Você já viu as novas propagandas do campeonato paulista de futebol na SporTV? Numa delas, que explora a rivalidade entre Santos e São Paulo, ocorre uma alusão ao bicho que representa o SPFC (contra a vontade de seus torcedores, claro). Pois esta banalidade já está trazendo protestos da torcida do SPFC e do movimento LGBT, que acusa a propaganda de “denegrir a imagem dos homossexuais” (como se alguém conseguisse fazer isso melhor que as lideranças LGBT).

Na comunidade de Direitos Humanos no Orkut postaram um tópico intitulado “Propaganda homofóbica?” com a seguinte proposta de debate:

Achei interessante colocar o tema pra discutir aqui.

Na chamada para o “Paulistão-2012”, o SPORTV colocou 2 casais: Num é uma esposa corinthiana e um marido palmeirense e noutro é o marido sãopaulino e a esposa santista.

E esta última que eu postei aqui. O marido brinca com o “mascote” do time da esposa, dizendo que peixe morre na praia. E a mulher então pergunta se é pra falar de “bicho”, alusão ao ponto de zoeira contra os sãopaulinos, que é chama-los de “bambis”(viado).

Os sãopaulinos não gostaram da propaganda, dizem que foi muita falta de respeito. Em contrapartida, homossexuais talvez não gostem de ver sua própria condição ser usada como chacota contra outro grupo.

Polêmica a vista?

Eis a minha resposta:

Sim, polêmica à vista. Por quê? Porque uma futilidade dessas será tomada como “intolerável ofensa” por um bando de babacas de um lado e como “manifestação homofóbica” por um bando de babacas de outro lado, ao invés de ser vista por todos como aquilo que realmente é: uma simples, inócua e irrelevante piadinha, composta por uma sacada divertida, e absolutamente nada mais que isso.

Esses dias eu assisti um vídeo em que um pregador evangélico nos EUA diz o seguinte: “somente duas coisas podem salvar as igrejas cristãs nos EUA – ou uma profunda e radical reforma voluntária, ou uma cruel e sangrenta perseguição”.

Ou seja, as alternativas são:

1) tomar vergonha na cara por si mesmo para aprender o que é importante;

2) sofrer uma imensa provação para aprender o que é realmente importante;

3) perder tudo que é mais importante por não ter reconhecido sua importância.

Como eu não acredito mais na alternativa 1 neste Planeta dos Macacos, e como a alternativa 2 não dá dinheiro para as corporações corruptas que lucram com a exploração do circo midiático do futebol, só sobra a alternativa 3, o que significa que muita gente vai perder tempo, dinheiro, paciência, saúde e até a vida (em brigas de torcida, por exemplo) por não ter aprendido que futebol é mero entretenimento e que piadinhas são mero divertimento.

Há milhões de prioridades acima da zoação entre torcidas de futebol e dos chiliques impertinentes das lideranças intolerantes do movimento LGBT, como por exemplo o fato de que o mundo acaba de dar um grande passo em direção à destruição das garantias e liberdades individuais, o que aliás não é nenhuma novidade para quem acompanha os inúmeros alertas aqui publicados. Estamos assistindo passivamente o crescimento da intolerância e colocando em risco a própria sustentação da vida no planeta, mas vejam o que mobiliza multidões para o debate: futebol e frescurite.

Não é que o entretenimento e as pequenas idiossincrasias cotidianas não tenham qualquer importância, mas há coisas que são muito mais importantes e que são irresponsavelmente negligenciadas pelas mesmas pessoas que fazem escândalos por causa de ninharias.

Quando – e principalmente como – a maioria das pessoas vai aprender a dar importância ao que é mais importante em nossas vidas? Só quando for tarde demais?

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 30/12/2011

15 thoughts on “Dar importância ao que é importante

  1. Eu acho que quem devia ficar puto nessa história toda era o Bambi, que nem deve gostar de futebol e de repente entrou nessa polêmica boba… 🙂

    1. É, tadinho do Bambi, só levou bola nas costas nessa história…

  2. Lucas do povo

    30/12/2011 — 17:57

    /\

    Assim como o Gambá, utilizado para se referir aos corintianos, os porcos para se referir aos palmeirenses, e aos peixes para se referirem ao Santos.

    É a revolta dos animais!

  3. E no meu tempo o símbolo do Santos era a baleia, que como todos sabem não é um peixe, mas [MODE CORINTIANO ON]um réptil![MODE CORINTIANO OFF].

    Falando sério, o que tem o porco a ver com o Palmeiras? Entendo o urubu do Fla, o Bambi dos (supostamente mais ricos e delicados) São Paulinos o gambá dos (supostamente mais pobres) corintianos, e a baleia do clube praiano. Mas um porco? Minhas remotas memórias alcançam um periquito palmeirense.

    E os veados são símbolos de macheza em outras culturas.

