Viva com otimismo. Não se torne desconfiado nem amargo só porque há pessoas em quem não se pode confiar. Dê o benefício da dúvida aos novos amigos e colegas de estudo e de trabalho, claro que com cautela. Mas quando uma pessoa ou qualquer grupo de pessoas ou ideologia mostrarem sinais de mau caráter, acredite logo na primeira vez.

Lero-lero introdutório

No artigo “Cuidado! Fuja do parto de cabeça para baixo!” eu cometi a grande mancada de citar um argumento que eu li em um site feminista e com o qual eu concordei. Grande erro. Não que o argumento esteja errado, mas, se eu sei que a fonte do argumento é perniciosa, então eu jamais deveria ter avalizado o site com uma recomendação de leitura a não ser para criticar. O que eu fiz foi como citar Adolf Hitler positivamente em um artigo de economia só porque antes da guerra ele tomou medidas acertadas para recuperar a economia da Alemanha.

Eu percebi meu erro quando o Gerson B me disse que havia concordado com outras partes do site. Ora, nada mais natural que isso tenha acontecido: se o meu leitor sabe que o Arthur é anti-feminista e mesmo assim recomenda a leitura de um site feminista, é óbvio que meu leitor vai ler aquele site sem reservas devido a minha recomendação. A culpa disso foi toda minha.

Quando percebi minha mancada, fui obrigado a explicar o ocorrido. A resposta seguinte do Gerson é esta que reproduzo abaixo, com um trecho em negrito (grifo meu). Foi este trecho que deu origem ao artigo de hoje:

Tu tás com zóio clínico, Arthur. Li aquilo, discordei um pouco e não liguei, só me foquei na parte técnica. Como praticante da Terapia Centrada no Cliente (a denominação é técnica e antiga, não tem a ver com marketing ou similares) gostei do “centrado na mulher” e deixei pra lá. Mas o diabo está nos detalhes. Você tem razão, a ideologia está tão disseminada que a gente não vê. O bebê é muito importante e o pai não deve ser alienado. (Gerson)

Concordo totalmente. Eu sempre usei a expressão “o Diabo mora nos detalhes“. E às vezes os “detalhes” são monstruosamente grandes e evidentes, mas mesmo assim nós não os vemos porque “no geral” as coisas estão como achamos que deveriam estar. É como encontrar no carnaval alguém de deslumbrante beleza, com um papo superagradável, extremamente atraente, manifestando também interesse em nós, embarcar na magia dos hormônios… e só perceber a aliança no anular esquerdo e as vesículas da erupção de herpes nos lábios desta pessoa depois do primeiro beijo.

Agora vamos ao que interessa

Eu aprendi a ficar alerta levando punhalada nas costas.

Eu poderia contar diversos casos de pessoas que traíram minha confiança porque eu não confiei em minha intuição quando elas deram mostras de mau caráter, mas acho mais útil contar os casos em que eu tive provas cabais  de que movimentos sociais inteiros tinham mau caráter e mesmo assim não confiei naquilo que meus olhos e ouvidos estavam captando porque eu acreditava em um “quadro geral” que me deixava cego e surdo para as evidências contidas nos “detalhes”. Eu simplesmente ignorei os sinais, o que se mostrou catastrófico tempos depois.

O primeiro sinal foi do movimento negro. Um amigo me convidou para ir a uma festa onde havia umas 500 pessoas, dentre as quais eu era o único branco. Quando eu entrei, metade das cabeças do salão se voltaram para mim. Meu amigo, que era um líder do movimento negro local, percebeu a hostilidade no ar e me abraçou para ir conversando comigo até o balcão pedir uma bebida. Sentamos em uma mesa onde estavam sentadas duas garotas conhecidas dele. Um pouco depois ele saiu para dançar com uma delas. Então a outra começou a parecer desconfortável, olhando para os lados o tempo todo. Eu perguntei se havia algo errado e ela abriu o jogo: “eu estou queimando meu filme com o pessoal do movimento conversando sozinha com um cara branco, eles vão achar que a gente está junto e não vai pegar legal pra mim”. Diversas pessoas ligadas ao movimento negro para quem eu contei essa história minimizaram a declaração dela e acharam que seria “totalmente diferente” se uma branca tivesse dito a mesma coisa em relação a um negro. (E os “politicamente corretos” dizem que “não existe racismo contra brancos”.)

