Eu tirei os últimos três dias para ler o livro de George Lakoff, Don’t Think of an Elephant!: Know Your Values and Frame the Debate–The Essential Guide for Progressives (resenhas em inglês, pdf em inglês) e mais uns vinte artigos sobre a importância da correta formação de quadros conceituais para transmitir idéias com eficácia. Tomara que isso melhore meu modo de escrever aqui no blog…

George Lakoff é um cientista cognitivo e professor de lingüística politicamente alinhado com o Partido Democrata dos EUA. Neste livro, que o tornou famoso e alçou-o à condição de consultor científico dos Democratas, ele explica os motivos pelos quais acredita que os Republicanos têm conseguido manter-se eleitoralmente em pé de igualdade e mesmo à frente dos Democratas mesmo possuindo uma base política menos numerosa entre os cidadãos estadunidenses.

A idéia básica de Lakoff é que os Republicanos há muito tempo aprenderam a apresentar suas idéias de acordo com quadros conceituais muito melhor planejados que os Democratas, portanto comunicando melhor as suas idéias e na verdade escolhendo os termos nos quais o debate político é realizado. Na verdade, o próprio título do livro foi muito bem escolhido e já contém a lição central que deve ser extraída de sua leitura e muito bem aprendida.

– Não pense em um elefante!

Não há jeito de atender esta solicitação, certo? Para compreender a solicitação é necessário primeiro decodificar os termos nos quais ela é expressa – e aí já é tarde demais, você já pensou em um elefante.

Do mesmo modo, quando a administração George W. Bush passou a utilizar o termo “tax relief” (alívio nos impostos), que na verdade só beneficiava os 1% mais ricos dentre os estadunidenses, mas causava um déficit de mais de um trilhão de dólares em dez anos para os EUA, o que encarecia diretamente todo o sistema de saúde e colocava em risco o sistema de securidade social de toda uma geração, o povo dos EUA apoiou amplamente esta iniciativa.

Não adiantou nada os Democratas alertarem que este suposto alívio só seria sentido pelos 1% mais ricos e que na verdade prejudicaria tremendamente o financiamento de todos os programas de assistência social dos EUA, colocando em risco a própria estabilidade econômica do país. Tudo que as pessoas comentavam era “como pode alguém ser contra um alívio nos impostos?”.

Do mesmo modo, quando os Republicanos lançaram o “Clear Sky Act” (“Decreto do Céu Limpo”), que na verdade reduzia o controle e os parâmetros de qualidade do ar, permitindo uma poluição muito maior que a tolerada pela legislação anterior, os estadunidenses consideraram o decreto uma boa medida de proteção da qualidade do ar. E o mesmo aconteceu com o “Whealthy Forest Act” (Decreto das Florestas Saudáveis), que praticamente liberava a destruição indiscriminada das florestas.

Em todos estes casos, os Democratas alertaram para o duplipensar do vocabulário bushiano/republicano, mas seus esforços não encontraram respaldo na população dos EUA. A pergunta que se fazia necessária era: por quê?

Como era possível que tantos estadunidenses votassem de modo tão grotesco contra seus próprios interesses?

Segundo Lakoff, a resposta é simples: as pessoas não tomam decisões de modo racional, portanto não adianta simplesmente apresentar-lhes os dados e esperar que elas tirem deles as conclusões adequadas; as pessoas tomam de acordo com os quadros conceituais com os quais são chamadas a pensar.

Se os dados não se enquadram nos quadros conceituais, então os dados são ignorados, mas os quadros conceituais persistem.

Os Democratas tentaram, é óbvio, denunciar cada uma destas manobras, mas não foram hábeis em apresentar quadros conceituais adequados dentro dos quais os estadunidenses pudessem compreender seu raciocínio. Por exemplo, eles explicaram exaustivamente que os 1% mais ricos seriam beneficiados em detrimento de 25% da população mais pobre que teria que desembolsar um trilhão de dólares em dez anos em despesas médicas e previdência privada para cobrir o alívio de impostos dos maiores milionários e bilionários do país.

