O mais belo e útil ensinamento que a humanidade precisa aprender, fundamento de toda a ética, é a Regra de Ouro: “age em relação ao próximo como gostarias que ele agisse em relação ti”. Pouca gente percebe que “ama o teu próximo como a ti mesmo” é apenas uma dentre as inúmeras formas como esta idéia tem sido expressa ao longo dos milênios. E menos gente ainda percebe que este é um ensinamento extremamente prático, que deve ser exercitado no cotidiano.

Lucas 10 (25-37)
25. Levantou-se um doutor da lei e, para pô-lo à prova, perguntou: Mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna?
26. Disse-lhe Jesus: Que está escrito na lei? Como é que lês?
27. Respondeu ele: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu pensamento (Dt 6,5); e a teu próximo como a ti mesmo (Lv 19,18).
28. Falou-lhe Jesus: Respondeste bem; faze isto e viverás.
29. Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: E quem é o meu próximo?
30. Jesus então contou: Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de ladrões, que o despojaram; e depois de o terem maltratado com muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o meio morto.
31. Por acaso desceu pelo mesmo caminho um sacerdote, viu-o e passou adiante.
32. Igualmente um levita, chegando àquele lugar, viu-o e passou também adiante.
33. Mas um samaritano que viajava, chegando àquele lugar, viu-o e moveu-se de compaixão.
34. Aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; colocou-o sobre a sua própria montaria e levou-o a uma hospedaria e tratou dele.
35. No dia seguinte, tirou dois denários e deu-os ao hospedeiro, dizendo-lhe: Trata dele e, quanto gastares a mais, na volta to pagarei.
36. Qual destes três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões?
37. Respondeu o doutor: Aquele que usou de misericórdia para com ele. Então Jesus lhe disse: Vai, e faze tu o mesmo.

Uma vez eu e um amigo fomos acampar em uma praia quase deserta da Ilha de Santa Catarina. Pegamos um ônibus, descemos a 3km do local do acampamento, subimos um morro por uma trilha estreita, descemos o morro pelo lado oposto e descortinou-se perante nossos olhos uma das mais belas vistas da Ilha de Santa Catarina: a Lagoinha do Leste.

A praia estava completamente deserta, então escolhemos o melhor lugar para acampar, à sombra de alguns arbustos numa pequena elevação do terreno quase à beira da lagoa, e ali montamos a barraca. Estávamos seguros do sol, da chuva e de uma eventual elevação das águas da lagoa.

Usando sisal, uns bambus que encontramos cortados e alguns ramos dos arbustos, eu rapidamente construí dois bancos, uma mesa e um fogão de campanha improvisado. Demarquei com pedras uma área para a fogueira e na falta de coisa melhor para fazer catamos lenha suficiente para mais que o dobro do tempo que pretendíamos acampar e a empilhamos cuidadosamente em um local a salvo das águas.

O toque final para deixar o ambiente com cara de acampamento escoteiro foi construir uma “cerca” com uma única corda de sisal e indicar a “entrada” do acampamento com um pórtico feito de bambus. E, na falta de uma bandeira, tratei de hastear um lenço escoteiro.

Por incrível que possa parecer, todo este trabalho ficou pronto antes das duas horas da tarde. É a vantagem de ter uma idéia clara do que fazer antes de começar.

Terminada a organização do acampamento, que devia durar pelo menos de sábado a quarta-feira, quando nossas provisões alimentares chegariam ao fim, apareceu do nada uma outra dupla que se postou em frente ao pórtico e gritou: “Sempre Alerta!”

Pra quê.

Ficamos de conversa a tarde toda. E eu esqueci de passar protetor solar.

Quando o sol se escondeu atrás do morro, eu senti frio e cansaço. No início pensei que a temperatura estava caindo muito rápido, então me levantei para acender a fogueira… e percebi na hora que o esforço necessário para ficar em pé era muito maior que o razoável.

Senti um arrepio. Toquei em meus próprios ombros e face e tive medo de entrar em combustão espontânea, tão quente eu estava. A ficha caiu na hora: eu havia me exposto inadvertidamente a uma imensa insolação, já estava com febre alta, me sentia mais sonolento, cansado e doente a cada minuto e estava em um local remoto e de difícil acesso. Eu tinha que sair dali o quanto antes, enquanto ainda conseguia caminhar.

Meu amigo ficou furioso. Esbravejou, xingou e disse que não ia voltar naquele dia. Então virei para os dois escoteiros, que já estavam se preparando para voltar, e perguntei: “vocês me ajudam a guardar minhas coisas na mochila e a atravessar a trilha?” Eles disseram “é claro”.

Não consegui guardar minhas coisas de volta na mochila, porque o cansaço já dificultava meus movimentos. Enquanto faziam isso por mim, tomei um banho na lagoinha pra baixar a febre. Aquilo fez eu me sentir limpo e me revigorou um pouco. Coloquei uma camiseta folgada, bermudas e um par de tênis. Doeu para colocar a mochila nas costas.