O segundo sinal foi com as feministas. Já contei essa história em algum lugar aqui no blog, lembro até que a Paulinha riu e perguntou onde eu achava tanta gente maluca. Eu fui a convite de uma amiga, ativista feminista, a um ciclo de “estudos de gênero” e inscrevi um trabalho em um painel, mas tive o trabalho rejeitado pela banca sob a alegação de que meu discurso era “machista”. Detalhe: elas me devolveram o envelope fechado, ou seja, elas leram apenas o título e chegaram a essa brilhante conclusão. O título era “a influência da biologia evolutiva na definição dos papéis de gênero”. Diversas pessoas ligadas ao movimento feminista para quem eu contei essa história apoiaram irrestritamente a decisão da banca igualmente sem conhecer o conteúdo do trabalho. (E os “politicamente corretos” dizem que “o machismo é que é preconceituoso e opressor”.)

O terceiro sinal foi com os gays. Não tenho certeza se postei algo a respeito aqui ou no Orkut (e ando com falhas de memória depois da internação em dezembro, o que eu atribuo à imensa carga de medicação que usei, embora o médico negue). Eu estava em férias, viajando, e liguei para uma amiga lésbica, ativista GLBTTTTTTTTTTTTT. Ela tinha (sempre dou risada deste cacófato) ido ao supermercado e deixado o celular em casa, então quem atendeu foi a namorada dela. Eu convidei as duas para sair para um passeio e fiquei de ligar dali a pouco para confirmar. Quando liguei de novo, no prazo combinado, ninguém atendeu o telefone. Mandei uma mensagem, que foi entregue, e ninguém respondeu. No dia seguinte me deu uma bronca no MSN por eu ter sido “inconveniente”, dizendo que “a namorada dela não gostava de homem hetero e eu tinha que respeitar isso”. Diversas pessoas ligadas ao movimento gay para quem eu contei essa história deram total razão às duas e disseram que isso “não tem comparação” com o preconceito sofrido pelos homossexuais. (E os “politicamente corretos” dizem que “não existe heterofobia”.)

Em todos os casos eu sofri preconceito e discriminação simplesmente por ser um homem branco heterossexual. E, bem tolinho e ingênuo, eu continuei apoiando os respectivos movimentos. Por incrível que pareça, eu só abri os olhos depois que criei um perfil no Orkut, entrei em uma comunidade de Direitos Humanos e logo me tornei moderador.

Foi então, e somente então, com a responsabilidade de moderar e dirimir conflitos, que eu comecei a perceber que estes três movimentos sociais – negro, feminista e gay – formavam um verdadeiro rolo compressor para impor suas posições, que na atualidade se tornaram o padrão “politicamente correto” inquestionávelda atualidade. Qualquer um que os questione sofre pena de ostracismo e fritura, sendo banido de suas comunidades, impedido de debater e covardemente vilipendiado sem direito de resposta – atitudes de extremo mau caráter.

Foi por isso que eu escrevi os artigos “Os movimentos sociais feminista, negro e gay não defendem Direitos Humanos” e “A causa dos Direitos Humanos corre grave perigo“, entre outros. Mas o foco hoje é outro.

Meu alerta

O alerta que trago a meu leitor hoje é simples, direto e prático. Sabe aquele seu grande amigo em que você confia imensamente mas que você sabe que vive metendo chifres na namorada? Sabe aquela sua amiga em que você confia imensamente mas que você sabe que se utiliza de sedução para manipular os colegas de trabalho ou os caras com quem sai mas que por trás chama todos de otários? Afaste-se destas pessoas.

O que faz você pensar que alguém que age com mau caráter com outras pessoas será digno, fiel e leal a você?

Você acha que “comigo é diferente”, que “comigo não acontece”?

Aprenda o seguinte: gente de mau caráter não tem amigos, tem cúmplices. E cúmplices são descartáveis. Basta que não sejam mais úteis, ou que a recompensa pela traição ou pela deslealdade pareça interessante. Cúmplices são aqueles otários que dizem “eu achei que comigo ele/ela jamais faria isso”.

