O apartamento em que estou morando tem uma falha na pintura da parede da sala no formato de um “band-aid”. Como aconteceu isso? Simples: o inquilino anterior colocou um quadro na parede. Para não quebrar o reboco nem lascar a tinta, deram a dica para ele colocar uma fita adesiva sobre a parede no local onde ia colocar o prego. Como ele não dispunha de uma fita adesiva, usou um band-aid.


Cinco características trágicas da cultura brasileira
são ilustradas pelo
band-aid na parede.

Primeira: o pensamento mágico-supersticioso. O brasileiro acredita em qualquer asneira que alguém disser, sem conferir se existe algum fundamento, e alegre e inconseq6uentemente determina seu próprio comportamento por esta crença estúpida. Da astrologia à colher na boca da garrafa, de achar que o ventilador refresca o ambiente a substituir a fita adesiva por um band-aid, o brasileiro pensa besteira, diz besteira e faz besteira porque desconhece, não se importa e até mesmo nega ativamente a noção de causalidade tanto física quanto lógica.

Segunda: a cultura da gambiarra. Se não dá pra fazer do jeito certo, então o brasileiro faz de qualquer jeito, sem levar em consideração que o jeito certo é o jeito certo por uma boa razão e que adaptações feitas sem conhecer essa razão podem produzir resultados muito diferentes do pretendido. Meu exemplo predileto é o de trocar um disjuntor por um de maior amperagem porque ele está sempre desarmando, se bem que tomar ao mesmo tempo Coca-cola para ajudar a digestão e anti-ácido para não ter azia merece uma menção honrosa.

Terceira: a cultura do provisório-permanente. Se um problema foi “resolvido” através de uma gambiarra, então o brasileiro jamais substitui a solução improvisada pela solução adequada. A perna bamba da mesa continuará escorada por um papel dobrado ou por um taquinho de madeira por toda a eternidade. A haste do óculos que perdeu o parafusinho de fixação continuará sendo mantida no lugar por um alfinete ou um clipe até que o Hubble deixe de ser míope. O interruptor elétrico com mau contato ao lado da churrasqueira continuará sendo segurado na posição “ligado” por um palito de fósforo com uma cunha feita à faca numa extremidade até os leões aderirem ao veganismo.

Quarta: o descaso pelo bem do outro. Se a conta da água do condomínio é rateada igualmente entre as unidades, sem medidor individual, o brasileiro não troca a torneira que está pingando. Se ele está de aniversário numa sexta-feira à noite, festa tem que ter animação e som alto, dane-se o vizinho que tem que trabalhar no sábado de manhã.

Quinta: a negação do risco. Se aquela derrapada num dia de chuva não produziu uma colisão, o brasileiro não troca o pneu careca até que ele fure. Se aquela dor no peito que já apareceu duas vezes ao subir um lance de escada ou levantar uma pilha de livros não voltou nem incomodou mais, o brasileiro não vai ao cardiologista. Quando finalmente acontece o que é evidentemente previsível, o brasileiro reclama do “azar”.

O band-aid na parede se encaixa nos cinco casos.

É um exemplo de pensamento mágico porque o truque da fita adesiva é bem divulgado e funciona porque tem fundamento físico: o tantinho que a fita adesiva firma as bordas do ponto de impacto do prego e distribui a tensão das marteladas com freqüência é suficiente para evitar que um reboco ou uma tinta soltem lascas. Já o band-aid não firma as bordas do ponto de impacto (porque não adere na parte central), apenas distribui a tensão das marteladas, o que o torna menos eficiente.

É um exemplo de gambiarra porque o usa um material inadequado para realizar a função pretendida. O band-aid e o esparadrapo foram feitos para aderir à pele humana e suportar movimento, flexão, torção, umidade e descamação sem sair do lugar – ou seja, precisam ter uma capacidade muito maior de aderir que uma mera fitia adesiva comum, feita para juntar papéis que não serão flexionados, torcidos e molhados, nem precisam garantir a proteção de um corte ou outro ferimento.

É um exemplo de provisório-permanente porque o band-aid foi deixado no local durante anos ao invés de ser removido imediatamente após a colocação do prego. É impossível saber, mas provavelmente o quadro que ficava ali pendurado cobria o prego, então simplesmente ninguém achou necessário tirar o band-aid dali até que a remoção do quadro expusesse a porquice que tinha sido perpetrada na primeira parede visível para quem entra no apartamento.

