Coragem não significa imprudência; coragem é a disposição de fazer aquilo que é necessário para resolver um problema, assumindo riscos calculados e as conseqüências de suas próprias decisões. Covardia não significa medo; covardia é a disposição de fugir dos problemas, dos mais ínfimos riscos e das conseqüências das próprias decisões.

História baseada em fatos reais.

Certa vez nosso grupo escoteiro acampou em um campo onde havia uma casa com um grande pátio cercado com tela de arame e um canil com portão de madeira ao fundo. No meio do pátio havia uma imensa árvore com uma casa em cima. Quem já foi criança sabe que uma casa na árvore é o sonho de todo garoto de oito a oitenta anos. Nós já não éramos crianças, estávamos todos cursando o ensino médio, mas passamos o dia inteiro olhando para aquela casa na árvore, loucos para conhecê-la por dentro mas sem coragem para ir pedir para ver seu interior. A sorte, entretanto, estava do nosso lado.

Nosso interesse não passou despercebido pelo dono da casa. Enquanto olhávamos admirados para a casa na árvore, ele chamou os cachorros, trancou-os no canil, colocou uma mesinha de jardim ao lado de uma churrasqueira de tijolos que ficava à sombra da árvore, voltou para dentro de casa e de lá saiu trazendo uma grande jarra com um suco colorido e uma pilha de copos descartáveis. Ficamos absolutamente surpresos e mal podíamos acreditar que era verdade quando ele nos chamou para tomar um suco e nos convidou a subir na árvore e conhecer a casa que ele mesmo havia construído, cheio de orgulho por sua obra.

O chefe escoteiro tinha se ausentado por algumas horas para ir ao povoado mais próximo comprar um anti-alérgico. Ele havia deixado a tropa sob o comando dos monitores das patrulhas, ou seja, eu e mais um escoteiro. Como sabíamos que ao regressar o chefe reassumiria o comando e daria prosseguimento às atividades de sempre, eu e o outro monitor não hesitamos em aceitar o convite enquanto era possível. E lá foi a tropa inteira viver uma hora ou duas de infância despreocupada.

A casa na árvore era fantástica. Devia ter uns seis metros quadrados, o que é imenso para esse tipo de construção. O acesso era feito por uma escada de cordas que terminava em uma pequena plataforma de onde se tinha acesso para o interior através de uma porta pela qual passávamos sem nos abaixar. Lá dentro havia um beliche, uma mesa, duas cadeiras e uma estante com revistinhas em quadrinhos. Havia uma janela com duas folhas feitas de tábuas em cada parede lateral à porta, de modo que somente a parede que dava para o tronco da árvore não tinha aberturas, permitindo ampla visão ao redor do terreno. E tudo isso tinha sido construído sem cravar um único prego na árvore. Ficamos maravilhados. 

A casa na árvore de que falo não era esta, mas era parecida.

Não era mais o tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça, mas ainda era um tempo em que pelo simples fato de sermos escoteiros o dono da casa teve a tranqüilidade de anunciar que iria sair por algumas mas que nós podíamos continuar usando a casa na árvore. Ele disse que deixaria a casa trancada e o portão do pátio destrancado e que não deveríamos nos aproximar do canil porque os cachorros eram realmente ferozes e não toleravam ninguém dentro do terreno. Tendo nos instruído devidamente, saiu.

O problema de deixar um bando de adolescentes fazendo atividades voluntárias sem a supervisão de um adulto responsável é que no meio sempre tem um boi corneta que quer se afirmar criando caso. Não foi diferente conosco.

Um encrenqueiro que gostava de provocar brigas porque fazia musculação e capoeira era o nosso criador-de-caso de plantão. Depois de uma hora e meia com todo mundo se divertindo numa boa, tendo cada um de nós lido todas as revistinhas, ele se disse entediado e começou a atirar a lenha que estava ao lado da churrasqueira contra a porta do canil para atiçar os cachorros. O monitor da patrulha dele mandou-o parar de fazer aquilo, mas ele começou uma discussão, rolou um empurra-empurra e o clima de brincadeira foi completamente perdido. Uma vez que a graça acabara, decidimos sair dali e esperar o retorno do chefe escoteiro para reportar a atitude do encrenqueiro e solicitar que as devidas medidas disciplinares fossem tomadas.

