Observe bem o título deste artigo. Não se trata de uma pergunta, é uma afirmação. E é uma afirmação categórica. Eu vou além disso: eu não digo que em algumas situações o recurso à violência é “permissível” ou “justificável”, eu digo que em algumas situações o recurso à violência é obrigatório e na verdade é a única coisa moralmente aceitável a fazer. E, se você ainda não sabe disso, eu sou um pacifista radical.

Eu já falei deste assunto antes, mas os argumentos falaciosos dos defensores de que “nenhuma violência é tolerável” me fizeram voltar ao tema.

Veja bem o que eu disse na abertura do presente artigo: eu sou um pacifista, não um adepto da não-violência. Devido ao imenso respeito que sempre cultivei pelo Mahatma Gandhi, durante muito tempo eu desejei ser um adepto da não-violência. Graças a Hitler, entretanto, eu percebi que a não-violência não passa de uma ilusão irrealizável, porque Hitler jamais poderia ser detido de forma não-violenta.

Lembro-me da resposta do Mahatma quando lhe perguntaram como ele combateria um bombardeiro nazista. Ele disse:

“Eu olharia para o avião com todo o amor que pudesse reunir em seu coração, da forma mais sincera e fraterna que lhe fosse possível, e que tamanho amor e sinceridade e fraternidade haveriam de contagiar o coração do piloto e este não mais desejaria me fazer qualquer mal, refreando assim qualquer ação violenta contra mim.”

Lindo.

Lindo e estúpido.

Tão lindo e tão estúpido como este suposto “ensinamento de passividade” de Cristo:

“Mas eu lhes digo: não resistais ao mal. Se alguém o esbofetear na face direita, oferece-lhe também a esquerda. Se alguém abrir contra ti um processo para tomar tua túnica, oferece-lhe também o teu manto. Se alguém te obrigar a caminhar um quilômetro, caminha dois quilômetros com ele.”(Mt 5, 38-41)

Interpretar isso como um ensinamento de passividade não faz sentido no contexto do Novo Testamento, pois o versículo 42, que compõe o mesmo ensinamento, diz:

“Dá a quem te pedir, e não vire as costas a quem te pede emprestado.” (Mt 5, 42)

Ou seja, o fechamento do ensinamento remete a um contexto completamente diferente ao que é implicado pelas frases anteriores, o que indica que ou houve alguma falha no registro, na tradução ou na transmissão deste texto, ou ele tem sido completamente mal interpretado. E há ainda o fato de que isso não condiz com a atuação de Cristo no episódio da expulsão dos vendilhões do templo:

Jesus entrou no templo e expulsou todos os que estavam ali vendendo e comprando. Derrubou as mesas dos que trocavam moedas e as bancas dos vendedores de pombas. E disse-lhes: “Está escrito: ‘minha casa será chamada casa de orração’. Vós, porém, fizestes dela um antro de ladrões”. (Mt 21, 12-13)

Imagine a cena. Ele não fez isso batendo com pétalas de rosas nas mesas e nas bancas, nem admoestou carinhosamente os seus donos. Não foi uma atitude coerente com o ensinamento de dar a outra face, entregar o que tem sem reclamar, etc.

Mas não é somente a falta de consistência interna na convicção de Mahatma Gandhi e no suposto ensinamento de Cristo com suas atitudes que fazem deles maus exemplos. O problema é justamente que, se algum dia eles forem realmente seguidos, então eles promoverão um grande aumento de violência no mundo.

Hitler, se não tivesse sido combatido através da violência, fruto de uma total intolerância em relação a seus objetivos e a seus métodos, mas tivesse sido apenas alvo de orações bem intencionadas e e de súplicas morais na forma de palavras ou de manifestações pacíficas, sendo-lhe oferecida sempre a outra face, teria continuado sua saga de domínio e destruição até o último povo do planeta, e hoje viveríamos sob um estrito e radical Estado Mundial Nazi-Fascista, o Terceiro Reich de Mil Anos.

