Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires,
de sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e – o que ainda é muito mais – és um Homem, meu filho!

Rudyard Kipling

Rudyard Kipling

24 thoughts on ““Se” (Rudyard Kipling)

  1. Obrigada Arthur, bem lembrado. Ainda é um tanto confuso o signoficado da palavra “Homem”. Confunde-se com humano por exemplo… Sri Aurobindo dissecou a existência humana e vislumbrou o nascimento do verdadeiro Homem. Segundo ele a humanidade está em trabalho de parto, o Homem está nascendo. Acreditando nisso é possível suportar a vida e tomar as atitudes que o autor descreve acima. Eu acredito no ser humano.

    1. Eu acredito em Homens e Mulheres, mas em relação ao ser humano médio eu me sinto como o náufrago que enxerga uma ilha lááááá longe no horizonte, em águas infestadas de tubarões, exausto e com um canivete na mão: não é tanto uma questão de me perguntar “quais são as minhas chances?” e sim de me perguntar “que alternativa eu tenho?”.

  2. Golgo,
    Não sei por quê vc publicou isso, mas…

    Irônico, não?

    http://en.wikipedia.org/wiki/If%E2%80%94

    Um poema exaltando o “stiff upper lip” britânico, escrito por um ativo apoiador do imperialismo vitoriano, é então penosamente traduzido pra outras línguas e interpretado como uma exaltação do homem, do humano. Alguém tinha q ter dado um sopapo no pé da orelha desse Kipling, “Oh, Rude, acorda; a Grã Bretanha não precisa de exército pra conquistar outros povos; bastam sua língua, seus artistas e seus ideólogos. O mundo cairá de joelhos perante suas idéias e ideologias.”

    1. É o seguinte, caríssimo Geladinho: esse papo de que o IF “exalta o stiff upper lift britânico” NÃO DERIVA DA ANÁLISE DO POEMA e sim de avaliações (que podem estar certas ou erradas) de diversos fatores extrínsecos (da personalidade do autor, do contexto de época, da noção de ser humano) que dependem imensamente da ideologia (consciente ou inconsciente) do analista.

      Eu sou escoteiro. Fora das atividades formais há mais de vinte anos, mas uma vez escoteiro, sempre escoteiro. Fiz minha promessa no dia do meu aniversário de 12 anos. Lembro de cada palavra, lembro da paisagem belíssima em minha memória do grupo escoteiro em formação em frente à bandeira do Brasil hasteada ao lado de uma árvore, entre um celeiro e uma lagoa, por ocasião do primeiro acampamento do grupo. Fui o primeiro escoteiro do grupo a fazer a promessa e minha carteirinha tinha o número 001. Este é o pano de fundo da minha análise do IF.

      Rudyard Kipling escreveu “The Jungle Book“, que foi adotado por Baden-Powell, criador do escotismo, para a educação do ramo mais jovem do movimento, entre nós conhecido como “os lobinhos”.

      Eu não cheguei a ser lobinho, mas vivenciei toda a mítica dos lobinhos e fui fortemente influenciado pelos conceitos éticos do movimento escoteiro. E eu acredito sinceramente no lema “mais escoteiros, melhores cidadãos”, condicionado evidentemente a um movimento escoteiro fiel a suas raízes e diretrizes educacionais, o que infelizmente não é mais o caso hoje.

      Neste contexto, o IF se apresenta como um maravilhoso ideal de hombridade, dignidade e altivez. Sua exigência é imensa, talvez inatingível:

      “Se és capaz de dar, segundo por segundo,
      ao minuto fatal todo valor e brilho.”

      Porém, em tempos em que reina a mais absoluta auto-indulgência, em que a moralidade é tida por “caretice” ou “reacionarismo” e a corrupção por “esperteza” ou “algo que faz parte da natureza humana e da qual nunca vamos poder nos livrar”, o IF para mim é um oásis.

      Eu não consigo ler este poema sem encher os olhos de lágrimas. Preciso me controlar para não dar um tapão na orelha não do Kipling, mas de quem lê o IF e diz “que caretice”, ou, pior ainda, “tá, e daí?”.

  3. Belo texto,sempre aprendo algo com ele,ou lembro.

    Independente do caráter de seu autor,ele ensina muitas coisas interessantes.

    A Bíblia tem um amontoado de contradições,e sempre aprendo coisas novas com ela,rs.

    Estou te vendo mais encantado,meu amigo?
    Se for,bem-vindo ao club dos que ainda acreditam.

    1. Eu sou sócio-fundador deste clube, Lia. 🙂

      Às vezes desanimo, incapaz de “esperar sem me desesperar”, sem forças para obrigar “coração, nervos, músculos, tudo,
      a dar seja o que for que neles ainda existe”, mas pelo menos sem jamais me corromper.

      Persisto.

