Espelhando a terrível realidade do recrudescimento do fascismo na cultura e na política em todo o planeta em pleno início de século XXI, a medicina tem se tornado também a cada dia mais alinhada com essa monstruosa visão de mundo. Confira neste texto (escrito às pressas e sob a emoção de acontecimentos dramáticos) os apuros passados pelo autor do blog quando se viu fragilizado e dependente de um sistema médico em que a saúde e o bem estar do ser humano são cada vez menos os objetivos e cada vez mais um estorvo para a autoridade dos detentores do poder de mitigar ou intensificar a dor, de curar ou matar. [Cabeçalho acrescentado em 17/12/2011.]

Quando eu digo que nossa sociedade está se tornando cada vez mais fascista, a maioria das pessoas reage dizendo que eu estou “exagerando”. Então eu pergunto a elas: qual é o lema do fascismo referente à relação entre o indivíduo e o Estado? E a maioria não sabe. Pois aqui lhes apresento: “Não há indivíduos fora do Estado, nem grupos (partidos políticos, associações, sindicatos, classes)”.

Ora, se não há indivíduo fora do Estado, de suas normas, de suas prioridades e de suas orientações, então simplesmente não há indivíduo, porque absolutamente nenhuma demanda individual é lícita ou sequer legítima. E a medicina de hoje assim se tornou.

Na última quinta-feira eu tive uma nova recidiva de um problema de saúde recorrente. Mesmos sintomas de sempre, mesma evolução de sempre, enfim, mesmíssimo quadro clínico de sempre. Como a situação era a mesma de sempre, tomei a mesma atitude de sempre: corri para a emergência de um grande hospital de Porto Alegre, para onde sempre me dirijo nestes casos (e em qualquer outro, na verdade) nos últimos vinte e cinco anos no mínimo, já sabendo o que ia enfrentar como sempre.

Toda vez que chego na emergência e informo que já conheço meu diagnóstico eu preciso enfrentar a mesma encheção de saco: administrar o ego do médico da emergência, que insiste em investigar pela trocentésima vez uma condição que ele deveria saber que é crônica. Cansei de ouvir que “o médico sou eu” e outras pérolas de arrogância e prepotência, como se pelo fato de eu não ter um diploma em medicina eu fosse tão imbecil que não pudesse conhecer nada a respeito de saúde humana ou de minha própria condição clínica.

Desta vez não foi diferente, mas com um agravante sério: de algum tempo para cá, a medicação de que dependo para resolver o problema só pode ser adquirida com retenção de receita. Isso significa que eu perdi (e você também perdeu) a possibilidade de resolver meu problema sem a autorização de um médico. Ou seja, a minha saúde não é mais minha, a minha saúde passou a ser propriedade do médico, que dispõe dela como bem entender, sem que eu possa fazer nada a respeito caso o profissional do outro lado da mesa seja um imbecil arrogante e prepotente. E na última quinta-feira a médica que me atendeu era uma imbecil arrogante e prepotente.

Assim que informei que meu problema se tratava de uma recidiva de uma situação crônica, a tal médica torceu o nariz e disse que “isso eu é que vou verificar”. E decidiu que o exame clínico e a minha palavra não eram suficientes eu teria que me submeter a um exame caro, desagradável e inútil. Minha saúde, meu dinheiro, minha dor, minha paciência e a decisão era dela. Impossível argumentar, impossível demovê-la, impossível sequer solicitar que a desgraçada simplesmente abrisse meu prontuário há vinte e cinco anos cadastrado, com todos os registros prévios.

Ego. Eu lá com dor, sabendo que quanto mais demorasse para tomar o medicamento necessário maior o risco que eu correria (trata-se de algo facilmente tratável quando rapidamente identificado, mas que complica rapidamente sem tratamento) e a infeliz colocando seu maldito ego medíocre acima da minha saúde. E eu ali impotente, porque preciso apenas e tão somente da maldita receita, enquanto do outro lado da mesa há um ego medíocre exigindo ser valorizado.

Pedi para falar com outro médico, é claro. Sabem o que me disseram? Que “não seria ético” eu ser atendido por outro profissional, porque jamais o outro profissional poderia recomendar um procedimento diferente de sua colega. Ou seja, ficou claro para que existe “ética médica”: serve para que nenhum profissional possa agir racionalmente e consertar a estupidez do outro. Se um profissional diz uma estupidez e o outro fica sabendo, sua obrigação não é defender a saúde do paciente, é agir em defesa do corporativismo da classe médica e que se dane se o paciente não tem outra opção a não ser morrer estrebuchando de dor.

