Causa e efeito. A vida não é um jogo de pedra-tesoura-papel em que escolhas aleatórias são bem ou mal sucedidas em confronto com eventos também aleatórios. O peso que você tem hoje é resultado de suas escolhas quanto à dieta e atividade física no passado. O emprego que você tem hoje é resultado de suas escolhas quanto a estudos e esforço em capacitação. Os amigos que você tem hoje são resultado de suas escolhas de que círculos sociais você decidiu freqüentar. Não que não exista aleatoriedade, mas você não se tornará um bom tecladista tocando bumbo. 

escolhas

Os indivíduos

No nível individual, eu vejo as pessoas escolherem vidas insuportáveis e sem sentido, reclamarem o tempo todo de suas existências miseráveis e no entanto insistirem em manter tudo exatamente como está mesmo quando lhes são oferecidas chances únicas de mudar de vida.

Tive uma amiga, vinda de família rica, que teve a oportunidade de estudar nas melhores escolas, que ganhou um apartamento e um carro zero km e que recebia uma mesada maior que meu salário, que jogou tudo isso fora e se tornou moradora de rua, passando a se prostituir e roubar os clientes para sustentar o vício no crack. A família dela a procurava com freqüência, pedindo que ela aceitasse ajuda para abandonar o vício, mas ela dizia que “esse vício é o menor dos meus problemas” e rejeitava o contato. Acabou morta em uma briga fútil na saída de um bar, esfaqueada diversas vezes no peito e nas costas.

Quando eu a conheci, ela estava bem. Fazia parte de um círculo social de boa cultura. Era querida e respeitada pelos amigos. Pouco a pouco veio a degradação, um passo após o outro, numa espiral descendente inexorável. Começou a sumir por alguns dias, depois voltava imunda, desidratada e faminta. Deixou de se cuidar, passando a vestir andrajos. Roubou dinheiro e celulares dos amigos. Foi abandonada por quase todos. Tornou-se prostituta de rua e ladra profissional. Foi presa três ou quatro vezes. Em todas estas vezes, a família e os amigos a procuraram. Em vão. Tinha ódio do mundo e de si mesma – e morreu devido a um gesto de ódio.

Toda vez que eu tentava conversar a respeito da vida horrível que ela decidiu viver, ela dizia apenas que “há coisas que não há como explicar”, ficava com o olhar distante por alguns instantes e então mudava de assunto. Se eu insistisse, ela dizia apenas “por favor!” e eu entendia que não adiantava insistir. Respeitei o espaço dela enquanto pude, até o dia em que comuniquei que não agüentava mais assistir ao show de horrores de auto-mutilação e auto-destruição que ela apresentava e portanto estava me afastando. Ela compreendeu, disse que estava tudo bem e que eu ficasse tranqüilo porque ela me ligaria se precisasse. Tirei trinta dias de férias e ao voltar recebi a notícia de sua morte.

Eu pergunto: por quê? O que a impedia de receber o afeto da família e dos amigos? O que a impedia de agir com boa vontade em relação aos outros, preferindo roubar a conquistar honestamente? O que a impedia de ser boa consigo mesma e com os outros? Não sei. Não consigo entender. E acho assustador. Mas sei que ela traçou seu próprio destino, mais ninguém.

As famílias

Se existe uma palavra que poderia agregada à palavra “família” em 90% de suas ocorrências, esta palavra é “disfuncional”. Não estou me referindo a um tipo específico de família, não: da conceituação mais tradicional aos mais novos e excêntricos modelos de família existentes, praticamente todas estão em crise. E é assim que elas querem continuar.

Conheço uma “família” em que o “marido” perdeu o interesse pelo sexo, mas cultiva um ciúme doentio e exacerbado pela “esposa”. A “esposa”, por sua vez, tem interesse em sexo e em outros homens, mas não abre mão do “relacionamento” devido ao contracheque de cinco dígitos do “marido”. Vivem um jogo de gato-e-rato: ele vigiando e tentando controlar cada passo dela, ela imaginando as mais absurdas estratégias para se livrar da vigilância e das tentativas de controle dele.

