De quem é a sua vida? De quem é a sua saúde? São suas ou do seu médico? Quem tem o direito de decidir se você vai ou não vai ingerir uma determinada substância? Quem tem o direito de decidir se você vai ou não vai realizar uma determinada cirurgia plástica ou modificadora do corpo? Quem tem o direito de decidir o que é melhor para você?

Essa é uma história de ficção.
Qualquer semelhança entre
os personagens aqui citados
e pessoas do mundo real
é mera coincidência.

A Dra. Paula estava cansada ao final da oitava hora de seu plantão de doze horas. Eram três horas da madrugada e ela ainda não tinha parado um único minuto nem sequer para tomar um cafezinho. Mas aquela era a última ficha da noite, só havia mais uma pessoa na sala de espera da emergência e ela chamou o último paciente: “Sr. Marco Zygoteano?” 

Lá no fundo da sala de espera, no canto onde havia uma penumbra devido a uma lâmpada queimada, levantou-se lentamente um vulto que trajava um capote pesado com capuz. A Dra. Paula entrou então no consultório, sentou-se em sua cadeira e começou a ler a ficha do paciente, encontrando imediatamente a observação escrita pela enfermeira  em letras garrafais: “CUIDADO – MALUCO!”. Olhou então para a porta, no exato momento em que um homem de porte atlético entrava na sala, jogava o capuz para trás e se apresentava em tom triunfal, olhando para o teto e lançando para o alto a mão direita verde espalmada: “Eu sou… O MARCO ZYGOTEANO!” Então, voltando sua face verde para a Dra. Paula, cumprimentou-a com uma delicada mesura circence: “Boa noite, doutora! Eu quero amputar meu braço esquerdo!” 

Quinze segundos depois, quando conseguiu voltar a respirar e percebeu que estava há tempo demais com os olhos arregalados e olhando fixamente para aquela figura insólita, a Dra. Paula ligou o piloto automático e respondeu: “Boa noite, seu Marco. No que eu posso ajudar o senhor?” 

– Eu já respondi esta pergunta, doutora. Eu quero amputar meu braço esquerdo. 

– Eu creio que não compreendi o que o senhor falou. 

– A senhora entendeu muito bem, doutora. Eu quero amputar meu braço esquerdo. 

– É, parece que eu tinha mesmo entendido corretamente da primeira vez. 

A Dra. Paula falou isso e ficou apenas olhando para o homem a sua frente. Pele verde. Como raios esse miserável era verde? E que tipo de maluco seria? O tom de voz dele era imponente, quase desafiador, mas respeitoso. Era nítido que não tinha intenções agressivas. Movia-se com suavidade, executando cada gesto com teatralidade estudada. Seu braço esquerdo não estava na manga do capote, mas encolhido por dentro da roupa. Seria um homem estranho mesmo que não fosse verde. 

O homem pareceu adivinhar os pensamentos da doutora: 

– Talvez fosse adequado que eu lhe explicasse os motivos de minha estranha solicitação, não é mesmo, doutora? 

– Sim, seria um bom começo – disse a Dra. Paula enquanto pensava que toda e qualquer chance de tirar um cochilo naquela madrugada estava descartada devido à possibilidade de ter um pesadelo com aquela caratonha verde. 

– Meu nome original – explicou a estranha figura – era Marco Zyg Oliveira Teófilo. Eu assinava Marco Zyg O. Teófilo. A professora de biologia do ensino médio, porque eu gostava muito das aulas de genética, me chamava de Zygoteófilo. 

– Arrãm – deixou escapar a Dra. Paula, ajeitando-se na cadeira. 

– Isso é relevante, doutora – sorriu o homem – porque foi para mim um ponto de virada. Eu nunca tinha dado muita atenção a meu segundo nome, mas daquela época em diante passei a ter grande interesse nele. Procurava na internet todo tipo de ocorrência que pudesse ter alguma correlação com “Zyg”. Tornei-me até fã das músicas de Ziggy Marley, cujo apelido se assemelhava a meu nome. Um belo dia percebi que meu novo interesse não era mero capricho, pois em sonhos fui contatado pela raça alienígena dos Zygoteanos e recebi a proposta de realizar uma missão! Por isso mudei meu nome, minha cor e agora pretendo mudar minha anatomia: preciso mostrar meu merecimento para ingressar no Círculo de Respeito da sociedade Zygoteana e negociar uma aliança diplomática a fim de evitar um ataque militar a nosso planeta! 