Também não adiantou nada me reportar à ouvidoria do hospital, nem tampouco chamar o capacho administrativo que supostamente é o “administrador da emergência”, porque na ouvidoria eu expliquei o que houve para um atendente no balcão e o ouvidor ouviu tudo de dentro de uma salinha contígua e nem quis me atender, mandou uma subalterna me encaminhar para falar com o tal capacho – que se limitou a repetir feito um papagaio que a médica “tinha que investigar” aquilo que estava registrado há anos no meu prontuário.

A solução qual foi? Tive que chamar alguém para me levar às pressas para outro hospital, onde tive que aguardar mais uma hora pelo atendimento e explicar tudo de novo para outro médico, que Graças a Deus foi suficientemente inteligente e sensível para entender que o tal exame era desnecessário naquele momento e que o que eu precisava era realmente ser medicado o mais rápido possível.

Mas e se ele também tivesse insistido no tal exame?

O que aconteceria seria o seguinte: como eu não tinha o valor absurdo, abusivo e extorsivo do tal exame disponível (que tem que ser pago à vista), eu teria que escolher entre aguardar o atendimento pelo SUS, o que demandaria mais algumas horas sem medicação, depois teria que aguardar mais algumas horas sentindo dor até que o equipamento do exame estivesse livre, teria me submeter ao desconforto e à agressão ao organismo que o tal exame causa, e se tivesse muita sorte conseguiria a receita para a medicação necessária antes do raiar do dia seguinte, com quase vinte e quatro horas de agravamento de meu quadro clínico por pura estupidez de um sistema fascista que me rouba o direito de tratar da minha própria saúde sem me submeter à autoridade e aos caprichos de profissionais medíocres de ego inflado.

Claro, eu não sou obrigado a me submeter ao sistema. Sempre existe a liberdade de morrer estrebuchando de dor para não se submeter. Tudo devidamente respaldado pela lei, pelas normas da classe médica e por uma cultura cada vez mais fascista na qual não faltará quem “argumente” que “tem que ser assim porque eu não sou médico”, como se seres humanos só desenvolvessem neurônios após adquirir um diploma.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 06/12/2011

OBS: por favor, desculpem a formatação fora do padrão, a agressividade do texto e a falta de revisão, mas pra completar a desgraça a alimentação elétrica do meu notebook resolveu pifar e eu tive que escrever todo o artigo numa penada só e tratar de publicá-lo antes que a bateria se esgotasse, o que está acontecendo no exato momento em que escrevo estas palavras. Até breve, se Deus quiser.

 

21 thoughts on “Medicina degenerada

  1. Péssima educação superior feita em Uniesquinas da vida + arrogância do profissional que se acha grandes merda só PUQUÊ EH MÉDICU = caos.

    Eu já desisti dos profissionais da saúde. Felizmente não tenho nada grave, mas no dia em que tiver espero que haja tecnologia suficiente pra eu fazer upload da minha mente para um microchip. Tudo bem que a ausência do corpo vai me privar de certos prazeres (comer, por exemplo. Nos 2 sentidos), mas é por uma boa causa porque não precisarei de médicos. Só de engenheiros pra manter meu circuito ligado 24h.

    1. Ri horrores. 🙂 Mas devia chorar. 🙁

  2. Damos todo nosso poder para o Estado fazer o que quiser conosco,merecemos!

    1. É, a ignorância e o descaso da maioria produzem isso. Por isso que eu sempre digo que a democracia representativa é um sistema com forte tendência intrínseca de descambar para o fascismo.

  3. O Estado já é dono da nossa vida – nada mais justo que ele se achasse dono da saúde entre outras coisas.
    Se essa questão do SUS é complicadíssima pra você que que tem voz, que domina as palavras, imagina para milhões de brasileiros humildes de posses e espírito que são obrigados a enfrentar esse sistema de (doença) saúde.
    É realmente lamentável, eu eu protelo o que posso pra não utilizá-lo.

    1. Lunah, o problema é que essa aberração não depende de ser no SUS, ou via convênios, ou no atendimento privado. A legislação coloca nossa saúde como propriedade do médico, que tem soberania sobre nós em qualquer esfera.

  4. Eu nao entendi:
    -o que um mau atendimento no sistema privado tem a ver com o estado.
    -por que um problema de saude cronico e’ tratado na emergencia.
    -por que o tratamento do sintoma agudo de um problema cronico (nao de sua causa) precisa esperar por resultados de exames de alto custo.
    -por que o paciente nao procurou o seu medico (ja que nao e’ usuario do sus) antes de mais nada. Se for apos horario de trabalho ou em feriados e’ responsabilidade do seu medico de providenciar cobertura para imprevistos.
    -por que o funcionario publico nao usou seu convenio para pagar pelo atendimento, inclusive exames de alto custo.