Os filhos dos dois, enquanto isso, são criados em um ambiente francamente hostil, marcado pelos abusos paternos e pela submissão e hipocrisia materna, exigindo toneladas de gastos com escolas especiais, apoio pedagógico, professores particulares e psicólogos para sobreviver ao inferno “familiar”.

É o legítimo jogo de perder-perder-perder: ele não tem uma esposa fiel, ela não tem um marido viril e os filhos não têm pai nem mãe. Entretanto, qualquer sugestão de que o “marido” ou a “esposa” vão se tratar com um psicólogo é rechaçada com franca estupidez, ambos se unindo para condenar a “tentativa de interferir na família deles”.

Eu pergunto: por quê? Por que a única coisa que consegue unir os dois é uma “ameaça” externa que insista em jogar luz sobre o fato de eles estarem destruindo não somente as próprias vidas, mas também as vidas dos próprios filhos? Por que não são capazes de ajudar um ao outro nem tampouco de receber qualquer ajuda da família, dos amigos ou de profissionais para deixarem de viver uma permanente guerra cotidiana? Não sei. Não consigo entender. E acho assustador. Mas sei que eles traçaram seus próprios destinos, mais ninguém. Tenho pena dos filhos deles, que só poderão fazer escolhas depois de internalizar muitos abusos.

As empresas

Muita gente reclama do chefe, ou dos colegas. Eu costumava ouvir estas histórias com interesse, penalizado com a situação de amigos, colegas de aula e de trabalho, mas mudei de atitude quando percebi que quase invariavelmente – conheço apenas duas exceções, uma delas eu mesmo – as pessoas simplesmente não estão dispostas a mudar uma única vírgula de seus “planos” (permanecer trinta e cinco anos “em segurança” no inferno). E também não estão dispostas a mudar de atitude para transformar o inferno em um lugar mais razoável.

Conheço uma empresa em que um dos diretores é eleito a cada dois anos pelos funcionários. Concorrem os próprios funcionários. Certa vez foi eleita uma funcionária muito simpática e prestativa que se revelou uma verdadeira megera ao exercer o cargo de direção. Não levantava a voz com ninguém, mas fazia ameaças em tom suave e debochado, desconsiderava todo e qualquer parecer técnico que discordasse do que ela mesma já havia decidido, criava problemas para os chefes das seções sob sua autoridade, era autoritária, inflexível e tomava inúmeras decisões erradas por não ouvir os subordinados, jogando depois a culpa neles pelo que dava errado.

Pois essa pessoa foi eleita quatro vezes seguidas pelos funcionários, permanecendo oito anos no comando de centenas de pessoas prejudicadas por ela.

Eu pergunto: por quê? Por que, mesmo recebendo um grande apoio de seus colegas, esta pessoa os tratou de modo tão desrespeitoso e intolerante? Por que ela não aproveitou a oportunidade que lhe foi dada para construir uma rede de apoio que a catapultasse ainda mais para cima, levando consigo a instituição inteira a um patamar de competência e produtividade muito mais elevado? E por que os funcionários continuaram dando murro em ponta de faca mantendo a megera no cargo por oito anos, quando o caráter dela ficou evidente ao final do primeiro ano? Não sei. Não consigo entender. E acho assustador. Mas sei que todos eles traçaram seus próprios destinos, mais ninguém.

A política

Ó, céus! Preciso mesmo falar sobre ser bom na política? Bem, já que fui eu mesmo quem levantou a lebre, vale um parágrafo. O que leva uma pessoa a fazer política? Fazer algo positivo pelo povo, devido a um grande senso de responsabilidade social, certo?

[Pausa para as gargalhadas.]