Eu ainda estava com uma razoável disposição, o que fazia meu amigo duvidar da necessidade de sair dali às pressas, achando que bastaria uma boa noite de sono para eu me recuperar, mas eu sabia que não seria assim e insisti em voltar imediatamente para a cidade. Somente quando percebeu que ia passar a noite sozinho ali é que meu amigo decidiu nos acompanhar.

Houve três momentos tensos na trilha: um em que eu não consegui saltar um tronco com a mochila nas costas e tive que tirar a mochila, passá-la por baixo do tronco, saltar o obstáculo e recolocar a mochila nas costas queimadas; outro em que um dos escoteiros teve que me empurrar para eu conseguir transpor uma pedra e outro no qual pedi para um deles amarrar o cordão dos meus tênis, o que fez meu amigo chamar minha exaustão de frescura. Não pude nem xingar o sujeito, tive que poupar minhas energias para a caminhada restante.

Quinze minutos após terminar o sol, já sob as luzes do vilarejo próximo, chegamos à parada de ônibus que nos levaria de volta ao centro de Florianópolis. Mais quinze minutos de espera e o ônibus chegou. Não tive forças para subir. Tive que ser içado para dentro do ônibus pelo motorista e por um passageiro que se ofereceu para me ajudar.

Deste momento em diante minhas lembranças são confusas. Lembro que minha mochila foi colocada no meu colo e que eu não consegui segurá-la, deixando-a cair no chão do ônibus. Lembro que desci do ônibus de costas, segurando a mão do motorista, que queria me levar para o hospital, e sendo amparado por um dos escoteiros, que me ajudou a me firmar em pé, porque minhas pernas dobravam sozinhas contra minha vontade.

Lembro de chegar (não sei como) em frente ao prédio onde morava um amigo do meu amigo. Lembro de subir parte das escadas de quatro. Lembro de um desconhecido me ajudando a sentar no sofá do apartamento do amigo do meu amigo, o que indica que algum vizinho deve ter me ajudado a subir as escadas até o primeiro andar. Lembro de meu amigo reclamar o tempo todo e dizer para o amigo dele que me deixasse dormir que no dia seguinte eu iria embora. Lembro que o outro duvidou que eu conseguisse me levantar no dia seguinte, mas disse que eu podia ficar no sofá da sala.

E lembro que, quando meu amigo saiu, eu entreguei minha carteira para o outro e disse: “Presta atenção. Compra um termômetro e um anti-térmico em gotas, não me deixa passar dos 38°C e me faz tomar um litro de leite, um litro de água e duas gramas de vitamina C nas próximas doze horas. Amanhã, se eu não conseguir falar, me leva de táxi pro hospital e liga pra este número.” Aí desabei de vez.

Acordei no final da tarde do dia seguinte com uma senhora passando um creme hidratante nas minhas costas. Era a vizinha do andar de cima, que tinha um filho pouco mais velho que eu e veio ver como eu estava quando ouviu a história circulando pelos corredores do prédio. Óbvio que eu descobri isso depois, porque na hora mal conseguia acordar para tomar os remédios, beber água e ao custo de muito esforço ir até o banheiro sem cair no caminho.

Ao longo dos dias seguintes, dormi mais que um bebê recém-nascido. Não tinha fome, somente sede. Bebia leite, água e suco de laranja, alternadamente. Descasquei como uma cobra trocando de pele. Mas acabei me recuperando, como é óbvio pelo fato de eu estar aqui a relatar o ocorrido.

Quem foi o meu próximo? O meu amigo? Ou os dois escoteiros, o motorista do ônibus, o outro passageiro, o vizinho que me ajudou a subir a escada, o desconhecido que me recebeu em sua casa e a vizinha que cuidou de mim como se fosse um filho?

As grandes questões éticas da humanidade não são somente aquelas que erigem nações e derrubam impérios, elas estão ao alcance de nossas mãos aqui e agora, manifestando-se em cada pequeno gesto que fazemos em relação ao outro.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 07/11/2011

14 thoughts on “A Parábola do Bom Samaritano na prática

  1. Ótimo texto. Se todos doassem alguns minutos de suas vidas para tentar entender essa linha de pensamento, todos os males (ou ao menos a grande maioria) estariam ou resolvidos ou seriam ao menos evitados. A sociedade está precisando de um pouco mais de humanidade de fato.

    1. Obrigado, Joelson. Seria bom se nossos políticos aprendessem essa lição, não é mesmo?

  2. As coisas grandes,na verdade são as pequenas.

    Ajudar quem estiver pecisando,e se não souber….gritar por ajuda.

    1. Isso também, isso também.

  3. E a sua relação com esse “amigão”, deu uma balançada?

    1. Balançou e caiu um tempo depois. Não falo mais com ele.

  4. Digamos que a falta de cortesia e a perda de respeito pela vida do outro é o maior problema nos dias atuais. É comum ver duas pessoas que arranham os faroletes do carro um do outro e acabam fechando um trânsito e causando um engarrafamento de dois quilômetros enquanto esperam a perícia. Ou pessoas que ouvem forró bem alto achando que está no seu direito de obrigar os outros a dividir a mesma música que ele. É como se o mundo todo ficasse cada vez mais egoísta.