    1. Eu explico:

      1. Não se trata de mau atendimento. Trata-se de soberania pessoal. A legislação roubou a soberania pessoal do cidadão para decidir sobre sua própria saúde. Independentemente de ser atendido no SUS, no convênio do IPE (Instituto de Previdência Estadual) ou na rede 100% privada, eu não posso nem sequer comprar o medicamento que eu sei que preciso sem convencer um terceiro a me fornecer uma autorização de compra (eufemisticamente chamada de “receita”).

      2. O problema de saúde crônico em questão é atendido na emergência porque ele passa anos sem dar sinal de existência e de repente explode em dor, exigindo atendimento de emergência. É absolutamente impossível monitorar a situação periodicamente para prevenir a crise. A única coisa a fazer é correr para uma emergência. Exatamente por isso há 25 anos eu me dirijo sempre ao mesmo hospital, onde há um extenso prontuário com um histórico (quase) completo, ou eu teria que me submeter a exames caros, desagradáveis e potencialmente danosos á saúde para “investigar” as causas da dor quando ela aparece – exatamente a estupidez que a tal médica insistiu em cometer.

      3. O tratamento do sintoma é fácil: analgésico. Afinal, o único sintoma no primeiro estágio da crise é dor. O problema é que isso só mascara o problema, que se agrava muito rapidamente.

      4. Eu não tenho “o meu médico”, tanto quanto não tenho “o meu eletricista” ou “o meu encanador”. Quando algum dos meus fios ou tubos dá pane, eu procuro um profissional especializado para resolver o problema.

      5. Eu usei o convênio. Mesmo assim o exame custa os olhos da cara, porque o convênio não cobre 100% dos gastos. E, caso cobrisse, isso não resolveria o problema de que o exame per si era desnecessário (porque eu já sabia o que era) e agressivo ao organismo.

      Vou dar um exemplo (meio forçado, mas a lógica é a mesma) para entenderes como vejo a coisa, Paulinha:

      Imagina um cara com anemia falciforme. Ele chega no hospital em que se trata há 25 anos e diz para o novo plantonista “eu tenho anemia falciforme, preciso de transfusões de sangue periódicas e está na época da próxima transfusão”. Aí o médico diz “isso eu é que vou verificar” e pede um exame de sangue.

      Lógico que nesse caso não é um exame caro e com certo risco, mas… faz sentido levar uma agulhada desnecessária? E não achas que é humilhante ter que se submeter a uma imbecilidade dessas para poder receber a extremamente necessária transfusão?

      O fato é que o médico deveria ser apenas um profissional contratado para resolver um problema que eu não sei resolver – quando eu não souber resolver – do mesmo modo que um eletricista ou um encanador.

      Se eu souber calcular que disjuntor utilizar para garantir a segurança de um equipamento, porque sei que a intensidade I da corrente elétrica é definida como a razão entre o módulo da quantidade de carga ΔQ que atravessa certa secção transversal do condutor em um intervalo de tempo Δt e portanto sei efetuar o cálculo necessário para escolher o modelo adequado, então eu não preciso contratar um eletricista, posso eu mesmo resolver o problema.

      Do mesmo modo, se eu sei que tenho a condição clínica X e para resolver as crises que ela provoca basta adquirir o medicamento Y, eu não deveria ser obrigado por lei a contratar alguém para fazer aquilo que eu sei e posso fazer sozinho, e muito menos eu deveria ser obrigado por lei a aceitar que o sujeito escolha que tipo de disjuntor eu tenho que instalar no meu próprio corpo – nem mesmo se ele pagasse o “disjuntor”, o que também não ocorre.

      Veja como é: o corpo é meu, a saúde é minha, o dinheiro é meu, mas quem toma as decisões não sou eu – isso não é razoável, nem eticamente sustentável.

      Ah, claro: se eu decido, a responsabilidade é minha. Nada mais justo. Portanto, se eu insistir em usar a medicação errada, eu que me dane. Se eu não quiser consultar um profissional certificado na área, porque acho que posso dar conta do recado sozinho, é problema meu.