E não me diga que você “já tomou a vacina contra esse mal”. Eu estou escrevendo este artigo justamente porque, apesar de já ter me vacinado, eu cometi este erro mais uma vez. Ontem me caiu a ficha e eu perdi o chão sob meus pés. (Perdoem-me por não comentar os detalhes, por enquanto isso tem que permanecer em segredo.)

Gente de bom caráter tem a tendência de considerar os deslizes alheios como se fossem apenas deslizes, ao invés de se antenar que certos deslizes são indicativos altamente significativos quanto ao caráter de quem os comete. Não caia nessa armadilha. Não minimize “pequenas canalhices”.

Lembre-se: o Diabo mora nos detalhes. Esteja atento. E, quando vir a ponta do rabo do Diabo, acredite logo na primeira vez: ele está em casa.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 03/01/2012

11 thoughts on “O Diabo mora nos detalhes

  1. Acho que o problema é o viver em sociedade. Infelizmente, somos obrigados a conviver com isso. Eu, pessoalmente, critico a crença em deuses, mas nunca chego a um cristão para dizer “deixe de acreditar em Deus” ou “sua crença é coisa de gente idiota”, pois conheço muita gente, até mesmo astrólogos e esotéricos, com uma inteligência sagaz e um pensamento lógico incrível. Porém, tenho de conviver tanto com cristãos proselitistas quanto com neoateus. O mesmo posso dizer de gays, negros e mulheres.

    Passei o réveillon na casa de um casal de amigos meus e de minha noiva, gays (meu dentista e o esposo dele). Havia homens, mulheres, gays, artistas héteros, carnívoros, vegetarianos, presbiterianos, ateus, budistas, nitirenistas, brasileiros, estrangeiros…

    Uma das amigas da minha noiva apareceu (uma vegana), criticou minha batata gratinada e ficou olhando feio para as carnes, tentou me convencer a comer menos carne (mesmo diante de tanto argumento médico a meu favor), disse que não gostava de conversar com homens héteros e saiu da festa do réveillon na casa dos meus amigos, criando um clima pesado por meia hora mais ou menos.

    Ainda bem que sou amigo deles o suficiente para perceberem que ela exagerou, minha noiva e eu ainda terminamos e ajudamos a lavar a louça deles e tudo ficou na paz.

    O réveillon deu uma lição a todos: podemos discordar uns dos outros, comer coisas diferentes uns dos outros, ter religiões distintas, sexualidades distintas, origens nacionais distintas, mas ali o que importava era tão somente curtir a boa amizade uns dos outros.

    Infelizmente a amiga da minha noiva não soube aproveitar o óbvio, que as pessoas valem mais que picuinhas ideológicas.

    1. Quando eu estava no segundo grau eu via todo mundo criticar as “panelinhas” ao mesmo tempo em que formava e defendia sua própria panelinha. Hoje eu percebo que a panelinha é a melhor forma de interação social, desde que não sejamos hipócritas a ponto de criticar a panelinha alheia nem tenhamos a mente tão fechada que nos tornemos anti-sociais e percamos a capacidade de fazer novas amizades.

      Ter um pequeno grupo de amigos confiáveis que são também amigos uns dos outros é uma bênção que pouca gente valoriza devidamente. Só acho uma lástima que seja tão difícil construir esse tipo de grupo depois de passada a adolescência. É como se “maturidade” significasse “individualismo, desconfiança e amargor”.

      ==

      A vida tem me mostrado que o conselho de São Dogbert é extremamente válido: “livre-se dos idiotas!” Não vale a pena a barganha de manter amizade (ou coleguismo) com quem é um idiota em tempo integral.

      Sabe aquele cara que te ouve combinar ao telefone um churrasco com os amigos e o primeiro comentário dele é que leu uma reportagem de que carne assada na fogueira dá câncer por causa de resíduos do carvão que sobem pela fumaça e grudam na carne?

      Sabe aquela guria que te ouve comentar com um amigo que tu conheceste a Fulana e achaste ela uma gata e pergunta se tu estás falando da Fulana que é meio vesga e cheia de celulite?

