Para quem percebeu uma “ligeira” queda na freqüência das postagens no mês de março, eis a explicação: é difícil escrever sobre assuntos variados quando somente um assunto ocupa nossa mente 24 horas por dia, especialmente quando este assunto é a possibilidade de estar com câncer. Felizmente foi apenas um susto, mas que susto! 

Que eu andei tendo uns probleminhas de saúde e precisando fazer uns exames chatos, quem acompanha o blog já sabia. O que eu não tinha contado ainda – porque eu não queria preocupar meus amigos que sempre passam por estas páginas – é que, no meio de um destes exames, um médico resolveu fazer uma biópsia.

Biópsia. Ô palavrinha assustadora. Parece prenúncio de necrópsia.

Para quem não se liga muito no vocabulário da área da saúde, “biópsia” é só mais um nome médico esquisito. Para quem domina um pouco do jargão, a palavra normalmente vem acompanhada de preocupação. Para entender o motivo disso, vamos nos socorrer da Wikipédia:

biopsia ou biópsia (do grego bios – vida, e opsis – aparência, visão) é um procedimento cirúrgico no qual se colhe uma amostra de tecidos ou células para posterior estudo em laboratório, tal como a evolução de determinada doença crônica.

  • Diagnóstico de doenças que provocam alterações morfológicas (neoplasiahiperplasia).
  • Diagnóstico diferencial por exclusão.
  • Avaliar a extensão da lesão.
  • Avaliar o resultado de um tratamento.
  • Estabelecer o grau histológico de malignidade de neoplasia.

Como complicações da biopsia, podem ocorrer agravamento de lesões neoplásicas malignas devido ao excesso de manipulação, hemorragia, infecção e fistulização. 

“Neoplasia”, para quem não conhece o vocabulário médico, é câncer. Biópsias são comuns na investigação do câncer. 

O médico não tinha me comunicado que havia feito uma biópsia. Fiquei sabendo disso no balcão de atendimento do setor, porque ouvi uma funcionária falar para a outra “tem que encaminhar a biópsia do Arthur para o laboratório”. Gelei. 

Pedi imediatamente para falar com o médico, mas ele já não estava mais presente. Ninguém sabia me dizer o motivo pelo qual havia sido feita a biópsia. Não me restou alternativa a não ser aguardar o resultado do laboratório… sabendo que uma das opções para a realização de uma biópsia é a investigação de um câncer. 

É possível que o médico jamais tenha pensado em investigar um câncer e que eu tenha ficado duas semanas em pânico desnecessariamente? É. Aliás, não somente é possível como é bastante provável que tenha acontecido exatamente isso. Mas como eu poderia saber sem falar com o médico? E como raios um médico faz uma coisa dessas sem falar com o paciente? 

Bem, não vou transformar este artigo em outra crítica à medicina. Estamos todos cansados disso. Fiquemos com a boa notícia: não era câncer. Vamos ver se agora minha cabeça volta a funcionar com calma e eu e o blog voltamos à vida. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 09/04/2012 

 

21 thoughts on “Não era câncer!

  1. Caro Arthur! Sempre devemos dizer que não era câncer, POR ENQUANTO! Como você bem sabe as células que enlouquecem o fazem por que há um desvio na duplicação do DNA, em teoria causado por um vírus (do qual todos – sem exceção – somos portadores) que se intromete na hélice, cutucado por fatores aleatórios tão variados quanto as lorotas parlamentares. Se o indivíduo estiver num momento de fragilidade qualquer um dos cutucos chuta a bunda de um desses dorminhocos, que vivem de forma latente dentro de nós desde o ventre materno, ou desde que éramos amebas, ele acorda e o câncer acontece. A boa notícia é que o processo tem um tempo de encubação médio muito longo e geralmente nós acabamos morrendo de outra coisa, talvez ainda mais deprimente e humilhante, ou simplesmente de velhice, antes do câncer ter tempo de aparecer. De qualquer forma, a despeito do pequeno toque de humor negro inicial, quero expressar minha mais sincera alegria em saber que você está a salvo… ainda! Que deus o conserve bom de lombo até que o diabo venha com o buçal. 🙂

    Quanto ao porquê do médico ter “esquecido” de lhe dizer sobre a biópsia tenho minhas teorias: 1) um paciente mantido por algum tempo sob o sutil regime de terrorismo clínico indireto fica muito mais feliz quando sabe que os alarmes eram falsos; 2) se a biópsia desse positiva o não ter contado teria criado o álibi “eu já desconfiava, mas quis lhe poupar”, o que fortalece os vínculos e as dependências necessárias futuras; e 3) não estava doendo nele.

    1. Olha, eu quero morrer atropelado por uma baleia enquanto ando de jet-ski para comemorar meu aniversário de 133 anos. Câncer não está nos meus planos, por isso mesmo estou mudando de estilo de vida, de local de moradia, de alimentação, de rotina de exercícios e pensando muito em seguir os conselhos da Paulinha e arranjar dois ou três “meus médicos” o mais CDFs que eu puder encontrar.