Foi a violência, usada de modo sábio e para propósitos justos e justificada pela intolerância contra a intolerância, o meio hábil que permitiu eliminar a dominação nazista, a destruição de centenas ou milhares de culturas e a escravização e o morticínio de milhões ou bilhões de pessoas pelos nazistas.

Foi a violência, usada de modo sábio e para propósitos justos e justificada pela intolerância contra a corrupção, o meio hábil que permitiu expulsar os vendilhões do templo e impedir que ele se transformasse em uma casa que pervertia sua dignidade e negava seus propósitos originais.

Usada de modo sábio e para propósitos justos, a violência e a intolerância podem ser meios hábeis e virtuosos. E às vezes são a única opção viável. No caso do nazismo, a violência e a intolerância eram provavelmente os únicos meios hábeis disponíveis, razão pela qual seu emprego era não somente aceitável e justificável como moralmente obrigatório, pois a omissão em seu emprego resultaria em um mundo integralmente regido pela violência. No caso dos vendilhões do templo, bem sabemos o quanto pessoas movidas pelo interesse financeiro são sensíveis a apelos morais.

E, caso alguém ainda tenha dúvidas, o mesmo raciocínio vale também em outras esferas, como no caso da Lei da Palmada, por exemplo. Os mesmos indivíduos que pregam que é um absurdo dar uma palmadinha na mão de uma criança para ela não meter o dedo na tomada, não derrubar sobre si uma panela de feijão fervente e não extrapolar suas tentativas de subir na hierarquia do grupo de primatas que nós chamamos de “família” são os primeiros a exigir punições severas para aqueles que descumprirem a lei, punições estas que podem incluir o afastamento do lar e a perda do Pátrio Poder – medidas muito mais violentas e com resultados muito mais violentos que a palmadinha original.

Conclusão

Num caso (Hitler) caso temos um exemplo de como às vezes a violência é inevitável para frear a violência. Noutro caso (vendilhões do templo) temos um exemplo de como às vezes a violência é necessária para dar um basta à corrupção. Noutro caso (Lei da Palmada) temos um exemplo de como às vezes tentar refrear a violência gera ainda mais violência.

Isso mostra que não há nem pode haver fórmula pronta para lidar com a violência, e que a pretensão de normatizar o uso ou a contenção da violência é uma forma especialmente danosa de intolerância, pois restringe a liberdade de pensamento e a responsabilidade pessoal pelas decisões, impede a adequação ao contexto em que a decisão se faz necessária e inibe toda e qualquer hipótese de desenvolvimento e aplicação da sabedoria, pois cada medida violenta ou contrária à violência só pode ser justa e razoável dentro de um contexto específico no qual a sabedoria é indispensável para promover a virtude, como sempre, aliás.

O que está faltando neste mundo é gente com sabedoria e coragem para entrar nos templos, escolas, ONGs, empresas, partidos, parlamentos e governos, distribuir sopapos e bordoadas, expulsar os cafajestes e dizer: “aqui temos um propósito digno e sério, vocês não farão disto aqui um antro de ladrões”.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 28/12/2011

29 thoughts on “A violência e a intolerância podem ser virtuosas

  1. Eu sou pacifista,prefiro morrer a matar.
    E sou defensora do livre arbítrio,aceitando incondicionalmente suas consequencias.

    Entendo que oferecer a outra face significa não guardar rancor,por alguém.

    E por caminhar,não um quilometro,mas dois….significa
    que devemos dar além daquilo que foi pedido.

    Se alguém invadir minha casa,não devo aceitar essa invasão,mas se abrirem contra mim algum processo injusto não devo pagar na mesma moeda.

    Mateus 5, fala da solidariedade,da compaixão,assim como a parábola do bom samaritano.

    E no templo Jesus mostrou o limite do que pode ser tolerado.

    Jesus nos fala o tempo todo num mundo invisível,que começa aqui,mas que continua em outro lugar.
    Dar para César o que for de César,e para Deus o for de Deus.

    Perdoar setenta vezes sete,é de Deus.
    Mas a indignação pertence ao mundo dos homens.

