A falta de educação no trânsito virou mesmo lugar comum? O assunto surgiu no artigo “por que vou morar no meio do mato?” e me deixou pensativo. Comecei a lembrar de algumas ocorrências recentes no trânsito e fiquei espantado não tanto com a má educação generalizada mas com o fato de que na maioria das vezes as pessoas pressupõem que há algo algo errado quando se deparam com a boa educação! 

Eu vivo levando bronca ou buzinaço porque paro para os outros carros entrarem numa via. Imagine um carro tentando sair de uma ruazinha secundária e entrar numa avenida lotada com o trânsito paradíssimo e eu deixando o sujeito passar na minha frente – é batata que o cara no carro atrás esgoela a buzina, abre a janela, me xinga de todos os palavrões que conhece, etc.

Um dia desses, num shopping de Porto Alegre, uma senhora de idade estava com dificuldade para estacionar. Eu tinha acabado de entrar no meu carro para ir embora, mas vi aquilo e saí do carro de novo para ajudar. Orientei daquele jeito: “vire mais um pouco o volante para a direita, isso mesmo, agora um pouquinho mais pra trás, pronto!, pode deixar assim, está ótimo”. E o segurança ficou na minha cola até eu deixar o estacionamento, desconfiadíssimo quanto a meu gesto “suspeito” de ajudar alguém sem ser solicitado. 

Outra vez eu socorri pai e filha após um acidente de automóvel (achei que ele não ia sobreviver, e de fato morreu no dia seguinte) e quando chegou a ambulância eu comecei a juntar as bagagens e outras coisas deles que estavam espalhadas, para o povo “curioso” que estava juntando em volta não roubar nada, e coloquei tudo no porta-malas do carro batido. A esposa do cara, quando chegou ao local do acidente, chamou um policial para me abordar porque achou que eu estava roubando suas coisas. 

Quem livrou a minha cara foi a filha dela, de seis anos, que disse para o policial que “o tio está me ajudando a guardar as coisas que caíram no chão de volta no porta-malas”. O PM foi olhar o porta-malas, viu tudo arrumadinho lá dentro, percebeu que aquilo só poderia ter sido organizado daquele modo depois do acidente e se desculpou pelo equívoco, mas tivemos uma certa dificuldade para fazer a esposa do acidentado entender que estava sendo ajudada e não roubada! 

E, cúmulo dos cúmulos, ontem eu deixei o carro morrer ao parar em um sinal fechado e o carro que estava atrás de mim tratou de buzinar impacientemente – mas o sinal ainda estava vermelho, eu não poderia sair do lugar mesmo que não tivesse deixado o carro morrer! 

A minha tese é que não somente falta boa educação no trânsito (e na vida em geral), como sobra neurose. Nunca o meio do mato pareceu tão hospitaleiro. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 27/03/2012

15 thoughts on “O trânsito neurotiza

  1. Eu sempre fui louca por carros, motores potentes, rally,in dorr e afins, eu sempre fui a motorista da rodada por ter consciência de que não se deve beber e dirigir, sempre fui chamada por amigos(as) pra levá-los(as) de uma cidade para outra, eu sempre gostei de estrada. Mas um dia eu fiquei sem carro, e eu percebo o trânsito de uma outra forma, é uma guerra. Quanto maior e mais potente é o veículo a tendencia é de que o motorista seja mais abusado, no entanto, é perceptível, que o abuso muitas vezes e da parte de todos. As pessoas me olham de uma forma estranha quando ando meia quadra até achar uma faixa de pedestres para atravessar a rua. O que deveria ser uma regra virou uma exceção. As crianças são ensinadas nas escolas por anos a fio a se comportarem no trânsito e são desensinadas na porta da escola por seus próprios pais. Desenvolvi um certo medo de trânsito, espero que a hora que eu comprar um carro novamente, a coisa mude.


    1. “Quanto maior e mais potente é o veículo a tendencia é de que o motorista seja mais abusado, no entanto, é perceptível, que o abuso muitas vezes e da parte de todos.” (Lunah)

      Grande verdade. É o tal do negócio… todo mundo abusa, mas quem pode mais abusa mais. (Mas eu não chego ao ponto de caminhar para encontrar uma faixa para pedestres a não ser que esteja difícil atravessar fora dela.)

  2. Acho sempre engraçado a cara pasma que as pessoas ficam quando peço desculpas no transito. Outro dia devolvi R$ 10 de troco errado que haviam me dado e tive que fazer as contas em papel para acreditarem em mim… Por que é tão difícil ser educado e honesto?

    Outra coisa que percebo é o quanto muitas pessoas me julgam um otário por ser assim.


    1. “Acho sempre engraçado a cara pasma que as pessoas ficam quando peço desculpas no transito.” (Bruno)

      [2]

  3. Arthur! Saudações festivas pelo retorno são de lombo e pela concordância sobre o tema. Você sabe que não moro exatamente no meio do mato, mas na beira. Como bom OC sou morbidamente pontual e levo 2 minutos (a 15 por hora) para ir de casa ao consultório. Colegas portoalegrinos passam 4 horas por dia (um turno de trabalho) no vai-e-vem entre uma coisa-e-outra. Rotina deveras endoidante. Os deuses podem imaginar o que o diabo faz às cabeças dessas pessoas nesses períodos de deslocamento defensivo-agressivo. Só vemos as sanhas mais transbordantes. Muitos dias de fúria devem ser abortados na massa condicionada. Prefiro minha coleção de OsCs.

