, na zona oeste do Rio de Janeiro, foi “mandado para a morte”.

    – Estar com aquele colete ou de camiseta era a mesma coisa. Só quem tem colete à prova de tiro de fuzil nesta guerra urbana do Rio de Janeiro é a Rede Globo. As outras emissoras não têm. Nem a PM tem. Apenas o Batalhão de Operações Especiais (Bope) é que tem 400 coletes à prova de fuzil. Gelson usava um colete II-A, que só segura tiro de 38, 40, 22. Não segura tiro de fuzil. A placa onde entrou o tiro é um papelão com plástico.

    Incisivo, o advogado prosseguiu com as críticas à emissora:

    – A Band mentiu claramente. Quando viu que o colete estava comigo e que o sindicato (Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro) teve acesso, publicou uma nota, argumentando que nenhum dos dois coletes tem o nível de proteção necessária para deter um tiro de fuzil. A Band ainda disse, em nota, que tinha coletes II-A e III-A e que instruía todos os repórteres e cinegrafistas a usarem o III-A. Então, por que tem o II-A? A nota diz que nenhum dos dois modelos seria suficiente para evitar que o cinegrafista fosse vitimado. Se a emissora admite que nem II-A nem III-A segura um tiro de fuzil, porque mandou o repórter então? No mínimo é uma grande irresponsabilidade.

    Nélio Andrade afirma, com base em informações passadas por familiares de Gelson, que o cinegrafista acreditava estar protegido com o colete que usava…

    … na nota apresentada nesta terça-feira (8), a Bandeirantes afirmou:

    A Band dispõe de coletes das duas categorias II-A e III-A, modelos de maior capacidade de proteção liberados para uso civil…]

    Mais em
    http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5460691-EI6578,00-Cinegrafista+foi+mandado+para+a+morte+diz+advogado+da+familia+da+vitima.html

    1. Parafraseando o radialista maluco daquele filme de fim-de-mundo…

      “Lembre-se: você leu primeiro no Pensar Não Dói!” 🙂

  12. Rafael Holanda

    08/11/2011 — 23:31

    Poxa, fiz um comentáriozinho aqui mas não apareceu.

    Deve ter sido abatido pq o Arthur não libera o código à prova de sumiço e fica mandando comentários inocentes para o limbo!

    😀

    1. Já aprovei o comentário, engraçadinho…

      Ah, a diferença que faz uma vírgula! 🙂

  13. Prezado Arthur,

    Seu artigo é sensacional, publiquei no site Outro Lado da Notícia, citando a fonte.

    Fique à vontade sempre que quiser para enviar textos e sugestões, ficaremos muito felizes em publicar e colaborar contigo sempre que quiser e/ou precisar.

    Abraços,

    Roberto

    1. Obrigado pelo comentário, pelo elogio e pelo convite, Roberto. Vamos trocar umas figurinhas, então. Mas não achei o artigo lá no teu site. Cadê ele?

  14. Concordo com você que o estado brasileiro tem aprovado Leis contra o direito do cidadão se defender.Mas tenho outras informações a declarar. É que mesmo as tropas especiais de nosso Exército(Bda pqdt), não possuem o referidos coletes de proteção adequado. Em recente episódio no qual o Exército Brasileiro foi empregado para combater os criminosos na cidade do Rio de Janeiro, a tropa não estava com coletes suficientes, pois tinham que revesar um único colete com os demais, e ainda assim as placas cerâmicas, que conferem a tal proteção nível III e IV, estavam, digo estão todas com suas validades vencidas? Pois é, o governo manda que o Exército suba os morros,fazendo com que as FAA se desvirtue de sua da obrigação constitucional, atuando como se polícia fosse e ainda não dá equipamentos nem a polícia nem mesmo as FAA. Por sorte nenhum soldado foi morto por um tiro de fuzil, pois se os marginais tivessem boa pontaria, os coletes em nada protegeriam os soldados no morro do alemão ou da vila cruzeiro.

    1. Que lástima que eu não vi esse comentário na época!

  15. Mas esse “cidadão honesto” tá mais pra coxinha-reaça-de-extrema-direita, heinhô..

  16. TV Bandeirantes e a seguraça de seus repórteres | Anonymous FUEL

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