    Eu acredito que cada ser determina sua tragetória na vida.

    Existem os que são Hitlers e aqueles que são Gandhis.

    Tudo é uma questão de escolha.

    Só nós sabemos nossos limites.

    Eu usaria firmeza no lugar de violência, e não omissão no lugar de intolerância.

    Ambas altamente louváveis.

    1. “Eu sou pacifista,prefiro morrer a matar.”

      Desculpe, Li, mas não posso concordar com essa frase. Mesmo no nível pessoal, com você sendo a única vítima. É uma escolha, reconheço, mas não concordo.

      Mas ainda há um problema extra: e quando você sabe que a pessoa que vai matar você irá depois matar outros? Se você tiver a chance de mata-la e não o fizer, seu pacifismo, causador da sua omissão, estará causando a morte de outros.

      Por exemplo, você está numa casa, com um revólver ao seu alcance, e entra nela um estuprador com uma faca, conhecido por matar as pessoas que estupra, homens e mulheres. Ele está num corredor vindo na sua direção. Alem de você estão duas amigas ou filha(o)s, crianças, o que quiser.

      O que você faria?

    2. Eu confesso que ando num labirinto lógico a respeito da questão do perdão. Isso vai virar o artigo de hoje.

    3. Desisti. Uma hora e meia digitando e já escrevi quase uma Bíblia, mas não cheguei nem na metade do raciocínio… e ainda preciso pesquisar alguns detalhes e depois corrigir o texto e então reler pra ver se fico satisfeito com ele… não vai dar tempo, e se der tempo vai ficar hermético e esotérico demais. Este artigo vai ficar para outra oportunidade.

  2. Gerson B,um caso assim jamais aconteceria comigo.
    Semelhantes se atraem,e minha energia repele essa frequencia energética.

    Morei por mais de vinte anos no Rio de Janeiro,e nunca fui assaltada.

    Tenho uma arminha chamada fé na vida,rs.

    Como diz a música….a fé não costuma falhar.

    Eu não sei que experiências as pessoas costumam ter com a fé,mas as minhas me fizeram adquirir uma fé
    absoluta na luz que há em tudo.

    Ou pode ser que minha estrela seja imensa,que meu anjo da guarda não tira férias,que sou uma sortuda…
    o fato é que tenho um espírito que implora por mim de joelhos,e isso é verdade.

    1. Então… só me resta lhe desejar boa sorte!

    2. Caso típico de Wishful Thinking.

  3. Pra mim você falou o óbvio, mas sabe como é internet, odiadores odiarão.

    Cê nunca pensou em lançar um livro com os melhores posts do blog, nem que seja edição de autor ou pdf com micropagamento, e publicar não?

    Abração e continue chutando bundas em 2012.

    1. É, eu sei como é o Planeta dos Macacos. Se a gente diz que a violência pode ser útil inclusive para manter a paz, não vai faltar um que diga que eu sou adepto da violência. Bom senso é algo raro.

      Já pensei em reunir estes textos e mais alguns ainda não publicados e compor até mais de um livro, mas digamos que ainda não acho que eu esteja maduro o suficiente como escritor. Em breve, quem sabe?

      Abração e bom 2012!

  4. Sim, para mim tb parece obvio, mas acho que pode nao ser para muitos. Alem disso, muita gente que le e concorda na verdade nao tinha mesmo pensado sobre isso. Entao, o texto ‘e uma oportunidade de reflexao e organizacao de pensamento e de tomada de posicao. Tb concordo que os melhores devam ser compilados em um livro.

    1. Uma coisa que eu ainda não havia comentado aqui no blog é que volta e meia eu escrevo coisas que me parecem tão óbvias, mas tão óbvias, que não chego a publicar. Aí um belo dia eu estou sem inspiração alguma, remexo nos rascunhos abortados e encontro uma dessas pérolas de obviedade em condições bastante razoáveis para publicar. E, é claro, quando isso acontece eu fico naquela tentação cruel de aproveitar o texto.

