Foi uma batalha campal a que travei entre ontem e hoje contra sistemas operacionais cuja instalação travava o equipamento para o qual foram projetados, programas que não encontravam o hardware que deviam controlar, complicações absolutamente desnecessárias, péssima documentação de software e ainda pior capacidade didática de fabricantes de hardware e software…

Ontem eu perdi tudo que tinha armazenado nos favoritos do Mozilla Firefox por causa de uma atualização automática recomendada pelo fabricante.

Uma vez que perdi todo o material que queria guardar, pensei: “bem, vou aproveitar que nada pior pode acontecer para atualizar o sistema operacional”.

Adivinhem… usei a ferramenta de atualização automática recomendada pelo fabricante para atualizar o sistema operacional (Ubuntu Linux) e ela simplesmente destruiu o gerenciador de boot do meu notebook, que ficou inoperante.

“Tudo bem”, pensei, “vou entrar pelo Windows e amanhã eu resolverei essa parada.”

Claro que vou… como??? Obviamente, se o gerenciador de boot estava destruído, não havia como acessar o Windows também!

“Certo”, raciocinei, “então tenho que recuperar o gerenciador de boot, ou instalá-lo novamente, ou instalar o Linux inteiro novamente. Vamos lá.”

Peguei a pasta do notebook, tirei de lá o CD da versão imediatamente anterior do Linux, que era a que eu usava antes da atualização, coloquei-a no drive de CD, ela rodou direitinho, o Ubuntu entrou… e na hora de instalar deu pau.

Que pau que deu? Aquele tipo mais irritante: “está tudo certo, mas não funciona”. Simplesmente acontecia o seguinte: eu clicava em “instalar no computador”, ele abria a janela do instalador e uma fração de segundo depois fechava.

Tentei novamente mais duas ou três vezes vez, nada. Tentei o mesmo por outro caminho, nada. Tentei novamente pelo outro caminho mais duas outrês vezes, nada. Aí lembrei que “a melhor definição de loucura é fazer a mesma coisa diversas vezes, a cada vez esperando um resultado diferente”. Em informática isso não é bem assim, mas também há seus limites.

Fosse eu um usuário médio, com os recursos de um usuário médio, teria que ter parado por aí. Mas eu sou um usuário bem informado e tenho algumas cartas na manga.

Voltei a fuçar no porta-CDs e catei uma segunda distribuição Linux que mantenho guardada para esse tipo de ocasião. Alegremente coloquei-a no drive de CD, rebootei a máquina, a outra distribuição carregou… e quando mandei instalar a tela ficou toda distorcida, ilegível. Mais duas ou três tentativas com o mesmo resultado me levaram a concluir que aquela distribuição deve ser mais antiga que o notebook e não consegue reconhecer sua placa de vídeo. Raios.

Eu tinha somente mais uma alternativa disponível: um programinha ninja copiado de um amigo que é técnico em informática que atua como gerenciador de boot e depois transfere o comando do sistema para o sistema operacional da partição desejada, exatamente para os casos em que o gerenciador de boot dá pau mas o sistema operacional continua funcional. Muita sorte ter isso guardado.

Tentei entrar pelo Linux, nada.

Tentei entrar pelo Windows… mas qual era mesmo minha senha?

Pois é, eu não usava o Windows há tanto tempo que tinha esquecido a senha daquela partição! Por (sorte) previdência minha, eu tenho um sistema de derivação de senhas. É complicado o suficiente para ninguém conseguir deduzir uma senha minha caso descubra outra, mas simples o suficiente para que eu não me confunda. Em cinco minutos de tentativas eu abri o Windows. Ufa!

Mandei imediatamente baixar um CD com a última versão do Ubuntu e fui responder os comentários do Pensar Não Dói pra esfriar um pouco a cabeça e esperar o download.

Umas seis horas depois, porque minha banda estreita 3G é movida a lenha, estava com a imagem ISO do Ubuntu no HD. Agora só faltava queimar um CD e instalar novamente o Linux.

Claro que tinha que dar pau de novo.

O famoso programa Nero não funcionou: por algum motivo maluco, ele encontrava o drive de CD mas na hora de gravar a imagem ele dizia que o drive não estava acessível. Tudo bem, eu tinha uma cópia do Clone CD instalada justamente para uma eventualidade dessas.

Nem preciso dizer que deu pau de novo, certo?

Desta vez a falha era temporal: o Clone CD é shareware e a validade da minha cópia já tinha expirado. Que fiz eu? Desistalei o programa e o instalei novamente, a partir de um arquivo de instalação mantido para este exato propósito.