    1. Suponho que nos dias de chuva tu saias de casa quarenta e cinco segundos mais cedo? 🙂

      Eu passo duas horas no trânsito entre casa e trabalho, trabalho e casa, todos os dias. É uma porcaria isso. De fato, chega a ser impressionante que não haja ainda mais conflitos no trânsito. Fico pensando como será essa realidade em São Paulo, para quem tem que atravessar toda a cidade todos os dias.

  4. Em muitos casos o carro só fornece os meios para que aflore a filhadaputice já existente.

    1. Acho que as duas coisas acontecem: tanto o trânsito neurotiza quanto o trânsito oferece condições para que a neurose seja extravasada.

  5. Rafael Holanda

    28/03/2012 — 12:42

    “(…) fiquei espantado não tanto com a má educação generalizada mas com o fato de que na maioria das vezes as pessoas pressupõem que há algo algo errado quando se deparam com a boa educação!” – Escrito por Arthur.

    Acredito que isso não ocorra somente com a boa educação, e nem somente no trânsito. Percebo que toda atitude correta, integra, decente e que tais sempre gera alguma dose de desconfiança e/ou surpresa.

    Não é engraçado como pessoas que devolvem o celular, ou consertam um equipamento como ele deveria ser consertado, ou pulam em rios para salvar outrem são aplaudidos pela mídia. OK, essas atitudes realmente devem ser aplaudidas, mas ainda assim eu acho esquisito que se comemore uma atitude que deveria ser padrão para todo o ser humano.

    Estamos nos estágios finais do cenário “o capim comendo a vaca”. Nossos representantes já implementaram a descriminalização da corrupção, agora só falta o passo derradeiro: a criminalização da honestidade.

    1. Boa essa do capim devorar a vaca. Eu costumo falar do poste que mija no cachorro. 🙂

      Mas a honestidade já é parcialmente criminalizada por nossa legislação. Se pegares tua mulher na tua cama com outro no meio da tua festa de aniversário e chamares a vagabunda de vagabunda na frente dos convidados, tu podes ser proibido de entrar na tua própria casa por uma “medida protetiva” devido à “violência psicológica” cometida contra a “coitadinha”, e ainda ter que pagar uma pensão alimentícia sem direito à ressarcimento durante o correr do processo. (Ou será que alguém acha que eu sou 100% contra a Lei Maria da Penha porque sou “direitoso”, “conservador” ou “reacionário”? Só quem não entendeu a LMP ou entendeu tão bem que quer aproveitar.)

  6. “Nossos representantes já implementaram a descriminalização da corrupção, agora só falta o passo derradeiro: a criminalização da honestidade.” – Rafael Holanda

    Que loucura. O pior e’que isto parece estar acontecendo de fato.

    Mas nao ‘e no mundo todo.

    A agressividade e a falta de educacao no transito ‘e muito incidente em centros urbanos do Brasil, e vai alem do transito.
    Nao ‘e assim em todos os lugares. Nao precisa ir para o meio do mato para encontrar um lugar diferente, mas com certeza, esta tb ‘e uma opcao.

    1. O meio do mato vai ser útil para recarregar as baterias, depois de um tempo eu vou sentir falta de um ambiente mais intelectualizado. 😉

  7. Do jeito que as coisas vão, o melhor é ir morar no meio do mato mesmo. Este artigo é interessante ao tentar explicar essa falta de noção dos animais no volante (não podemos chamá-los de motoristas, é um insulto ao significado da palavra 😉 http://www.istoe.com.br/colunas-e-blogs/coluna/99607_COMO+ESTOU+DIRIGINDO+
    Adorei seu blog e espero que (meu) o atual medo de dirigir entre os animais seja superado…

    1. Raquel, não adianta ter medo, tens que adquirir a habilidade necessária para sobreviver em meio a esse trânsito caótico e cheio de motoristas mal educados.

      O lado “bom” de os automóveis serem caros é que pelo menos muito poucos malucos arriscam destruir seus veículos contra os nossos…

  8. E não é só isso…

    Estou procurando uma casa/apto,qualquer coisa que tenha um teto,rs.

    Me deparei com coisas absurdas,sanitários que “devem” ser pulados para se chegar no chuveiro.
    Propaganda enganosa,a casa dos seus sonhos que de perto é um pesadelo.
    E a azeitona da empada,um apto que o dono não permite que se pendure armários na parede da cozinha,sendo que o espaço não dá para armário normal.

    Suites,que só cabem um berço e uma cadeira.
    Quartos minúsculos.

    E por aqui,as administradoras não mostram a casa ou o apto,se tem que deixar na administradora,vinte reais e um documento com foto.

    Se oferecer para pagar um boy,nem pensar.

    Cada vez mais o mato ganha contornos mágicos,rs.

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