Após três dias de peregrinação pelas emergências hospitalares tentando desesperadamente obter uma receita para mudar uma medicação que eu rapidamente percebi não estar fazendo o efeito devido, finalmente o agravamento de meu estado de saúde foi de tal ordem que consegui uma internação hospitalar para realizar o exato tratamento que eu vinha solicitando desde o princípio. Isso é o fruto de um sistema fascista em que é roubado do indivíduo o direito de tomar decisões sobre sua própria saúde, tornando-o dependente da boa vontade de profissionais que freqüentemente valorizam muito mais a sua autoridade que a saúde alheia – e que convenientemente são julgados apenas por seus pares caso decidam arrebentar a saúde alheia mascarados pela fria aplicação de um protocolo absurdo criado por eles mesmos e voltado exclusivamente para sua própria proteção. [Cabeçalho acrescentado em 17/12/2011.]

Pessoal, escrevo direto da cama do hospital. Estou internado. Por quê? Porque, depois dos episódios descritos na primeira parte deste artigo, percebi que o medicamento prescrito não estava fazendo efeito e busquei novamente o serviço de saúde, mas precisei passar por três médicos que se negaram a aceitar que eu pudesse saber que o medicamento não estava surtindo efeito até encontrar um que fosse capaz de ver o óbvio.

Quando o meu quadro finalmente se agravou o suficiente para que até um completo leigo pudesse perceber que alguma coisa não estava dando certo, então (e somente então) eu consegui modificar o tratamento – não sem antes sentir muita dor, ter aumentados extratosfericamente os riscos que eu sofria e ser obrigado a uma internação que teria sido desnecessária caso simplesmente eu tivesse sido ouvido desde o início.

Eu ainda teria muita coisa a comentar, como por exemplo o fato de que o sistema de saúde odeia seus pacientes e os considera um estorvo a seus protocolos ao invés de organizar seus protocolos para o bem da saúde e do bem estar do paciente, mas, como não pude levar o notebook para o conserto (porque eu estava precisando de conserto), só consegui carregar a bateria o suficiente para poder postar este recado e não deixá-los sem notícias.

Não será desta vez que o Diabo vai me carregar, mas ele bem que poderia carregar os profissionais que têm o rei na barriga e se acham donos da saúde alheia e inquestionáveis em suas opiniões. Vou poupar meus leitores de uma série de esbravejamentos inúteis aqui no blog, escritos por um paciente inconformado com o tratamento indiferente que recebeu em momentos de terrível fragilidade, humilhado novamente em um momento de dor pela atitude abusiva de um médico com ego inflado. Eu tenho a dolorosa consciência de que precisarei das habilidades técnicas do indivíduo que finalmente modificou meu tratamento segundo diretrizes que eu considero razoáveis, então não quero ficar lembrando do quanto será necessário buscar energias no meio da dor para conseguir gerenciar o ego dele e assim evitar maiores danos a minha saúde.

Terei dificuldade de atualizar o blog nos próximos dias. Peço desculpas e conto com a compreensão de todos. Até mesmo escrever isso aqui está difícil, porque preciso colocar o notebook no colo em cima da cama e digitar somente com uma mão, enquanto a outra precisa ficar imóvel para não arrancar o abocath do acesso venoso.

Assim que puder eu voltarei. Torçam para que seja logo, porque o colchão é horrível, a comida é insuficiente, o estresse é enorme e não agüento mais nem ouvir falar em agulha (mais de 20 furos nos braços e na barriga só até agora, com pevisão de mais de dobrar este número). Antes de terça não devo ter alta, mas nada garante que na terça terei. É o velho papo aquele da Lei de Murphy: sempre pode ficar pior.

Abração aí, pessoal.

Arthur Golgo Lucas arthur.bio.br – 10/12/2011

17 thoughts on “Medicina degenerada (2)

  1. Tou torcendo por você, Arthur. Que melhores o mais breve possível.

  2. Manga-Larga

    12/12/2011 — 12:53

    Bons pensamentos pra você, e morte aos cuzões do SUS!