Eles não tiveram sucesso em fazer o povo estadunidense entender isso porque a visão dos impostos é de “um dinheiro que o governo toma das pessoas” e não “um justo financiamento da saúde e dos programas sociais para quem mais precisa” ou mesmo “uma justa retribuição pela manutenção da infraestrutura necessária para que cada estadunidense possa viver com saúde e segurança”.

Mudar a visão de uma grande população sobre um tema tão profundamente enraizado na cultura nacional é difícil e demorado. Os Republicanos há quarenta anos divulgam o quadro conceitual de que impostos são uma extorsão do governo contra o cidadão. Mesmo perante o risco de uma recessão que levaria os EUA ao calote de suas dívidas, derrubaria a economia mundial e faria a recessão de 1929 parecer uma marolinha, os estadunidenses não conseguiram chegar à conclusão mais óbvia e racional a sua disposição: cancelar o “tax relief” e aumentar o simpostos para o 1% da população mais rica somente o suficiente para se ressarcir dos efeitos da mais deletéria medida do governo Bush para a economia dos EUA.

Tudo isso por causa de duas palavrinhas.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 15/01/2012

45 thoughts on “Quadros conceituais e a transmissão de idéias

  1. Na verdade não existe a divisão republicanos/democratas. Ambos são fantoches do mesmo grupo. Então todos que pertencem aos partidos são cumplices? Não, muitos políticos acreditam mesmo nisso, afinal não seria possível manter uma quantidade tão grande de cumplices. Mas todos os ocupantes dos cargos chaves estão envolvidos, disso não há dúvida. Eles ficam fazendo o antigo jogo q vemos nos filmes, tira bom/tira mau e invertendo o jogo sempre que é necessário.
    Esse grupo que detem o poder são os principais mega-empresários do mundo, todos unidos entre si e apátridas.
    Os EUA são o país mais manipulado e controlado por eles justamente por que lá é onde há mais dinheiro e armamentos.
    O fato de os EUA terem proporcionalmente a sua riqueza a pior qualidade de vida de todo o planeta não é mera coincidência.

    1. O lado divertido da hipocrisia é que o hipócrita não pode jogar só quando quer, ele é obrigado a manter a pose ou desmascarar-se. Quando as bases do Partido Democrata favorecem um líder sincero e carismático, os cúmplices do conservadorismo são obrigados a engolir isso. E quando as bases pressionam um cúmplice do conservadorismo a agir de modo razoável ele acaba sendo obrigado a ceder para não perder espaço para algum líder mais sincero. Mas é indubitável que esse jogo só é mantido porque sai mais barato e é mais seguro agir assim e tolerar algumas derrotas do que assumir uma ditadura aberta.

      Isso também tem a ver com o modo de transmitir idéias. Por isso o trabalho de cientistas como Lakoff é importante. Torna-se cada vez mais difícil manter um jogo de bastidores quando há cientistas cognitivos ensinando as pessoas a identificar e combater o duplipensar.

  2. Fernanda Ramos

    15/01/2012 — 07:57

    Ha algum tempo descobri que dar justificativas racionais a minha avoh eh pura perda de tempo. Dizer: faz isso por causa disso eh pedir para ela retrucar. Agora dizer faz isso pq eu estou pedindo, ela atende prontamente e satisfeita. Ter um motivo racional pra fazer uma coisa nao eh motivo para faze-la. Jah atender um favor pessoal eh razao para se fazer qq coisa. Seres humanos sao completamente irracionais.

    1. “Seres humanos sao completamente irracionais.”

      [2]

    2. “[Alguns]
      [Muitos]
      [A maioria dos]
      [Quase todos os]…

      …seres humanos sao…

      [às vezes]
      [frequentemente]
      [desagradavelmente]
      [irritantemente]
      [bastante]
      [quase completamente]

      …irracionais.”

      Em nome da justiça e da precisão, para aumentar o leque de opções (montem seu modelo) e para dar um crédito de confiança à nossa desacreditada espécie. 🙂

      Ou para buscar alguma esperança. 🙁

    3. Se eu não começar a ser mais positivo aqui, temo provocar o suicídio do Gerson. 😐 O pior é que os artigos para os próximos dois dias já estão prontos e – ai! – ambos seguem a linha “pinga-ácido”. Eu tenho que melhorar isso. Difícil é mudar o meu quadro conceitual para fazer esse milagre.