– Arrãm – deixou escapar novamente a Dra. Paula, ao ter certeza de que se encontrava perante um lunático. 

O suposto lunático, que era um homem extremamente perspicaz, percebeu exatamente o significado deste segundo “arrãm”. Olhou fixamente para a doutora, provocando um momento de tensão, mas prosseguiu sua explanação sem alterar seu tom de voz: 

– Sim, doutora, eu entendo que a senhora me considere um maluco. Porém, eu lhe asseguro, estou em plena posse de minhas faculdades mentais e mais de um colega seu da área da psiquiatria já atestou isso. Posso continuar?

– Prossiga, por favor.

– Bem, a gloriosa raça dos Zygoteanos há muito tempo sonda mentalmente nossa galáxia em busca de vida inteligente com a qual possa estabelecer paz ou guerra e descobriu nossa existência graças a nossas transmissões de TV. Antes de encontrar a minha mente receptiva, eles já haviam feito alguns contatos prévios infrutíferos. Um roteirista de histórias em quadrinhos, que captou em sonhos uma das primeiras tentativas de contato, chegou a utilizar as imagens da raça dos Zygoteanos em sua obra, sem jamais imaginar que aquilo que ele considerava alucinação ou criatividade era na verdade real. 

O homem verde remexeu então um bolso, sacou de lá um recorte de papel e colocou-o sobre a mesa da doutora.

– Veja aqui uma imagem de um casal de Zygoteanos! 

A doutora não pode deixar de olhar a figura, mas desta vez conteve-se e não suspirou nem disse “arrãm” ao perceber que era um recorte de histórias em quadrinhos. 

– Eles não têm o braço esquerdo? – perguntou ela. 

– Exatamente, doutora. Eles nascem com ambos os braços, mas realizam um ritual de amputação ao atingir a maioridade para provar sua determinação, sua capacidade de adaptação e seu merecimento para ingressar nos extratos superiores de sua sociedade. 

– Que primitivo! – exclamou a doutora. 

– Na verdade, não – respondeu o homem verde – porque isso produz certas compensações em termos de organização neurológica e os torna ainda mais hábeis no comando de suas naves, o que é bastante proveitoso em se tratando de uma avançadíssima raça guerreira que decidiu se tornar a última raça guerreira do universo. Eles só estabelecem a paz com planetas e raças que abdicam internamente da guerra, e neste caso respeitam absolutamente a diplomacia. 

– E como foi que o senhor se tornou verde? – perguntou a doutora, decidida a matar sua última curiosidade antes de pedir ao maluco que se retirasse. 

– Tatuagem, oras! – respondeu o homem rindo – Horas e horas de dolorosa tatuagem, até mesmo sobre as pálpebras! Mas o verdadeiro marco zygoteano será a amputação de meu braço esquerdo, com o que me qualificarei para ingressar no superior Círculo de Respeito e terei o direito de exigir que nosso planeta receba uma visita diplomática prévia para negociar a paz e não um ataque militar direto, visto que ainda não abdicamos internamente da guerra. 

– Certo, seu Marco, mas isso aqui é um serviço de emergência. Eu não tenho como ajudá-lo aqui. O senhor precisa discutir seu caso com… com… 

As palavras faltavam à Dra. Paula. Como encaminhar aquela figura estranha e perturbada a um colega cirurgião? Tratava-se evidentemente de um caso psiquiátrico! 