Eu e o monitor da outra patrulha determinamos que a tropa regressasse ao acampamento, passamos o comando para os sub-monitores e subimos na árvore para arrumar as revistinhas, que tinham sido espalhadas por todo o pátio e precisavam ser devolvidas à estante. Frustrado por não ter conseguido comprar briga, o encrenqueiro voltou a atirar achas de lenha contra a porta do canil, tendo agora o cuidado de escolher as maiores.

Os primeiros impactos aparentemente só deixaram os cachorros furiosos, mas lá pelas tantas uma tábua se desprendeu e abriu um vão suficientemente largo para que os cachorros conseguissem passar.

Para que você tenha uma idéia do que estava prestes a acontecer, imagine este bichinho simpático aqui se esforçando para passar por um vão apertado entre duas tábuas, com intenções bem claras em mente quanto ao que fazer com você após vencer os poucos metros que os separam:

Vem cá, totó. Senta, dá a patinha...

Desagradável? Pois multiplique essa encrenca por seis, que era o número total de cachorros no canil, e você terá uma noção mais adequada da cena.

Não havia a menor hipótese de o encrenqueiro ter tempo de atravessar os mais de trinta metros do pátio até o portão da frente. A única rota de fuga possível era para cima. Foi muita sorte que sorte o pessoal que já havia se retirado tenha visto a cena e gritado “sobe, sobe!”. Quando eu ouvi aqueles gritos e fui até a janela ver o que estava acontecendo, o fujão já estava entrando pela porta, com um cachorro pulando em seus calcanhares.

O animal seguinte a escapar dirigiu-se imediatamente ao portão da frente, que por sorte havia sido deixado fechado com a tranca. Percebendo que não havia como sair do pátio para ir atrás dos outros escoteiros, ele retornou para se concentrar nos três que havíamos ficado dentro da casa da árvore. Em menos de dois minutos os outros quatro se uniram aos dois primeiros e nos vimos cercados por uma matilha de pastores-alemães latindo furiosamente logo abaixo de nós.

Percebendo que havia nos metido numa encrenca bem constrangedora, o encrenqueiro logo mostrou seu caráter: primeiro começou a choramingar e logo em seguida tentou jogar a culpa daquela situação em mim e no outro monitor, alegando que nós éramos os responsáveis pela tropa e não deveríamos ter aceitado o convite para entrar na casa da árvore.

Enquanto o encrenqueiro exalava pusilanimidade, o outro monitor jurava enfurecido que ia levar o sujeito à corte de honra e os que estavam do lado de fora zanzavam para lá e para cá como baratas tontas, eu fiz algo que desde cedo sempre tive muita facilidade para fazer nesse tipo de situação: ao invés de entrar em pânico, coisa que abomino, eu fiquei calmo e comecei a pensar nas alternativas disponíveis na forma de um brainstorming individual.

Como já falei mais de uma vez aqui no blog, a primeira fase de um brainstorming é levantar idéias sem criticar sua razoabilidade. Pouco importa se as primeiras idéias que surgem são absurdas, ridículas ou inexeqüíveis, porque elas podem conter princípios úteis para montar uma solução razoável em um segundo momento. Quando se trabalha em grupo é importante separar no tempo as fases de levantamento de idéias e de depuração, mas quando se está sozinho é normal oscilar entre as duas fases até acontecer um insight. Então…

Pensei em mandar alguém comprar carne, jogar para dentro do canil, fechar a porta com os cachorros lá dentro e bloquear o vão da porta com algum sarrafo. Claro, The Flash estava ali disponível para correr os mais de trinta metros entre o portão da frente e o portão do canil antes que um cachorro percebesse sua aproximação.

Pensei em capturar os cachorros com cordas, laços ou redes. Claro, tínhamos diversos caçadores experientes no grupo de adolescentes, todos eles dispostos a entrar em bando num pátio com seis cachorros ferozes para lançar redes sobre eles e manietá-los como se estivessem em um rodeio.