  4. Pois é, só os “desescolarizados” tiram leite das pedras!

    1. Como diria a Mônicanuntendi.

  5. Prefiro este:
    http://www.youtube.com/watch?v=5a_4fBH_7dk 🙂

    O do Kipling é inumano, anti-humano, absurdo. Um ser humano é humano por ser humano. Com o que vem de bom e ruim.

    (MODE NERD ON- Há uma estoria do Flash (sim, o heroi rápido da DC) muito boa em que ele discute esse poema e a influência dele com o terapeuta dele- MODE NERD OFF).

    1. Não acho que o IF do Kipling seja “inumano”. Ele é um ideal muito exigente, o que é bem diferente. Eu “suspiro pelo tempo que os Homens eram Homens e escreviam seus próprios códigos“, não de computadores, mas de conduta moral elevada.

      Existe uma grande diferença entre sensibilidade e auto-indulgência. Não é necessário ser inumano, mas ter fibra. Não é necessário ser um Super-homem, mas um Homem.

      [Nerd mode ON] Eu li essa história. É do Flash Wally West. Ele se compara obsessivamente com Barry Allen, o Flash mais rápido e perfeito de todos os tempos. O terapeuta dá um sabão nele e manda ele se concentrar em seus próprios méritos. E ele se torna mais auto-confiante ao final. 🙂 [Nerd mode OFF]

    2. Se não fosse o condicional que dá nome ao poema eu poderia concordar que se trata de um ideal muito elevado. Mas da forma que ele fala parece que quem não cumpre as difíceis condições não é um homem.. e é. Não gosto da diferença entre um Homem e um homem. Tomei simpatia pelos falhos, o que não significa que alguem não possa (e deva) tentar melhorar.

      Mas tenho que admitir que sem esse SE não ficaria tão bonito. Como poesia é lindo mesmo. E até como ideal, como Caminho do Guerreiro, é atraente. Tenho dúvidas se é adequado, mas tem um que de arquetípico na imagem. Isso é inegavel.

    3. Sim, tem um SE no poema… e eu acho ótimo isso! Sim, tem uma diferença entre um Homem e um homem no poema… e eu acho ótimo isso! Como comparar um pusilânime auto-indulgente com um Homem de coragem e fibra moral?

      Nós somos tão bombardeados pela noção de que “todos os homens são iguais” que esquecemos que isso deve ser a regra perante o direito, para evitar a escravidão, o racismo, o sexismo, a exploração econômica e outras formas não tão evidentes de opressão, mas isso não quer dizer que todos os homens tenham a mesma fibra moral – e eles não têm mesmo!

      Aliás, já sei sobre o que vai tratar o artigo de hoje…

  6. Golgo,
    Nas profundezas de minha geleira, acho muito legal o q vc respondeu ali. A questão q levantei nada tem à ver com aquilo. Meu ponto foi q, se vc –um brasileiro, sul-americano, latino, habitante do terceiro-mundo &c– verte lágrimas de emoção ao ler um poema escrito por um imperialista colonialista vitoriano exaltando a fleuma britânica… ENTÃO vc foi imperializado, colonializado e vitorianizado. Não vejo nada de mau nisso: eu mesmo sou quase totalmente imp., col. & vit. e, mesmo no fundo de meu gelo, verto copiosas gotas de água salgada duzentas vezes more often qdo leio ou vejo coisas vindas de lá do q qdo leio ou vejo coisas vindas de qqer outro lugar (tanto lágrimas de chorar qto de gargalhar: o humor inglês é absurdamente engraçado). Aliás, em face ao poder emotivo do poema original –com sua cadência silábica perfeitamente associada à sua cadência semântica–, essa tradução é até ligeiramente estapafúrdia: entre outros problemas, ela associa a fleuma ä pomposidade, e acho q Kipling detestaria isso. Note tbm q o poema não tem nenhuma intenção de pontificar sobre a moral (não sei de onde vc tirou isso). Segundo o artigo na Wikipedia, “o poema foi inspirado pelo Dr Leander Starr Jameson, q em 1895 liderou um ataque da forças britânicas contras os Boers na África do Sul” em q foi desastrosamente derrotado. A versão brasileira do sentimento expresso nele é aquele sambinha:

    Chorei.
    Não procurei esconder: todos viram.
    Fingiram pena de mim;
    não precisava
    Ali onde eu chorei, qqer um chorava.
    Dar a volta por cima, q eu dei,
    quero ver quem dava.

    No delta de qualidade entre as duas expressões, se vê claramente por quê uma poema imperialista britânico faz vc lacrimejar e um sambinha não.

    1. Hehehehe… quando minha netinha (1 ano e 5 meses) tropeça e cai com as perninhas tortas eu recito essa letra, “levanta sacode a poeira e dá a volta por cima”. Tambem fui cooptado pelo ideal… ninguem escapa. Mas a vida tambem não é isso?