    4. HAUUHAUHAUHAUAHUAUAUAUAHAUAUAUAUHAUHAUAHAU!!!!!!

    5. Mas se você prestar atenção, Arthur, meu modelo descritivo da irracionalidade humana é menos pessimista que a frase da Fernanda endossada por você! Abre espaço para exceções…

    6. Tanto menos pessimista quanto um tiro na canela é menos perigoso que um tiro na coxa, porque a chance de pegar um vaso de grande calibre é menor… 😛

  3. Interessante…
    lembra Orwell…

    1. *É* puro Orwell. E o trabalho de Lakoff é magnífico justamente porque oferece uma ferramenta poderosa para combater a linguagem orwelliana, ou duplipensar.

      Quando identificamos um duplipensar insidioso como “tax relief”, batemos diretamente nele e não vemos resultados, não adianta continuar explicando a incongruência dentro do mesmo quadro conceitual, como costumamos fazer.

      Se as pessoas não conseguem encaixar a idéia dentro de seus quadros conceituais, elas não vão entender a idéia. É necessário prover a elas um quadro conceitual dentro do qual a idéia possa se encaixar, somente então elas vão entender a idéia.

  4. Os Estados Unidos nao sao mais a concentracao de riqueza que eram nos anos 70. Ha paises mais ricos que os US e a populacao dos US esta’ ciente disso.
    A qualidade de vida nos US para cidadaos e imigrantes legalizados e’ infinitamente melhor do que no Brasil ou Argentina, ou que em varios paises da Europa.

    1. Paulinha, não é que os EUA não sejam mais o país mais rico do mundo, acontece que a concentração de riqueza nas mãos de uns poucos é tão absolutamente imensa que a maior parte da população vive em patamares de qualidade de vida muito inferiores ao que a renda per capita do país poderia garantir se fosse minimamente melhor distribuída, mesmo levando em consideração que há muitos países em situação pior.

    2. voce esta’ enganado.

    3. Vamos argumentar com dados, Paulinha?

      Em favor de minha posição eu apresento estes três links (textos curtinhos e objetivos):

      http://noticias.uol.com.br/blogs-e-colunas/coluna/luiz-felipe-alencastro/2011/04/23/distribuicao-de-renda-faz-eua-passarem-por-momento-de-brasilianizacao.htm

      http://opiniaoenoticia.com.br/internacional/veja-o-grafico-mostrando-a-distribuicao-de-renda-em-paises-da-ocde/

      http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/000000_peua.shtml

      Eu não ganho nada mantendo uma visão de mundo errada. Se houver indícios em contrário do que é dito nestes informativos, por favor me mostra.

    4. Achei mais um dado interessante que reforça minha opinião: o gráfico de distribuição de renda anual nos EUA. Observa o segundo pico modal no extremo direito do gráfico!

      http://en.wikipedia.org/wiki/File:Distribution_of_Annual_Household_Income_in_the_United_States.png

    5. Lucas do povo

      16/01/2012 — 22:32

      Eu pensava que era justamente o contrário, a vida la é melhor para nativos do que para imigrantes, já que estes sofrem bastante preconceito e ficam com os piores empregos.

      E ha mais de 2 décadas que há países com maior qualidade de vida e educação que os EUA, este conceito de ”maior potência” também leva termos políticos, militares e culturais.

    6. Lucas, pesquisa quais países têm IDH maior que 0,9 (ou 90%) e Coeficiente de Gini menor que 0,33 (ou 33%) simultaneamente. Estes são os melhores países do mundo para morar. Os EUA não aparecem em nenhuma das duas listagens…

  5. “A qualidade de vida nos US para cidadaos e imigrantes legalizados e’ infinitamente melhor do que no Brasil…”

    Primeiro eu falei proporcionalmente a sua riqueza. Segundo, mesmo deixando de lado a gigantesca diferença de riqueza entre os países, o Brasil ainda tem uma qualidade de vida superior aos EUA em vários aspectos.