      De vez em quando eu peço a Tutatis para não derrubar o céu sobre minha cabeça por cometer a publicação daquele artigo e arrisco… e na metade das vezes o artigo é elogiado e recebe vintem, trinta ou até quarenta comentários fora as minhas respostas.

      Outras vezes eu passo uma madrugada escrevendo com cuidado, fazendo pesquisas para incluir links úteis e corrigindo as informações e o modo de apresentá-las, publico achando que o artigo está ótimo… e três pessoas comentam, sendo que um só comenta pra dizer que o artigo é ridículo.

      Isso me levou a aprender a não tentar julgar a cabeça do leitor. Eu descobri que a reação do público é completamente imprevisível. Tudo que posso fazer é manter o compromisso de só publicar aquilo que depois eu poderei manter no ar sem ter que pedir para que o céu caia na minha cabeça.

      Vou pensar na idéia do livro assim que me mudar em definitivo, porque onde estou é difícil de me organizar para isso. Era pra ter me mudado em definitivo na metade de dezembro, mas aquele problema de saúde trouxe algumas incertezas e terei que permanecer em Poa pelo menos mais quatro meses.

    2. Mas o numero de comentarios nem sempre esta’ diretamente relacionado `a qualidade do artigo.
      Pode estar relacionado `a intolerancia ao artigo, ou `a discordancia. Mas tb pode estar relacionado ao espaco que das ao leitor para construir a partir do teu texto. Nao vou te plagear, mas esta minha frase acima merece: ja’ falei disso aqui…kkkkkk. So’ nao tenho como colocar em azul e sublinhado com o link para meus comentarios em outros de teus textos.

    3. Verdade, verdade. Um grande número de comentários não é um indicador confiável. Já um pequeno número de comentários é…

    4. Eu entendo que a falta de comentarios possa estar relacionada:
      1) `a falta de interesse pelo tema (tema irrelevante, ou entao tema muito aquem das possibilidades do leitor –> sem possibilidade de conexao com texto);
      2) ao excesso de material, como muitos artigos publicados em curto espaco de tempo, com um ou outro artigo perdendo a chance de serem debatidos, selecao natural.
      3) `a falta de espaco para o leitor. O artigo relata fatos indiscutiveis, e nao propoe discussao subsequente. Todo mundo concorda, caso encerrado. O leitor nao teve espaco para adicionar nada. O texto exauriu o tema. Ponto final.

    5. A impossibilidade de diferenciar entre 1 e 3 é um drama para o blogueiro. Já o item 2 eu aprendi a gerenciar melhor com o tempo, embora às vezes ainda faça besteira. Quando um artigo está fervendo, mesmo que eu tenha outro pronto eu aguardo um dia para postar. Já tive que aguardar mais que isso, na real.

  5. Eu acho que a sabedoria é importante mas não é indispensável.Devem existir outras condições humanas mais neutras para promover a virtude,que não vou descrever por desconhece-las.
    Quem sabe um dia a ciência que dita as regras contemporâneas,mas é
    limitada a um pequenino naco da natureza,do homem e do universo,possa me responder.
    Agora,uma lista de sábios canalhas,eu faço.

    1. Francisco, se a sabedoria fosse dispensável, a virtude poderia provir da ignorãncia, do descontrole, da petulância, da negligência e de inúmeras outras fontes onde dificilmente se encontra virtude a não ser por acaso.

  6. I.1. Ahimsa

    A palavra “ahimsa” é comumente traduzida como “não-violência”. Sendo assim, a idéia que se tem é a de que a cultura védica era “pacifista” no sentido moderno da palavra. Isso não corresponde à realidade.

    A Índia Antiga era uma sociedade governada por guerreiros (ksatriya) e com uma longa tradição espiritual eminentemente guerreira. Os arianos, além de pertencerem a uma cultura agrícola e pastoril, também eram uma civilização guerreira, aristocrática e sacerdotal. A própria casta sacerdotal não se furtava de atividades guerreiras.