    1. Obrigado!

      Mas eu nem quero que eles morram. Já ficaria bem contente se cada um deles tivesse que passar pelo que eu passei para aprenderem alguma coisa.

  3. Caro Arthur! Sou solidário com seu estado de ânimo e espero que se restabeleça prontamente (seja lá do que for!); certamente mais experiente e afiado. Quando à sua indignação, embora passional, considero-a justa. A minha opinião sobre o tema é bem conhecida (e muito amada) pelos colegas, que (felizmente, não todos) têm o rei na barriga – onde nós sabemos o que transita e abunda. O problema é que o conteúdo do “rei” pode subir e se misturar com as verdades individuais; e aí dá merda! Em suma, me parece, há médicos que não são diferentes dos seres humanos em geral. Fazer o quê? Quanto aos sistemas (quaisquer) eles são impessoais, e assim serão, cada vez mais, no afã de tentar achar a impossível resposta que satisfaça a todos numa rede cada dia maior e poli-dimensionada. Acho que a impessoalidade do sistema não poderia ser utilizada pelo indivíduo (qualquer) como desculpa para a sua própria falta de sensibilidade. Mas este é um longo e complexo papo. Minha experiência, como um cara que já viveu dos dois lados da questão, me ensinou algumas coisas que oportunamente terei prazer de passar para o amigo! Caso sobreviva!

    1. …toc toc toc!

    2. Grato pela solidariedade. Gostei da parte do “caso sobreviva”. De acordo com o Mauro, porém, isso não é um requisito necessário… 🙂

  4. Força aí!!! Você tem que se recuperar logo! Tem um monte de mensagem pra responder nos outros posts! 🙂

    Abraço, melhoras!

    1. Tirei a noite de hoje para fazer isso. Grato pelo desejo de melhoras. 🙂

    1. O juiz não é médico. Ele solicitará o parecer de um perito médico indicado pelo Conselho de Medicina. Qual a chance de um perito médico dizer em um laudo que o procedimento padrão ensinado em todas as faculdades de medicina é uma aberração completa, que as normas do Conselho de Medicina são fascistas, que as leis que eu questiono são ilegítimas e atentam contra os princípios constitucionais e contra os princípios de Direitos Humanos e que portanto eu tenho razão em minhas assertivas e mereço alguma indenização? Se for melhor que uma em um bilhão eu prometo que entro com o processo.

  5. meus votos para melhoras prontas.
    alem disso, sentimos falta da tua presenca no blog.

    1. Valeu, Paulinha. 🙂

  6. “Assim que puder eu voltarei. Torçam para que seja logo, porque o colchão é horrível, a comida é insuficiente, o estresse é enorme e não agüento mais nem ouvir falar em agulha”

    Nossa, como me vejo nessa frase.

    Melhoras pra você querido!

    1. Foram 32 agulhadas em 7 dias. No último dia a enfermeira comunicou o médico que não conseguiu encontrar uma veia em parte alguma dos meus braços e das minhas mãos para colocar um acesso venoso e solicitou orientações porque o medicamento que eu estava recebendo por via endovenosa não poderia ser interrompido.

      Minha sorte foi que o médico já pretendia me dar alta naquele dia e substituir o medicamento endovenoso por um outro administrado por via oral. Caso contrário, sei lá como iam resolver essa encrenca. Cheguei a temer que quisessem tentar o acesso subclavicular.

      Grato pelo desejo de melhoras.

  7. Rafael Holanda

    14/12/2011 — 23:38

    Força aí mestre! Tamos aí pro que der e vier!

    1. Valeu, Rafael. A novela não terminou ainda, mas o capítulo da internação terminou bem. Espero que os próximos capitulos mantenham essa tendência…

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