Eu tenho visto muita gente que se diz humanista, que se organiza em torno de entidades que se dizem humanistas, ou que aponta o dedo para os outros criticando-os por não serem “verdadeiros humanistas” cometer verdadeiras barbaridades contra o humanismo. Se você se considera um humanista e pretende agir de modo coerente, então pode tirar bom proveito de uma reflexão profunda sobre os conceitos expostos neste artigo.

1. O Humanismo não admite adjetivações

Não existe “humanismo cristão”, “humanismo secular”, “humanismo laico”, “humanismo conservador”, “humanismo progressista”, “humanismo de direita”, “humanismo de esquerda”, “humanismo radical”, “humanismo light“, “humanismo verde”, “humanismo cor-de-burro-quando-foge”. Ou você considera o ser humano – todo e qualquer ser humano – intrínseca, indeclinável e inalienavelmente dotado de dignidade e merecedor de respeito, ou não. Adjetive seu humanismo, vincule seu humanismo a uma religião, ou a ausência de uma religião, ou a uma ideologia política, social ou econômica, ou estabeleça condições para tratar qualquer ser humano com dignidade e respeito, e você não é mais humanista.

2. Não existe “humanista não-praticante”

O humanismo não é um “movimento intelectual”, é uma prática diária que reflete suas convicções mais profundas. Ou você trata o ser humano – todo e qualquer ser humano – com dignidade e respeito, ou não. Afirme seu humanismo somente com palavras e não com todo seu estilo de vida e cada uma de suas ações, ou justifique qualquer violação da dignidade ou o desrespeito a qualquer ser humano, e você não é mais um humanista.

3. O humanismo não põe o ser humano sozinho no centro do universo

O ser humano é apenas um dentre inúmeros seres sencientes – dotados de um grau de consciência que permite que experimentem prazer e dor, contentamento e sofrimento – que vivem interligados em uma ecosfera frágil do qual todos dependem. Ou você reconhece que dignidade e respeito são devidos a todo ser capaz de experimentar prazer e dor, contentamento e sofrimento, ou não. Limite sua capacidade de reconhecer dignidade e oferecer respeito somente aos seres capazes de expressar estes conceitos, negligenciando tanto o tratamento oferecido a cada outro ser senciente em escala individual quanto o tratamento oferecido aos sistemas dos quais todos dependem para sobreviver e experimentar prazer e dor, contentamento e sofrimento, e você não é mais um humanista.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 19/01/2012

23 thoughts on “Você é um humanista? Check-list com apenas três questões

  1. Esse último ponto é interessante. Meu avô, que era vaqueiro, vivia dizendo que, para matar um animal pra comer, devemos matar rápido e sem sofrimento, pois assim demonstramos respeito por eles e não causamos dor desnecessária. Acredito que o humanismo passa por aí: nunca causar sofrimento ao outro, mas sempre propor um respeito por tudo, uma profunda reverência por tudo.

    Quanto ao humanismo fajuto que temos por aí, percebo na verdade que muita gente se diz humanista somente porque assim conseguem votos ou status. Está na hora de procurarmos outra palavra para substituir Humanismo, pq a primeira já se viciou.

    1. “para matar um animal pra comer, devemos matar rápido e sem sofrimento, pois assim demonstramos respeito por eles e não causamos dor desnecessária”

      Perfeito! Concordo 100% com teu avô! Om mani padma hung pra ele. Que sua sabedoria se espalhe entre nós.

      Será que vamos ter sempre que encontrar novos termos para expressar a mesma noção básica de decência, porque o ser humano tem o incrível “dom” de enxovalhar cada vocábulo desonrando o conceito que ele expressa?

  2. Manga-Larga

    19/01/2012 — 09:45

    Acabei de descobrir que sou um humanista!

    1. Fico feliz! 🙂 Bem-vindo ao clube! 🙂

  3. Não me considero exatamente humanista desde que li “A arrogância do Humanismo”, de David Ehrenfeld. Gosto de alguns ideais, mas o acho muito antropo e racionalocêntrico,( é assim que se escreve? Bolas, escrevi-lo porque qui-lo).

    Não sei se concordo totalmente com o item 1, talvez algumas adjetivações encaixem na definição, não sei se dá pra fugir. Sua proposição final (com a qual concordo em 110%) de que todo e qualquer ser humano é dotado de dignidade e merecedor de respeito já é um tipo de visão. Se bem que pra você é o cerne do Humanismo. Ai passamos a discutir definições. Talvez você esteja certo.