Pensei em matar os cachorros. Claro, o dono da casa, o chefe escoteiro e toda a comissão de pais do grupo iam adorar a idéia e me felicitar esfuziantemente.

Pensei em descer dali enrolado com as lonas grossas das barracas do exército que usávamos para cobrir a cozinha do acampamento. Claro, seria muito fácil e rápido cortar e costurar uma roupa invulnerável antes do chefe voltar e seria barbadinha caminhar trinta metros no meio de uma matilha ensandecida tentando me estraçalhar sem tropeçar e cair no chão.

Mas…

Para fazer isso eu teria que fazer as lonas virem até mim. Para fazer as lonas virem até mim não seria possível arremessá-las, elas teriam que vir por uma corda. Uma corda poderia ser lançada até nós com relativa facilidade. E nós tínhamos cordas.

Ora, pela corda que vem a lona também vai um escoteiro!

Eureka! A solução para sair dali era construir uma falsa-baiana!

Falsa-baiana: uma corda embaixo para caminhar, uma corda em cima para manter o equilíbrio e pronto, é só atravessar o espaço com calma.

Tudo que precisávamos era esticar duas cordas entre a casa da árvore e um ponto de apoio externo ao terreno suficientemente alto para que pudéssemos sair sem sermos alcançados pelos cachorros!

Havia um ponto externo suficientemente alto? Havia! Era uma árvore perfeita para isso, para falar bem a verdade: exatamente na mesma altura da casa na árvore, fácil de subir e com diversos galhos onde poderiam ser amarradas as cordas.

As cordas tinham comprimento suficiente para o trajeto? Tinham! Na verdade, tinham bem mais que o dobro do comprimento necessário. Pois então, mãos à obra!

Interrompi a discussão do encrenqueiro e seu monitor e expliquei a idéia.

O plano era bem simples: esticar duas cordas sobre uma matilha de cães enfurecida que queria nos despedaçar a dentadas, passar três escoteiros por estas cordas sem equipamento de segurança algum, recolher e enrolar as cordas cuidadosamente para não deixar quaisquer vestígios da operação e depois contar rigorosamente a verdade, detalhe por detalhe, sabendo que ninguém jamais acreditaria numa única palavra.

Como você pode imaginar, eu enfrentei uma certa resistência.

Insisti, mas não adiantou. Agora os dois estavam unidos contra mim. Pelo menos consegui evitar que se atracassem na porrada, o que já estava ficando difícil de impedir. Mas, agora que eu tinha encontrado uma solução, eu queria sair dali de uma vez. Se o monitor da outra patrulha não queria seguir este curso de ação, o problema era dele, mas eu não estava subordinado a ele.

Chamei a minha patrulha. Expliquei a idéia.

Os caras me chamaram de louco. Negaram-se a seguir minhas instruções.

Argumentei: “Ora, bolas! Se a falsa-baiana ficar boa e der para passar sem perigo, então eu passo; se ficar ruim e não der para passar sem perigo, então eu não passo; o maior interessado em não cair lá embaixo sou eu. Vocês estão realmente sendo responsáveis ou estão com preguiça de fazer dois míseros nós para me ajudar a sair deste inferno? Custa muito amarrar uma corda para avaliar se a idéia é segura com base na realidade e não em suposições?”

Funcionou.

A idéia era fazer a falsa-baiana com uma corda só, amarrada exclusivamente na árvore externa, para que pudesse ser retirada independentemente caso os outros dois mudassem de idéia e também quisessem sair dali pela falsa-baiana.

Resumidamente, eis os procedimentos executados: os escoteiros da minha patrulha amarraram um barbante numa pedra, lançaram a pedra em minha direção três ou quatro vezes até que ela entrou pela janela, eu peguei o barbante, passei-o pela posição que a falsa-baiana deveria ficar posicionada e lancei a pedra de volta. Agora nós tínhamos uma linha que poderia ser usada para puxar uma corda resistente até a minha posição e depois de volta até a árvore do lado externo. Foi o que fizemos.