– Doutora! – interrompeu o homem verde – Na verdade eu vim aqui para me informar sobre as condições de que seu hospital dispõe para o atendimento de emergência em casos realmente graves, como no caso de alguém que tenha perdido um membro em um acidente de automóvel. Eu sei que médico algum me atenderá a não ser que eu mesmo arranque meu próprio braço. Eu já falei com diversos colegas seus. Fui alvo de zombarias, de atitudes condescendentes, de impaciência e até mesmo de grosserias. A única coisa igual em todas as vezes foi o fato de que eu não obtive a ajuda que precisava e não consegui contratar o serviço que desejo. 

Fez-se um momento de silêncio constrangedor. O homem então prosseguiu, elevando o tom de voz: 

– É uma vergonha que nosso sistema de saúde seja assim! Eu posso procurar um cirurgião para mudar a forma do meu nariz, para transplantar cabelo para o alto da cabeça, para colocar implantes de silicone imitando músculos, para repuxar as rugas do rosto e fingir que sou mais jovem ou mesmo para mudar a expressão do meu rosto, a ponto de assumir uma nova identidade se assim o quiser. Eu posso até mesmo pedir para que arranquem um pedaço do meu pênis por motivos religiosos e ninguém dirá que não, porque para tudo isso existe aprovação cultural e aquiescência do Conselho de Medicina. Mas por que os médicos podem arrancar partes de meu corpo em nome de “Deus” e não em nome dos Zygoteanos? 

– Não é ridículo – continuou ele – que uma primitivíssima mutilação genital em crianças por motivos religiosos seja aprovada ou pelo menos tolerada pela “ciência” médica sem questionamentos, enquanto que no meu caso os médicos se consideram no direito de julgar minha sanidade mental, apropriar-se de minha cidadania e julgar em meu lugar o que é melhor para mim, impedindo que um adulto tome decisões sobre sua própria vida? Isto é fascismo! 

– O senhor acaba de me lembrar de um blogueiro amigo meu, – disse a Dra. Paula – ele também contesta certos aspectos da minha profissão com a mesma veemência que o senhor, em alguns casos com os mesmos termos. 

– Prezo a sensatez e a visão de cidadania de seu amigo e agradeço que compreenda que minha crítica é impessoal e direcionada contra um sistema nada transparente. Mas sejamos objetivos, doutora: posso contar com o seu socorro e com o respeito à minha vontade quando eu arrancar meu braço esquerdo? 

– Eu não posso lhe garantir isso desta maneira, Sr. Marco, porque isso poderia ser considerado um incentivo à insensatez que o senhor planeja cometer. 

– Entendo, doutora. Parece que eu terei mesmo que arriscar todas as fichas em uma jogada só. Por favor, interfone para o bloco cirúrgico e avise que está para chegar em poucos minutos um paciente com o braço esquerdo recém amputado. 

Dizendo isso, Marco Zygoteano retirou o capote e revelou um braço esquerdo esbranquiçado e bem mais fino que o direito, devido aos vários anos em que permaneceu dentro das roupas, sem tomar sol e em completa inatividade. Apontou para o ponto em que terminava a cor verde da tatuagem e informou: 

– A amputação ocorrerá nesta altura. Vou colocar um torniquete bem apertado para não perder muito sangue, mas já fique sabendo que sou receptor universal, AB+ MN. Se eu não entrar em choque com a dor, destruirei o que sobrar do braço para evitar que seja reimplantado. Se eu não conseguir fazer isso, a senhora já sabe que eu proíbo expressamente o reimplante. Interfone para o bloco cirúrgico agora, doutora. 

Dizendo isso, saiu às pressas. 

A Dra. Paula ficou uns momentos imóvel, num misto de alívio por ter se livrado do maluco e de preocupação com sua sanidade mental. Talvez devido ao cansaço, não se deu conta do imediatismo do ultimato que o homem verde havia proferido. Não até ouvir o barulho de uma motosserra sendo ligada no estacionamento, logo seguido por um grito do tipo capaz de estragar o sono de qualquer ser humano por muitas e muitas noites. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 04/03/2012 

Em debate: 

1. Marco Zygoteano tinha ou não tinha o direito de amputar seu próprio braço? 

2. Se ele tinha esse direito, então por que o serviço que ele procurava não lhe foi prontamente oferecido, sem zombarias nem prejulgamentos? 