      O tal “vírus” do qual falaste são os transposons? Malditos sejam estes miseráveis. Mas um bom sistema imune ajuda MUITO a segurar as células que piram por causa destes doidos, é por aí que a gente tem que investir quando não pode contratar médicos caríssimos como o do Michael Jackson (ops!). Vitamina C, ômega-3, exercício moderado e distância do stress… aquele velho papinho mole pra transposon dormir.

      E a resposta certa é a 3, tens dúvidas?

    2. “Vitamina C, ômega-3, exercício moderado e distância do stress… aquele velho papinho mole pra transposon dormir.”

      E menos carne, tchê!

      Bem, eu tenho que tentar, mesmo sem esperança…

    3. Ah, eu não vivo sem carne. Isso é mesmo preocupante. Mas acho que o verdadeiro problema não é tanto a ingestão de carne vermelha quanto a proporção entre a carne vermelha e os vegetais com fibras. Eu naturalmente e sem esforço já substituí um percentual muito significativo da carne vermelha por carne branca – frango – e recentemente adotei a suplementação com fibras – germe de trigo, não o farelo – para começar a corrigir isso. Em breve vou substituir outro percentual generoso por peixe, pescado diretamente por mim na frente de casa. Acho que no geral estou no caminho certo. Em breve um artigo sobre dieta. 😉

  2. Bom.

    1. Também acho. 🙂

  3. Fico feliz pelas noticias.

    Quanto aos teus relatos e questionamentos no texto:
    1) nao existe mais na medicina moderna um procedimento invasor (ou invasivo do anglicismo) sem consentimento pos-informacao
    2) se um individuo vai se submeter a um procedimento invasor no qual um fragmento de tecido (biopsia) pode ser retirado ou obtido, esta informacao deve estar contida no consentimento pos-informacao do procedimento.
    3) o consentimento pos-informacao protege pacientes, medicos e instituicoes.

    Exemplo 1: o paciente consente cirurgia abdominal para retirada da vesicula. Quando acorda, o medico diz que durante a cirurgia achou melhor retirar-lhe tb o estomago, mas que nao tem problema, pois fez anastomose boca a boca do esogago com o intestino. Absolutamente errado. No consentimento para uma laparotomia (cirurgia aberta do abdomen) deve haver escrito um trecho sobre a necessidade em potencial de se retirar tecidos ou orgaos, ou de se fazer uma amostragem deles (biopsia), por razao da doenca que motivou a cirurgia, ou por razao de complicacoes durante a cirurgia, tais como um acidente vascular e coisa e tal.

    Exemplo 2: o paciente consente uma endoscopia, pois esta’ com dificuldades para engolir e tem refluxo acido do estomago. Na hora da endoscopia o gastroenterologista encontra um polipo ou uma lesao vegetante no esofago e faz uma biopsia. Esta biopsia em potencial, assim como uso de cauterio, etc, tem que estar mencionada no consentimento para a endoscopia, pois se houver complicacoes da biopsia, tais como perfuracao do orgao, estas complicacoes devem ter sido discutidas com o paciente ANTES do procedimento. Pode ser que o paciente nao queira se submeter aos riscos descritos.

    Para procedimentos invasores que sao potencialmente diagnosticos e terapeuticos ao mesmo tempo, o consentimento informado deve conter frases abordando ambos. Este ‘e o caso de laparotomia, laparoscopia, cistoscopia, colonoscopia, endoscopia, fibrobroncoscopia, rinoscopia, etcetcetc…

    Os patologistas do Brasil estao entre os melhores do mundo. Mas os laboratorios de patologia nem sempre. Eu lembro de casos em que uma simples biopsia processada e corada com H&E (beaba’ da patologia) demorava uma semana para ficar pronta, o que ‘e ridiculo.

    Entao, muitas vezes o medico nao telefona para o paciente com o resultado antes da reconsulta, porque o resultado simplesmente ainda nao esta’ disponivel. Na verdade ja’ marca a reconsulta para dias depois do procedimento sabendo que ‘e o tempo medio que demora para o resultado se tornar disponivel, para evitar excesso de consultas para o paciente, o que e’ oneroso para a fonte pagadora (o proprio paciente, Governo, convenio).

    Onde eu trabalho no momento, uma simples biopsia fica pronta em 24hr uteis. Se forem necessarios corantes especiais, pode demorar mais.

    Entao, no Brasil, se demorar 7 dias uteis para um H&E e este nao for conclusivo, pode ser que demore 2 semanas para os corantes especiais e o diagnostico definitivo, incluindo debate dos achados entre diferentes patologistas para aumentar a acuracia diagnostica em casos complicados. La’ pelas tantas o prazo absurdo de 2 semanas faz todo o sentido.