O grande problema foi tensionar adequadamente a corda. Com uma ponta firmemente amarrada em um galho e um longo trecho livre fazendo peso, era difícil tracioná-la e fazer um nó que a mantivesse suficientemente tensionada para que eu pudesse passar sem baixar tanto que ficasse ao alcance dos cachorros.

Havia duas soluções: ou eu teria que bolar um sistema de tracionamento com alavancas ou roldanas, ou eles teriam que construir a falsa-baiana amarrando as cordas em galhos mais altos da árvore externa. 

A primeira alternativa daria menos trabalho para eles, mas seria mais insegura para mim: eu teria que ditar especificações de engenharia aos gritos, no meio de uma matilha de cães latindo enlouquecidamente, para um grupo de adolescentes assustados trabalhando a contragosto e esperar que o resultado tivesse qualidade suficiente para confiar a minha vida a ele.

Sistema de Polias em Talha Cadernal para aumentar a força de tracionamento das cordas: montagem bem facilzinha de explicar no meio da balbúrdia.

Ruim, hein?

A segunda alternativa daria mais trabalho para eles, que já estavam cansados de tentar tracionar a corda para fazer os nós, mas seria mais segura para mim: não há muita coisa que possa ser mal comprendida em um conjunto de instruções tal como “pendura essa corda mais alto”. 

Enquanto discutíamos que alternativa usar, o dono da casa chegou.

Sabe “anti-clímax”? Pois é.

O sujeito foi surpreendentemente compreensivo. Chamou os cachorros para dentro do canil, pregou de volta a tábua que tinha se desprendido e disse ao encrenqueiro que não apresentaria queixa se ele recolhesse imediatamente a lenha que espalhou.

Depois que o encrenqueiro recolheu tudo, o dono da casa disse que na verdade nunca tinha planejado chamar a polícia, mas que tinha dito aquilo para fazê-lo passar por bobo na frente de todo mundo e aprender uma lição com o susto (acho que naquela época não se falava “pagar um mico”). O encrenqueiro corou e saiu resmungando de cabeça baixa.

Depois ele me chamou em particular e perguntou se eu estava mesmo disposto a fazer o trajeto pela falsa-baiana. Eu disse que sim, claro, e ele sugeriu: “Rapaz, agora que os cachorros estão presos e não há mais perigo, por que tu não terminas de construir a falsa-baiana pra descobrir se a tua solução ia mesmo funcionar?”.

Quando o chefe escoteiro chegou, eu estava no meio do trajeto, inaugurando a passagem pela falsa-baiana, que realmente precisou ser amarrada num galho mais alto, mas funcionou!

O encrenqueiro ainda apareceu mais algumas vezes, mas seus choramingos de medo foram muito bem recordados por mim e pelo outro monitor, tornaram-se alvo de deboche da tropa e por fim levaram o encrenqueiro a abandonar o grupo. É como diz o ditado: os covardes morrem mil vezes.

Quanto a mim, ninguém falou nada. Não podiam me criticar, porque eu não cometi nenhuma imprudência e porque minha solução de fato funcionou ao ser testada, e não quiseram me elogiar, porque liderar fazendo os outros pensarem com independẽncia e terem coragem de assumir riscos calculados é algo de longa data combatido no Brasil.

Talvez por isso nossa tradicional cultura combativa tenha finalmente sido reduzida a uma ridícula cultura de passeatas mendicantes que pedem para os bandidos não serem violentos, pedem para os políticos não serem corruptos, pedem por Direitos Humanos, garantias fundamentais e liberdades civis, pedem, pedem, pedem

Precisamos de Homens e educamos homens.

 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 10/02/2012

17 thoughts on “O corajoso morre uma vez; o covarde morre mil vezes

  1. Adorei a história.

    Pena que não educamos nossos filhos para que saibam pensar em situações assim.

    1. Eu tive sorte, Li. Eu era curioso, gostava de saber como as coisas funcionavam e meus pais tinham boa paciência para me explicar o que eu perguntava. Soma nesse pacote uma biblioteca particular com as principais enciclopédias lançadas no mercado bresileiro (Barsa, Delta Larousse, Delta Júnior, Grande Delta, Conhecer, Brittanica, entre outras, só faltou a Mirador, meu grande “trauma” de devorador de enciclopédias) e terás um peste em sala de aula que nunca precisou fazer um tema de casa em toda a vida, a não ser quando valia nota. 🙂

  2. Evandro A².

    10/02/2012 — 20:52

    Impressionante!