    O que gostei mesmo foi do item 3, salva o Humanismo daquilo que menos gosto associado ao têrmo.

    1. Adorei o “racionalocêntrico”. 🙂 Se a palavra não estiver dicionarizada, azar dos dicionários, porque é perfeitamente compreensível. O Velho Guerreiro aprovaria. Afinal, “quem não se comunica se trumbica”! 😉

      O item 1 surgiu quando eu relia o conteúdo do link que me passaste sobre mudanças numa certa entidade que adjetiva seu suposto humanismo e na verdade protagoniza verdadeiras barbaridades contra o humanismo. O título do item 1 era para ser o título do artigo, mas felizmente percebi que não havia (por que / porque / por quê / porquê) razão para me limitar a uma crítica a quem não vai aprender nada com ela. Portanto, o artigo ganhou amplitude.

      Eu admito que em tese a adjetivação poderia se tratar muito mais de uma “declaração de estilo” ou “registro da motivação original” do humanismo, mas na prática TODAS as pessoas e organizações que eu vi adjetivarem o humanismo estavam centradas no adjetivo e não no humanismo. Um padrão que nunca mostrou uma exceção é forte demais para ser ignorado.

      Quando ao reconhecimento da dignidade universal e a exigência do respeito incondicional serem o cerne o humanismo, acho que pode ser provado por reductio ad absurdum: se eu ignorar a dignidade humana e justificar o desrespeito a alguns seres humanos (o que implica legitimar que alguém cometa de fato alguma violação contra outrem), serei eu ainda um humanista?

      (Aliás, se este não for o critério, então qual seria?)

      Quanto ao item 3, que no momento em que te respondo já é o que causou maior polêmica, eu o considero uma simples decorrência lógica da razão de ser do humanismo. Por que haveríamos de reconhecer uma dignidade “intrínseca, indeclinável e inalienável” ao ser humano senão devido a sua natureza intrínseca, indeclinável e inalienável de ser senciente, capaz de sentir e incapaz de não sentir prazer e dor, contentamento e sofrimento?

      Ora, se estas são as características que nos levam a reconhecer a dignidade e a necessidade de respeitar o ser humano, então que desculpa furada nos haveria de liberar de reconhecer a dignidade e a necessidade de respeitar qualquer outro ser que possua as mesmas características?

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      Creio que o nome “humanismo” só se justifica porque fomos os primeiros seres sencientes conhecidos a articular este conceito. É um termo com valor histórico. Se fosse eu a cunhar o termo, talvez ele se chamasse “sencientismo” ou “sencienticismo”. Ainda bem que alguém chegou antes! 😛

  4. Joaquim Salles

    19/01/2012 — 10:11

    Curiosamente se trocar humanismo por naturismo da certo também. Claro que não necessariamente tenham os mesmos objetivos e métodos, contudo, no caso do texto em pauta, a troca das palavras até que da “bem certinho” 🙂

    1. É, o naturismo (o naturismo, não algumas coisas chamadas de naturismo por aí) é sem dúvida alguma um movimento humanista. Bem lembrado. 🙂

  5. Arthur, tudo bem? Não entendi o item 3. Você poderia explicar melhor? brigaduuuu Robson

    1. Arrãm, eu poderia ter sido mais didático. Isso é para eu aprender a não postar os textos que escrevo no meio da madrugada antes de dormir umas oito horas. 🙂

      É o seguinte: nós reconhecemos uma dignidade “intrínseca, indeclinável e inalienável” no ser humano porque ele é um ser senciente, ou seja, um ser capaz de sentir prazer e dor, contentamento e sofrimento.

      Ora, se são estas características que nos permitem reconhecer uma dignidade “intrínseca, indeclinável e inalienável” no ser humano, como raios poderíamos não reconhecer esta mesma dignidade em qualquer outro ser que apresente as mesmas características?

      E, se devemos respeito ao ser humano em função destas características, como raios poderíamos justificar o desrespeito a qualquer ser que também possua estas características?

      Portanto, devemos reconhecer a dignidade de, e tratar com o devido respeito, todo e qualquer ser senciente. Isso inclui os grandes primatas na natureza, os animais que criamos para abater, os nossos bichinhos de estimação, os mosquitos da dengue e as baratas que matamos a chineladas.

      Qualquer que seja nosso relacionamento com eles (o que no caso de alguns é um “relacionamento” de extermínio), deve ser feito com respeito, o que implica não promover sofrimento no nível que aquele organismo é capaz de perceber/sentir.

