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Estamos chocando o ovo da serpente

“A lei não deixa abertura para critérios diferentes sobre o que seja aceitável.” (Paula, no último artigo sobre a Lei da Palmada) Este é justamente o ponto. Na impossibilidade de legislar de modo consistente e preciso, optou-se por nivelar por baixo, assumindo uma postura intolerante, autoritária e prepotente: “o Estado sabe o que é melhor para todos”. Ou seja, fascismo. A Lei da Palmada é apenas mais um exemplo entre muitos. Será que ninguém vê os sinais?

O que as pessoas não costumam entender é que o fascismo sempre começa assim. Ele se apresenta como protetor do povo, como limitador de abusos, e gradualmente se torna o principal opressor do povo e o maior promotor de abusos.

Observem a história do nazismo na Alemanha. No início o Partido Nacional-Socialista cresceu rapidamente com o apoio popular. A quantidade de parlamentares nazistas eleitos pelo voto universal, direto e secreto (exatamente como é hoje no Brasil) aumentou vertiginosamente a cada eleição. O povo concordava com as diretrizes políticas, sociais e econômicas do nazismo, sem dar muita bola para os aspectos éticos. Afinal de contas, que mal havia em prejudicar uma minoria não muito bem quista se no geral o nazismo estava promovendo uma rápida e sensível recuperação econômica, com pleno emprego e segurança alimentar depois de uma época de recessão e penúria? Deu no que deu.

O mais interessante é que durante o vertiginoso crescimento do nazismo não faltou quem denunciasse os perigos do regime, mas a reação padrão foi a de ridicularização e deboche, alegando que eram “exageros”, “coisa de gente do contra” ou “teoria da conspiração”, exatamente como está acontecendo hoje no Brasil.

Uma vez que as poucas vozes conscientes foram ridicularizadas, desacreditadas e até demonizadas, o regime começou simplesmente a censurar qualquer manifestação de oposição e a retirar direitos dos cidadãos – no início mais de alguns, como os judeus, e menos de outros, como os arianos que faziam oposição, mas no final ninguém mais podia abrir a boca para dizer que não estava contente sob risco de ser preso, escravizado em um campo de concentração e eventualmente eliminado em uma cãmara de gás.

O que vemos acontecer hoje no Brasil é uma imensa gama de iniciativas fascistas tomarem corpo de modo gradual mas cada vez mais acelerado, exatamente como na Alemanha nazista.

Proibiram não apenas o fumo em ambientes fechados, mas até o funcionamento de fumódromos, onde os fumantes podiam se matar à vontade sem prejudicar mais ninguém. (Já falei sobre isso.)

Aumentam a cada dia os programas de guerra às drogas, mesmo quando no mundo inteiro cresce a consciência de que nunca jamais existiu uma sociedade sem drogas e que todas as tentativas de repressão – todas – só fizeram a corrupção e a violência aumentarem, sem jamais – jamais – diminuir o consumo de drogas. (Já falei sobre isso no artigo que considero o melhor da história do blog.)

O sistema legal combate de todas as formas possíveis o desenvolvimento do senso crítico e o acesso à informação de boa qualidade pelo cidadão, preferindo doutrinar o cidadão, mantẽ-lo incapaz de questionar e premiando a submissão às ideologias oficiais e a repetição de clichês como um papagaio. (Já falei sobre isso. Já produzi alertas duros. Já apontei alternativas para os descontentes.)

Roubaram do cidadão o direito de cuidar da própria saúde, exigindo submissão ao sistema oficial e impedindo o acesso aos medicamentos para quem não se submeter, ou seja, a escolha agora é entre submissão e morte. (Já falei sobre isso.)

Compraram a consciência das massas ignorantes com um discurso populista cheio de metáforas sobre futebol e uns caraminguás de esmola sem nenhuma exigência de contrapartida, o que trará impactos culturais de longo termo extremamente negativos e fará a correção do sistema ser extremamente impopular caso seja tentada por outro governo. (Já falei sobre isso.)

Denúncias de corrupção caracterizaram os primeiros oito anos do governo do PT, derrubaram inúmeros colaboradores diretos do presidente da República e já derrubaram sete ministros do atual governo, mas a mídia mantém as denúncias personalizadas e qualquer comentador independente que afirma o o óbvio – que o sistema político inteiro não é composto por uma maioria de honestos e uma minoria desonesta, mas está completamente podre e carcomido, dominado pela corrupção, pelo clientelismo e pela roubalheira – é ridicularizado, desacreditado e demonizado. (Já falei sobre isso. Já repeti o alerta.) O pior é que eu não vejo opção, porque todos os demais partidos fazem ou já fizeram parte da base de apoio dos governos do PT, exceto o PSDB, que é uma “alternativa” do mesmo naipe em termos de honestidade e compromisso com as liberdades, segurança e bem estar do cidadão.

O povo está cada vez mais apático e as pessoas repudiam qualquer questionamento sobre ética, política, responsabilidade pessoal no gerenciamento do país e assuntos correlatos. (Já falei sobre isso.)

Os poucos cidadãos brasileiros que percebem os riscos não tem mais nem sequer o direito de se defender de um recrudescimento do sistema, pois os políticos já desarmaram o povo e legislaram de modo que nem sequer a defesa passiva contra a violência é possível. (Já falei sobre isso. Já mostrei exemplos reais disso.)

E não adianta avisar, porque quase ninguém dá bola. (Já falei sobre isso.)

Eu até já vejo um tipo de comentário previsível na caixa de comentários: “lá vem o Arthur com mais uma teoria da conspiração”. Mas o que eu apresentei em cada um dos parágrafos acima foram fatos. Em cada um dos artigos neles linkados pode ser conferida a limitação ou a perda de uma liberdade, enquanto que desde a abertura do mercado de informática e de automóveis pelo governo Collor os únicos aumentos de liberdade para o povo brasileiro foram o reconhecimento das uniões homossexuais e a garantia dos direitos de reunião e de manifestação pela legalização das drogas. Em todos os demais aspectos da vida política nacional houve retrocesso político e recrudescimento do autoritarismo.

Os sinais são claros: o Estado brasileiro marcha rapidamente rumo ao fascismo, uma lei após a outra, uma política pública após a outra, enquanto o povo se mantém anestesiado com novela e futebol. Mas quando as botas dos camisas vermelhas e seus asseclas, que juntos compõe a presente versão tupiniquim dos camisas negras, começarem a chutar as portas de nossas casas, praticando terrorismo de Estado para calar a oposição após o atual período de legitimação de legislação fascista, não haverá anestesia capaz de eliminar a dor da perda da liberdade e da dignidade.

E olhem que eu sempre me considerei um otimista.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 20/12/2011

29 comments to Estamos chocando o ovo da serpente

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