Peço licença a meus leitores para publicar um desabafo pessoal. Como muitos já sabem, estou na reta final para me desligar do serviço público e me mudar de uma capital de estado para uma aldeiazinha com três mil habitantes no interior de uma pequena cidade de interior, para morar em uma casinha de madeira no meio do mato a 2,5 km por estrada de chão batido do mercadinho mais próximo. A questão é: por quê? O que leva um intelectual gregário a desejar esse tipo de isolamento? 

Creio que a resposta é: o mesmo sentimento que levou Gandhi a ficar feliz com sua sentença de seis anos de prisão em 1906. Preciso desesperadamente me desestressar,  recarregar as baterias e recuperar o foco. Eu e toda civilização ocidental, é verdade, mas só posso falar por mim.

Na última quarta-feira pela manhã eu fui fazer um exame de saúde em um hospital. O exame foi marcado para às 7 h 30 min da madrugada, com recomendação expressa de chegar 15 min mais cedo porque são muitos pacientes, a equipe tem horários limitados, etc. e eles queriam evitar atrasos.

Cheguei lá às 7 h 20 min – ligeiramente atrasado – e tive que esperar meia hora para ser atendido. Não havia nenhum outro paciente, não pude pagar o exame antecipadamente porque o responsável pelo caixa não havia chegado e a equipe técnica ainda não tinha aberto a sala dos exames.

Saí da sala dos exames, paguei, solicitei um atestado para aquele dia e para o dia anterior – porque havia uma preparação necessária para os exames que impossibilitava que eu fosse trabalhar – e me informaram que “não fornecemos atestados”. Como não? E os dois dias que eu faltei ao trabalho por causa deste exame, como ficam? “O senhor vai ter que falar com o médico que solicitou os exames.” Ou seja, aquele médico “super acessível” que me perguntou “Quem é o médico aqui? Quer sentar na minha cadeira e dar a consulta por mim?”.

Liguei pro setor de Recursos Humanos de onde trabalho. Expliquei a situação para minha colega que me atendeu. Ela disse que não tinha autonomia para me liberar o dia de trabalho, mas que ia falar com a diretora do RH. Algumas horas depois liguei novamente. A resposta foi: “tem que ter atestado, senão leva falta”.

Meu pai se prontificou para falar com o amabilíssimo doutor na manhã seguinte. Se ele se dignasse a me fornecer um atestado para estes dois dias, então tudo ficaria bem. Mas, se ele não quisesse fazer isso – e não há o que o obrigue – então eu levaria duas faltas no serviço, perderia quatro dias de salário (duas faltas mais o final de semana remunerado) e perderia dois anos de contagem para licença-prêmio.

Como imaginei, ele se negou a fornecer um atestado. A desculpa dele: “eu não estava atendendo nem tratando o paciente, então não posso fornecer atestado”. Ora… “não estava tratando”? Quer dizer que os exames não fazem parte do tratamento? Para que então ele solicitou os exames?

Pergunta: o que eu fiz para ser punido assim?

Resposta: fiz tudo certo como deveria ser.

Pergunta: eu vou realmente levar falta e sofrer todas aquelas conseqüências?

Resposta: não, porque “dei um jeitinho”.

Dá ou não dá vontade de ir morar no meio do mato? 

Saí do hospital no meio de uma chuva torrencial. Porto Alegre ficou inundada com apenas quinze minutos de chuva. Várias sinaleiras (semáforos, para quem não fala gauchês) pararam de funcionar. Os engarrafamentos se tornaram imensos às 9 h 30 min da manhã. Ruas foram bloqueadas. E as atitudes que eu vi no percurso de volta para casa foram lamentáveis.

Passei pela esquina da Av. Azenha com a Av. Bento Gonçalves, onde havia um verdadeiro mar sobre a pista, com direito a ondas que batiam na lateral do meu carro. Por que havia ondas? Porque, ao invés de entrar com cuidado na água, em primeira marcha, com a rotação do motor alta e a velocidade baixa, controlada pela embreagem, como deve ser feito nestes casos para evitar que a água entre pelo escapamento ou atinja o distribuidor, as pessoas entravam em alta velocidade na água. Resultado: ondas que atingiam os outros carros e dois ou três carros parados na pista com o pisca-alerta ligado, provavelmente com o distribuidor molhado, no meio de um trânsito já engarrafado, atrapalhando ainda mais a vida de todos os outros.

Segui caminho em direção à zona sul e cheguei à Av. Carlos Barbosa, cujo trânsito estava fluindo muito lentamente. Logo em seguida ouvi uma sirene de ambulância. Eu estava na pista da esquerda, olhei para trás e vi a ambulância alguns carros atrás de mim. Fiz sinal para a direita para mudar de pista e dar passagem à ambulância – como  deve ser feito nestas situações. (Sempre que você ouvir uma sirene, procure ir para a pista da direita e deixar a pista da esquerda livre.) O que aconteceu? Os carros da pista da direita começaram a fechar o espaço entre uns e outros para impedir a mudança de pista dos outros carros, para não perder posições.

Consegui entrar na pista da direita, mas a ambulância ficou parada atrás de três carros que se mantinham inflexivelmente na pista da esquerda. Percebi que havia espaço quase suficiente para a ambulância passar entre as duas filas se eu subisse com as rodas do lado direito na calçada. Não tive dúvidas: subi na calçada e acenei para a ambulância passar, o que ela fez rapidamente, com um gesto de agradecimento. Porém, quando fui descer da calçada, o carro que estava atrás de mim – que viu minha manobra para deixar a ambulância passar – cortou a minha frente para me ultrapassar, sendo imediatamente seguido por vários outros que também tinham visto o que acontecera. Eu tive que esperar aparecer um espacinho entre um carro e outro e praticamente jogar meu carro para dentro da pista, obrigando a fila a parar, para poder continuar meu caminho.