3. Por que ele teve que recorrer a métodos grosseiros e perigosos, sentir imensa dor e correr graves riscos para ter sua vontade satisfeita, se há profissionais habilitados e equipamentos avançados para fazer o que ele queria sem que ele tivesse que sentir tanta dor e correr tantos riscos? 

4. A função da medicina e dos médicos inclui ditar parâmetros de moralidade e sensatez para indivíduos adultos em plena posse de suas faculdades mentais? 

5. Que direito tem quem quer que seja de atuar como legislador ou juiz da moralidade e da sensatez, determinando o que é certo ou errado para cada indivíduo, exceto o próprio indivíduo? 

133 thoughts on “– Doutora, eu quero amputar meu braço esquerdo!

  1. Como verificar a soberania da vontade? O documento ‘e oficial, valido no Estado, e ninguem pode assinar pelo paciente. O paciente busca este documento antes de ver o medico. Antes de precisar do medico. Ao medico cabe verificar se tal documento existe. Via de regra, se alguem que nao seja a familia souber deste tipo de documento, em geral este alguem ‘e o advogado do cara. E’ um documento tipo testamento. Sim, quem assina e’ soberano. Se voce disser que pode haver cabresto para a assinatura, sim, teoricamente sim, mas eu DUVIDO que uma assinatura de cabresto, se que isso seja concebivel num local onde todo mundo anda armado, que esta assinatura dure 30 segundos alem do tempo em que o cabrestante tenha se retirado.

    1. Mais um bom motivo para ser contrário ao desarmamento do cidadão honesto. Se eu fosse estadunidense ou tivesse que morar nos EUA, acho que me filiaria à NRA. 🙂

      O inferno é que eu correria um sério risco de ser o único membro anti-partido-republicano da associação… 😛

  2. Arthur, eu tive a oportunidade de praticar a medicina e de ser paciente em 3 continentes.

    Conclusao:
    1) O meu respeito por medicos e pacientes nao mudou
    2) O meu desprezo pela incompetencia e pela intolerancia continua elevadissimo
    3) Eu continuo consultando o Comite de Etica da instituicao onde trabalho sistematicamente quando delineo estudos clinicos (mesmo que eu nao quisesse, e’ a Lei). Mas faco questao.
    4) Eu continuo consultando o Comite de Etica da instituicao onde trabalho sistematicamente quando atendo a um paciente onde haja conflitos entre deveres e expectativas de ambos os lados.

    Nos dilemas eticos nao ha’ certo ou errado. Ha’ principios.

    No debate voce discute os varios principios, e opta pelo caminho que agrade a todos, ou que seja menos danoso a principios mais agucados envolvidos. A razao para o posicionamento de parte a parte e’ ouvida e levada em consideracao.

    Eu nao posso falar sobre um medico que tenha disturbios de conduta e que pratique sua profissao sem tratar adequadamente os pacientes propositalmente.

    Eu posso falar apenas por mim.

    E voce sabe o que eu penso sobre a solicitacao de amputacao do braco do cara, numa emergencia, como citado no teu texto.

    1. 1) Eu também, apesar dos péssimos profissionais que já encontrei pela frente. Mas minha prevenção aumentou devido às experiências por que passei. Como diriam os muçulmanos, “confie em Allah, mas amarre seu camelo”.

      2) idem.

      3) Eu desisti de fazer certos tipos de pesquisa porque invariavelmente os “comitês de ética” que eu consultei mostraram preocupação exclusiva em tirar a instituição da reta, ou opondo-se radicalmente aos estudos ou exigindo modificações que tornariam os estudos ou inexeqüíveis ou inúteis.

      Os mesmos comitês de “ética” nunca demonstraram o menor interesse em denúncias graves que no entanto não podiam comprometer diretamente seus empregadores.

      Como “ética só quando interessa” não é ética e sim oportunismo hipócrita, e como eu me nego a dissipar minhas energias negociando com canalhas mal intencionados, abandonei a pesquisa.