É um exemplo de descaso pelo bem do outro porque o band-aid estava encaixado no local e não mais aderido. Isso só pode ter acontecido se alguém arrancou o band-aid do lugar, viu que a tinta saiu junto e o recolocou o band-aid para tentar disfarçar a porquice que fez, para não ter que pintar a parede ao devolver o apartamento.

E é um exemplo de negação do risco porque, se eu soubesse quem fez aquilo, colaria o band-aid de volta na parede usando o líquido cefalorraquidiano dele como adesivo.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 30/01/2012

24 thoughts on “O band-aid na parede

  1. Nisso concordo contigo.

    E por achar que coisas assim não devem ser feitas,sou chamada de idiota.

    Custa varrer e lavar a calçada?

    Custa observar o horário do lixeiro passar?

    Custa observar o horário de silêncio?

    Custa entregar,para o dono,uma casa limpinha?

    Custa não abarrotar um único benjamim?

    Custa tirar o lixo,se o faxineiro faltou?

    Custa limpar a sujeira que foi deixada pela festa?

    Custa ter cuidado com o mosquito que provoca a Dengue?

    Custa respeitar as leis que estão corretas?

    Custa perguntar,se a pessoa não sabe?

    Custa mudar?

    1. Custa parar para pensar que custa muito menos produzir hamonia.

  2. Olá…daqui uma opinião portuguesa… não são só os brasileiros que são assim… reconheci muitas (se não todas) facetas portuguesas nesse artigo 🙂 Claro que custa parar para pensar mas para “levar a água ao nosso moínho” há que saber que ainda há um caminho muito longo para mudar mentalidades… uma de cada vez é o que eu defendo.. 🙂 beijocas pipocas

    1. Oi, Cris! Que bom te ver por aqui! 🙂

      É, eu falo dos brasileiros porque este povo eu conheço bem, mas creio que toda comunidade lusófona tenha raízes culturais comuns. (Agora joguei a culpa em Portugal, hehehehe…)

      O que eu acho incrível é o quanto o povo brasileiro “aperfeiçoou” estes traços culturais. Tudo bem que todo povo tem suas virtudes e seus vícios, mas precisávamos nós brasileiros desenvolver tanto o lado “latino no mau sentido” de nossa cultura, sem desenvolver nada do lado “europeu no bom sentido” que herdamos?

  3. Eduardo Marques

    31/01/2012 — 10:13

    Acho que vc está sendo muito duro com os brasileiros e colocando a culpa na anossa cultura por coisas pequenas que são comuns em todo lugar. Devemos ter auto-crítica, mas isso já é demais.

    1. “Isso” o que já é demais, Eduardo? Não entendi.

  4. A minha experiencia pessoal e’ de que as coisas nao sejam assim em todos os lugares.

    1. Cita os melhores e os piores, Paulinha!

  5. A minha experiencia pessoal e’ de que as coisas nao sejam assim em todos os lugares.(2)

    1. Cita os melhores e os piores, Li!

  6. Lucas do povo

    31/01/2012 — 20:06

    Eu convivo com pessoas espertas e relaxadas no meu dia a dia, eu aceito elas do jeito que elas são.

    1. Não é meio que um oxímoro um “esperto relaxado”? :-S

  7. Em todos os lugares do planeta existe gente que é cuidadosa e gente que não se importa com nada.

    Se conseguímos encontrar mais pessoas que se preocupam,passamos a não ligar muito para as
    desleixadas.

    Elas não conseguem nos atingir,influenciar nosso olhar.

    Mas veja que o desleixo pode não ser visto,num primeiro momento.
    Quando olhamos de verdade é que o vemos.

    Como uma casa velha que foi pintada recentemente.
    A fiação,a tubulação,as telhas….estão todas velhas
    e oferecendo perigo,mas só percemos isso quando já estamos morando na casa,rs.

    De todos os lugares que conheci,não posso dizer o que foi pior,ou melhor.

    Fui muito bem tratada em todos os lugares,e mesmo assim vi coisas incríveis e coisas que me deixaram muito triste.

    Discordo do Lucas.
    Em muitos casos não podemos aceitar o comportamento do desleixado,porque acaba causando
    algum problema,tipo a cozinheira que não tem um pingo de higiene ou o sujeito que te cobra por um trabalho que terás de refazer algumas vezes.

    Ou aquele amigo que detesta banho e que não entende porque tu não o convida para tuas festas,rs.

    Coisas assim…

    1. Dei muita risada aqui porque assim que li tuas últimas frases eu me lembrei de um ex-amigo com esse “pequeno” probleminha de higiene. Um dia alguém da turma não se segurou e chamou o cara assim:

      “Ô catinguento, vai tomar um banho que ninguém mais te agüenta fedendo!”