Pergunta: o que eu fiz para receber este tratamento?

Resposta: fui solidário e fiz tudo conforme deveria ser feito.

Dá ou não dá vontade de ir morar no meio do mato? 

Algumas quadras adiante havia um trecho da Av. Carlos Barbosa que estava completamente embaixo d’água. Havia um carro estacionado sobre a calçada com as rodas quase completamente cobertas, o que indicava que a passagem por ali era impossível. Todos os veículos tinham que fazer um desvio e pegar uma rua lateral. No meio desta ruazinha, havia um carro estacionado limitando a largura da via de duas pistas para uma pista.

A motorista estava sentada ao volante e fazia de conta que não percebia a imensa massa de veículos que passavam buzinando por ela. As pessoas diziam para ela colocar o carro sobre a calçada e ela fingia não ouvir. Que importa se a cidade está semi-submersa e completamente engarrafada? Que importa se ela estava provocando um estrangulamento no trânsito que piorava a situação para milhares de pessoas? O importante é que havia uma placa permitindo o estacionamento naquele ponto.

Ultrapassado este obstáculo, prossegui. Poucas quadras à frente cheguei em um cruzamento em que eu tinha que dobrar à esquerda. Eu era o primeiro carro da fila, esperando a sinaleira (semáforo) abrir. Vindo pela mesma rua, no sentido oposto, havia um veículo dando sinal de que iria dobrar à direita. Ou seja, ele estava sinalizando que ia entrar para o mesmo lado que eu, em uma via com três pistas. Logicamente havia espaço para os dois entrarem na via ao mesmo tempo. Só que não foi isso que ele fez.

Quando abriu o sinal eu avancei devagar, dobrando à esquerda. E o outro veículo arrancou alucinadamente, disparando em linha reta, para forçar sua passagem à minha frente, com o motorista fazendo cara feia, berrando palavrões e gesticulando de modo obsceno. Quer dizer… o cara estava sinalizando errado, arrancou em disparada numa rua pavimentada com paralelepípedos de granito (um verdadeiro sabão em dia de chuva) para forçar passagem e ainda se julgava com razão e no direito de ofender quem estava fazendo a coisa certa do jeito certo.

Pergunta: mesmo que ele não estivesse sinalizando errado, não seria muito mais razoável simplesmente aguardar cinco segundos e deixar passar o outro veículo ao invés de cometer uma imprudência e aumentar as chance de um acidente?

Resposta: só para quem tem pelo menos dois neurônios funcionais, o que não parece ser o caso de um percentual significativo dos primatas que povoam este planeta.

Dá ou não dá vontade de ir morar no meio do mato? 

Enfim, pessoal… Eu já passei (faz tempo) do limite em que o stress causa “apenas” uma eventual alteração de humor ou noite de insônia. Quando a gente passa de um determinado nível de stress, não adianta tentar gerenciá-lo com chazinho de camomila nem com meditação. É necessário afastar-se dos agentes estressores para permitir que nosso organismo se recupere, recarregue as baterias e se coloque novamente em condições de enfrentar esse mundo irracional e farto de má vontade.
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Se você estiver estressado, leve o stress a sério e livre-se dele. A minha receita será me afastar do serviço público, abrir minha própria empresa em um ramo de atividade em que eu não terei necessidade de trabalhar todos os dias, ir morar no meio do mato e priorizar a família, os amigos, os esportes, meus livros e meus projetos pessoais. Para você a fórmula pode ser outra – mas não pode ser “deixar como está para ver como é que fica”.
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Stress mata. Lembre-se disso.
Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 19/03/2012

50 thoughts on “Por que eu vou morar no meio do mato?

  1. Ahh se eu pudesse e meu dinheiro desse, também fugiria de toda essa civilização tão racional dos humanos. Já cheguei o meu ponto máximo de estresse e paciência com as pessoas, não suporto mais este sonho que muitos tem em viver na cidade grande. O que quero mesmo é fugir pra qualquer lugar onde possa ter paz, tenho o mesmo pensamento da Lunah, se pudesse moraria até numa casa de sapé, mas longe de toda esta loucura em que o mundo vive. Enfim, enquanto não posso, vou tentando driblar todos estes problemas e seguindo em frente pra ver até onde consigo suportar.

    1. Eu “não podia” e o dinheiro não dava (e não dá), mas fiz de qualquer jeito. Entende uma coisa, Renato: stress mata. As opções são parar tudo e salvar tua vida ou continuar dizendo que não dá pra mudar até um piripaque te fazer parar tudo e mudar na marra, mas com muito menos saúde e muito menos forças para desenvolver outras alternativas.

      E olha que eu nem consegui ir para o meio do mato, mesmo, onde eu pretendia morar. Acabei vindo morar em outro lugar, numa praia movimentada, na casa de parentes que não estão nem aí pra mim e querem mais é que eu me dane. Ou seja, saí da frigideira para cair no fogo. Portanto, no final deste mês vou me mudar de novo, para longe deles. Não sei ainda para onde, mas que eu vou, eu vou.

  2. Compartilhe se você teria a coragem de fazer o que este pessoal fez!!!
    meucantonomundo.com/largar-tudo-e-viver-numa-cabana/

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