      4) Eu não teria paciência para fazer isso. Neste caso eu penso bem parecido com o House – e, do mesmo modo que ele, eu também só poderia trabalhar se houvesse uma Cuddy na chefia. Ter que pedir opinião dos outros sobre como devo trabalhar o tempo todo definitivamente não faz parte da minha personalidade. Eu pergunto só quando tenho dúvidas. Ou a instituição confia em mim, ou não confia em mim. Ponto.


    2. “Nos dilemas eticos nao ha’ certo ou errado. Ha’ principios.” (Paula)

      E o princípio mais importante na relação entre o cidadão e o prestador de serviços é sempre a vontade do cidadão – mesmo que ele queira contratar o Dr. Kevorkian para fazer seu “servicinho” tão questionado.

      “No debate voce discute os varios principios, e opta pelo caminho que agrade a todos, ou que seja menos danoso a principios mais agucados envolvidos. A razao para o posicionamento de parte a parte e’ ouvida e levada em consideracao.” (Paula)

      Isso parece plausível, mas esse “levar em consideração” é o problema. Quando eu quero implantar um chip na minha própria cabeça eu não quero ser “ouvido e levado em consideração”, eu quero o serviço e pronto.

      É tão difícil entender que ninguém tem que me apresentar suas opiniões nem julgar as minhas quando eu quero apenas que me prestem um serviço?

      Aliás, talvez este seja o ponto nevrálgico da questão: a classe médica e a classe dos bacharéis em direito (e em menor grau a classe dos engenheiros) já não se consideram “prestadores de serviço” e sim categorias que devem ser consultadas na definição de políticas e na “concessão” de cidadania aos cidadãos. Elas acham que a minha cidadania deve ser condicionada por sua ideologia. E já conseguiram impor a submissão do cidadão a suas ideologias em diversas questões nas quais jamais deveriam possuir qualquer poder – como nos casos do indivíduo que não pode defender a si mesmo sem pagar um profissional que ele não quer contratar e do indivíduo que quer consumir uma substância sem depender de ninguém que o autorize.

  3. os Republicanos sao mais armados, mas democratas tb.

    1. A NRA não é predominantemente dos republicanos?

  4. Mas Arthur, se voce quiser implantar um chip que faca “plim” na sua cabeca, va’ e faca. Se quiser fazer com um medico, contrate. Isso e’ entre voce e o seu medico. Se o seu medico nao se sentir comfortavel em faze-lo, va’ a outro medico. Como eu disse la’ no inicio, nao se preocupe que voce sempre vai achar um medico interessado em te ajudar nas tuas demandas.

    1. E eu já respondi que um sistema que obriga o cidadão a fazer isso à margem da lei, correndo riscos que seriam desnecessários se o sistema não estivesse interessado em me obrigar a seguir os padrões de moralidade impostos por uma categoria (qualquer categoria) é um sistema inimigo do cidadão e com forte tendência a se tornar a cada dia mais inimigo do cidadão. Não acredito que isso não ficou claro ainda a esta altura.

      É o caso típico, para citar outro exemplo evidente, da proibição da maconha. O fato de a maconha ser proibida não impede uma única pessoa de fumar maconha, mas impõe riscos à saúde das pessoas devido às impurezas que são misturadas, impõe riscos à segurança jurídica das pessoas devido à possibilidade de um usuário ser considerado traficante caso produza sua própria plantinha para consumo próprio sem prejudicar ninguém, impõe riscos à vida das pessoas devido à violência que gera ao exigir que o tráfico se defenda da concorrência (e do próprio Estado) utilizando técnicas que não são necessárias para o comerciante do boteco ou da farmácia, impõe degradação do sistema político e cultural devido ao fanatismo e á alienação que gera por parte dos moralistas que querem impor códigos de moralidade e prioridades de vida a terceiros, etc. – e, já que estamos falando também de medicina, a classe médica piora gravemente esta situação quando se arvora a falar sobre drogas como se fosse a única categoria de cidadãos habilitada a fazê-lo, como se o problema das drogas fosse apenas uma questão médica, o que nem nos sonhos mais loucos do mais louco dos proibicionistas chega nem perto de ser verdade.