    Há muito não leio um texto tão interessante e com uma “lição de moral” tão pertinente, dados, por exemplo, os recentes movimentos sociais de reveindicações diversas manifestadas em marchas e mais marchas que, em sua grande maioria, se mostram completamente desprovidas de sentido e eficácia.

    Parabéns Athur!

    1. Valeu, Evandro. Mas tu vais ver que não vai faltar alguém para dizer “que irresponsabilidade, você poderia ter caído no meio dos cachorros”. Quanto vale a aposta?

  3. Moral da história: não demonstre com palavras, mas com ações.

    1. Sim, eu insisti em montar a falsa-baiana porque sabia que se não fizesse isso iam me chamar de maluco e eu não teria elementos para provar que tinha razão. Sorte que o chefe escoteiro ainda demorou uns bons quarenta minutos para chegar depois que o dono da casa me deu a sugestão de construir a falsa-baiana assim mesmo. Grande sujeito!

  4. Pessoal, acrescentei novamente uma imagem que fazia parte do artigo original e que por algum motivo absolutamente desconhecido por mim simplesmente não aparecia. É a imagem de um sistema de polias com uma legenda. Objetivo: só acrescentar uma piadinha. 🙂

  5. Rafael Holanda

    10/02/2012 — 23:45

    Bem, já estou aqui. Se vc quiser pode deletar o meu comentário anterior Arthur.

    Uma das coisas que mais atrai a minha admiração é a capacidade de, quando numa enrascada, se manter calmo e pensar em uma solução para o problema. Acho o fim da picada a reação “natural” das pessoas de entrar em pânico, levantar as mãos pro céu e clamar a Deus para que o problema se resolva sozinho. Não vai.

    E sinceramente, acho que existe alguma forma de complô contra essa atitude proativa e contra a inteligência em geral. Sabe, não é a minha área profissional, mas eu ainda quero produzir uma obra cultural de ficção (seja um livro, filme, HQ, sei lá) e eu já percebi que, pelo menos na produção cultural brasileira, a inteligência não é muito valorizada. Quando analisamos o produto cultural mais consumido do país, a novela, vemos que os personagens “inteligentes” são geralmente retratados como nerds (que de nerds não tem nada) e utilizados como o alívio cômico da história. Uma das linhas narrativas mais comuns pra esse tipo de personagem consiste em mostrá-lo cansado da sua solidão, logo ele recebe um conselho pra ser mais descolado (leia-se: mais burro) e, quando o faz, ele é premiado com várias garotas sobre os seus pés.

    Um dos meus passatempos mentais favoritos é imaginar uma versão brasileira das séries/filmes/HQs que gosto. O House brasileiro nunca poderia ser tão arrogante, pq pros brasileiros nada justifica a arrogância (já pro americano sim: a eficiência). A Bones brasileira não poderia ser formada na USP ou UFRJ, pq o brasileiro não acredita que tais instituições podem formar um profissional nesse calibre, e o time do CSI brasileiro iria sofrer constantes ataques a sua competência, pq “até parece que a polícia no Brasil resolve os crimes…”. O Sherlock Holmes seria um cara legal, ele só iria morrer pobre e virgem, mas seria um cara legal.

    1. Rafael, vai na coluna da direita do blog, clica em junho de 2009, depois clica em Mais Antigos e lê o primeiro artigo do blog. 🙂

  6. Evandro A².

    11/02/2012 — 14:10

    Arthur:

    Ih rapaz!!! Será?! Aguardemos então pra ver quais serão os argumentos a embasar os comentários.
    Apostar contra o “dono” do blog? Nem a pau! AHshaushau

    Rafael:

    Não sei se concordas, mas queres ver uma coisa muito intrigante em relação ao que vc citou sobre perder/manter a calma em situações contingenciais e que venho usando como parâmetro de comparação nestes casos?! A postura dos japoneses no momento do terremoto em Março do ano passado e posteriormente nas compras dos mantimentos em comparação com nossa, (brasileira, pois não tenho conhecimento de causa em outros casos pra citar), usual reação.