    1. Paulinha, eu moro no Brasil. E fiz os exames no hospital dos funcionários públicos, atendido por funcionários públicos. Recebi umas oitocentas e cinqüenta e sete folhas com letrinhas pequenas para assinar ao ser chamado para realizar o exame, em pé, no balcão de atendimento, com duas funcionárias administrativas na minha frente e uma fila de vinte pessoas atrás de mim.

      As opções eram 1) “assina e faz o exame”; 2) “sai da fila e perde o exame”. A opção 3) “insiste em ler e discutir as informações com um médico e deixa de ser atendido porque está perturbando o serviço” nem sequer entra em cogitação – ou vais arriscar te indispor com alguém que vai te anestesiar e manipular teu corpo sem testemunhas?

      É esse o sistema de saúde do qual dependo. Dá pra entender por que reclamo tanto?

  4. Isso nao e’ desculpa (muito servico).
    Aqui fazemos diariamente 10 vezes mais procedimentos que num hospital similar no brasil e todos os pacientes recebem informações sobre o procedimentos, muito antes de estar de pe no balcao de check in para o exame.
    O hospital que ja foi processado por complicacoes de procedimento nao disccutido e nao consentido OBRIGA os medicos a obter consentimento.

    1. Eles obtém o consentimento: era uma daquelas 857 folhas que eu tive que assinar. O que eles não fazem é informar coisa alguma direito e muito menos discutir o que quer que seja. E isso faz todo o sentido: em um eventual processo judicial não há como apresentar a discussão ou a não-discussão, mas é fácil apresentar o termo de consentimento assinado – e aí o ônus da prova de que não houve informação nem discussão é do paciente, que obviamente está ferrado.

    2. Ah, mais uma coisa… quem está preocupado com processo e com indenização em um hospital público? O dinheiro não é deles, a indenização sai do bolso do contribuinte e não do médico ou do administrador. Só haveria medo de processo se houvesse a possibilidade de perda do registro profissional, o que não acontece nem com quem mata e mutila dezenas de pacientes, como de vez em quando aparece no Fantástico.

  5. Joaquim Salles

    11/04/2012 — 00:53

    Olá Arthur,

    O que relata também vale para convênios 🙁 e pode ser pior ainda, pois em hospital publico – teoricamente – se constada uma infecção já podem administar o caríssimo antibiótico. Se for via convenio precisa ligar para o mesmo, ver se não era uma doença pre-existente blablabla blebelble e 12 , 24 ou 48 horas já se passaram e nessa, com sorte para o convenio, o gajo já passou para outra dimensão…

    1. Sim, todos esses bafafás que eu relato foram via convênio (IPE), eu não estava usando propriamente o SUS. Se bem que o IPE tem a vantagem de não ser convênio privado, portanto não há um administrador tentando encontrar uma brecha para não pagar um procedimento – afinal, quem paga é sempre o contribuinte.

    2. Sim tem. O IPE contrata medicos (os que nao tem pacientes e por isso aceitam o emprego de fiscalizar os colegas que tem pacientes, por um salario e emprego publico-garantia) para fiscalizar seus desafetos (que trabalham bem), e encher o saco deles, e de certo modo nem se dao conta dos carniceiros que andam soltos por ai.

      O IPE tem excelentes medicos. Nao posso dizer que todos sejam excelentes, mas eu conheco pessoalmente excelentes medicos que trabalham pelo IPE, que vao gastar >15 min de uma consulta para te explicar o exame. Por favor, nao generalize de novo.

    3. Paulinha, eu não sou de generalizar indevidamente. Não mesmo. Mas hoje eu tive uma consulta com um médico para avaliar meu caso e planejar um procedimento. Depois de uns quinze minutos, necessários para que ele se inteirasse do caso e me desse uma opinião, quando eu perguntei se um determinado plano era razoável, ele me respondeu “não sei, decide aí e depois fala comigo” e já foi levantando, indo em direção à porta, me dando dois tapinhas nas costas…

      Ou seja, ainda não consegui falar com um único médico que se proponha minimamente a analisar minha situação de modo holístico, buscando planejar conjuntamente um tratamento tendo em vista minhas reais necessidades. Os caras querem apenas realizar procedimentos pagos, dane-se se eu estou inseguro, se tenho perguntas não respondidas, se não tenho os dados necessários para tomar uma decisão bem informada que leve toda minha situação em consideração, etc.

      Por favor, verifica tuas mensagens privadas no Facebook nos próximos dias.

  6. Joaquim Salles

    11/04/2012 — 01:20

    Mas como bem disse: As opções eram 1) “assina e faz o exame”; 2) “sai da fila e perde o exame”. são as opções disponíveis… seja publico seja pelo convenio…

    Ainda bem que esta melhor de saúde.

    Abraços

    1. Valeu, Joaquim.

  7. Arthur, melhoras, que todos os bodissatvas dê as suas bençãos.

    1. Obrigado, Nelson. Fica bem e em paz também.

  8. Ainda bem,fico feliz por ti.

    1. Obrigado, Li. Tudo de bom também.

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