E, claro, não funcionou.

O Pessoal do Clone CD facilita a vida de quem quer fazer cópia do programa dos outros, não do programa deles. Em algum lugar da minha partição Windows deve haver um arquivinho guardando a informação de que o Clone CD já esteve instalado na minha máquina, para tentar me forçar a pagar pela licença. Humpf.

Bem, eu não estava com paciência para testar as várias maneiras de contornar a chicane do Clone CD, como procurar arquivos pela data de instalação ou um ponto de recuperação do sistema anterior à instalação do programa, ou outras técnicas mais ninjas, então tratei de desinstalar o programa e procurar um equivalente que seja freeeware para baixar.

Encontrei no Baixaki o Ashampoo, que é freeware, baixei, instalei… e ainda tinha que me cadastrar no site do fabricante pra receber SPAM. Enfim, o preço era baixo pela utilidade do programa e fiz o cadastro. Ainda bem que não costumo usar e-mail falso para fazer esses cadastros, porque o site deles é espertinho: é necessário clicar em um link de confirmação do cadastro que é enviado para nosso e-mail.

Abri o e-mail, cliquei no link e ao invés de destravar o programa direto eu ainda recebi uma chave de segurança que devia ser inserida na primeira tela do Ashampoo.  Mas funcionou.

Lá fui eu queimar o CD do Ubuntu. Rapidinho estava pronta a cópia e o notebook ejetou o CD. Meti o bandido para dentro de novo e mandei verificar a integridade da cópia. Desta vez não deu pau.

Parei tudo que estava fazendo e vim aqui escrever este artigo. escrevi todo o texto acima numa sentada só, com a promessa de não deletar uma única linha aconteça o que acontecer quando eu tentar instalar o Linux.

Suspense. Vou lá tentar e depois voltarei para continuar a escrever o artigo.

Tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac…

.

.

.

CONSEGUI!!! 🙂

Foi uma luta árdua, mas consegui! Estou escrevendo direto de dentro do Ubuntu 11.10, após quase duas horas de luta para conseguir habilitar a conexão 3G.

Ah, sim… vocês pensam que foi só instalar o Ubuntu e pronto? Nã-na-ni-na-não, aconteceu exatamente aquilo que os usuários de Windows vivem jogando na cara dos usuários de Linux: para o bem e para o mal, no Windows tudo funciona com um clique, inclusive a ajuda; no Linux, se as coisas não funcionam com um clique, pode ir rezando.

Já durante a instalação eu saquei que ia levar um baile: o Ubuntu não reconheceu automaticamente meu modem. Munido de esperança, entretanto, eu me dediquei à tarefa de instalá-lo manualmente.

Como o modem estava conectado o tempo todo ao notebook, eu o achei no meio dos demais devices e cliquei nele. Apareceu uma árvore de diretórios na qual havia um programa chamado “install”. Fácil demais, né? Pois é, foi clicar nele e apareceu um conjunto de instruções “bem simples” e em inglês::

0. Log in as root.

1. Run “tar jxvf linux_install.tar.bz2”

2. Run “./install”

eg. # bash /<path>/install

<path> eg.: /usr/local/Mobile_Partner

Depois esses filhos de umas éguas não sabem por que raios o povo diz que “Linux é difícil”. Qualquer usuário que não tenha o background mínimo que eu tenho com informática (sou um dinossauro que viu o DOS 1.0 rodar,, vi toda a evolução dos PCs desde o zero, já brinquei de configurar IRQ com jumpers e aposto que 99% de quem ler esta linha não vai saber o que é isto) fugiria apavorado e com razão.

Mas vamos lá… abri uma janela de terminal (o usuário médio nem sabe o que é isso), dei o comando sudo su para logar como root (o usuário médio nem desconfia o que é isso) e executei a linha de comando que consta na linha com o número 1.

Claro que deu pau.

Fiz exatamente como as instruções mandavam e não funcionou. O sistema retornou “arquivo não encontrado”. E agora?De que arquivo esse miserável está “falando”? E onde estará o tal arquivo?

Bem… olhando bem, e sabendo que o Linux veio do Unix, que exigia que os paths exatos fossem declarados explicitamente (tá vendo como está ficanco complicada essa porcaria?), eu intuí que teria que mudar de diretório, mas não sabia para qual. No popular: eu estava no lugar errado e não fazia a menor idéia de qual era o lugar certo. Pior ainda: eu não sabia nem qual era o maldito comando para mudar de diretório.