    A maioria dos clássicos espirituais da Índia Antiga remetem a batalhas (Bhagavad-Gita, Ramayana, Mahabharata etc.) e neles os deuses são apresentados portando armas, em posição de luta, usando carapaças, armaduras etc. Em uma rápida passada de olhos pelos avatares (manifestações) de Vishnu, por exemplo, podemos constatar que a maioria deles são manifestações guerreiras (Varaha, Narasimha, Rama, Parasurama, Krisna e o vindouro Kalki, ou seja, de dez avatares, seis estão diretamente envolvidos com a guerra).

    É muito difícil acreditar que em uma sociedade com tal panorama cultural houvesse uma idéia como “não-violência”, ou seja, uma idéia de “demonização” de toda e qualquer ação violenta, de rendição incondicional, de não uso da força, de não reação perante uma agressão ou coisa parecida.

    No Bhagavad-Gita, Capítulo 2, versos 31, 32 e 33, por exemplo, Krisna aconselha Arjuna nos seguintes termos:

    “Considerando seu dever específico de ksatriya, você deve saber que não há melhor ocupação para você do que lutar conforme determina seu dharma; e assim não há necessidade de hesitação.

    Ó Partha, felizes são os ksatriyas a quem aparece esta oportunidade de lutar, abrindo-lhe a porta do paraíso.

    Se, contudo, você não executar seu dharma e não lutar, então certamente incorrerá em falta por negligenciar seus deveres e perderá sua reputação.”

    Sendo assim, a tradução de “ahimsa” como “não-violência”, no sentido que emprestamos hoje a essa palavra, não é correta.

    A palavra “ahimsa” aparece no Rig-Veda, no Sama-Veda, no Isavasya Upanishad, no Yoga-Sutra de Patanjali entre outros.

    O conceito é diretamente ligado ao de “Viswaprema”, ou “amor pela vida”.

    A palavra “Himsa” ,em sânscrito, quer dizer “ferimento”, “lesão”, “dano”, “mal”, “doer”, “malícia” . Himsa é a malícia ou a personificação do desejo de causar dano. “Himsarata” é o prazer em causar dano ou em prejudicar. “Himsakarman” é ato hostil ou injurioso. Sendo assim, “Ahimsa” é, literalmente, “aquilo que não causa dano, mal”, ou “aquilo que não é feito com o desejo de causar dano”, “aquilo que não é feito maliciosamente”.

    Violência, em sânscrito é “prabalah” ou “vegavam”. O sentido dessas palavras é a de “exercer uma força contra aquilo que lhe causa obstáculo”, ou seja, não tem uma conotação negativa. É o mesmo sentido de “vento violento”, “choque violento” ou “violenta explosão”, sem um conceito moral intrínseco (M.Monier-Williams, 2008).

    Atacar com violência um malfeitor que lhe causa problemas ou está lhe atacando não porta o sentido de “malícia”, de “desejo de causar dano”, “desejo de causar mal”, mas, pura e simplesmente, de se preservar, preservar a terceiros ou preservar um bem que está sendo usurpado ou atacado. Esse é o senso indo-ariano.

    A idéia de empregar a palavra “violência” como algo negativo é moderna. Tomou sentido mais definido depois de Nietzsche, G. Sorel e o sindicalismo revolucionário (Lalande, 1999) . A palavra também adquire contornos negativos com Montesquieu, no “Espírito das Leis”, nada tendo a ver com os conceitos védicos.

    Atacar um animal não é violência pois não é “exercer uma força contra aquilo que lhe causa obstáculo”, mas sim “himsa”, ou seja é o desejo de causar dano (a morte) ou prejudicar (através de um tratamento cruel) para satisfazer ao próprio desejo (desnecessário) por sua carne.

    Os indo-arianos, muito cedo perceberam que não tinham nenhuma necessidade de consumir a carne de animais para manterem-se fortes e saudáveis. Ao seu senso guerreiro, parecia grotesca injustiça e covardia abjeta atacar a um animal indefeso e lhe tirar a vida sem nenhuma necessidade.

    Assim como os bovinos eram excelentes amigos , os outros animais também deveriam ser respeitados e tinham o direito à vida. Também eles tinham suas funções na Terra. Só seria lícito lhes atacar em caso de defesa.