      O médico só deveria ter poder – e responsabilidade – pelos seus pareceres (caso solicitados) e pelos procedimentos que executar (caso solicitados). Então, se eu acho que não dou conta do recado sozinho, vou procurar um médico, vou ouvir a opinião dele e contratar seus serviços e cobrar resultados, do mesmo jeito que faria com um eletricista ou encanador. Ou eu não tenho nem o direito de reclamar se meus fios ou tubos queimarem ou vazarem devido ao mau trabalho do médico? Que loucura é essa que tornou o médico Deus e Senhor Proprietário da minha saúde, com o direito de tomar todas as decisões, e não me dá nem o direito de cobrar resultados, tendo que me contentar com o parecer dele e de seus pares sobre a qualidade dos próprios serviços mesmo que eu não fique contente?

  5. Se quiser escreva pro meu email, Arthur. No geral concordo com o que você escreveu, mas sem saber o que você tem fica mais difícil dar opinião. Ou(quem sabe) sugestões.

    1. Eu não quero tornar a informação pública para poder manter o debate em torno da tese sobre o sistema de saúde e os poderes abusivos do médico. Se eu contasse “o problema é tal”, o debate descambaria para a particularidade do meu problema de saúde ao invés de manter o foco na questão principal. Mas agradeço o interesse e a disponibilidade.

      Tu usas Facebook ou Orkut, Gerson? Podes me adicionar num desses?

    2. Já foi 🙂 .

    3. Beleza. 🙂 Adiciona o perfil do Pensar Não Dói também… Isso ajuda a divulgar. 🙂

  6. Tenho duas primas médicas, mas isso não me faz deixar de odiar esses profissionais. Culpa dessa nossa cultura atrasada que endeusa essas profissões.

    1. Médicos, advogados e engenheiros conseguiram uma reserva de mercado sufocante, que coloca o cidadão numa condição de submissão forçada absolutamente ilegítima. Assim como não podemos nos automedicar sem a autorização de um médico, não podemos representar nossos próprios interesses sem a autorização (e dependência da competência e do comprometimento) de um advogado nem construir a casa em que vamos morar sem a autorização de um engenheiro. Isso sem nem falar do alto custo de cada um desses profissionais, afinal de contas não temos alternativa.

      Mas vai falar para o povão que isso é fascismo. Vão te olhar com cara de ponto de interrogação e dizer que “tá certo, se você não é médico, tem que obedecer o que o médico diz, é pra isso que ele estudou medicina” – um completo non sequitur que virou senso comum. (E claro que também não adianta explicar que isso é um non sequitur, porque isso é grego para o povão.)

  7. Arthur, com certeza.

    intromissão do estado em vidas privadas

    Lei da palmada: Essa lei não distingue admoestação da tortura. Não faz diferença entre educação rígida e violência. Dar ao estado direito de entrar na sua casa para tomar do patrio-poder é loucura.

    Perda de pátriopoder, perda do direito da propriedade, desarmamento, tudo isso faz parte do socialismo.

    Dar de presente o patriopoder para o estado é só um forma de se descompromissar na formação de cidadãos. O brasileiro vai se tornar só um reprodutor, um fazedor de bandido, vagabundo e escravo do sistema.

    Não sejamos idiotas de abrir mão do regime que formou nosso carater por causa dessa ditadura permissiva do politicamente correto.

    A politização do judiciário nada mais é do que a sujeição do direito aos poderes políticos dominante.

    Concessôes de tv na mão do governo, se os meios comunicação falar mau, denunciar ou não fazer algo que governo quer, não renovam a concessão. Nunca vi emprensa livre amordaçada ao governo, exatamente é um imprensa livre que denuncia os abusos do governo conta cidadao, como nos EU onde qq um pode ter sua emissora livre sem ligação estatal.

    Ainda é. Mas esse pessoal quer sujeitar o ordenamento jurídico a seu gosto. A politização do judiciário nada mais é do que a sujeição do direito aos poderes políticos dominante. Pergunto-lhes: quem integra o poder político dominante, atualmente?? Exato, esse pessoal de esquerda. Por isso eles pregam o desapego às normas e leis (exceto aquelas que foram por eles criadas, evidentemente). Assim sendo, na teoria esquerdista, a legislação objetiva valeria menos do que um sentimento subjetivo de classes, por exemplo. Um pai de família honesto e trabalhador, que por descuido deixasse de pagar alguns impostos de sua empresa, fosse considerado “burguês” seria tratado com mais rigor do que um assassino, estuprados confesso, desde que este fosse considerado “proletário”.

    por fim a lei objetiva não valeria nada, ficaríamos a mercê de magistrados petistas e malucos, com plenos poderes sobre nossas vidas privadas.

    para mais informações convido os amigos a estudarem o chamado “Direito Alternativo”. É uma corrente declaradamente socialista, que prega justamente essas “maravilhas” que acabei de citar.