      Arrisco a dizer sem medo de errar que a maioria dos problemas de nossa sociedade são devidos às tendências fascistas que permanecem fervilhando em nossa cultura mesmo após o trágico exemplo da Segunda Guerra Mundial. Simplesmente fazemos de conta que aquele episódio foi superado, quando na verdade o fascismo está vivo e se fortalecendo entre nós a cada dia em todos os setores da sociedade, desde o Jânio Quadros que queria proibir o biquíni até o médico que estimula os políticos a manter uma proibição ou restrição-sob-receita de qualquer tipo de substância, desde o advogado que acha muito razoável que o indivíduo não possa se defender sozinho em juízo até o engenheiro que acha correto que o cidadão tenha que contratar seus serviços para construir a casa de um piso só em que ele mesmo vai morar.

      São pessoas com a pretensão de defender as outras de si mesmas, como se fossem emissários de Deus, donos de um poder sobrenatural que lhes dá maior direito de decidir a vida dos outros do que cada um de decidir sua própria vida. É ridículo tudo isso. E é ridiculamente absurdo que isso esteja se espalhando cada dia mais.

  5. Joaquim Salles

    18/03/2012 — 15:52

    Olá Arthur,

    Pois é… se achar o enviado de Deus com poder para decidir sobre os outros não é novidade na humanidade.

    Veja a noticia recente: http://portugalgay.pt/news/180312A/paases_baixos:_igreja_catalica_tera_mandar_castrar_crianaas_que_supunha_serem_homossexuais

    Se for verdadeira a historia veja essa passagem:

    “Segundo o jornal as intervenções cirúrgicas foram justificadas na época como um “ato de ajuda, para libertar” as crianças de sua suposta “doença” da homossexualidade, algumas crianças que denunciaram abusos sexuais terão sido alvo de castração como “punição”.”

    Veja: fizeram para fazer o “bem”, curar. Certamente existira uma linha da “fé” que dará amplas explicações morais para esse ato.

    A na nossa historia o positivismo de Augusto Comte teve forte influencia nos valores culturais de varias gerações desde a proclamação da republica até hoje. Culturalmente “cremos” que advogados, médicos e outros são nossos tutores e nunca podemos questiona-los.

    Comte rejeita como metafísica a doutrina dos direitos do homem e da liberdade. Assim como “não há liberdade de consciência em astronomia”, assim uma política verdadeiramente científica pode impor suas conclusões. Aqueles que não compreenderem terão que se submeter cegamente (esta submissão será o equivalente da fé na religião positivista).

    Leia mais: http://www.mundodosfilosofos.com.br/comte.htm#ixzz1pUm5zYpW

    Dai aceitamos sem reclamar muito toda vez que nossa liberdade é tolida.Ficou o conceito “submeter cegamente” , esse é mais forte.

    Já no USA o conceito da liberdade do homem é forte pois os primeiros colonos dela saiam da Inglaterra por varias razões e perseguições contra a liberdades deles.

    Obvio que existem outros fatores para piorar a historia…

    Abraços ( desculpa escrevi de mais)

    1. 1. Não, não escreveste demais.

      2. Tenho profundas dúvidas quanto à credibilidade deste tipo de notícia. Onde estão estas pessoas? Por que nunca falaram nada durante tantos anos? Se eu sofresse um abuso destes, enrolaria o desgraçado que fez isso comigo em arame farpado, meteria ele de cabeça para baixo dentro de uma pilha de pneus, derramaria um pouco de gasolina dentro dos pneus da metade de cima da pilha…

      3. O autor de um blog chamado “Pensar Não Dói” não tem como sentir simpatia alguma pela expressão “terão que se submeter cegamente”, por mais bem intencionado que possa ter sido seu propositor.