    1. Essa do forró me fez lembrar de uma ex-vizinha…

      É bem isso mesmo, Félix: as pessoas estão cada vez mais individualistas e egoístas.

      Era uma vez um amigo meu e sua namorada. Os dois (diziam que) eram apaixonados, mas não assumiam um noivado porque cada um tinha uma proposta de emprego numa cidade diferente e nenhum dos dois sequer cogitou abrir mão do próprio emprego para formarem uma família. Acabaram se separando. Pouco tempo depois ambos foram demitidos e voltaram a namorar. Assim que ambos começaram a trabalhar novamente, separaram-se de novo, pelo mesmo motivo.

      Dá pra imaginar inversão de valores maior num relacionamento supostamente amoroso?

    2. Essa inversão ocorre pq ninguém mais se vê como dois em um casal, cada qual se vê como um. É como a alegação de Joseph Campbell sobre o casamento:

      “o casamento é uma provação que consiste em basicamente perder-se numa polaridade mais alta: o relacionamento andrógino. Acho que um dos problemas no casamento é que as pessoas nem sempre sabem o que ele é. Pensam que é um longo caso de amor, mas não é. O casamento nada tem a ver com felicidade. Tem a ver, isto sim, com uma transformação pessoal, e, quando ela acontece, é uma experiência magnífica. Mas você tem de se submeter. Tem de ceder. Tem de dar. Não pode só ditar” (E por falar em mitos, pág. 57).

    3. No que diz respeito aos relacionamentos, eu costumo dizer que todo relacionamento amoroso é necessariamente composto por três pessoas: “eu”, “tu” e “nós”. Qualquer uma delas que falte faz desandar tudo.

      Se falto “eu”, ou se faltas “tu”, é porque uma das pessoas se anula – e assim o relacionamento se torna um terrível exercício de “solidão acompanhada” pelo outro. (Sabe quando a gente pergunta para a namorada “que filme vamos ver?” e ela sempre responde “qualquer um” ou “tanto faz”? Pois eu já vivi uma coisa assim e nem folheada a ouro eu quero outra mulher desse tipo.)

      E, se falta o “nós”, é porque a relação se tornou uma mera troca de egoísmos a dois. Funcionará enquanto ambos estiverem satisfeitos, naufragará assim que um dos dois perder o interesse – e isso não afetará muito o outro, não. (Também já vivi algo assim, embora sem saber, porque a grande desgraça é que muitas vezes um dos dois é iludido em relação à existência de um “nós”. É outro tipo de experiência que eu prefiro não repetir.)

    4. Eu acredito que o que ocorre hoje no mundo é ainda mais grave, principalmente dentro da relação entre crença e prática.

      Por exemplo, percebo que as coisas estão invertidas nas religiões. Para a maioria legalista, é algo tremendamente condenável alguém seguir os princípios éticos e deixar de lado a meditação, a reza, o ritual ou a fé. Para esses mesmos, é algo tremendamente natural praticar a meditação, a reza, o ritual e ter fé, e não seguir os preceitos éticos. Darei o exemplo do que ocorre no Zen: para a maioria dos zen-budistas é tremendamente condenável ir à África ensinar matemática à criançada e por causa disso deixar de fazer zazen. Mas a maioria dos zen-budistas acha perfeitamente normal fazer zazen após uma noite egoísta e egótica na balada, enquanto a criançada na África continua esfomeada e ignorante.

      Essa inversão ética é a que leva os evangélicos a lançarem sua confiança em Silas Malafaia, que leva Budistas a entrarem em confronto com policiais na Ásia, ou que joga muçulmanos contra prédios em grupos terroristas. O problema é que essa inversão ética é encarada como algo normal pelos praticantes dessas religiões.

    5. Sim, no final das contas o rito sempre acaba sendo mais importante que o próximo. O absurdo chega ao ponto de haver quem amaldiçoe aquele que não pratica o rito, erigindo entre si e o outro uma barreira tão grande quanto a que existe entre o céu e o inferno. Só que os que fazem isso não percebem de que lado desta barreira estão realmente…

  5. Rafael Holanda

    11/11/2011 — 23:26

    Eu sempre digo que a minha experiência na religião evangélica foi importante por dois motivos.

    O primeiro é que eu percebi que este é um dos ensinamentos que norteiam as ações de uma pessoa íntegra. Passei a acreditar tb que, se existe um paraíso, não será a “fé pela fé” que salvará os justos, mas sim as ações que praticam a fé e respeitam este pensamento.

    A segunda é que “agir para com o outro como vc gostaria que agissem com vc” é uma das coisas mais difíceis de fazer. Tanto que percebi que, no meu antigo meio religioso, nunca vi ninguém a praticando.

    1. Rafael, eu já vi irmãos roubarem um do outro. Cheguei finalmente à conclusão de que o caminho estreito é muito mais estreito do que sonha o Paul Washer.

      http://www.youtube.com/watch?v=N5lw809gB94 (Show de COERÊNCIA. Discordo de certas interpretações dele, que ele não deve perceber serem influenciadas pela cultura predominante na Igreja Batista do Sul, mas admiro a coerência do sujeito.)

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