    2. Permafrost

      Grato pelo “legal”. 🙂

      A parte que eu discordo é essa aqui:

      “se vc –um brasileiro, sul-americano, latino, habitante do terceiro-mundo &c– verte lágrimas de emoção ao ler um poema escrito por um imperialista colonialista vitoriano exaltando a fleuma britânica… ENTÃO vc foi imperializado, colonializado e vitorianizado.”

      Não a lógica – a segunda premissa. Afirmar que Kipling era “um imperialista colonialista vitoriano exaltando a fleuma britânica” é uma interpretação da qual discordo.

      Olha só:

      “o poema foi inspirado pelo Dr Leander Starr Jameson, q em 1895 liderou um ataque da forças britânicas contras os Boers na África do Sul” em q foi desastrosamente derrotado.

      Esse teu acréscimo é importantíssimo. Ele mostra que o poema não é de “exaltalção ao imperialismo” e sim de exortação moral.

      O cara se ferrou feio numa batalha. Kipling foi lá e disse “não fica muxoxo assim, não… a vida de vez em quando é dura, mesmo… levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.

    3. Gerson B

      Netinha? Que idade tens, “rapazinho”?

    4. Faço 54 em junho.

    5. Gerson, eu jurava que tu eras cerca de uma década mais novo que eu, e no entanto é justamente o contrário! 🙂

    6. Sr A, eu SOU uma década mais novo! Minha idade mental segundo um teste internético que fiz hoje é de 33 aninhos!

      Gugu dadá!

    7. Depois me manda o link pra eu também avaliar meu grau de (retardamento) juventude. 🙂

  7. Golgo,
    O fato ali foi mais complexo um pouquinho. Os britânicos não tinham nada q se meter na África do Sul; chegaram achando q iam se dar bem pelo mero fato de serem “superiores” e a derrota foi bem merecida. No entanto, pro sentimento britânico, não foi, claro. Da perspectiva do imperialista Kipling, o q o poema tá dizendo é, no fundo, “se vc não conseguiu dizimar aquela cambada de FDP agora, não fique aí choramingando, erga-se e tente de novo”. Mas ele òbviamente não podia dizer isso äs claras, e é obrigado à falar em termos gerais; aí o poema fica com essa cara de alta sabedoria e boa vontade (q é enfatizada pela tradução pomposa). Não tou dizendo q, ao generalizar a mensagem do poema, ele não seja útil. Mas não é uma mensagem sobre A moral. Sobre O moral, talvez.

    1. Sim, entendo teu ponto. Talvez o que tenha complicando um pouco nossa comunicação tenha sido o vocábulo “imperialista”. Com esse teu esclarecimento as coisas ficaram bem mais claras para mim.

      O problema é que tu estás OU apresentando o imperialismo como uma coisa necessariamente ruim, OU chamando uma coisa que não é necessariamente ruim de “imperialismo no mau sentido”. Explico.

      A minha opinião pessoal sobre a questão da mutilação sexual de crianças, a tortura e morte de crianças por acusação de feitiçaria, o encarceramento de homossexuais, o apedrejamento de adúlteras e a manutenção de ditaduras genocidas é que a ONU devia botar um anúncio no jornal dizendo “quem quer dar um pau nos cretinos que fazem isso põe o dedo aqui!”, ou “põe o cursor do mouse aqui”, e selecionar, treinar, armar e dar apoio logístico a exércitos de voluntários para irem até onde isso está acontecendo acabar com a palhaçada na base da porrada. (Lógico que muito bem fiscalizados para não haver desvios nem abusos.)

      O mesmo ponto de vista está explicado de um modo mais palatável no artigo “Direitos Humanos: por que eu sou um intervencionista“.

      De acordo com muitos esquerdistas militantes de movimentos sociais auto-proclamados “defensores de Direitos Humanos”, eu não passo de um “imperialista fedorento” que não reconhece que “todas as culturas tem igual valor”.

      Se o Kipling cheirava do mesmo modo – e eu penso que cheirava, devido ao arcabouço moral das obras da autoria dele que eu conheço, como The Jungle Book – então pra mim imperialismo é perfume.

  8. Interessante argumentação.
    Eu, particularmente, separou o que se escreve de quem o escreve. O que importa para mim é a mensagem.
    Os motivos do autor são questionáveis mas a mensagem é muito significativa.
    A ideia de ser perseverante não é patenteada para os impérios. O que se percebe é que podemos muito mais se seguirmos metade dos ideais predito no poema. Outra coisa é sobre o condicional SE… Ele indica o que é desejá vel para ser todo esse homem idealizado. Ele não diz o que vc deixa de ser por não ser 100% aderente ao código proposto.

    1. Talvez devido a meu nome eu tenha desenvolvido um quê de cavaleiro medieval no meu código de conduta… O que me deixa maluco é ser visto como cavaleiro da triste figura por isso. :-/

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