A última moda dos “especialistas em trânsito” tem sido dar entrevistas no rádio para informar os motoristas de que no mês de dezembro de 2011 foi conformado por pesquisadores da Universidade Carnegie Melon que falar ao telefone celular e dirigir simultaneamente é perigoso porque as áreas do cérebro que processam as informações visuais, as informações auditivas e a habilidade de dirigir são distintas e o cérebro precisa dividir sua atenção entre elas, o que faz cair a atenção conferida a cada uma. Quem já percebeu os absurdos contidos nesta informação?

Esta é a notícia que me levou a produzir este artigo:

Conversar ao telefone e dirigir compromete atividade cerebral

Conversar ao telefone e dirigir tira a atenção do motorista. Pesquisadores da Universidade Carnegie Melon, de Pittsburgh, determinaram que falar ao telefone celular, mesmo com dispositivos tipo “viva voz” diminui a atenção e favorece erros na condução do veículo.

As autoridades e os cientistas sempre se preocuparam com a divisão de tarefas que o motorista enfrenta com o aumento de dispositivos disponíveis no carro atualmente.

Inicialmente se acreditava que dentro do éerebro as funções de direção e conversação, utilizavam redes neurais diferentes. Essa nova pesquisa comprovou que essas atividades ocorrem simultaneamente em duas áreas cerebrais.

Os cientistas colocaram um simulador de direção dentro de um aparelho de ressonância nuclear magnética e registrararam a ativação em mais de 20 mil pontos do cérebro. As medidas eram realizadas em tempo real acompanhando as atividades do motorista virtual.

Ao medir a função do lobo parietal, região associada à habilidade de dirigir um carro enquanto se escutava uma conversa fez cair em 37% a atividade dessa área. Nessa porção do cérebro ocorre a integração das informações sensoriais, afetando a orientação especial e a navegação.

Outra area que têm sua função diminuida durante o simples ato de conversar e dirigir foi a do lobo occipital que processa as informações visuais. Os motoristas quando precisavam dirigir e conversar cometiam mais erros, como por exemplo, manter o carro em linha reta e muitas vezes atingiam o “guard rail” do simulador

Esses médicos comprovam que as distrações ao volante levam à diminuição da habilidade do motorista, que podem ser comparadas àquelas de quem bebeu antes de dirigir.

O ato de dirigir demanda atenção constante, especialmente em pistas com tráfego intenso onde as reações à situações inesperadas podem levar a acidentes graves.

Fonte: Jornal Conversa Pessoal

Os grifos em negrito são todos meus.

Agora me responda estas perguntas:

1. Se o Código de Trânsito Brasileiro foi promulgado em setembro de 1997 e essa descoberta foi divulgada somente em dezembro de 2011, então qual era a fundamentação da proibição de falar ao telefone ao volante entre setembro de 1997 e dezembro de 2011? Por que uma descoberta feita a posteriori está sendo usada para justificar retroativamente a legislação? Será que esta lei foi mesmo produzida devido a uma fundamentação sólida? Ou foi resultado de puro achismo que deu sorte de estar correto?

2. Se o processamento de estímulos auditivos ao volante aumenta a chance de acidentes e a lei objetiva reduzir o risco de acidentes, é razoável exigir como equipamento obrigatório um produtor de estímulos auditivos estridentes que será acionada justamente nos momentos em que os indivíduos alertados menos poderiam se distrair? O tipo de estímulo – o som súbito e estridente da buzina – não vai assustar e atrair toda a atenção dos pedestres momentaneamente e assim impedir que eles reajam com a rapidez e eficácia necessária?

Muitos pedestres são atropelados porque “congelam” no meio da pista (ficam paralisados, completamente sem reação) quando um motorista aciona a buzina para alertá-los de sua aproximação.

Se os estímulos auditivos realmente inibem as habilidades do córtex motor, é bastante provável que muitos destes atropelamentos sejam causados pelo uso da buzina ao invés de serem evitados.

Irônica e tragicamente, o estímulo auditivo usado para alertar o pedestre é tão eficiente que seqüestra toda sua atenção e inibe sua capacidade motora de reagir com eficiência justo no momento em que ela é mais necessária.

3. Se os “especialistas em trânsito” reconhecem que dividir a atenção entre estímulos auditivos e a habilidade de dirigir faz diminuir esta última, é coerente usar o rádio para informar os motoristas que eles não devem prestar atenção em estímulos auditivos ao volante? A fala no rádio não é estímulo auditivo?

4. E se a conversa ao celular é um estímulo auditivo capas de distrair o motorista ao ponto de aumentar suas chances de causar um acidente, por acaso a música e a conversa com o carona não são igualmente fatores de distração? Você por acaso processa em uma parte do cérebro o estímulo auditivo da voz vinda do celular e em outra parte do cérebro o estímulo auditivo da voz vinda de quem está sentado a seu lado?