    Tem uma cena deles, (japoneses), saindo de um prédio no momento do terremoto, em que corriam, mas quando às portas, retiravam-se organizadamente do ambiente, muito embora amedrontados¹. Já no BR em circunstâncias bem diferente, onde realmente não se justificaria atitude tão bestial: http://www.youtube.com/watch?v=3kbTKup_Pvg

    Talvez esteja dizendo besteira, e alguns falem de todo o conhecimento e preparação daquele povo para o caso dos terremotos, mas, mais do que isso, acredito que a diferença seja justificada por fatores culturais e principalmente base educacional tanto familiar, quanto de educação formal, da população.

    No mais, aqui definitivamente há uma pilha de problemas sejam de ordem comportamental, social, ou mesmo estruturais que já se institucionalizaram, por assim dizer. O problema parece ser como resolvê-los, ou melhor, como aplicar eficazmente as soluções desenvolvidas.

    _____________________________

    1 – http://www.youtube.com/watch?feature=endscreen&NR=1&v=6Lh4ghvQZto

    1. Rafael, já leste o artigo “A cultura de submissão e o massacre na Noruega“?

      Preparo é tudo. E nossa educação, ao invés de nos tornar mais preparados, reforça nosso despreparo. Isso faz com que as pessoas que sabem o que fazer no momento certo – ou que conseguem ficar calmas para decidir o que fazer – acabam não podendo contar com o bando de palermas em pânico a seu redor, quando muitas vezes o problema estaria resolvido com uma simples frase, como no caso da Noruega:

      “- Pra cima dele, todo mundo!”

      Tínhamos doze escoteiros na tropa. Se cada um pegasse duas varas de meio metro, amarrasse uns trapos na ponta de cada uma, embebesse os trapos em gasolina, ateasse fogo e entrasse no pátio de modo resoluto, formando uma barreira de fogo e levando tochas para os que estavam em cima da árvore, achas que os cachorros iam enfrentar um grupo numericamente superior que ataca com uma barreira de fogo em mãos?

      Na ocasião eu não pensei nisso, mas hoje se eu desse essa idéia provavelmente ela seria ainda mais rejeitada do que naquela época.

      Tenho minhas dúvidas se hoje alguém se disporia a montar a falsa-baiana ao invés de dizer “espera alguém chegar”.

  7. sim, o brasileiro em geral sofre de complexo de vira-lata – Nelson Rodrigues (veja http://pt.wikipedia.org/wiki/Complexo_de_vira-lata para algumas informacoes sobre este complexo) e demora para tomar as redeas de sua vida porque se acha de forma geral incapaz.

    em varias comunidades do mundo, a maneira de lidar com algo que parece acima de suas forcas ‘e fazer chacota do capaz, da pessoa superior. Exemplo: o cara lindo que todas as mulheres querem, so’ pode ser impotente, ou gay. A mulher linda que nao me da’ a menor bola, so’ pode ser lesbica. O ricaco que anda por ai numa Ferrari: ladrao e impotente. O cara inteligente que sabe as coisas que eu nao sei, so’ pode ser um idiota, um nerd, nao consegue se relacionar com o mundo ou com as pessoas. etc,etc,etc…

    cabe ao criticado deixar de se sentir um vira-latas, levantar a cabeca e seguir seu rumo, com ou sem criticantes de plantao.

    criticantes de plantao, por sua vez, tendem a se transformar em pessoas teoricas, que sabem de tudo, mas FAZEM NADA. Sim, eles sao melhores que os outros, criticam a “burrice alheia” (como se isso de fato existisse), sem se dar conta que cometer erros FAZ PARTE do desenvolvimento. E quem nao se expoe `a pratica, mas fica comfortavelmente no banco do juri, pensa que sabe tudo (sendo o julgador, so’ posso ser uma assumidade…), mas como nunca pos a mao na massa, na verdade nao sabe NADA. Um frustrado, pois no fundo ele sabe que nao teve coragem de ir a luta, mas de ficar criticando os corajosos. Nos USA, este individuo que opta por se transformar em um mediocre ‘e chamado de “looser”. Esta’ bem descrito no texto do Arthur: um cara aticando cachorros brabos que estao ATRAS da cerca (risco teorico zero…)

    1. E o pior é que o complexo de vira-latas é contagioso.

      Há muito tempo eu milito pela adoção de um sistema de segurança semelhante ao da Suíça. O principal argumento contrário que eu recebo é: “aqui não vai dar certo, aqui é Brasil”.