    Tenho parentes lá.
    Um, que não é imigrante, é analista de sistemas como eu. Ficou um bom tempo desempregado enquanto eu nunca demorei mais do que 2 semanas para conseguir emprego aqui, alem de eu ganhar mais do que ele.
    Minha tia totalmente de saco cheio de ser péssimamente atendida pela medicina americana precisou fazer uma cirurgia e veio fazer no Brasil.

    Os americanos são completamente alienados de tudo. Meus parentes americanos, que são formados, cultos e acompanham as notícias não sabiam que o FED é privado, que bin laden foi treinado pela cia e era amigo do bush, e realmente acham que os arabes são monstros terroristas enquanto que israel é um país maravilhoso.

    Os psicopatas tendem a desestabilizar emocionalmente suas vitimas para que possam se aproveitar delas. O governo psicopata dos EUA tem inumeras leis absurdas cuja unica razão da existencia é tornar um inferno a vida dos cidadãos americanos, para deixa-los presos a problemas insoluveis enquanto são roubados sem perceber.

    Lixo de país

    1. “Os psicopatas tendem a desestabilizar emocionalmente suas vitimas para que possam se aproveitar delas. O governo psicopata dos EUA tem inumeras leis absurdas cuja unica razão da existencia é tornar um inferno a vida dos cidadãos americanos, para deixa-los presos a problemas insoluveis enquanto são roubados sem perceber.”

      Isso é verdade.

    2. e’ estrabho um analista de sistemas ficar desempregado por muito tempo nos US. Talvez estivesse sendo muito exigente qto `as opcoes de trabalho disponiveis…

    3. Nisso não posso dar palpite.

  6. Saindo do assunto, vi esse vídeo e como era em inglês lembrei desse seu post aí vim postar aqui……

    http://www.youtube.com/watch?v=OXrN9HhnCcM&feature=relmfu

    1. Infelizmente, embora eu leia bem em inglês, eu não “ovo” bem… 😛 Quando tenho legendas disponíveis em português eu chego a corrigir as legendas, mas sem o apoio visual eu não consigo entender tudo. Tentei assistir um episódio do seriado “24 HORAS” sem legenda e perdi uns bons 25% a 30% das falas. Resultado: não curti o filme. Ouvir e compreender requer um treinamento que eu nunca tive disponível. Só tive inglês para o vestibular, no ensino médio. Foi o suficiente para fazer um mestrado, mas não é o suficiente para assistir TV. O inglês está longe, longe, muito longe de ser uma língua clara. Por isso que eu sempre digo que esse papo de que “o mundo fala inglês” é uma das maiores mentiras que eu já ouvi. (Ou li.)

  7. Por que o meu monstrinho tem uma vagina?

    1. HAHAHAHAHAHA!!! Olha mais de perto! É um focinho de porco! 🙂

      Mas que ficou numa posição estranha esse focinho, isso ficou.

      Ou bem mudas o e-mail, ou bem fazes um cadastro no Gravatar…

    2. Apresenta ele pro monstrinho do Rafael Holanda. Acho que eles vão se dar bem, repare a figura 🙂 .

  8. Manga-Larga

    16/01/2012 — 20:04

    Melhor post seu dos últimos tempos, revelador e triste! Me faz pensar, que tipos de quadros mentais deveríamos criar para usar o duplipensar em nosso favor no quesito legalidade das drogas?

    1. Estou preparando um artigo sobre isso! 🙂

    2. Manga-Larga

      17/01/2012 — 13:39

      estou esperando ansioso! Depois vamos testar isso no BBB virtual do FHC, lá no OP.

  9. A segunda crise do socialismo

    http://mises.org.br/Article.aspx?id=1125

    Entendam a crise mundial…

  10. [Proselitismo pró-capitalista deletado.]

  11. Só adianta reduzir impostos quando o governo é responsável, Bush reduziu e deu no que deu.

    1. Como assim “só adianta”? Adianta para quê?

      Um país que ainda tem uma única criança passando fome não pode falar em reduzir impostos para os 1% mais ricos. Isso é o cúmulo do absurdo, é uma política francamente assassina. A administração Bush conseguiu ser mais deletéria para os EUA e para o mundo que a administração Reagan, que já tinha sido desastrosa. É um sinal de que sempre pode piorar, especialmente quando os neocons e/ou os stalinistas são empoderados… eles são igualmente perniciosos.

