Às vezes eu preciso desligar o cérebro preventivamente para evitar um AVC causado pela contemplação da estupidez humana. O caso típico desta necessidade normalmente é proporcionado pela TV aberta. Desta vez foi uma notícia em um telejornal, cuja fonte não vou citar para poder xingar a protagonista sem risco de processo. 

Lá estava ela, no pátio dos fundos da casa cheia de barro, logo após baixarem as águas, papagaiando enquanto o repórter segurava o microfone:

– Olha só! Isso é um absurdo! É a quarta vez que eu perco tudo por causa da cheia desse rio. Perdi todos os meus móveis. A minha geladeira. O fogão. A TV. Quem é que vai pagar todo esse prejuízo? 

Quem vai pagar? Tu mesmo, sua burra! Sua anta! Sua ameba lobotomizada! 

[Calma, fígado. Calma, vai passar.] 

Em 2009 essa mulher viu o rio encher e invadir a casa dela. Perdeu todos os móveis, os colchões, as cobertas, as roupas, os brinquedos e o material escolar dos filhos, os eletrodomésticos, a geladeira, o fogão, a TV, teve que sair de casa no meio da noite, precisou refugiar-se em um estádio de esportes, dormiu no chão, passou um inferno por uma semana e enfim retornou para a casa destruída pelas águas, que precisou de uma reforma geral que consumiu três ou quatro meses de salário. A comunidade ajudou, ela recebeu algumas doações e voltou a tocar sua vidinha do mesmo modo de sempre. 

Em 2010 essa mulher viu o rio encher e invadir a casa dela. Perdeu todos os móveis, os colchões, as cobertas, as roupas, os brinquedos e o material escolar dos filhos, os eletrodomésticos, a geladeira, o fogão, a TV, teve que sair de casa no meio da noite, precisou refugiar-se em um estádio de esportes, dormiu no chão, passou um inferno por uma semana e enfim retornou para a casa destruída pelas águas, que precisou de uma reforma geral que consumiu três ou quatro meses de salário. A comunidade ajudou, ela recebeu algumas doações e voltou a tocar sua vidinha do mesmo modo de sempre. 

Em 2011 essa mulher viu o rio encher e invadir a casa dela. Perdeu todos os móveis, os colchões, as cobertas, as roupas, os brinquedos e o material escolar dos filhos, os eletrodomésticos, a geladeira, o fogão, a TV, teve que sair de casa no meio da noite, precisou refugiar-se em um estádio de esportes, dormiu no chão, passou um inferno por uma semana e enfim retornou para a casa destruída pelas águas, que precisou de uma reforma geral que consumiu três ou quatro meses de salário. A comunidade ajudou, ela recebeu algumas doações e voltou a tocar sua vidinha do mesmo modo de sempre. 

Em 2012 essa mulher viu o rio encher e invadir a casa dela. Perdeu todos os móveis, os colchões, as cobertas, as roupas, os brinquedos e o material escolar dos filhos, os eletrodomésticos, a geladeira, o fogão, a TV, teve que sair de casa no meio da noite, precisou refugiar-se em um estádio de esportes, dormiu no chão, passou um inferno por uma semana e enfim retornou para a casa destruída pelas águas, que precisou de uma reforma geral que consumiu três ou quatro meses de salário. A comunidade ajudou, ela recebeu algumas doações e voltou a tocar sua vidinha do mesmo modo de sempre. 

E ela ainda pergunta quem vai pagar o prejuízo?!?!?! 

A quadrúpede acéfala vê a mesma coisa acontecer quatro vezes, em quatro anos seguidos, continua morando no mesmo lugar, não é capaz de pregar meia dúzia de tábuas para fazer um andaime onde colocar a geladeira, o fogão e a TV para não serem destruídos pelas águas, não é capaz de fazer um puxadinho mais alto estilo palafita para colocar as camas e os armários e ter onde ficar durante a enchente, recebe ajuda e doações todas as vezes e ainda reclama e quer saber quem vai pagar o prejuízo na quarta vez?!?!?! 

