A justa remuneração dos governantes, parlamentares, magistrados e demais funcionários do Estado

Hoje compartilho com vocês um texto extremamente óbvio e atual sobre a justa e adequada medida da remuneração dos indivíduos que prestam serviços para o Estado, seja em que função for, em qualquer das esferas de qualquer dos poderes da União, e as conseqüências de praticar uma remuneração diversa da justa e adequada. Ao término da leitura, prestem bem atenção à data do texto. 

Tal como um poder extraordinário não deve ser colocado nas mãos de indivíduo algum, não deve haver nenhuma apropriação do dinheiro público por pessoa alguma além do que lhe cabe por seus serviços ao Estado. Não importa se um homem é chamado de presidente, rei, imperador, senador ou qualquer outro nome que a decência ou a loucura possam conceber ou a arrogância assumir: é sempre apenas certa função que pode cumprir no Estado. Na rotina do cargo público, seja classificado como monárquico, presidencial, senatorial ou por qualquer outro nome ou título, seus serviços jamais podem exceder o valor de dez mil libras esterlinas anuais. Todos os grandes serviços prestados no mundo são realizados por voluntários que nada recebem por eles. A rotina do cargo, entretanto, está ajustada a um padrão tão geral de habilidades que se encontra ao alcance de muitas pessoas em um país; consequentemente, não merece recompensas extraordinárias. “O governo”, diz Swift, “é uma coisa simples e adequada à capacidade de muitas cabeças”.

É desumano falar de um milhão de libras esterlinas por ano, pagos através de tributos públicos de um país qualquer para sustentar um indivíduo, enquanto milhares forçados a contribuir definham com privações e lutam contra a miséria. O governo não consiste no contraste entre prisões e palácios, entre pobreza e pompa. Não é instituído para roubar dos necessitados os seus centavos e piorar a miséria dos miseráveis. Mas desta parte do tema falarei mais adiante; por enquanto vou me limitar às observações políticas.

Quando um poder e uma remuneração extraordinários são concedidos a um indivíduo do governo, ele se torna o centro em torno do qual todo tipo de corrupção é gerada e formada. Dê a um homem um milhão por ano e adicione a isso o poder de criar e dispor de cargos a expensas de um país, e as liberdades desse país deixarão de ser seguras. Aquilo que é chamado de esplendor do trono não é outra coisa senão a corrupção do Estado, constituído por um bando de parasitas vivendo uma vida de luxuosa indolência à custa dos tributos públicos.

Quando tal sistema vicioso é implantado, converte-se em guardião e protetor de todos os abusos menores. O homem que recebe um milhão por ano será a última pessoa a promover o espírito de reforma, a menos que ele próprio seja atingido. Será sempre do seu interesse defender os abusos menores, como muitas muralhas que protegem a cidadela, e nessa espécie de fortaleza política todas as partes têm uma dependência tão comum que não se deve esperar que se ataquem entre si.

Thomas Paine, Londres, 9 de fevereiro de 1792.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 19/02/2012

8 thoughts on “A justa remuneração dos governantes, parlamentares, magistrados e demais funcionários do Estado

  1. É triste saber que lutamos há tanto tempo com nossos próprios fantasmas.

    Já ouvi de pessoas” muito bem informadas” que um senador tem o direito a todos os privilégios possíveis,e que esse ” direito” é que distingue um João-ninguém de um “poderoso”.

    Ora,eu tenho que comer linguiça para que MEU senador,presidente,ou qualquer outro”poderoso” coma caviar ?

    Os poderosos podem se pintar de ouro,desde que seja ás suas expensas.

    A política não é para o cidadão lesar o erário.

    Assim como não devemos pagar um valor simbólico
    por um trabalho que sabemos o real valor,mesmo que
    a pessoa que nos preste o serviço desconheça o preço de mercado.

    Miguel,o rapaz que consertava meu pc,cobrava pela visita,mas todas as vezes que vinha a minha casa passava horas.
    E estranhava que eu lhe pagava pelo tempo que ele ficava limpando o pc,e não pela visita.
    Era justo,ele fazia algo que eu não conseguia fazer,merecia receber por seu trabalho.
    A questão é que a maioria das pessoas só pensa em levar vantagem sobre o outro.
    É incapaz de perceber por si mesma o valor daquilo
    que precisa,caso o profissional fosse ele.

    Faz tempo que Miguel nao conserta mais o pc aqui de casa,e por conta de agir com respeito para com ele,ganhei um amigo.
    Sei que posso contar com ele,mesmo que seja para indicar uma pessoa de confiança.

    Os políticos estão viciados,acham que merecem mais do que o resto dos mortais.
    Se colocam como uma pequenos deuses.

    O dia em que virem o que estão fazendo,como estão se comportando,as coisas podem mudar.

    A corrupção do que é bom,é péssimo!

    Lamentavelmente somos nós que fortalecemos isso tudo.

    1. Três deputados uma vez entraram no elevador na minha frente na Assembléia Legislativa do RS.

      Cabem oito pessoas no elevador, mas quando eu fui entrar um deles fez sinal de que eu não deveria entrar.

      Perguntei o que houve e ele disse “estamos conversando um assunto privado”.

      Eu olhei bem para a cara dele, entrei no elevador e disse o seguinte: “assunto privado os senhores tratem dentro dos seus gabinetes, o elevador não é para isso”.

      Caras feias, expressões indignadas, visível sensação de “quem esse petulante pensa que é”. Um deles chegou a levantar um dedo e ia dizer alguma estupidez, mas o outro fez sinal que “melhor não”.

      A irritação e o constrangimento deles conforme o elevador descia alguns andares eram tão densos que podiam ser cortados com uma faca.

      Confesso que foi divertidíssimo. 🙂

  2. Um texto de 220 anos que é de uma sobriedade e lucidez espantosas.

    1. E ainda não aprendemos. É de chorar, né?

  3. Confesso que foi divertidíssimo.(Arthur)

    Divertido e correto.

    Se essa fosse a prática usual.

    Milhares de pessoas nem desconfiam que DEVEM fazer isso.

    1. Os caras se acham A instituição, é impressionante. E eu conhecia os três, então eu sabia que não estava incomodando gente boa. Eram três notórios lixos.

      O que me chateia é que um “ponha-se no seu lugar” não tem efeito algum para pessoas como aquelas. Eles não tem dignidade para perceber os próprios erros e se corrigir.

  4. Que falta de tato, a sua, Arthur! Não era um assunto privado e sim um assunto de privada. Tudo que um parlamentar tiver para dizer que não pode ser ouvido pelo eleitor que o emprega é no mínimo suspeito.

    1. Eu peguei uma frase solta antes de eles perceberem minha aproximação: “Tá, mas como é que esse dinheiro vai entrar?” Ou seja, se o cara tinha essa dúvida e não queria que eu ouvisse o assunto, podemos ter praticamente 100% de certeza de que eles estavam falando de alguma operação ilegal.

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