Pois é. Não consigo entender isso acima de tudo. E acho muito, muito, muito assustador. Até porque é um caso semelhante à tripla reeleição da megera: o povo simplesmente insiste em escolher os piores caminhos possíveis com uma freqüência que em muito supera o simples acaso. É uma tendência sólida e nítida. Alguém me explique, até porque nesse caso as pessoas decidem o próprio destino e também o destino dos outros, que nem sempre podem emigrar. É bem mais complicado.

Conclusão

Alternativas existem aos milhares para a maioria das situações. Minha amiga poderia ter aceitado conversar com um psicólogo duas vezes por semana, como os pais dela ofereceram. Aquele casal poderia ter feito o mesmo, dinheiro para isso eles tinham. Os funcionários da tal empresa poderiam eleger outra diretora, e os descontentes poderiam trocar de local de trabalho. Na maioria dos casos – exceto na política – é possível mudar de vida tomando algumas decisões simples. Mas na maioria dos casos as pessoas não fazem isso.

O motivo pelo qual as pessoas preferem a certeza do fracasso e da desgraça ao invés da possibilidade de sucesso e de felicidade é algo totalmente incompreensível para mim.

Eu estou abandonando o serviço público (fim do ano, fim do vínculo) para poder me dedicar à família, aos amigos, à saúde, ao lazer, aos livros, à música e a meus projetos. Todo mundo com quem eu falo me desaconselha abandonar o salariozinho garantido no final do mês, a aposentadoriazinha garantida, e me chamam de louco quando eu digo que quero mais da vida.

Tudo bem, podem me chamar de louco à vontade.

Mais louco é quem me diz que não é feliz.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 10/11/2011

51 thoughts on “O que nos impede de fazer boas escolhas?

  1. Bom, dar uma guinada na própria vida é coisa que muitos sonham, mas coragem…, ah essa tal de coragem…Deixa muitos a “ver navios”. Eu mudei, englobei as questões 1, 2 e 3 do post ao mesmo tempo. Mudei de vida, deixei um casamento que me aprisionava e com isso, 22 anos de trabalho árduo e tudo o que ajudei a construir, firma, casa, carro, a tal segurança… Bem, eu não estou arrependida, de forma alguma, esse recomeço depois de tanto tempo de “marasmo” até mesmo intelectual fez com que eu percebesse que sou mais capaz do que eu imaginava, mesmo sem “eira nem beira” consegui forças pra comprar uma firma nova firma, recomecei os estudos e cursos, mas vou confessar, não é fácil, dói, dói muito, o pior é pensar que devia ter feito isso muito antes…Mas coragem de enfrentar o desconhecido não é fácil, vencer se torna a única opção pra quem não pretende voltar atrás…
    E quanto a política, bom, vamos lá – onde moro teve esses dias eleição para conselheiro tutelar, e escutando uma conversa de uma tal candidata percebi que seu maior interesse era o salário, ela nem se interessava por saber quais as funções que deveria desempenhar e jé presenciei, vários candidatos a vereador arquitetando campanhas com o mesmo objetivo e como muitos começam por aí, já vemos onde vai dar. Como eles se elegem? Ora, são absolutamente convincentes de que vão fazer alguma coisa pra mudar, senão a vida dos outros, a sua própria, aí aqueles que tem alguma dúvida acabam por acreditarem nos mais confiantes por parecerem mais confiáveis.

    1. “vencer se torna a única opção pra quem não pretende voltar atrás”

      Bá, cheguei a sentir um arrepio aqui! 😐

  2. É muito mais cômodo ficar no status quo do que encarar o imprevisível. Muita gente raciocina assim.

    1. O grande problema de quem prioriza a segurança em relação à liberdade é que na maioria dos casos isso provoca estagnação. Pouca gente lembra disso.

  3. Aprenda a Tomar Boas Decisões | I met a traveller from an antique land
    1. O videozinho logo abaixo da citação do meu artigo é legal.

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