Neste final de semana de Páscoa, quando estávamos comendo peixe e ovinhos de chocolate com nossas famílias, recebi notícias de Amélia. Notícias truncadas, incompletas e pouco confiáveis, trazidas por uma amiga dela igualmente prostituta e drogada, das quais seleciono somente o que pude confirmar por alto com uma fonte que não posso revelar. 

Este artigo é baseado em fatos reais. 

O filho que Amélia esperava quando a vi pela última vez teve “sorte”: ficou aos cuidados de uma família, como o primeiro. Que família, não sei. As versões são duas: a amiga de Amélia diz que aquela criança ficou com a dona do quartinho de fundos que o ex-companheiro de Amélia alugava, onde hoje Amélia mora de favor; o policial diz que aquela criança ficou com os tios do pai biológico, que não é o anteriormente citado ex-companheiro de Amélia.

Ao contrário das últimas vezes em que encontrei Amélia, na próxima vez que eu a encontrar, se ainda estiver viva, Amélia não deverá sorrir ironicamente, pois terá novidades a contar. Vou adiantar duas delas aqui.

A primeira novidade é que, conforme eu previ, Amélia está com AIDS. Contraiu o HIV do companheiro e descobriu isso somente quando o médico veio informar a morte do sujeito, baixado dois dias antes com um acesso de tuberculose. Ou seja, há uma imensa chance de que Amélia tenha contraído tuberculose também, pois ambos dormiam juntos e fumavam crack na mesma lata.

E a segunda novidade é que Amélia teve um terceiro filho, este do companheiro falecido. Amélia estava com três meses de gravidez quando o pai do último filho morreu. Descoberta a causa mortis do companheiro, foi testada para HIV. Diagnosticada como soropositiva, foi avisada de que teria que fazer um tratamento para que o bebê não nascesse contaminado. Informada de que o tratamento exigiria disciplina de horários e abstinência do crack, fugiu. Não fez pré-natal. Deu entrada na maternidade já quase parindo, ainda com o cachimbo de crack fumegando na mão.

Creio que essa é a história do terceiro filho de Amélia. Foi concebido pelo acaso, numa orgia movida a drogas; nasceu de uma prostituta analfabeta, padeceu sob luzes feéricas, foi entubado, morto e reanimado, desceu ao inferno da abstinência, recuperou-se à terceira semana; subiu à maternidade, está internado entre outros desgraçados, donde não se sabe se há de vir a sair vivo ou morto. Pobre Espírito Desvalido, dependente da Saúde Pública, pária na comunidade, condenado sem ter pecados, amaldiçoado em sua própria carne, que nunca terá uma vida plena. Amém.

Esse é o resultado das “campanhas de conscientização” e da “guerra às drogas”.

Amélia mesmo sabe que não tem mais forças sequer para tentar viver. Tudo o que faz é anestesiar-se a qualquer custo para fugir do terrível sofrimento que é continuar respirando. Se “vive”, é porque com apenas 22 anos seu organismo ainda não foi suficientemente violentado para entrar em colapso e abençoá-la com o alívio da morte.

Ao invés do amparo, repressão. Ao invés de cuidados, imposições. Ao invés de mais oportunidades, mais limitações. Ao invés de solidariedade, combate. Ao invés de libertação, encarceramento. Ao invés de saúde, somente a pressa pela morte. 

Mas não se preocupem, não haverá convite para enterro. Ninguém será constrangido por faltar ao adeus à Amélia. Nem ela. Há muito tempo que ela sabe que vale menos do que lixo – porque até o lixo jogado na rua alguém recolhe. Amélia não vota, nem tem valor de revenda. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 10/04/2012

14 thoughts on “Notícias de Amélia

  1. Fábio Leite

    11/04/2012 — 12:29

    Caralho! O.O

    1. E crack.

      E HIV.

      Taí a vida de Amélia resumida em três palavras.

  2. Logo cedo eu ia comentar, mas acabei escrevendo um artigo, o qual já tinha em mente quando acordei e antes de abrir os olhos hoje, aí tive um dia de cão, cheio de coisas pra resolver. Desisti.
    Vou resolver se organizo a ideia e posto alguma coisa depois, ou discutimos esse assunto a hora que tivermos tempo.

    1. O artigo já está escrito? Dá uma corrigida nele e publica! Se não tiveres onde publicá-lo, o Pensar Não Dói o publicará com muito prazer! 🙂

  3. !!!!!! 🙁

    1. Diante de um caso desses o que sinto mais é tristeza mesmo. E um pouco de raiva.

    2. Eu sinto “um muito” das duas coisas, Gerson. E Amélia é minha “amiga”, uma pessoa por quem tenho especial consideração, mas sou completamente impotente para ajudá-la.

      Fico pensando… se eu tivesse tido menos problemas de saúde, se eu tivesse me reestruturado financeiramente a tempo, se eu tivesse recebido ou procurado notícias com maior freqüência… se, se e se… 🙁

      Enquanto eu me culpo, ela sofre e morre. Não me parece suficiente a sensação de culpa, nem o pseudo-consolo da frase “eu não tinha como ajudar”. Isso me tortura… e o tempo não tem volta.

      Estou bolando um grande projeto que poderá ajudar muita gente como ela no futuro, mas para ela será tarde. E isso me fere demais.

  4. Caí nesta página ao acaso. Comecei a ler por ler e agora estou sob impacto. Assisti hoje uma reportagem sobre o trabalho de um médico na cracolândia em SP e aquilo me falou do que não fazemos, do que ignoramos pois isso é cômodo e fácil.
    Ler esse artigo me sacudiu novamente. Eu também faço parte porção da sociedade que se acomoda, desvia os olhos, muda de trajeto para evitar enxergar essa realidade cruel que grita dia e noite por socorro. Em vão.

    1. Bem-vinda ao Pensar Não Dói, Helenice. Se este artigo mexeu contigo, dá uma olhada nos outros do tema “drogas”.

  5. Conclusão: PENSAR DÓI!!!

    1. Mas o blog não podia se chamar “não pensar dói mais”. 😛

  6. Sim, vou olhar outros artigos nesse tema.

    O cotidiano nos leva a realizar mecanicamente o que temos de fazer. Vamos nos acostumando a pensar as mesmas coisas e nesse contexto, vamos ficando anestesiados. Tudo acontece lá fora. E vamos nos excluindo do que realmente dói quando na verdade,”não pensar dói mais”!

    1. É isso aí. A pior droga é a acomodação.

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