  12. Segundo a análise de Mises para a diferença entre sucursais estatais e privadas, em uma sucursal estatal,

    Não é por causa da meticulosidade que as regulamentações administrativas determinam quanto pode ser gasto por cada agência ou aparato estatal em coisas como limpeza, reparo de móveis e equipamentos, iluminação e sistema de ar condicionado. Em uma grande empresa privada, tais coisas podem ser deixadas, sem hesitação, aos critérios do administrador local. Ele não irá gastar mais do que o necessário porque ele está utilizando, de certo modo, seu próprio dinheiro. Se ele desperdiçar o dinheiro da empresa, ele colocará em risco os lucros daquela sucursal e estará assim indiretamente prejudicando seus próprios interesses. Por outro lado, a situação é diferente para o chefe local de uma agência estatal. Ao gastar mais dinheiro, ele poderá aprimorar os resultados de seu departamento. A parcimônia terá de ser imposta a ele por controle governamental. E isso quase nunca funciona.

    1. Agora que me dei conta… que tal voltar para o assunto do artigo? CANSA essa história de usar todo e qualquer assunto para atacar a esquerda e enaltecer a direita, Nelson.

  13. http://mises.org.br/Article.aspx?id=1180

    Como funciona a burocracia estatal

    1. E a solução qual é? Deixar a Enron administrar o mundo? Ou a WorldCom? Ou o Washington Mutual? Ou o Lehman & Brothers? É desse jeito que a sagrada iniciativa privada vai nos livrar da malvada burocracia estatal?

  14. Rafael Holanda

    17/01/2012 — 02:32

    Assustador. Temos logo que desenvolver quadros conceituais compreensíveis que possam combater idéias bizarras como “a discriminação é ruim! Porém, a discriminação positiva…”

    1. Nepotismo é discriminação positiva para quem ganha o cargo, mas negativa para quem perde o cargo para um apadrinhado político.

      Deixar alguém furar a fila é discriminação positiva para quem passa na frente, mas negativa para quem é passado para trás.

      Corporativismo é discriminação positiva para os integrantes de uma categoria, mas negativa para depende de seus serviços.

      Acesso pago a serviçoes de saúde de alta qualidade é discriminação positiva para os ricos, mas negativa para os pobres.

      Todos os casos de discriminação positiva são positivos para alguém em detrimento de outrem. Toda discriminação positiva exige uma discriminação negativa.

      Essa é a parte lógica.

      O problema é como dizer isso de modo simples e direto sem usar o termo “discriminação positiva”, que é o elefante deste caso.

      Privilégio coitadista?

      Recompensa da incapacidade?

      Vantagem do despreparo?

      Não gostei de nenhum dos meus próprios exemplos. Eles não evocam diretamente a noção central da questão.

      Seria necessário encontrar uma expressão que desperte claramente a noção de que toda discriminação “positiva” promove uma injustiça e prejudica alguém que tinha mais direito ao benefício em disputa.

      Enquanto isso não aparece, creio eu que a melhor coisa a fazer é procurar associar ao máximo o termo “discriminação positiva” à “discriminação negativa”, mostrando em todos os exemplos que, sempre que alguém recebe um privilégio, outro alguém sofre um prejuízo.

      Creio que também é necessário questionar se quem sofre o prejuízo merece o prejuízo. Os “discriminadores positivos” sempre argumentam em termos de “é injusto que tenhamos sido explorados”, “dívida histórica”, etc.

      Há que se perguntar:

      Estas pessoas que estão sofrendo o prejuízo causaram algum mal para as pessoas que foram injustiçadas no passado?

      As outras pessoas que estão nas mesmas condições dos “discriminados positivamente” e que não possuem as mesmas características que eles, não merecem os mesmos privilégios?

