Se existe algo que me deixa irritado rapidamente é a alegação de que algum conhecimento é “muito teórico” e que “na prática as coisas não funcionam assim” quando eu sei que se trata de um conhecimento absolutamente sólido, perfeitamente estabelecido pela ciência.

Eu não sei se a história que vou contar é para rir ou para chorar, então escolha a reação de sua preferência…

Em mecânica de automóveis, mais do que em muitas outras áreas, normalmente o barato sai caro. A não ser que a gente conheça um mecânico da mais alta honestidade e competência, na maioria das vezes a gente baila.

Isso acontece por dois motivos: picaretagem, porque freqüentemente basta apertar um parafuso e o mecânico diz que tem que trocar toda a rebimboca da parafuseta, e incompetência, porque a maioria dos mecânicos não sabe fazer um diagnóstico tecnicamente fundamentado e resolve os problemas por tentativa-e-erro.

Pois bem.

Antes do meu carro atual eu tive um carro que volta e meia parava de funcionar sem explicação. Estava rodando numa boa, de repente começava a falhar, apagava e não dava mais a partida. Dali a algum tempo, “misteriosamente”, bastava virar a chave e ele pegava numa boa.

Diagnóstico óbvio: superaquecimento. Óbvio para mim, é claro, porque os mecânicos consultados negaram de pés juntos que o carro estivesse superaquecendo. Eles diziam que os sensores eram novos e estavam bons, que não tinha nada errado com a elétrica, que o motor estava ótimo, patati-patatá.

Mas eu – e só eu, porque todos os meus familiares, amigos, conhecidos e outros palpiteiros eventuais apoiavam o mecânico, que afinal de contas tinha 25 anos de profissão, enquanto eu mal sei diferenciar o acelerador do freio – insistia na tese do superaquecimento.

Por que eu insistia na tese do superaquecimento? Simples: física básica.

Em primeiro lugar, bastava o carro ficar desligado um tempo que ele voltava a funcionar normalmente. Ora, que outro parâmetro que não deixa vestígios visíveis pode se alterar segundo um padrão tão regular (sempre piora com o carro ligado, sempre melhora com o carro parado) exceto a temperatura?

Em segundo lugar, altas temperaturas dificultam a passagem da corrente elétrica nos fios, o que era totalmente compatível com os sintomas apresentados pelo carro.

Enquanto eu insistia na avaliação lógica dos sintomas segundo o que eu conhecia de física, todo mundo a meu redor dizia que eu era “muito teórico” e que “na prática as coisas não funcionam assim”.

Resultado: o carro realmente superaqueceu, fundiu o motor e precisou passar por uma retífica total. Alguém me deu razão? Não, claro que não. “Foi só coincidência.”

Mas a história não acabou por aí.

Feita a retífica, voltei a circular com o carro e ele apresentou a mesma pane já na primeira volta.

Quando fui conferir o radiador, percebi que ele estava com pouca água. Foi o que bastou para todos me acusarem de ter fundido o motor do carro da primeira vez por não ter verificado o nível de água do radiador. Engraçado como a memória das pessoas se altera magicamente, como a razoabilidade desaparece quando surge qualquer desculpa furada à qual possam se agarrar e como qualquer evidência que contrarie a desculpa furada é simplesmente ignorada ou considerada irrelevante.

Ninguém lembrava mais que o motor havia fundido com o radiador cheio. Ninguém levava em consideração o fato de que o mecânico me entregou o carro com o radiador com pouca água e disse que “o carro estava perfeito, é só sentar e rodar”. Ninguém acreditava quando eu dizia que em nenhum momento o painel acusou qualquer aquecimento acima do normal. Todos colocavam a culpa em mim por não ter verificado o nível da água antes de rodar e ignoravam o que eu dizia.

No dia seguinte, com o radiador cheio, o carro parou de funcionar de novo. Eu disse: essa porcaria continua superaquecendo, o defeito original que levou o motor a fundir  não foi sanado. Todos disseram: que nada, os sensores são novos e estão bons, não há nada errado com a elétrica, o motor está ótimo, patati-patatá. Mas desta vez eu bati pé. Exigi do mecânico uma revisão completa.

O carro ficou dois dias na oficina e quando fui buscá-lo o mecânico me disse que verificou “tudo”, que “teve que trocar a bateria porque ela não estava segurando a carga“, que rodou com o carro “o dia inteiro” e que “não havia problema algum”.

No caminho da oficina até a minha casa o radiador ferveu.

O mecânico disse que “não podia ser”. Eu lá no meio da rua, num dia quente, sob um sol abrasador, esperando a porcaria do carro esfriar, e o mecânico ao telefone dizendo que “não podia ser”. Diagnóstico dele pelo telefone: “é que o dia está quente demais”. Sorte dele que foi pelo telefone.

Como desta vez o radiador ferveu, provavelmente porque a bateria nova resistia melhor ao calor do que a anterior, mantendo a elétrica em funcionamento em uma temperatura superior do que a outra era capaz, nem o mecânico nem os palpiteiros puderam negar que o carro estivesse superaquecendo, exatamente como eu dizia desde o princípio.

– “Certo, Arthur. Traz o carro aqui amanhã pra gente investigar por que o carro está superaquecendo.”

– Mas rodar com o carro desse jeito não vai fundir o motor dele de novo?

– “Não, imagina! O motor recém foi retificado, o radiador está cheio, amanhã vai esfriar. Se hoje não fundiu, não vai ser amanhã que vai fundir. Pode vir dirigindo que eu garanto.”