      A mesma coisa acontece quando eu digo que os países que têm as menores taxas de violência e criminalidade do mundo são os países que têm as mais liberais políticas sobre drogas: “aqui não vai dar certo, aqui é Brasil”.

      É sempre assim.

      Mas tu pensas que é fácil fazer alguma coisa de modo diferente e mais eficaz, Paulinha? Não é, não – e o motivo não é que não existam modos mais inteligentes e razoáveis de fazer as coisas, é que as pessoas com complexo de vira-latas sabotam ativamente as alternativas melhores. Não basta não colaborar, é preciso atrapalhar – para forçar o outro a também passar por vira-lata.

      Meus exemplos prediletos neste sentido vêm do ambiente de trabalho.

      Já contei isso em algum lugar, mas repito: fui proibido de ensinar uma colega a usar o computador de modo adequado porque eu não era técnico em informática! E o que eu queria ensinar a ela? A usar o e-mail e a gravar os dados de uma planilha eletrônica em um disquete. Muito complexo, né?

      Outro problema que eu queria resolver, este ainda mais grave, eram contaminações que estavam destruindo amostras clínicas em uma seção. Eu identifiquei a causa das contaminações: uma funcionária nova, que fui encarregado de treinar, não aceitava que eu a treinasse, porque dizia que tinha mais experiência que eu, e fazia tudo errado.

      Quando relatei o problema para a minha chefe, ela disse que eu deveria resolver o problema – mas não me deu autoridade para resolver o problema. Lindo, né?

      Eu tive sorte: a funcionária era nova na seção mas não no serviço público. Duas semanas depois ela tirou férias. No mesmo dia eu higienizei e esterilizei as estufas, delimitei qual deveria ser usada por qual funcionário e separei em conjuntos isolados quais pipetas deveriam ser usadas por quais funcionários. O que aconteceu?

      Não houve uma única contaminação ao longo de um mês inteiro.

      No dia em que voltou de férias, a pessoa que estava provocando as contaminações se insurgiu contra as medidas e insistiu em usar todas as estufas e mexer em todos os canisteres de pipetas, “porque isso aqui é o serviço público, não existe material individual”. E a chefe concordou. O que aconteceu?

      Dois dias depois começamos a perder amostras clínicas novamente.

      Quando a chefe veio reclamar para mim que as contaminações continuaram, eu disse o seguinte para ela: “Reclama na frente do espelho. A culpa das contaminações é tua, porque eu resolvi o problema e tu destruíste a solução proibindo o gerenciamento tecnicamente correto.”

      Resultado: eu fui retirado do laboratório, a funcionária que causou as contaminações permaneceu, e o laboratório passou meses sem conseguir produzir nada, porque tudo ficava contaminado.

      Quando a funcionária que contaminava tudo saiu da seção, as contaminações “misteriosamente” deixaram de acontecer.

      Achas que alguém se convenceu que eu tinha razão?

      Achas que alguém reconheceu que minha solução estava correta?

      Não, claro que não. “Foi coincidência”, disseram.

      Repetindo:

      Não basta não colaborar, é preciso atrapalhar – para forçar o outro a também passar por vira-lata.

  8. este fato ‘e realmente mais prevalente no Brasil do que em outros lugares onde eu tenha trabalhado.

    1. Não és a primeira a me confirmar isso.

  9. Eu já encarei uma criança com o dobro do meu tamanho que queria roubar meu Danette.

    Isso conta?

    1. Conta, claro. E não ter medo de injeção conta também. Isso eu aprendi depois dos quarenta. 😛

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