      Por exemplo: eu sou totalmente contra o uso daquele tipo de “veneno” para ratos que vira pedra dentro dos intestinos do bichinho. A morte causada por aquele veneno deve ser terrivelmente dolorosa e agonizante, portanto eu considero um abuso injustificável o recurso a este método. por outro lado, eu não vejo problema algum em colocar uma ratoeira atrás da geladeira, porque a ratoeira mata instantaneamente, ou seja, poupa o animal de dor e sofrimento. Mas adivinha qual das duas soluções é preferida pela maioria das pessoas por ser “mais limpa” e dar “menos trabalho”? Do meu ponto de vista, esse critério de escolha é profundamente anti-ético, e na verdade é desumano.

  6. Rafael Holanda

    19/01/2012 — 12:33

    Arthur, tb não entendi muito bem o item 3. Ele teria alguma relação com o vegetarianismo/doutrina vegan?

    1. Manga-Larga

      19/01/2012 — 13:09

      Acho que o item 3 tem a ver com o erro do antropocentrismo que acomete alguns humanistas. Talvez o item 3 torne restrito demais o termo “humanismo”, sugerindo algo como “servivo-lismo”…

    2. Rafael:

      Não, nada a ver com o veganismo. Os vegans dizem que é anti-ético matar qualquer animal. Eu digo que o matar animais só é anti-ético se não houver um bom motivo para isso (claro que pode-se discutir o que seja um bom motivo: por exemplo, no Orkut eu quase apanhei quando postei um texto parecido com meu artigo “Sou biólogo, ecologista, carnívoro e a favor da caça desportiva“) ou se o modo de matar provocar dor ou sofrimento.

      Dá uma olhada na explicação que postei para o Robson, logo acima.

    3. Manga-Larga:

      Bem-vindo também ao clube dos que jamais poderiam dar nome aos movimentos para não afundá-los ao zarpar… 😀

    4. Manga-Larga

      19/01/2012 — 15:04

      Pra nick eu tenho mais talento

    5. Mas quem acertou mesmo foi o WordPress com teu monstrinho. 😀

  7. De acordo com o professor Pasquale a expressão correta é “Corro de burro quando foge”. Não me pergunte por que nem o que quer dizer.

    Ser humanista, no fim das contas, é estar antenado com os anseios da ecosfera, ser bacana, se solidarizar de maneira inteligente, e se segregar de vícios ostracistas (caralho, esse quiabo aqui na banquinha de horti é do bão).

    Não consigo imaginar humanismo de classe, assim como não imagino patriota e nacionalista como a mesma classe de gente.

    1. Assim como a batatinha “espalha a rama pelo chão” e a gente conhece a própria língua “mal e parcamente”. Mas o Pasquale que se esparrame mal e porcamente pelo chão, que etimologia não é uso. 🙂

      E, de fato, “humanismo de classe”… isso non ecziste.

  8. Oi,Dan !

    Ia responder a tua postagem,e encontrei a mesma informação que ia postar,rs.

    ….Mesmo sendo plausível, essa explicação nunca foi historicamente comprovada em algum livro de época, carta ou documento formal. De fato, a explicação mais aceitável desse mistério encontra-se na antiga expressão coloquial “corro de burro quando foge”. Registrada pelo gramático Antônio de Castro Lopes (1827 – 1901), o indício leva-nos a crer que o uso equivocado da expressão original acabou dando origem à “cor de burro quando foge”

    http://www.brasilescola.com/curiosidades/cor-burro-quando-foge.htm

    Quanto ao humanismo,indico para os interessados o fabuloso livro,dentre outros do mesmo autor,..O HUMANISMO DO OUTRO HOMEM…do filósofo EMMANUEL LÉVINAS.

    Não posso ser humanista em uma ilha,o humanismo sempre está ligado diretamente ao outro.
    É ele que me dá reflexo,que diz quem fui e quem posso ser.
    O outro é o outro,em mim.
    É pelo outro que me descubro responsável.

    Fiz uma bela poesia usando as páginas deste livro,umas 300 ou mais.
    O melhor texto que já escrevi,e que boa parte não foi meu,mas foi uma homenagem para este homem que amei desde a primeira leitura.

    1. Link pra poesia?

  9. Infelizmente não,se queres te envio por email.
    Estava num blog do SOL/SAPO e que não tenho mais.
    Grata por perguntar.

    1. Quero ler, sim. Tens meu e-mail?

  10. Se não mudou,tenho.

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