  6. Manga-Larga

    19/03/2012 — 10:19

    Doutor, eu VOU amputar meu braço!
    http://noticias.terra.com.br/ciencia/noticias/0,,OI5672756-EI238,00-Britanica+planeja+amputar+braco+e+substituilo+por+protese.html

    1. Hehehehehe… Quero ver os comentários da Paulinha e do Gerson sobre essa mulher! 🙂

      Minha opinião: há duas maneiras de tentar resolver o problema dela, uma é com células-tronco, outra é com uma prótese funcional. Eu tentaria primeiro a primeira e se não funcionasse é óbvio que eu apelaria para a segunda alternativa.

      Entre um membro paralisado e um membro funcional, que se dane o argumento que fala sobre “amputar um membro natural que talvez seja recuperável um dia”. Esse “um dia” tem que vir dentro de um prazo razoável – daqui a duas décadas e meia simplesmente não serve.

    2. Não vou falar nada contra, esse é um caso em que há uma boa justificativa para amputação, se não houver alternativa viável como você disse.

      Mas pensei em algo como uma órtese, que ela poderia usar como uma luva ou no pulso, acionada do mesmo jeito que a prótese seria, algo do tipo. Duvido que não seja possível tecnicamente e evitaria a amputação.

      Mas melhor que isso seria indica-la pro Dr Picareta Afiada, M.D. .

    3. Hehehehehe… com a vantagem que ela ainda vai aprender a jogar xadrez no processo, né? 🙂

      Mas uma órtese (por sinal, de que tipo?) não daria a ela força e mobilidade como uma mão biônica, né?

  7. Concordo com o Gerson. Antes de amputar a mao e colocar uma protese, que nao foi feita para durar 50 anos, eu usaria todo o tipo de orteses. Veja que mesmo que ela consiga “guardar” todo o $$ do mundo para poder fazer a “manutencao” da protese, o bracinho dela nao foi feito para aguentar uma peca mecanica nele.

    Quem ja’ viu amputado com protese, ou mesmo tem um dente pivo com pino implantado, sabe que o metal, plastico, o material que seja, gradualmente destroi o tecido biologico que o sustenta, seja o osso da mandibula ou a pele e tecidos subcutaeos de um membro.

    Quanto a uma ortese com funcionalidade comandada pelos estimulos neurologicos do braco da paciente (uma “capa bionica”), nao sei se a tecnologia ja’ chegou a este ponto. Como disse a reportagem, eles vao avaliar os nervos do braco para ver se sao funcionais, pois se tiverem sido lesados, a mao bionica vai continuar “paralitica”, e uma “ortese com capacidae bionica” tb permaneceria paralitica pelo mesmo principio. Se a lesao ‘e la’ em cima, no plexo braquial, acho improvavel fazer o mediano, ulnar ou radial transmitirem qualquer impulso que a mao bionica possa reconhecer.

    1. Se minha velha tia obesa (já falecida) usava um braço com garra de brinquedo pra segurar coisas sem precisar levantar, uma órtese com certeza funcionaria. O comando poderia ser colocado noutra parte do corpo e transmitir os impulsos por fio. Seria mais comprido que uma luva, talvez um colete com uma manga. Tambem poderia haver controle vocal, com comandos como “open” e “close”, ou alguma emissão eletromagnética, I.V. por exemplo, como um controle remoto. Pode haver outras alternativas. Tecnologia existe.


    2. “eles vao avaliar os nervos do braco para ver se sao funcionais, pois se tiverem sido lesados, a mao bionica vai continuar “paralitica”” (Paula)

      Pensei nisso também. Eles teriam que “puxar um fio” por dentro do braço, como um eletricista faria, até um ponto anterior ao local lesado, para ali “plugar” a prótese.


