O casalzinho gay estava de mãozinhas dadas na parada de ônibus. Conversavam baixinho, discretamente, alheios aos passantes. Não viram, portanto, o pequeno grupo de engravatados com Bíblias embaixo dos braços que se aproximou por suas costas. Por coincidência, beijaram-se quando o grupo chegou a menos de três metros. 

Ninguém falou nada. Ninguém olhou atravessado. O grupo com as Bíblias chegou ao lado deles, virou as costas e entrou no primeiro ônibus que passou. Duas senhoras que estavam na parada também nada disseram, nem ficaram olhando para o jovem casal, e trataram de entrar no segundo ônibus a passar. 

Observei por alguns instantes a cena. Os dois agiam como qualquer casal de namorados, com naturalidade, sem olhar em volta, sem se preocupar se estavam sendo observados ou não, sem constrangimento algum. Tudo na maior e santa paz. 

E eu pensei cá comigo: será que acabou o preconceito no Brasil? Ou será que o fato de que os dois namoradinhos estavam vestindo coturnos, calças camufladas, camisas regata escrito “Muay Thay”, terem as cabeças raspadas, os braços cheios de tatuagens e cada um ser mais ou menos do mesmo tamanho que o Arnold Schwarzenegger em sua melhor forma influiu um pouquinho na tolerância com que foram tratados?

Ó dúvida cruel… 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 28/03/2012

25 thoughts on “Acabou o preconceito no Brasil?

  1. Sou tolerante com qualquer pessoa, e mais ainda quando essa pessoa é duas vezes o meu tamanho. :p

    Por outro lado, sempre fui de defender qualquer pessoa do preconceito, até mesmo evangélicos.

    1. Se o tamanho do outro influi na tolerância com que o tratamos, então saber que todo mundo pode ter uma .380 na bolsa tornaria o país extremamente tolerante. 😉

  2. Você viu o que disseram DEPOIS que esse “casalzinho” desceu do ônibus? Além disso, desde quando preconceito é explícito no Brasil?

    1. Fábio, a questão não é se o preconceito é implícito ou explícito e sim se os preconceituosos são coerentes com o que acreditam ou se só atuam quando é conveniente.

  3. Eduardo Marques

    29/03/2012 — 13:07

    Acho que o Fábio tem razão. O preconceito, na maioria das vezes, é subjetivo e disfarçado, vc não precisa levar um murro para dizer que sofreu alguma coisa.

    1. Sim, mas por que os preconceituosos às vezes abrem o bico e às vezes não? Neste caso específico, será que Deus não queria que seus missionários levassem Sua Palavra àqueles pecadores? Por que os missionários se abstiveram de tentar salvar aquelas duas pobres almas desviadas do caminho da virtude? 😉

  4. quando alguém puder provar que viu Deus, e além disso, puder provar que têm o direito (concedido pela consciência superior) de “conduzir” os outros para a salvação, a chapa vai esquentar! Ou não… =)

    1. Mesmo tendo visto Deus e conhecido a Palavra dEle, será que esse pessoal se arriscaria a pregá-La àqueles dois? 😉

  5. Hehehehehehe.. isso me lembrou um causo:
    http://www.youtube.com/watch?v=j_RJqFE8ySk

    Do G1:
    Dois arruaceiros bêbados atacaram o que eles pensaram ser dois travestis, mas acabaram apanhando das vítimas. Os homens escolhidos para a briga eram, na verdade, dois lutadores vestidos de mulher…

    …Câmeras de segurança flagraram o momento em que Gardener agrediu um deles. Em poucos segundos, os dois apanharam de James Lilley, de 22 anos, e Daniel Lerwell, de 23, lutadores de vale-tudo que estavam indo para uma festa…

    …Depois de derrubar os dois e distribuir alguns socos e chutes, os lutadores pegaram uma bolsa que havia caído no chão e seguiram para a festa. “Eles pegaram os caras errados naquela noite”, concluiu Daniel.

    Pouco antes de atacar os lutadores, Gardener e Fender haviam se envolvido em outra briga na rua. Segundo o advogado deles, ambos estavam sob efeito de álcool. A dupla foi condenada a quatro meses de trabalhos comunitários e está sendo monitorada diariamente.

    1. ADORO finais felizes. Ah, se toda agressão a gays terminasse assim!

    2. Pena que o vídeo não é bom. A história é hollywoodiana. 🙂

  6. Para tomar partido Deus teria que definir seu sexo. Acho que foi por isso que os evangélicos não levaram a palavra do senhor à dupla. Eles foram coeerentes. Além do mais a Bíblia seria um documento muito maior do que qualquer tamanho. E está escrito: “Gay frágil deve ser convertido. Mulher com criança deve ser multada. Lei que não lucra deve ser suspensa. Fútil-bol é um esporte em que se bebe cerveja. E por aí vai, per omnia secula seculorum, etecétera e tal, amém!”

    1. “Gay frágil deve ser convertido. Mulher com criança deve ser multada. Lei que não lucra deve ser suspensa. Fútil-bol é um esporte em que se bebe cerveja [durante a Copa do Mundo, depois vira pecado de novo].”