      Sabe aquela pessoa se diz tua amiga, mas que assume um compromisso importante contigo e não cumpre, sem dar a menor bola para o fato de tu ficares chateado, ou mesmo teres algum prejuízo?

      Sabe aquela pessoa para quem tu contaste algo sobre teus sentimentos sobre alguém e que dali a um tempo xaveca justamente esse alguém entre milhares de outras pessoas possíveis só porque esse alguém tem boa aparência?

      Pois é.

      A gente fica ao lado dessas pessoas, achando que “comigo elas não vão aprontar”, só para levar tabefes da vida para entender que este aqui é o Planeta dos Macacos, com um nível de ética compatível com o de outros primatas.

      Por isso eu digo: temos que apostar nas exceções. Que alternativa há?

  2. A imprensa,em geral,tem muita influência no fortalecimento desses movimentos “Politicamente Corretos”.É de seu interesse conquistar
    públicos direcionados(até facilita o trabalho dos profissionais da área).Se alguém discorda é logo taxado de conservador(não vejo nada que desabone alguém que seja conservador de valores éticos,práticos
    ou religiosos que tragam bem estar a maioria(sim,maioria)da sociedade.
    Esse grupos dizem que a sociedade tem que evoluir e aceita-los goela abaixo,e com direitos que não comungam com os outros setores dessa sociedade.(meu médico disse na última consulta que minha cirrose evoluiu!!)

    1. Minha posição sobre direitos de minorias e conflitos de direitos é antiga, sólida e clara: está claramente expressa na DUDH, especialmente no preâmbulo e nos artigos I, II e XXX.

      Além disso, sou da opinião de que toda pretensão de direito individual que não compromete direitos de terceiros é automaticamente válida e imediatamente universal.

  3. O problema é que de mau caráter o inferno não deve estar cheio, porque eles infestam o mundo (isso sim). Pra mim não é difícil identifica-los, no entanto, ao buscar não estar perto dos hipócritas, manipuladores, maledicentes, traidores e outros que se aplicam ao gênero, fiquei só, com apenas 2 pessoa em quem em posso confiar e mais duas em que eu devo acreditar e auxiliar para que se tornem pessoas de bem. Se me sinto só? Sim, muito. Se me arrependo? Nunca, é a melhor fase da minha vida.

    1. Lunah, o círculo de Amigos (com A maiúsculo), aqueles que vão largar tudo que estiverem fazendo a qualquer hora para nos socorrer sem reclamar, normalmente é pequeno mesmo. Mas há também aqueles amigos que apenas não vão nos prejudicar e estes também são positivos em nossa vida, desde que não contemos com eles para além do que eles são capazes.

      O problema é que eu me decepcionei com gente que eu achava que não ia me decepcionar, mesmo tendo indícios de que não era realista esperar isso… 🙁