      Pronto… ninguém mais nem sequer lembra o nome dele, é o catinguento e fim de papo. E ninguém mais sabe que fim levou o catinguento – deve ter sido abduzido por um urubu, suponho…

  8. Brilhante! (Admiro sua capacidade de espremer um band-aid mal usado para obter líquor! 😀 ) Mas quero lembrar que podia ser pior! Podiam ter pintado a parede sem retirar o band-aid!

    1. De fato, gramaticalmente a última frase tem duplo sentido porque o “dele” pode referir-se tanto a “quem fez aquilo” quanto a “o band-aid”. Bem observado! Sacanagem, mas bem observado! 🙂

      E nem me fala na possibilidade de terem pintado a parede sem retirar o band-aid. Eu também pensei nesta hipótese e estou com calafrios até agora por saber que ela é perfeitamente plausível… 🙁

  9. … e se isso foi o que aconteceu só temos que agradecer ao pintor! afinal, foi graças à porquice dele que ganhamos o seu precioso post!

    1. “Quando a vida lhe der um limão, faça uma limonada!” 😉

  10. Arthur, é bem por aí mesmo. Mas, com maior ou menor ‘intensidade’, eu diria que esses casos não se restringem aos habitantes da brasilândia. Já vi cada coisa ‘overseas’ de deixar qualquer um arrepiado. Improviso, gambiarra e ‘tou nem aí’ parecem mesmo ser características do cerumano…

    1. Já escreveste sobre estas “gambiarras overseas”, Mônica? O título do artigo, pelo menos, já está pronto! 🙂

      Eu apreciaria muito que alguém que conhece “gambiarras gringas” (olhaí um bom título alternativo) me convencesse a não emigrar porque não adianta

  11. Quem assiste Os Simpsons sabe que lá nos EUA há muitos tipos incompetentes. Tem um capítulo que um cara competente vai trabalhar na usina do Homer e sofre muuuito.

    1. É, Os Simpsons é um dos poucos produtos que eu lamento ter perdido ao abdicar da TV. Mas o meu fígado ainda agradece por eu ter feito esta escolha. 🙂

      Eu não duvido que as características que me incomodam nos brasileiros sejam encontradiças em outras partes do globo… o que me incomoda mesmo é o nível de excelência com que nós as desenvolvemos…

  12. Como teus ultimos textos tratam de questoes tecnicas da internet, voltei neste aqui para ver como andava.

    Eu concordo interiamente quando dizes: “o que me incomoda mesmo é o nível de excelência com que nós as desenvolvemos…”. Logo aqui no comentario acima, se referindo `as caracteristicas em discussao.

    Eu sempre digo que no Brasil ha’ uma crise de autoridade, me referindo `a falta de reconhecimento da autoridade tecnica ou intelectual num assunto.

    O uso e mal uso de trabalho efetuado por pessoas sem autoridade leva a estes problemas mencionados. Mas acho que aqui a palavra que se aplica melhor ao que eu quero dizer em vez de crise de autoridade seria crise de credencial.

    O cara se “credencia” como eletrecista e sai oferecendo servicos como tal. Azar de quem o contratar, pois ele nao tinha conhecimento ou treinamento que o credenciassem para tal.

    Estes caras estao soltos em todas as partes do mundo, inclusive nos EUA e Europa, vide episodios dos Simpsons citado acima.

    A diferenca ‘e que o consumidor dos EUA tem a opcao de escolher alguem que seja credenciado, e pagar por tal. No Brasil ninguem sabe de nada, nao ha’ regulacao, nem processo de credenciacao. Voce liga para um prestador de servico e ele se diz “sou da autorizada”…mas sabe-se la’ se ‘e mesmo…

    Enfim, vejo o consumidor brasileiro desprotegido neste aspecto. E como tem muito espaco para pessoas “nao credenciadas” porque nem existe processo de credenciacao, ou se existe ele ‘e muito falho, existe uma proliferacao de pilantras na enesima potencia, misturados com quem entende do assunto e poderia prestar um servico adequado. E conpetindo de igual para igual com os treinados e potencialmente credenciados.

    Mas dai tb vai do consumidor: se eu nao me importo de receber um servico porco por um preco micro, eu contrato o cara sem credencial mesmo assim.

    Nos EUA, em muitas profissoes e servicos, o cara nem pode exercer a atividade se nao tiver as credenciais minimas. Desta forma o consumidar fica um pouco mais protegido.

    1. Taí, vou escrever um artigo sobre a questão do credenciamento agora mesmo pra gente discutir essa questão!

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