    3. “minha velha tia obesa (já falecida) usava um braço com garra de brinquedo pra segurar coisas sem precisar levantar” (Gerson)

      “Mão de Aço” e “Mão Biônica”! 🙂 Uma tinha o formato de mão e a outra tinha o formato de alicate. A que tinha o formato humano era uma droga, mas a outra era um brinquedo ótimo, funcionava muito bem. Eu conseguia até beber água sem derramar segurando o copo com ela. Lógico que era necessário um pouco de contorcionismo e de malabarismo, mais um apoio externo, mas dava. 🙂

      “Tambem poderia haver controle vocal, com comandos como “open” e “close”” (Gerson)

      Aí um mané chega perto, grita “esgana” e tá feita a desgraça. 😛

    4. Ela usava justo o tipo alicate. Bem prático, ela pegava qualquer coisa que não fosse pesada.

    5. Caiu uma ficha aqui…

      “Antes de amputar a mao e colocar uma protese, que nao foi feita para durar 50 anos, eu usaria todo o tipo de orteses.” (Paula)

      Pois é, Paulinha… Por que raios essas coisas não são feitas para durarem 50 anos ou mais???

  8. Porque a tecnologia evolui e nao existe interesse em continuar a manutencao do que foi feito ha’ mais de 30 anos.

    Alem disso, apesar de a tecnologia ser fantastica, uma grande limitacao e’ o contato do tecido biologico com o artificial. Nao interessa o material usado, a pressao aplicada, a temperatura, se externo ou interno, nada. O tecido biologico nao gosta de proteses, pivos, pontes, dentaduras, piercings, implantes, stents, etc. Voce pode colocar um stent numa arteria entupida, mas a arteria “rejeita” o stent e cedo ou tarde, ele acaba re-ocluido, ou um setor adiante ao stent se oclui. Mesmo stents que acabem “epitelizados” com o tempo. “O corpo nao aceita”. O stent pode ficar la’ sepultado, mas sem funcao. Ai bota outro, e outro, e outro…Alem disso, a pressao da protese ou corpo estranho nos tecidos biologicos pode causar atrofia e isquemia dos tecidos, com suas proprias consequencias. Imagina um guri de 19 anos usando uma protese peniana, como vai estar o bicho aos 45. Coitado. Ainda bem que para a moca da reportagem do Terra pelo menos foram claros em dizer que haveria necessidade de manutencao, e provavelmente reposicao…

    1. Putzgrila… qual é a alternativa, então, digamos, para um dente quebrado na base, bem próximo à raiz?

  9. Quando ja’ quebrou, entao coloca o pivo. Ou uma ponte fixa ou movel. Os dentistas que sabem melhor. Mas ai ninguem “amputou o dente” (braco) para poder se candidatar a virar marciano; o dente quebrou por traumatismo, ou por doenca dentaria (caries, gengivites, etc). Quebrou, conserta.

    O grande ABSURDO que eu ja’ vi no Brasil, foi uma jovem de 33 anos ter TODOS OS DENTES ARRANCADOS porque nao eram muito bonitos e precisavam de tratamento porque estavam doentes, alem de estarem um pouco apinhados, para dar lugar a lindos pivos. Sim: um profissional “convenceu” a jovem (ou se deixou convencer pela jovem) que pivos eram muito melhores que os dentes naturais. Sim, a vitima achou que qualquer protese seria mais funcional e atrativa do que a coisa natural (como no caso do jovem de 19 anos…). O resultado foi uma barbarie. Ela tem hoje lindos dentes (posticos), mas espera 5-10 anos…Os pivos estarao inteirinhos, mas a boca, pobre da boca.

    Pivos estes que ficarao lindos por 5 a 10 anos…mas quando ela tiver 50, nao vai mais ter gengiva que aguente o corpo estranho, e residuos se acumulando em espacos nao fisiologicos… e o osso do alveolo dentario descalcifica sim pela pressao do metal. Fica uma verdadeira cacaca. E dai, vai voltar la’ no profissional que aceitou trocar seus dentes por pecas posticas para ficar “mais bonito” ou mais “funcional”?! Vai de certo retirar os pivos, fazer uma limpeza, e providenciar dentaduras completas sup e inf. Ai sim ‘e que a maxila e a mandibula vao descalcificar. O tipo da situacao que nao tem conserto.

    Que loucura!

    1. Bem, o Marco Zygoteano não queria implantar uma prótese, ele queria mesmo era ficar maneta. 😉

      Mas por que “quando ela tiver 50, nao vai mais ter gengiva que aguente o corpo estranho”? O que acontece?

    1. Oh my God. 🙁

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