Pronto para desistir, antes de desligar tudo e deixar para amanhã a busca na internet para tentar resolver a bronca, eu tentei por pura farra o comando do antigo DOS para mudar de diretório: cd. E não é que funcionou?!?!

Tendo descoberto por puro acaso como mudar de diretório, tive que pensar em termos de Unix novamente: “declarar explicitamente os paths completos”, ou seja, se você está no degrau /1/2/3/4/5, não basta dizer “vá para o degrau /6”, você tem que dizer “vá para o degrau /1/2/3/4/5/6”. Tem que dar o nome completo do maldito diretório. E às vezes ele é compriiiiiido…

Enfim.

Tentei todos os diretórios onde seria razoável procurar o tal arquivo perdido (poupá-los-ei com mesóclise e tudo da descrição do que seja “razoável” neste contexto para não afugentar quem conseguiu chegar até aqui) e obviamente não encontrei. Para ter certeza, executei os malditos comandos indecifráveis em todos aqueles diretórios e nada. Pelo menos eu sabia que seria seguro tentar isso (explicar como eu sabia isso também iria espantar todo mundo que chegou até aqui).

Voltei para dentro dos diretórios do modem e encontrei outro arquivo “install”. Abri este arquivo e vi que ele continha instruções no formato legível pela máquina, ou seja, comandos de instalação. Mas como executar essa porcaria? Clicar em cima não resultava em nada. Entrar como root e tentar executar aquele arquivo também não.

Aí eu tive a idéia louca que não sei de onde veio: copiei o conteúdo inteiro do arquivo para a área de transferência, abri novamente o terminal, loguei como root e simplesmente colei aquela tralha toda na linha de comando, fosse lá o que Deus quisesse.

Resultado: aqui estou falando com vocês a partir do Linux, com o modem devidamente instalado e configurado. Um resultado obtido através de um misto de background histórico, sorte, leitura, raciocínio sistemático, intuição e (teimosia) perseverança.

Eu estou aqui quase gritando: “NERD, sim, com muito orgulho!!!”

Mas, convenhamos…

A informática não deveria servir para facilitar a nossa vida?

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 03/02/2012

14 thoughts on “A informática serve para facilitar a nossa vida?

  1. Eu não teria conseguido. Consegui entender o texto todo mas só no que aconteceu, me perdi rapidamente na selva de comandos e siglas. Mas entendi o importante, a complexidade indecifrável para os não-iniciados de alto grau. É pra deixar qualquer um maluco mesmo (hmmmmm, talvez isso explique… ah, deixa pra lá! 🙂 ).

    1. É bom ver um homem com senso do perigo. 🙂 Hehehehe…

      Gerson, este é o tipo de texto que eu escrevo quando já estou tão cansado que o “simancolstato” pifa e eu acabo escrevendo sem filtro.

      Observa a diferença entre o texto antes e depois do “consegui”, que foi a linha divisória entre “com simancolstato” e “sem simancolstato”.

      Antes do “consegui”, qualquer termo técnico ou é suficientemente simples para ser compreendido por quem lida minimamente com informática ou se torna compreensível pela explicação ou pelo contexto.

      Depois do “consegui”, o texto apresenta termos técnicos de modo bruto, sem explicações ou contextualização adequada, ainda que eu tenha tentado suavizar isso aqui e ali.

      A (desgraça) lição maior deste texto é mesmo esta: se para mim, que sempre fui um usuário bem informado (enferrujado nos dois ou três últimos anos, paradoxalmente devido ao blog), que sempre gostei de fuçar no computador e saber um pouquinho além da média e que tinha à disposição uma ferramenta que quase ninguém tem, foi um parto de cabeça para baixo recuperar o notebook, imagina o que tem de gente perdendo informação e tendo que pagar técnicos para resolver problemas desnecessários devidos à má programação, má documentação e má didática de quem deveria estar zelando por facilitar a nossa vida!

  2. Já aconteceu isso comigo uma vez. Felizmente com um comando de restauração do grub rodado à partir do LiveCD do Ubuntu resolveu tudo.

    O único problema de usar distribuições Linux é que se der pau, provavelmente demorará horas para tudo ser consertado. Eu já desisti de fazer o som funcionar depois de horas de comandos e comandos que simplesmente não funcionavam no meu pc. Mas fui eu que consegui estragar o som tentando consertar o microfone.

    “Aí lembrei que “a melhor definição de loucura é fazer a mesma coisa diversas vezes, a cada vez esperando um resultado diferente”. Em informática isso não é bem assim, mas também há seus limites.”

    Isso é verdade, em informática fazer a mesma coisa pode gerar resultados diferentes, uma hora funciona, outra hora não.