      Enfim, isso me parece tão lógico que eu creio que estou fazendo a dança da chuva ao redor do elefante sem perceber… e este é o grande problema de combater quadros conceituais tortos com argumentos lógicos. A gente fica contente com a própria lógica e esquece que a maior parte da audiência vai continuar pensando em “discriminação positiva” pelo simples fato de usarmos o termo para negar o conceito.

      O quadro conceitual fica, os fatos e argumentos desvanecem.

      Uau, é difícil mesmo…

  15. [Proselitismo pró-EUA e anti-distribuição de renda deletado.]

  16. “Agora que me dei conta… que tal voltar para o assunto do artigo? CANSA essa história de usar todo e qualquer assunto para atacar a esquerda e enaltecer a direita, Nelson.”

    Mas se a esqauerda que é a eterna torradora de dinheiro, centralizadora, cobradora de impostos ao extremo.

    Quando diminui-se os impostos, automaticamente as médias e pequenas empresas cresceram, vão ter mais dinheiro pra ampliar a produção, assim vai contratar mais e gerar mais empregos, vai produzie mais e os preços vão diminuir pelo aumento de oferta de produtos e serviços, a qualidade vai aumentar etc. Quem se beneficia com impostos altos? As grandes corporaçôes. As médias e pequenas empresas não crescem pela carga tributária alta e acaba sendo compradas pelas grandes ou acabam quebrando. E quem financia os políticos? As grandes empresas, para impedir que nova surjam e criem concorrência pra elas. O socialismo esta intimamente ligada ao corporativismo.

    ………..

    1. Pois é, mas o assunto é “quadros conceituais e transmissão de idéias”, não proselitismo pró-direita.

      Tens todo o direito de recorrer à magnanimidade das empresas estadunidenses que socializam o acesso à internet e discursar em um blog sustentado pelo contribuinte estadunidense. A hospedagem deste aqui eu pago do meu bolso e ele não vai servir de espaço de propaganda gratuita para a direita anti-solidária.

  17. Encontrei seu blog ontem, e achei muitas coisas interessantes. Este artigo em especial me deixou surpreso e até preocupado.
    No trabalho tivemos que discutir idéias de grande importância e impacto para toda a equipe. Eu nunca entendi como um colega conseguiu convencer todo mundo a aceitar uma idéia ruim usando argumentos fracos e vagos. Enquanto eu tantava apontar os problemas óbvios dessa idéia e deseperadamente apontar uma alternativa, mas ninguém dava a mínima.
    Eu sempre achei que ele havia manipulado todo mundo, inclusive eu, mas não sei se intencionalmente ou não. Essa teoria explica perfeitamente o que aconteceu, as idéias dele encaixaram nos quadros conceituais das pessoas, fazendo com que os outros argumentos nem fossem realmente ouvidos. E ao usar a linguagem dele, eu só reforcei as idéias que tentava combater.

    Essa teoria indica que a discussão de idéis é, na maioria das vezes, ineficaz. Pois qualquer raciocínio diferente do habitual será imediatamente recusado ou ignorado.
    E o pior: ela indica que a única forma de transmitir idéias de forma eficaz é manipular as pessoas, de modo que aceitem as idéias sem realmente pensar.

    E finalmente, ela indica que PENSAR DÓI SIM!
    Se as pessoas tentarem entender idéias que não se encaixam em seus quadros conceituais pré-estabelecidos, o cérebro delas vai doer e vai travar! Por isso todo mundo continua seguindo o rebanho tranquilamente rumo ao abate…

    1. Não é bem assim, Gustavo.

      A discussão de idéias não é ineficaz. O que é ineficaz é discutir idéias dentro do quadro conceitual do adversário no debate. Mas que não é fácil identificar os quadros conceituais e pensar em alternativas que possam fazer sentido na cabeça das pessoas, isso não é mesmo.

      Não se trata de manipular! Trata-se de encontrar um quadro conceitual no qual nossa idéia faça sentido para as pessoas e então, dentro deste quadro conceitual, mostrar para elas que nossa idéia é lógica e razoável.

      O problema é que pensamos em termos de “briga de idéias” ao invés de pensar em termos de “briga de quadros conceituais” nos quais as idéias precisam fazer sentido.

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