Fala sério, eu não posso ouvir uma coisa dessas ao vivo. Sou capaz de querer construir o puxadinho usando as vértebras cervicais dela como maçanetas ou suportes de lâmpadas. O crânio, evidentemente, só serve como penico. E olhe lá. Mas lá está ela, sendo levada a sério por um repórter de uma grande emissora de TV, exigindo providências do governo para sanar os resultados da sua própria estupidez. 

Ainda bem que ninguém falou a palavra “cidadania”, ou eu teria atirado o controle remoto contra a tela da TV.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 11/04/2012

19 thoughts on “Sobre a imprevidência (2)

  1. O problema é a misoginia do rio, cuja nascente é patriarcal e falocêntrica.

    1. Não dá idéias…

    2. Vocês querem que eu tenha que fazer um transplante de fígado, né? Estão levando quanto nisso? Eu pago o dobro pra vocês postarem comentários nos sites feministas!

  2. “Às vezes eu preciso desligar o cérebro preventivamente para evitar um AVC causado pela contemplação da estupidez humana.” — OTIMO

    Nunca concordei tanto com um texto deste blog. E’ EXATAMENTE o que eu penso.

    Apenas acrescentaria que o Governo ausente no passado NAO REGULOU o loteamento e deixou vender terreno e casas em area inundavel, pois obviamente que as enxurradas nao comecaram em 2009.

    E acrescentaria que a Presidenta da Republica vivenciou no primeiro mes de seu Governo tragedias causadas pelas cheias, visitou as populacoes e DETERMINOU QUE AS VERBAS SERIAM DISTRIBUIDAS PARA QUEM APRESENTASSE PROJETOS (Prefeituras e Governos Estaduais). Os projetos pelo menos podem ser avaliados, serem ranqueados, e contemplados.

    Mas a plebe que esta’ nos Governos nao entende que esta ‘e a forma mais justa de distribuir verba. O proprio governador do RS estava no dia seguinte na TV dizendo que tinha que contratar firmas para escrever projetos!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Quem assim o fez perdeu a chance de participar da curva de crescimento e nao desenvolveu a capacidade.

    Enqto isso, ninguem apresentou projeto nenhum e o $$ prometido nao foi liberado. Dai as prefeituras, que nao levantaram a bunda da cadeira para trabalhar nisso, jogam a culpa no Governo Federal.

    Para mim estes prefeitos sao iguais `a Mane’ descrita, que estava tagarelando para o reporter.

    1. Corretíssimo, Paulinha. Só divirjo num ponto: estes prefeitos são muito piores que a anencéfala que perdeu tudo que tinha quatro vezes. Ela sofre e perde tudo, eles aproveitam para solicitar verbas que serão desviadas e embolsadas, ou para fazer campanha, ou as duas coisas.

      (Aliás, aproveitando que o STF está julgando a autorização para o aborto de anencéfalos hoje, pergunto: quem foi que disse que anencéfalos não sobrevivem ao parto? Taí a prova cabal de que eles sobrevivem: alguns dão até entrevista na TV!)

  3. E pensar que já fui assim, até meus 7 anos. rsrs

    1. Até os sete anos é compreensível ser imprevidente. Vai ver é isso que esta mulher está esperando para começar a aprender: a oitava cheia.

  4. “Em 2009 essa mulher viu o rio encher e invadir a casa dela.[…]”