    1. No que diz respeito ao mundo Linux, eu cheguei à seguinte conclusão: instale sua HOME em outra partição. Nenhum outro conselho pode ser tão útil quanto este. Se tudo o mais falhar, os dados estarão a salvo.

      Quanto a tentar “arrumar” alguma coisa, a menos que sejas um técnico contratado para recuperar um sistema insubstituível ou usuário fanático do slackware querendo se divertir, esquece!

      Se o conserto não puder ser feito em menos de meia hora, após meia dúzia de tentativas razoavelmente simples e lógicas, então pára tudo, copia os dados, formata tudo e instala tudo de novo que é muito mais rápido e seguro do que continuar quebrando a cabeça, especialmente se alguém já mexeu no sistema antes.

  3. Nossa! Você escreveu um quilo e não consegui entender duas gramas. O importante é que a tecnologia te deu uma trégua.

    (falando em trégua, dá uma passadinha no Calango Abstrato veja a última postagem, sobre “por que censurar um comediante?”, gostaria muito de uma opinião sua).

    1. Vou lá, sim, entre hoje à noite e amanhã à tarde. Estou com a cabeça que é um porongo oco depois de uma madrugada queimando neurônios para recolocar o notebook a funcionar. Era ou fazer isso ou fazer isso, porque eu não ia pagar um técnico em informática apenas para reinstalar um sistema opertacional!

      Em último caso eu destruiria as partições do disco rígido, instalaria o Windows de novo, baixaria outro Linux e o instalaria a partir do zero. Mas eu não queria dar o braço a torcer. Quando meto na cabeça que vou até o fim, sai da frente. 🙂

  4. José Alves Duarte

    05/05/2014 — 17:30

    O conhecimento é o preço da liberdade. Essa é a máxima do mundo do software livre!

    1. Simplicidade é a chave do sucesso. Essa máxima o mundo do software livre ainda tem que aprender.

  5. Eu odeio linux, praticidade do windows economiza tempo demais, e tempo é dinheiro, aqui esta o windows estavel a anos, no maximo levei umas 3 telas azuis reiniciei e estava de boa. Alem de poupar possiveis consertos. A 18 anos era bem pior, eu tinha que fazer verdadeiros hacks pra instalar os joguinhos qdo era garoto, discos de boot, programação batch, ate senha de acesso a bios pelo harware eu sabia remover, na epoca tinha um jumper com 4 pinos, e a conexao dele estava nos pinos do meio, se vc mudava para os da esquerda a senha do bios era removida, e os navegadores entao, quem nao lembra as paginas que so eram acessadas com o internet explorer, ou so com o netscape. Hoje nem sei se existe mais esse truque de acessar a senha bios porque raramente acesso a bios de tanto que melhoraram os sistemas, pra instalar um jogo então, poucos cliques. Eu prefiro estudar o windows internals, o kernel, e as linguagens modernas e ate C modernizou hoje do que estudar pra resolver probleminhas linux. Um dia eu espero o linux seguir essa linha, do que o usuario ter de digitar trocentas linhas so pra falar que é conhecedor de informatica e que o windows é um lixo.

    1. Windows pra mim vale cada centavo, mesmo eu podendo piratear facil, muito melhor e pratico partir do alto nivel do windows e ir descendo conforme necessario, do que tentar ser um desenvolvedor multi tarefas em programação.

    2. Bom, minha experiência com o Windows foi bem diferente. Vírus toda hora, atualização automática toda hora, tela azul toda hora. Como eu não instalo jogos, Linux para mim foi perfeito: zero vírus, zero atualizações, zero travamentos. Só detonei meus Linux quando decidi brincar de testador de tudo que aparecia pela frente.

      As únicas dificuldades reais que eu enfrentei com o Linux foram as práticas comerciais do mundo Windows, que não produz drivers e me obriga a escolher modems específicos e procurar drivers de impressora produzidos com engenharia reversa.

    3. Mas, para dizer bem a verdade, eu tive que mudar de distro Linux porque a Ubuntu trocou do GNOME pro UNITY e eu achei uma BOSTA. Pulei para o KUBUNTU e pretendo ficar com ele sem fazer grandes estrepolias.

  6. José Alves Duarte

    06/05/2014 — 13:56

    Mas está progredindo bem. Hoje temos gerenciadores de pacotes para instalação e atualização de programas com um click o Synaptic, e outros.

    1. Eu usava tanto o Synaptic quanto o Adept, agora estou usando o Muon Software Center, que já vem com o Kubuntu.

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