    Dessa maneira, outros animais são agregados ao culto indo-ariano. As serpentes representam o ciclo do tempo, a renovação e auxiliam Siva quando ele suga o oceano envenenado pelas forças do mal. O leão é símbolo da nobreza, a montaria da deusa Durga. O rato é montaria de Ganesa e se reveste de diversos significados, as aves, os répteis e todas as outras formas de vida são valorizadas e respeitadas como parte de um todo indissolúvel chamado vida.

    As escrituras hindus vão confirmar essas idéias e lhes revestir de uma autoridade incontestável pela Tradição.

    Fonte: http://tendailotusbrasil.wordpress.com/

    1. Muito interessante! 🙂

  7. Se você perguntar a qualquer budista leigo ou a qualquer um que se julgue conhecedor da cultura indo-budista: – “O que é “ahimsa?”, ele ou ela vão responder com imensa facilidade: – “Ahimsa é o conceito de “não violência” no Budismo”. Provavelmente, depois que disser isso, vai desandar a falar sobre paz, pacifismo, passividade, blá, blá, blá…
    Muito bem, como nossos leitores já estão acostumados, nosso texto pretende demonstrar que essa é mais uma mentirinha, das muitas, que os “grandes e sábios” monges destilam por aí.
    Com toda certeza, a campeã no uso dessa palavra é a sra. Cláudia de Souza Murayama, conhecida como “monja Coen” e que adora falar em “não violência”, como se esse fosse um conceito central no Budismo. Os grupos tibetanos meio “hippongos” também adoram remeterem-se a essa idéia. Eu mesmo já tive o desprazer de ver um monte de lamas repetirem como papagaios essa “papagaiada” da não-violência, nas mais diversas línguas …
    É claro que os “fiéis escudeiros” de toda essa gente (monges, lamas, reverendos, doutores, mentores, gurus etc.) repetem a conversa toda como se fosse a mais clara verdade. Dizer aos seguidores da Lama Khadro ou da Lama Tsering que “Ahimsa” não tem nada a ver com o conceito moderno de “não-violência” é inútil. Você se tornará uma criatura “não-auspiciosa” e será olhado com aquela cara de “compaixão” (parece um pouco com a cara de quem está com bastante sono).
    O catastrófico livro de Heródoto Barbeiro sobre o Budismo, lançado na Livraria Cultura do Conjunto Nacional em São Paulo, e que só não é pior por falta de espaço (parece um gibi de tão fino, ainda bem !) é um belo exemplo disso. Além de ser um festival de besteiras monumentais, fala bastante sobre a tal “não-violência”. Aliás nossa monja “não-violência” estava lá, junto com um outro monge sobre o qual prefiro não comentar, para comemorar esse verdadeiro marco do desconhecimento sobre o Budismo no Brasil. Heródoto deveria receber o prêmio de “homem clichê” do ano e seus dois acólitos monges deveriam ser elevados ao título de ASPONES da CBN e da GLOBO. Quem sabe assim seriam ainda mais respeitados por seus devotos.