    O que acontece aí é ainda mais preocupante do que possa parecer, aqui, onde moro, não é nada diferente, atraídos pelo trabalho braçal que não exige formação escolar absorvidos pela demanda do porto em Paranaguá-PR muitos se dirigem-se para a cidade, o centro que é Centro Histórico e comercial da cidade tem alugueis absurdamente caros. A periferia com suas COAHBs está superlotada e os trabalhos muitas vezes são temporários, a (grande) maioria da população resolveu de comum acordo em ocupar áreas destinadas a preservação ecológica (beira de rios e mangues). Aqui também chove, e as pessoas perdem tudo, e tem gente que perde a vida, tem gente que perde a saúde, mas tem sempre gente que doa tudo e ajuda e reconstruir as ocupações, inclusive a prefeitura. Tem posseiros de profissão, pessoas que estão entrando na mata Atlântica à beira da PR e abrindo chácaras e grilando, depois de alguns meses fazem contrato de gaveta e vendem para quem quiser comprar. a Copel (empresa de energia) instala energia em todos esses lugares e a Águas de Paranaguá (empresa de tratamento de água) instala água, e a prefeitura, para não deixar os pobres desassistidos vai lá no meio do mangue e na beira do rio e faz rua com suas máquinas a empresa de transporte coletivo faz linha nesses lugares e tudo isso depois – recibos da copel da empresa de água são utilizados para comprovação do uso capião em detrimento da preservação ecológica. E não por acaso que essas áreas eram protegidas, é porque quando chove o rio enche, o mangue enche e os animais que la vivem precisam de seu habitat. Seria de interesse da prefeitura proteger essas áreas. Seria. Mas…, sem o oba, oba, das enchentes, das faltas d’água, das falta de estrutura, falta de escola, como esses politicozinhos de M… poderiam se eleger, já que não tem argumentos, nem conteúdo nenhum para mostrar a sociedade.

    1. Sabe que eu não tinha me dado conta do quanto os governos são responsáveis por estas desgraças até ler teu comentário, Lunah?

      É verdade: ao invés de impedir as invasões e os assentamentos em áreas de risco e de preservação ambiental, os governos colocam infraestrutura urbana nas invasões e assentamentos em áreas de risco e de preservação. É como dar um par de botas para quem está descalço e quer atravessar um campo minado sobre o qual cresceram espinhos. É um absurdo que pouca gente questiona.

  5. “[…]precisou de uma reforma geral que consumiu três ou quatro meses de salário. A comunidade ajudou, ela recebeu algumas doações e voltou a tocar sua vidinha do mesmo modo de sempre. ”

    Se eu sou servida de água, luz, cesta básica de alimentos, transporte, se quando eu perco tudo por anos tem quem me doe tudo de volta e eu posso continuar a minha “vidinha de sempre” e ainda assim, depois de tudo em época eleitoral eu ganho uns “agrados” e sou lembrada nos palanques e de mais a mais, viro celebridade e apareço na TV. Fala sério Arthur, pra que é que eu vou querer mudar pra outro lugar?

    1. É… isso explica a seriedade com que ela cobrou providências do Poder Público… eu sou mesmo um ingênuo.

  6. É sacanagem rir de alguém que perdeu tudo que tinha em 2009, 2010, 2011, 2012, 2013, 2014, 2015, …?

    1. Depende. Se for um ser capaz de sofrer e incapaz de aprender e raciocinar, é sacanagem. Se for um ser com polegar opositor e telencéfalo altamente desenvolvido, pertencente à espécie dominante do planeta, supostamente superior a todos os demais organismos em capacidade intelectual… sacanagem é dizer que não ter pena duma besta destas e ainda rir do absurdo é errado.

  7. Amarre o seu controle remoto na poltrona. Uma TV nova tá cara.

    1. Especialmente uma LCD de 42 polegadas de outra pessoa…

  8. É um montão de coisas.
    Os governos que se aproveitam.
    A ignorância das pessoas.
    É,principalmente,a ligação afetiva que as pessoas desenvolvem
    aonde moram.
    Ninguém quer viver onde é apenas um estranho.
    Vivem perdendo tudo,mas não perdem a referência de si mesmas.
    Ali,no lugar que o rio invade,eles possuem amigos.
    Se sairem perderão mais que coisas materiais.
    Motivo pelo qual os idosos gostam de manter coisas no mesmo lugar.
    Eles usam essas coisas para não se perderem de si mesmos… eu acho,rs.

    1. Perder tudo na vida todos os anos para não perder o convívio com os amigos? Mas que amigos são esses que se o sujeito se mudar deixam de fazer parte da vida dele?

      E por que não se organizam numa associação de moradores para solicitar à prefeitura que os ajude a construir outro bairro em mutirão e se mudarem em bloco para lá?

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