      É, esse é o espírito da coisa.

  7. o preconceito ‘e uma das manifestacoes mais primitivas escape ao medo/ansiedade. “odeio o maradona/messi, aquele argentino, vive se achando, de certo pensa que vai se igualar ao pele'” …”tomara que ele nao jogue contra o nosso time”…

    o preconceituoso tem medo daquele que lhe gera o preconceito, e reage demonstrando menosprezo. muitas vezes este mecanismo de escape ao medo/ansiedade e’ tao forte que gera agressao, violencia. “aquela mulherzinha que foi contratada como chefe ‘e muito abusada, nao da’ bola para ninguem e por isso conclui-se que so’ pode ser sapatao”.

    por isso, a manifestacao de preconceito fica apequenada quando o medo ‘e redobrado. “o gay e’ punk, nao vou nem chegar perto, faz de conta que nem vi”; e exacerbada quando sobe-lhe a cabeca a sensacao de poder “estamos em dois, tranquilo, vamos dar-lhe uma surra”.

    que coisa primitiva.

    1. Sim, mas o medo que o preconceito gera é sempre o medo de quebrar uma convicção frágil, mantida através do esforço, da qual depende nossa identidade.

      Cientistas são alvo de ódio por parte dos criacionistas porque a convicção dos criacionistas é frágil, não pode ser sustentada por nenhuma prova material, e desta convicção frágil depende a identidade deles.

      Gays são alvo de ódio por parte de “heterossexuais” porque a convicção destes últimos em relação à própria sexualidade é frágil, não pode ser sustentada senão por grande esforço, e desta convicção frágil depende a identidade deles.

      Já o medo de levar porrada não tem tanto a ver com uma convicção frágil e uma identidade frágil e sim com o mais básico instinto de preservação da integridade física – e acaba fazendo com que as manifestações exacerbadas de reprovação ao “pecado” sejam convenientemente reservadas para serem expostas perante alvos potencialmente menos reativos…

  8. Posso estar sendo generalizador, mas acho que os casais gays que já foram atacados em situações semelhantes, sempre menores do que o do seu exemplo, não foram atacados por grupos de crentes com Bíblias na mão, mas sim por lutadores de “muay thai”, jujutseiros e outros tipos de psicopatas briguentos que andam por aí.

    1. Hehehehehe… digamos que o pessoal com as Bíblias na mão provavelmente teria falado algo desagradável se fossem duas bichinhas peso-mosca.

    1. Hehehehehe… Essa foto é ótima. Resumiu meu artigo em uma imagem e cinco palavras. 🙂

  9. Somos um povo que esconde os preconceitos.

  10. Não tenha dúvidas quanto a isso, somos preconceituosos enrustidos, isso mostra quantas contradições existem na nossa hipocrisia. São poucos que assumem que são conservadores.
    Vemos isso a partir do momento que as pessoas revelam preconceitos e tem a cara de pau de dizer que são liberais.

  11. Blue Na Resistencia

    23/11/2012 — 13:10

    Homossexualismo é natural… o gayzismo sim, deve ser combatido, pelo seu uso politico… qnto ao preconceito, não havera lei que impeça tal comportamento, assim como o homossexualismo não passa de um comportamento… agora, querer impor um comportamento diverso a TODA a sociedade também não é aceitavel… cada um no seu quadrado… se formos pensar em “direitos das minorias”, vamos então descriminalizar a pedofilia, naturalizar a zoofilia e por ai vai… os gays tem que aprender a tambem achar seu lugar na sociedade sem oprimir os demais… reafirmo: O USO POLITICO DO GAYZISMO NÃO É ACEITAVEL em uma democracia… isso vale também para o feminismo, anti-racismo e demais movimentos politicos chamados corretos…

    1. Muita calma nessa hora.

      Em primeiro lugar, quando falamos de sexualidade não existe isso de “querer impor um comportamento diverso a TODA a sociedade”. Cada um tem a sua e todos DEVEM respeitar a dos outros.

      Em segundo lugar, não é razoável a comparação entre homossexualidade e pedofilia. A homossexualidade não afeta os direitos de terceiros, enquanto a pedofilia afeta. Já a zoofilia afeta os direitos dos animais.

      Eu critico fortemente a politização abusiva do sexo e da orientação sexual, tanto quanto defendo a plena igualdade de direitos entre os sexos e as orientações sexuais.

  12. Igorlino Rodrigues

    19/08/2014 — 21:14

    Olha sou gay e vou te dizer : seus textos são FODA

    De repente parei pra pensar : cotas nas faculdades para que,por quê?

    E cheguei até aqui sobre uma crítica aos movimentos sociais salvei como favoritos
    Parabéns

    1. Grato pelos elogios, Igorlino. 🙂

      Sou um grande adversário dos ditos “movimentos sociais”. Tenho convicção de que a maioria deles, no longo prazo, traz muito mais problemas do que soluções até mesmo para as pessoas que eles alegam defender. Há muitos outros textos sobre isso no blog, e em breve haverá mais. Divirta-se… E critique quando achar necessário.

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