No dia seguinte, no meio do caminho, o motor fundiu.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 10/01/2012

14 thoughts on “Física básica aplicada à mecânica de automóveis

  1. Com a experiência que tenho, sem andar no veículo para senti-lo, com seus relatos iniciais, sem saber ano, modelo e marca(importantíssimo) eu diria que seu veículo falhava inicialmente por ter algum entupimento no sistema de alimentação. Mas se você diz que ferveu, e duas vezes, o que eu acredito que “não pode ser” que apesar de ter fervido, seu mecânico mandou você andar com o carro e antes disso, como apesar das altas temperaturas as válvulas não acusaram, to acreditando que a lâmpada do seu painel ou ponteiro da temperatura (dependendo do modelo do veículo) está queimada ou no caso do ponteiro com algum impedimento para funcionar, já que as válvulas (sensores) eram novos e sem defeito. (pede a um eletricista de confiança para testar isso.

    1. Lunah, no final das contas os defeitos eram três: uma porcaria de uma válvula interna do radiador estava quebrada (partida em pedaços), o painel não estava acusando corretamente a temperatura em função de um sensor pifado e a bateria estava nas últimas.

      Ironicamente, corrigir o problema da bateria garantiu que o carro permanecesse funcionando por mais tempo ao invés de ter a elétrica desligada pelo calor, o que acabou resultando num aquecimento maior e conseqüentemente os danos foram maiores.

  2. Olá Arthur,

    Estou aprendendo a dirigir agora e bem, ainda tenho muito o que aprender com automóveis – eu nunca tive a menor vontade de aprender quando era menor, tenho nenhuma base sobre o funcionamento, risos.

    Eu fico até com medo do que eu fazer caso um dia aconteça uma coisa dessas, eu nem sei trocar um pneu sozinho. 😛

    1. Pois eu decidi radicalizar: tão logo eu tenha tempo disponível para isso, o que espero aconteça ainda neste semestre, eu vou fazer dois cursos do SENAI: o de eletricidade automotiva e o de mecânica de automóveis. O custo dos dois cursos deve se pagar fácil em dois ou três anos de economia com mecânicos.

  3. Max
    Se você está aprendendo agora no CFC (Centro de Formação de Condutores, muito bem, aí é o momento em que se aprende tudo (ou deveria) portanto, você pode pedir pra que te ensinem a trocar o pneu, olhar água, óleo e entender melhor o funcionamento do veículo.

    1. Lunah, quando eu tive que fazer o “curso de reciclagem” de três para renovar minha CNH eu participei ativamente nos debates do primeiro dia e fiquei caladinho da silva nos dois últimos dias, só de corpo presente, porque não agüentei o nível do “curso”.

      A gota d’água foi uma “aula” de primeiros socorros em que eu perguntei qual a técnica correta de reanimação cardio-respiratória ao instrutor e ele não sabia nem a freqüência nem a intensidade corretas da massagem cardíaca e muito menos a cada quantas compressões deveria ser feitas quantas insuflações forçadas de ar caso houvesse um socorrista ou dois socorristas.

      Quando eu percebi que o sujeito só sabia repetir o que estava escrito em uma apostila porca e incompleta, e que ninguém ia sair dali sabendo porcaria nenhuma, eu decidi simplesmente cumprir o ritual de ficar ali parado com os olhos abertos e sair “devidamente habilitado” segundo a lei.

      Não confio em NENHUMA instituição que têm o monopólio de seu campo de atuação (isso inclui medicina, direito, arquitetura, engenharia, CFCs, etc.). Quem sabe mostra resultados no mercado e se destaca por sua competência, não fecha o mercado para evitar a competição alegando “proteger o consumidor”.

  4. Eu lembro quando um carro antigo morria sem explicação. Demorei pra entender que um santo paninho úmido numa peça acelerava ele pegar de novo. Bãons tempus.

    1. É. O paninho úmido absorvia calor, faz sentido. Mas no caso daquele carro teria que ser um lençol encharcado. 😛

  5. E você ainda tem sorte. Quando eu levo meu carro a um mecânico por qualquer motivo – até pra revisão – e peço pra olhar isso ou aquilo que parece não estar funcionando perfeitamente, o sujeito me olha de alto a baixo com aquela cara de ‘e quem disse que mulher entende alguma coisa de carro?’. Não sou expert, mas não sou burra, né, algumas conclusões lógicas não carecem de baixar o Espírito Santo pra diagnosticar. E tenho um ouvido bom bagarái, então qualquer barulhinho fora do normal eu detecto na hora, e não sossego enquanto o caboclo não resolve. Mas é isso, pra homem ainda existe uma chance de conversa; com mulher, eles acham que tudo é complexo demais pra gente entender… 🙁

    1. Fico imaginando que inferno deve ser. Mas não pensa que não há equivalentes na contramão: em qualquer debate sobre aborto, por exemplo, os homens são automaticamente desqualificados como se não pudessem entender nada do assunto só porque não têm um útero. Sexismo existe nas duas direções. E na “direção” (volante) também. 😛

  6. a famosa ‘faca de dois legumes’… 😛

    1. Um alerta importante: “Sexismo? Me inclua fora dessa!” 🙂

  7. Arthur

    O SENAI disponibiliza cursos básicos na área automotiva em sistema EAD. Da uma olhadinha aí http://www.pr.senai.br/FreeComponent229content135579.shtml

    1. Anotado. 🙂 São cursos gratuitos, numa daquelas faço estes cursos antes dos cursos pagos para já ir me informando sobre o vocabulário e tendo uma visão geral do assunto.

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