    Aliás havia uma torcida Fla-gay. Isso nunca foi motivo de incômodo pros flamenguistas (eu incluso, quando torcia). O pessoal devia mesmo levar na esportiva.

    1. A história do apelido “Porco” para o Palmeiras é feia, Gerson. Muito feia.

      Em 28/04/1969 um acidente de automóvel matou dois importantes jogadores do Corínthians: Lidú (22) e Eduardo (25).

      Como o campeonato paulista já estava na segunda metade, o prazo para a inscrição de novos atletas estava encerrado.

      O Corínthians apresentou então uma solicitação especial para inscrever dois novos jogadores devido à tragédia.

      Como não se mexe nas regras com o jogo andando, a Federação Paulista de Futebol convocou todos os clubes para uma reunião para que se pronunciassem em relação à solicitação especial do Corínthians, informando previamente que concederia excepcionalmente ao Corínthians a inscrição de dois novos jogadores se a decisão fosse unânime.

      Pois bem, todos os times se manifestaram favoravelmente à concessão da autorização em caráter excepcional para o Corínthians… menos um: o Palmeiras.

      O presidente do Corínthians, indignado, chamou os palmirenses de “porcos”. No jogo seguinte, os corinthianos soltaram um porco no gramado e entoaram um coro de “porco! porco! porco!”, marcando definitivamente o Palmeiras com este estigma, que seria fartamente lembrado e utilizado para desestabilizar emocionalmente a equipe.

      O periquito foi apenas uma tentativa frustrada de associar outra imagem que não a do porco ao Palmeiras e evitar as provocações. Não funcionou.

      A pecha de “porcos” azucrinou os palmeirenses até as semifinais do campeonato paulista de 1986, quando a torcida do Palmeiras, cansada do massacre emocional do coro de “porco! porco! porco!” ao longo de 17 anos, resolveu finalmente assumir o porco como símbolo para acabar com a graça das provocações. Aí funcionou.

      Se o SPFC quisesse acabar com as provocações, só precisaria assumir o Bambi como animal símbolo. Ou confeccionar um uniforme para rosa pink com o escudo, os nomes e os números dos jogadores bordado com lantejoulas, como preferirem. 🙂

    2. Putz! Quer dizer então que o Palmeiras mereceu o apelido?

      Os porcos é que não mereceram.

    3. É, fiquei pasmo quando me contaram a história. Foi um dos piores atos de anti-fair-play que já conheci. Aproveitar a morte de dois jogadores para tentar levar vantagem num campeonato desportivo é a vergonha das vergonhas.

  4. Sim, nos anos setenta eu lembro de ver o pessoal se divertindo com a “Coligay”, no estadio Olimpico Monumental, do Gremio. Era um grupo divertido que fazia dancinhas e vestia uns camisoloes tricolores muito engracados. Usavam perucas. Inconfundiveis. Uma pena o surgimento do HIV nos anos 80, com a fase de muita morbidade e mortalidade, com o preconceito e tabu associados em proporcao `a desgraca causada. Se algum membro da Coligay sobreviveu os anos 80, duvido que tivesse coragem de enfrentar 40-50 mil pessoas vestido daquela forma, e se manifestando. Ainda bem que hoje em dia ha’ tratamento para a infeccao e suas complicacoes. Mas a maneira com que a sociedade se relaciona entre si mudou para sempre. Ia mudar, com ou sem HIV, pois nada e’ estatico, mas nao sei se nos mesmos rumos.

    Nao vi a propaganda ainda, estou curiosa para ver.

    1. Paulinha, para ver a propaganda é só clicar no link no parágrafo de abertura do artigo e vai abrir outra janela com a página do vídeo no Youtube. São apenas 30 segundos.

      Eu lembro vagamente da existência da Coligay, mas não lembro de nenhuma imagem. Hoje em dia uma torcida organizada deste tipo talvez fosse espancada até a morte pelas demais torcidas organizadas. O torcedor de futebol não vai mais ao estádio para curtir o esporte, vai para lutar na guerra. O tempora! O mores!

    2. Ué… a primeira no Brasil não foi a Flagay? Mas aqui no sul a Coligay foi pioneiríssima. Incrível como regredimos culturalmente de lá pra cá.

  5. Tolice das tolices…e tanta coisa importante rolando por aí.

  6. Arthur

    Por achar de extrema importância suas reflexões nos tópicos 1) 2) e 3, publiquei-os no meu facebook (com créditos a ti), a fim de que as pessoas reflitam isso para não errarem tanto este ano. Pois, a meu ver a importância daquelas palavras vai além da discussão das torcidas, é praticamente um ensinamento para a vida.

    Um 2012 de realizações a todos!

    1. Lunah, obrigado pelo reconhecimento das idéias que tento transmitir aqui no blog. Tomara mesmo que mais gente comece a refletir sobre o que é importante, para que o meu próximo artigo se mostre totalmente errado.

      Feliz 2012!

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