É uma questão de coerência: se a fundamentação técnica que justifica a proibição de falar ao celular ao volante é a distração causada pela divisão da atenção entre estímulos e habilidades que são processados em regiões distintas do cérebro, então toda e qualquer estimulação auditiva ao volante é perigosa e os automóveis não deveriam ter nem buzinas, nem rádios.

Além disso, para ter certeza de que você não será distraído em um momento crucial por uma pergunta inconveniente ou por um grito de “cuidado”, siga a minha dica para evitar acidentes: amordace o seu carona!

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 06/01/2012

17 thoughts on “Amordace o seu carona!

  1. Lucas do povo

    06/01/2012 — 11:33

    É impressão minha ou você fez uma citação indireta ao Marcelo Matheus (MM) do canal Decarona?

    Ele costuma gravar vídeos enquanto dirige e fala com o ”público” ou dá entrevistas.

    1. Difícil. Não conheço nem o Marcelo Matheus nem o canal Decarona. 🙂

  2. Veja bem, minha mãe não usa cinto de segurança. Ela já ouviu muitas histórias de gente que morreu queimada dentro do carro, presa pelo cinto. Por isso ela não usa. Isso não significa que o cinto deva ser proibido nem que não ajude na sua segurança.

    Concordo com boa parte do que você disse. Nunca vi muito benefício na buzina, embora entenda porque ela foi criada, décadas atrás. Em breve, talvez não tão em breve, teremos outra forma de trânsito, guiada pela tecnologia que faz um carro seguir o outro, mas no contexto atual sua contestação é válida.

    1 – Não foi puro achismo, mas levado pela força das estatísticas. Pessoas falando no telefone causavam mais acidentes. Você dá a entender que não há uma equipe de pessoas (boa parte delas realmente preocupadas com o trânsito, outras apenas tentando fazer valer o cargo e o salário) que olham os números, avaliam as causas e depois criam leis. E há.

    3-4 – O rádio é uma questão um pouco delicada e subjetiva. Claro que distrai, mas não tanto quanto uma conversa, porque o rádio você pode largar por dois segundos enquanto observa o carro que vem atrás e você tenta fazer uma curva; já uma pessoa, presente ou no telefone, exige sua atenção para que você compreenda e não seja mal educado em perder metade da conversa. O rádio é um monólogo. Músicas, por exemplo, não exigem tanta atenção, especialmente quando você já as ouviu algumas vezes. Além disso o rádio traz informações que hoje se tornam essenciais, tanto quanto uma coisa que você não citou: o GPS. Veja que é proibido conversar com motoristas de ônibus. Por fim: há conversa e há conversa. Tem gente que te pergunta como foi o dia ou comenta o clima, tem gente que exige tanto sua atenção que acaba por provocar acidentes de fato, mesmo que no final quem leve a culpa e entre na estatística seja o motorista. Não é uma questão de lei, mas sim de bom censo.

    O resto está impecável. No Brasil, o costume vence a lei.

    Você escreveu “conformado” ao invés de “confirmado” na terceira linha.

    1. Dandi, eu acho que não deixei uma coisa importante suficientemente clara: o meu questionamento neste artigo não é quanto à razoabilidade da proibição do uso do celular ao volante, é quanto à incoerência de tratar diferentes estímulos auditivos de modo absolutamente diferente enquanto se utiliza uma justificativa científica que não distingue um estímulo auditivo do outro.

      Se a medida da proibição do uso de celular ao volante estivesse sendo justificada pelos “especialistas em trãnsito” em função das estatísticas de acidentes, eu não teria o que criticar. O problema é que ela está sendo justificada com os resultados de uma pesquisa feita a posteriori e interpretada de modo absolutamente inconsistente.

      Editei o parágrafo da pergunta 1 para deixar isso mais evidente.

  3. Joaquim Salles

    06/01/2012 — 13:26

    Eu sempre fiquei com esse tema na cabeça:) Logo a Policia, Bombeiro e outros não podem usar radio ou celular nas suas comunicações 🙂

    1. Ah, a boa e velha tecnologia dos sinais de fumaça…

      (Pelo menos no caso dos bombeiros, ela funciona: é só fazer um sinal de fumaça apropriado que eles logo aparecem.) 🙂