  4. Oi Arthur. Pelo visto você teve alguma decepção grande com alguém e sinto muito por isso. Também já tive e sei como dói. Achei interessante uma coisa que você disse nos comentários que é “Só acho uma lástima que seja tão difícil construir esse tipo de grupo depois de passada a adolescência. É como se “maturidade” significasse “individualismo, desconfiança e amargor””. Acho isso muito interessante, e constantemente me pego me questionando se: esse individualismo decorre do fato de ter me tornado adulto, ou se é uma característica desse mundo global e “internético” em que vivemos.
    Uma vez , eu estava fazendo um curso, e sempre pegava carona com uma senhora de certa idade, na hora de ir embora. Fui me afeiçoando a ela e achei que pudéssemos ser amigos, pela maneira como rolava o papo. No último dia, na hora de ir embora ela se ofereceu para me dar carona e me deixou na porta do meu prédio. Eu disse a ela que morava ali e que se ela quisesse me visitar algum dia seria um prazer. Eu disse isso com toda sinceridade, pq eu sou do tipo que realmente só convido para vir a minha casa quem eu acho que deve fazer parte da minha vida. Sabe o que ela me respondeu ?: “Qual o seu email ? Vc deixou na lista de presença do curso?” … Na hora levei um baque, pq realmente a amizade dela me interessava. Por outro lado, fico pensando que antigamente eu tinha mais tempo, e menos julgamentos. Antes eu não era casado, não tinha uma profissão, não tinha muitos conceitos e nem preconceitos. Acho que eu me entregava mais por conta disso.
    Um outro caso, tenho uma amiga, que eu realmente amo muito. Muito dos meus melhores momentos foram passados na companhia dela. Há um tempo atras , mais precisamente quando eu conheci o meu companheiro atual, notei que ela meio que se afastou de mim. Eu a procurei algumas vezes, mas senti que algo estava diferente. Daí um dia ela me disse que tinha se afastado pq tinha andado deprimida e que a minha opiniao contava muito pra ela e que ela nao queria que eu a visse daquele jeito. Poucas coisas me chatearam tanto na vida. Lembro que chorei muito por conta disso porque para mim , se eu nao tinha como ser amigo dela quando ela estava deprimida, isso significa que eu nao era um bom amigo. Ha 4 meses ela sofreu um acidente horrivel e quase morreu. Fiquei presente , na medida do possível, dando o apoio que ela precisava. Hoje, eu continuo considerando que ela é uma grande amiga, mas sei que as circustâncias da vida, fizeram com que nossa amizade mudasse. Eu acho que , aquele garoto e aquela garota que um dia se conheceram, e fizeram amizade, foram mudando. E esses novos arranjos de “garoto e garota” não necessariamente tem a mesma liga daquela primeira vez, mas isso nao significa que não se gostem muito e que tenham amor um pelo outro. Apenas a amizade mudou. Lembrei de um poema que a Bethania recita “Mudou de cara e cabelos. Mudou de olhos e risos. Mudou de casa e de tempo, mas esta comigo. Está perdido comigo o seu nome”.
    Arthur, por outro lado, aprendi com essa minha amiga também, que ninguém é só mel, ninguém é só abelha. Estou dizendo isso pq assim como já me decepcionaram muito, talvez eu tenha decepcionado algumas pessoas, ainda que não tenha consciencia disso. Acho que esse pragmatismo sentimental, é bom, e as vezes necessário. Mas, na minha opiniao, é preciso ter sabedoria pra saber quando levar em conta a razão ou a emoção. Já tomei decisões pela razão e me ferrei e o contrário também ja aconteceu. Hoje, eu peso os dois lados da moeda e escolho um. E convivo com as consequências.
    Abraçao e tudo de bom pra vc!

    1. Foi, foi uma decepção bem xarope. Mas precisa muito mais do que isso para me derrubar. O que não quer dizer que não doa. Obrigado pela solidariedade.

      Quanto à senhora que perguntou pelo e-mail, é óbvio que quem estava lá presente eras tu e tu é que sabes em que tom isso foi dito, mas eu veria a solicitação dela de modo diferente: será que ela não estava apenas querendo garantir que vocês teriam como manter o contato? Quando conheço pessoalmente alguém que eu quero muito manter contato eu sempre peço ou o telefone, ou o e-mail, ou para adicionar no Orkut ou no Facebook – conforme o gosto do freguês. Pra mim o importante é saber que eu tenho uma forma de contatar a pessoa. Que tal mandar um e-mail para ela convidando-a para fazer algum programa junto contigo?

      Tua amiga me lembrou da minha falecida avó. Ela tinha verdadeiro pavor de “incomodar” as pessoas. Aos 93 anos, no hospital, dias antes de falecer, ela dava bronca na gente quando a gente abria ou fechava as janelas do quarto (privativo, não havia outros pacientes junto) porque “se os funcionários do hospital deixaram assim, então é pra ficar assim, não é pra ‘incomodar’ alterando o que eles fizeram”. Imaginas o absurdo? Mas é assim que ela agia.