  8. “O Tathagata ensina que o culpado merece castigo, e o digno de favor deve ser favorecido. Porém também ensina que não se deve fazer sofrer nenhum ser vivente, mas ter o coração cheio de compaixão e amor. Estes dois ensinamentos não são contraditórios, porque quem recebe castigo por seus crimes não sofre por maldade do juiz e sim em conseqüência de sua culpa. Suas más ações lhe acarretaram o mal que lhe inflige o executor da lei. Quando um magistrado castiga, deve estar livre de todo ódio; e o criminoso condenado à morte deve considerar que seu suplício é conseqüente do seu crime, e se compreende que o castigo purificará suas ações, alegrar-se-á da morte.
    O Tathagata ensina que é deplorável toda guerra entre os homens; porém não condena os que guerreiam por uma causa justa, depois de haver esgotado todos os meios de conservar a paz. O causador da guerra merece execração.
    O Tathagata ensina a completa renúncia ao ego, porém não ensina que as pessoas se entreguem às potestades sinistras.
    (…)
    Aquele que luta pelo interesse egoísta de celebridade, grandeza, poderio ou riqueza, não receberá recompensa; porém o que combate pela justiça e a verdade, receberá o galardão, porque será vitorioso, mesmo que sofra alguma derrota transitória antes do triunfo final.
    (…)
    Luta, pois, denodadamente, ó Siha, e combate com marcial esforço nas batalhas; ser soldado deverás e o Tathagata te abençoará.”
    Essas palavras combinam com a imagem de um Buda que prega a capitulação frente ao mal?
    É claro que vai ter gente dizendo que as minhas citações de clássicos hindus e de deuses não é budista… Pois bem, antes que comecem, vou lembrar que a palavra “ahimsa” aparece lá no Rig-Veda, no Sama-Veda, no Isavasya Upanishad, no Yoga-Sutra de Patanjali entre outros. Aliás a idéia de amor pela vida é védica, é o “Viswaprema”. Buda não as inventou, só divulgou as idéias já presentes na literatura védica e na cultura indo-ariana.
    Dito isto, fica muito difícil sustentar a tal “não-violência” moderna como “ahimsa” ou como parte integrante do Budismo.

    1. Qual a origem deste texto?

  9. Atacar com violência um malfeitor que lhe causa problemas ou está lhe atacando não porta o sentido de “malícia”, de “desejo de causar dano”, “desejo de causar mal”, mas, pura e simplesmente, de se preservar, preservar a terceiros ou preservar um bem que está sendo usurpado ou atacado. Em outras palavras, você pode dar um tiro em um assaltante ou em um estuprador e não ter ferido o princípio de ahimsa. Se eu mato um agressor, não o faço por ‘malícia’ ou pelo prazer de matar, mas sim por um estado de sobeja necessidade. Se meu país é invadido e minha casa é atacada, tenho o direito de me defender. Isso não é contra o princípio de ahimsa.
    A idéia de empregar a palavra “violência” como algo negativo é moderna. Tomou sentido mais definido depois de Nietzsche, G. Sorel e o sindicalismo revolucionário. A palavra também adquire contornos negativos com Montesquieu, no “Espírito das Leis”. É claro que os “budistas moderninhos” não sabem disso. Em vez de estudar, preferem rezar para defuntos, lamber o pé dos seus patrões amarelos, aparecer na TV, na Internet e colecionar bobos-alegres que os chamam de “mestres” e se abaixam para eles com uma irritante subserviência.

  10. Arthur

    Existe várias passagens nos sutras onde Buda diz que o individuo que foi condenado a pena de morte não deve se lamentar, pois foi resultado de suas próprias ações.

    1. Até aí é lógico. Mas e o karma de quem condena alguém à morte? E o karma de quem executa a sentença?

  11. “O Sutra Mahayana do Nirvana dá abundantes referências de que o budista deve se defender e defender às Três Jóias, com emprego de violência, se necessário.
    Neste sutra é contada a história de um rei que lutou com grande vigor para defender um monge e que, graças a isso, adquiriu muitos méritos. Cada ferida de seu corpo foi importante para que ele adquirisse um “corpo diamantino”.
    Além disso, o mesmo sutra afirma que quem usa a violência por necessidade real, não quebra nenhum preceito.
    Na história budista, são incontáveis os exemplos de monges guerreiros, de monges que organizaram resistência armada contra invasores (como na história da Coréia) ou de monges que lutavam entre si por divergências em relação a pontos doutrinários, sucessão de templos etc.
    Na história do Japão, há um personagem semi-lendário que é símbolo de força e coragem: Benkei. Benkei era monge budista…”

    1. De novo: Mas e o karma de quem condena alguém à morte? E o karma de quem executa a sentença?

  12. Aquele que facha a cela pra o prisineiro passar o resto da vida na prisão vai ter karma ruin?

    É a mesma lógica…

    1. É… O que deixa a coisa meio feia para os carcereiros em geral, né?

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