  4. 1) Em dezembro de 2011 só foi confirmado o que as estatísticas e alguns estudos já mostravam desde que se começou a utilização do aparelho celular.Sim, conversar ao telefone ao dirigir tira a atenção do condutor (é claro que a porcentagem muda de condutor para condutor, muda com a idade e quaisquer outros problemas de saúde que ele possa ter e principalmente muda conforme a falta de perícia do mesmo).
    2) Qualquer tipo de sonoridade inclusive a buzina tiram a atenção do motorista dos movimentos que está a realizar ou pretende (a buzina é um alerta de que se está a fazer algo errado, ou algo que pode se tornar grave). É por isso que a buzina só é indicada em casos extremos, para alerta de grande perigo, pois os condutores, motociclistas, ciclistas e pedestres já partilham da informação de que a buzina é um sinal de alerta (que salva vidas sim!), no entanto, as pessoas acham que buzina é pra mexer com a gatinha, dar um alô para o conhecido, ou para conturbar ainda mais o trânsito. Pura falta de consciência e desrespeito as Leis.
    3) Os estudos sempre mostraram que os sons do rádio influenciam os condutores, por exemplo – a velocidade do veículo pode aumentar conforme a música que o rádio está a tocar dependendo de como isso está a afetar o condutor, e isso também acontece quanto ao volume do mesmo. É por isso que a lei diz que o som que se ouve no carro deve ser um som que não ultrapasse as portas do veículo ou seja, o som tem de ser escutado somente dentro do veículo e isso faz com que seja um som baixo (existe na Lei a quantidade de decibéis permitido que se não me engano é de 100 db). Quanto a alertar os condutores através de rádio é algo necessário (se tira a atenção? Depende do que for dito, vai que se diga – Tenha atenção ao trânsito por que nos km próximo a tal localidade está havendo chuva torrencial, ou queda de barreira, ou neblina, ou etc.).
    4) Acontece que quando se fala ao celular, tem-se que pensar muito mais profundamente para dar as respostas, e assim divide-se a atenção entre dirigir e conversar, bem como e principalmente conversar com o carona (não que a conversa não possa existir, mas, aí há o ”porém” – de que carona e condutor devem estar atentos ao trânsito e os caronas desatentos, afoitos, ou com “língua muito solta” podem vir sim a ser cúmplices de pequenos e até mesmo grandes acidentes de trânsito.
    5) Os pedestres não são atropelados porque “congelam” ao ouvirem a buzina, na maioria das vezes os pedestres são atropelados porque os carros seguem em tão alta velocidade que não são capazes de parar para cumprir a Lei de que seja qual for o motivo o pedestre tem preferência. O motivo dos condutores buzinarem ao atropelar um pedestre é tentar inutilmente dar um sinal de alerta (talvez a si próprios) levando a mão instantaneamente à buzina. A maioria dos pedestres que não conseguem se locomover após escutarem a buzina e terem tempo hábil para isso, são de crianças que sentem-se perdidas por serem alertadas de algo errado e paralisam e de idosos que tem problemas de locomoção.
    Da onde eu tirei essas informações? Bem além de estudos realizados para fins acadêmicos e leituras disponíveis na internet como este (http://www.transporte.org.br/downloads/O%20Risco%20de%20Atropelamento.pdf) também do curso de Instrutor e Examinador de Transito – Ministrado pela Detran – MS, das informações contidas nos livros das Auto Escolas que ministrei aulas e das idas e vindas por este Brasil como condutora de veículo de pequeno porte e como piloto de jeep e navegadora de rally.

    1. Piloto de jeep e navegadora de rally? UAU! Vou querer te fazer umas dez mil perguntas! Estás adicionada no perfil do blog Facebook? Manda uma mensagem privada lá pra eu achar o perfil – basta dizer “jeep/rally”. 🙂

      Depois eu respondo o resto. Mas confere a resposta acima para o Dandi, acho que eu não deixei claro algo importante no artigo e tive que arrumar um parágrafo para corrigir isso.

  5. Eu tenho uma histórinha bem interessante.

    O ano era 1989 e eu estava indo do RJ para Brasília,de ônibus.
    Adoro viajar de ônibus,pricipalmente a noite.
    Era um pouco mais de duas da madrugada e percebi que o motorista estava sonolento,levantei e fui conversar com ele.
    Era um senhor muito simpático e me contou muitas histórias de aparições.
    Lá pelas tantas,ele tenta uma ultrapassagem,estávamos seguindo uma carreta.
    A pista parecia deserta,mas havia três ônibus vindo
    em alta velocidade,se o motorista do ônibus não estivesse alerta,e bom de roda,teríamos batido feio.
    Ele quase não conseguia voltar para trás da carreta.
    E o motorista da carreta nem se deu ao trabalho de sinalizar ultrapassagem perigosa.

    O que mais tem na estrada é motorista sonolento,ou
    imprudente.

    Vai ver que irão até nos proibir de escutar música no carro.