      O que minha avó não sabia é que, agindo assim, ela incomodava quem se preocupava com ela muito mais do que se ela informasse o que realmente estava sentindo e o que realmente queria, enquanto que só quem se beneficiava dessa atitude era quem não estava nem aí pra ela. Era um inferno ter que adivinhar o tempo todo se ela estava com frio ou com calor, com fome ou com sede, com vontade de ver TV ou ficar em silêncio, etc. Tudo que a gente fazia era seguido de uma admoestação por ter mexido no que não era para mexer, tocado no que não era pra tocar, perguntado o que não era pra perguntar, etc. E se a gente desfazia a ação lá vinha outra reclamação porque o que importava não era o que tinha sido feito e sim o fato de estar fazendo algo que não tinha sido informado que era para ser feito por alguém com a devida autoridade. (Esposa de milico por mais de 50 anos…)

      Talvez a tua amiga tenha uma dificuldade deste tipo. Se ela não for uma senhora de 93 anos que foi casada com um milico autoritário por mais de 50 anos, talvez com uma boa explicação ela consiga perceber que é muito pior para ti que ela não aproveite os benefícios da tua amizade justamente quando ela mais precisa. Talvez com uma boa explicação ela consiga compreender que justamente por seres muito amigo dela e por te preocupares muito com ela é que é muito mais angustiante e desanimador não poder estar junto dela e ajudar quando ela mais precisa de ti. Talvez com uma boa explicação ela consiga perceber que na verdade ela está sendo egoísta e te magoando ao manter a distância justamente quando tu gostarias de te sentir mais útil para uma pessoa a quem amas tanto. Já tentaste esta abordagem?

    2. Uma discordância em relação a uma coisa que disseste: sim, é preciso sabedoria para lidar com a razão e com a emoção, mas não, não se deve “escolher entre uma e outra”. Nós somos pessoas inteiras e indivisíveis, somos dotados de razão e de emoção o tempo todo, todo o tempo. Não devemos “escolher um lado” e sim tomar a medida mais sábia possível ponderando os dois lados.

      Um exemplo disso é a situação na qual me vejo atualmente.

      As decepções que sofri me fizeram querer chutar para escanteio algo que foi muito importante para mim por longo período e por que eu dediquei muito tempo, esforços e esperanças. Minha sorte foi ter sido informado por terceiros ao invés de descobrir diretamente, ou eu teria chutado o pau da barraca com todas as minhas energias, de tal modo que não teria tido tempo para raciocinar.

      Por outro lado, muita gente a meu redor está insistindo comigo para “ser racional”, porque há dinheiro envolvido no processo. Mas eu tenho dito a estas pessoas (familiares e amigos) que bem por todo o dinheiro do mundo eu aceitarei vender as minhas emoções. Se eu tiver que chutar o pau da barraca e perder tudo, não será por medo de perder dinheiro que eu não o farei. Meu caráter, minha dignidade e minhas emoções não são trocáveis por bens materiais nem barganháveis de modo algum.

      O que eu vou fazer, então? Ainda não sei. O que sei é que a reflexão dos últimos dias me fez perceber que acima de tudo eu valorizo minha integridade, meus valores e minha liberdade de decisão. Para preservar tudo isso sem outros prejuízos eu vou precisar de muita sabedoria. Vou ter que pesar os prós e contras emocionais, socciais, financeiros e logísticos cuidadosamente. Ou seja, razão e emoção trabalhando juntas.

      Porém, entre prejudicar isso e qualquer outro prejuízo, se eu tiver que entrar ou sair com o pé na porta da situação em que me colocaram, será exatamente isso que pretendo fazer, com o maior destemor. Se esse episódio servir para eu reafirmar isso perante mim mesmo, o que por um bom tempo eu negligenciei, eu já terei saído por cima.

      É uma imensa gama de variáveis, né?

      Sabedoria é um troço difícil de conquistar…

      Abração aí!

  5. “ném por todo o dinheiro do mundo eu aceitarei vender as minhas emoções”.

    Apoiado.

    Eu com certeza absoluta não vendo minhas emoções e descobri que sou capaz de abdicar de tudo pela minha liberdade de sentir o que eu quiser, e olha que “TUDO”, não foi pouco.

    Quando aos amigos os poucos que me referi foram sim os “A”migos, mas é claro que o círculo de “a”migos é maior e são pessoas legais, só que com estes não posso chegar a beira do precipício de olhos fechados e perguntar: Posso dar mais um passo?

    1. Esse exemplo me lembrou o motivo pelo qual não se pode confiar nos lógicos: eles vão responder “pode…”; aí tu vais dar um passo e cair; e no meio da queda vais ouvir o cara completando a frase: “… mas não deve!” 😛

      Estritamente falando, está corretíssimo. 🙂

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