  8. Muitos dos problemas elencados no teu comentario seriam resolvidos se fosses levemente menos auto-suficiente, e tivesses elegido um clinico geral para cuidar de ti. Isto ‘e o que eu faria. Fora da urgencia tens tempo de sobra para consultar 1, 2, 3 profissionais e eleger aquele com quem te das melhor, quem confias. Entao na hora da crise, aquele profissional seria o primeiro a ser contatado. A relacao medico paciente ‘e potencialmente uma relacao muito rica, mas pode ser desastrosa se ocorrer pela primeira vez, numa situacao de urgencia, quando os niveis de toleracia e de confianca nao sejam otimos.

    Apos ler a tua reposta `as minhas perguntas, eu suspeito que boa parte da reclamacao com o atendimento relatada no blog nao tenha sido porque “uma” pessoa na relacao medico paciente tinha o ego insuflado…

    1. Não, Paulinha, eu não entrei com o ego inflado no consultório. Eu entrei com dor e com muito medo de uma das duas únicas alternativas disponíveis para resolver o meu problema.

      Quando ele me perguntou a razão de minha presença ali eu disse “doutor, eu tenho o problema x, estou no meio de uma crise e preciso ser medicado com y com urgência para sustar o agravamento do quadro e especialmente para evitar a alternativa de tratamento z, que para mim seria extremamente inconveniente neste momento pelos motivos a, b e c”.

      Demorei menos de um minuto para dizer isso, utilizando adequadamente o vocabulário pertinente, visto que já conheço o assunto e tinha o maior interesse em informar corretamente o médico o mais rápido possível.

      Sabes como o sujeito reagiu? Com estas exatas palavras: “Vem cá, quem é o médico aqui? Quer sentar na minha cadeira e dar a consulta no meu lugar?”

      Eu estou longe de ser humildezinho e submisso, mas naquele momento eu te garanto que a última coisa em que eu podia pensar era em jogar “batalha dos egos” com quem quer que fosse. Eu tratei o sujeito com todo o respeito, inclusive chamando-o de “doutor” justamente para não arriscar despertar alguma animosidade (normalmente eu chamo os médicos, advogados e engenheiros pelo nome, como faço com qualquer outro profissional), mas ele teve a reação absurda que eu descrevi pelo simples fato de ouvir a descrição do adequada do problema com o vocabulário correto.

      Quando eu piso na bola eu reconheço meus erros. Não foi o caso desta vez.

  9. Isto tudo poderia ter sido evitado se tu tivesses um clinico geral, que contatado por ti, te orientasse a ir a emergencia x. Enqto te dirigias a emergencia, o teu medico estaria falando com o plantonista (fazendo o que ‘e o dever dele: informando o colega sobre o teu caso e sobre o plano). Na tua chegada a emergencia, o plantonista iria tocar o tratamento combinado com teu medico imediatemante apos te ouvir, sem crises de ego.

    1. Paulinha, eu não conheço um único caso em que a coisa se dê assim.

      Na emergência do hospital a que costumava me dirigir há cerca de cinco plantonistas atendendo simultaneamente e uma fila com umas poucas a dezenas de pessoas. O “meu médico” teria que interromper o atendimento da emergência com uma ligação para falar com um deles e especificamente aquele plantonista teria que me atender.

      Aposto meu pescoço como eu iria ouvir algo como “este não é nosso procedimento padrão” ou “não é assim que as coisas funcionam” se tentasse fazer algo assim. 🙁

      A idéia é razoável, mas não consigo imaginar algo assim na prática. Conheces algum sistema que funcione assim ou isso é uma idéia tua de como as coisas deveriam ser?

  10. Talvez a conduta do plantonista se deva `a onda crescente de medicina defensivista, que por sinal prolifera em relacao direta com o numero de pacientes que nao tem seu proprio medico, e que sistematicamente usam a emergencia para cuidados primarios, seja na vila, ou no hospital privado. Ter seu cuidado primario de saude realizado na emergencia ‘e pratica comum e aberrante em todas as classes sociais. Esta’ comprovado em varios paises que esta pratica induz `a pratica de medicina defensivista, dimunui a qualidade do atendimento a longo prazo, aumenta os custos do tratamento e aumenta o numero de complicacoes por doencas que sao tratadas somente na crise, sem manutencao para evitar crises ou agaravamento.

    1. Essas informações eu pretendo questionar mais cuidadosamente em breve. Hoje o expediente está no fim. 😛

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