    Gente besta essa,não seria mais facil fazer um teste para ver o grau de distração do motorista,antes de lhe entregarem a carteira?

    Ou eu estou sonhando…

    1. Há uma solução melhor ainda: o automóvel que percebe que há algo errado com o motorista. Vou escrever um artigo sobre isso.

  6. Li
    “Gente besta essa,não seria mais facil fazer um teste para ver o grau de distração do motorista,antes de lhe entregarem a carteira?”

    Fazem até teste psicológico antes de entregarem a CNH a todos os motoristas, inclusive fazem eles passarem por aulas que os instruem a não dirigirem sob efeitos de substancias que possam prejudicar a atenção, não dirigirem sonolentos e muitas outras orientações. Mas o que é um privilégio (obter a CNH) é tido como um direito; só porque pagou para obter o documento o indivíduo acha que tem liberdade pra fazer o que bem entender. Por causa da quantia de multas pelos mais diferentes excessos vieram os pontos, que fazem com que o motorista perca a CNH por tempo determinado e necessite fazer curso para obtê-la novamente, o que não resolve o problema pois, continuam a dirigir sem o documento obrigatório. O que falta além de consciência? Falta fiscalização e punições mais severas aos que cometem crimes e chamam de acidentes.

    1. Falta uma coisa ainda mais importante: ética no sistema. Enquanto o Estado for movido pelo interesse de fazer caixa para sustentar a roubalheira não haverá solução para nada.

      Eu já fui multado em cidades onde eu não estava. Recorri e tive o recurso indeferido. Entrar na justiça sairia mais caro que pagar a multa, porque o Estado não responde no “pequenas causas” e não ressarce o “ônus da sucumbência”.

      O Estado não quer educar os motoristas, quer lucrar com as multas. Se o preço a ser pago é alguns milhares de vidas e mutilações todo ano… ora, quem se importa?

  7. Arthur,

    Na faculdade eu li uma matéria que falava sobre isso, em 2006 ou 2007. Uma universidade concluiu que quando uma pessoa conversa com outra que está presente, o cérebro se comporta de uma forma, e quando se conversa com uma pessoa que não está presente, o cérebro cria uma projeção da pessoa, então mais áreas são utilizadas nesta conversa. Veja que não é nem a questão de OLHAR para o carona, mas só o fato de se SABER que ele está lá que muda tudo. Quando o interlocutor não está com você, então o cérebro passa a projetar a pessoa, o lugar que ela está, passa a prestar atenção aos ruídos que acontecem no lugar onde a pessoa está etc.

    No caso dos bombeiros ou motoristas de ambulância, normalmente não são os motoristas que usam os rádios. Quando são os próprios motoristas, é uma situação de emergência (o companheiro está impossibilitado de realizar sua função).

    E a buzina é um som de emergência, em que a idéia é mesmo “parar” o que está havendo. Quando você ouve uma buzina, você freia. No mínimo, vc pára de acelerar até perceber de onde está vindo, etc. O caso dos pedestres que acabam sendo atropelados por causa da buzina acontece, mas a buzina acaba salvando mais vidas do que acabando com elas. Até porquê, se houve a necessidade de se apertar a buzina em alta velocidade para um pedestre, é pq alguém já fez alguma coisa MUITO errada…

    Sobre os rádios AM/FM, não é a mesma coisa que se usar um telefone celular. É uma via de mão única: você não precisa responder, então o cérebro se comporta de forma totalmente diferente nessa situação. Não é uma conversa, não há um contexto que mantém a conversação. Não dá pra comparar.

    1. Eu não discordo de nada disso, André. O problema é como isso se articula com a notícia que saiu no Jornal Conversa Pessoal, especialmente os trechos em negrito, e com o comportamento dos “especialistas em trânsito” conforme eu critiquei.

  8. Ah, sim. Bom, das duas, uma: ou esta pesquisa foi mal conduzida e chegou a um resultado que não condiz com a realidade (pra ficar melhor, de acordo com Thomas Kuhn, a pesquisa colocaria em xeque um paradigma sólido, que está acima dela, o que torna mais provável que ela, e não o paradigma, é que está errada), ou, mais provável, quem redigiu a matéria é que não leu direito, não entendeu contexto, enfim, não entendeu a pesquisa e publicou apenas o que ele entendeu. Isso é muito, muuuuito comum…

    1. Eu acho que a coisa é ainda um pouco pior: que os “especialistas em trânsito” nunca leram ou leram e nunca entenderam as estatísticas de acidentes de trânsito que justificavam a proibição do uso de celulares ao volante e quando surgiu uma explicação simples (“não pode porque o cérebro se confunde”, nada mais profundo que isso) aproveitaram para vir a público fingindo que são bem informados.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *