Pessoal, desculpem eu não ter atualizado o blog esta semana. Estive ligeiramente ocupado sendo seqüestrado e me recuperando disso… 

Estou bem. Meu anjo da guarda é o melhor do universo. Eu e ele temos um trato: ele deixa eu me estrepar nas pequenas encrencas mas guarda todas as forças para me proteger nas grandes. Passei por maus bocados mas saí ileso – e isso é o que importa. 

O fato se deu na noite de sexta para sábado, lá pelas quatro horas da madrugada, em uma avenida movimentada, iluminada e cheia de policiais e fiscais de trânsito. Quem conhece Porto Alegre vai reconhecer o nome do reduto de patricinhas e mauricinhos a que me refiro: a Avenida Goethe. Alô portoalegrenses: seqüestro na Avenida Goethe! 

Eu estava sozinho no carro, voltando para casa, quando fechou uma sinaleira (semáforo, para quem não fala gauchês). O carro que estava em frente ao meu parou e eu tive que parar atrás dele. Imediatamente dois indivíduos de terno azul-marinho e gravata vermelha, ambos armados com revólveres, chegaram junto às janelas de meu carro, um de cada lado, apontaram as armas para mim e anunciaram: “fica quieto e não faz bobagem que tu sai vivo dessa”. 

Um deles tinha uns trinta e poucos anos e lembrava o Thiago Lacerda, o outro tinha uns cinqüenta e poucos anos e lembrava o Humpty Dumpty. Entraram ao mesmo tempo no carro, um a meu lado, outro atrás de mim. E falaram em jogral: “toca pra Viamão”. 

Viamão é um município vizinho a Porto Alegre. Entre um e outro há algumas estradas escuras e tenebrosas nas quais nem as almas penadas passeiam durante a madrugada por medo do que podem encontrar ali – e da falta de recursos para chamar socorro. Foi numa dessas que me mandaram estacionar. 

– Pára ali, Alberto. – disse o mais velho. 

– Meu nome não é Alberto. – respondi. 

– Teu nome é Alberto! – disse o mais jovem, apontando o revólver para mim. 

E riram. 

Tudo era farra para os dois, que contavam piadas estúpidas repletas de termos jurídicos em latim. “Não se preocupe, não há aqui animus dolandi“, disse o mais velho. “Mas não garanto a ausência de animus jocandi“, disse o mais jovem. E riram como duas hienas engasgadas, achando que eu não havia entendido nada. Bendita piada idiota que me tranqüilizou. 

Mas o que os dois distintos, engravatados e alegres seqüestradores queriam naquele local ermo e assustador? Ora… Queriam fumar crack

Das quatro  horas da madrugada até às sete horas da manhã os dois se revezaram em abrir as duas portas do lado do carona, agachar-se entre as duas, encher a cabeça de fumaça, passar a lata para o outro, pegar na mão o revólver e apontá-lo para mim, focando toda sua atenção deturpada pelo pancadão da droga em cada ínfimo movimento meu. 

Sabendo que a “espiadeira” (a paranóia resultante do abuso do crack) aumenta a cada dose, tornando o usuário cada vez mais desconfiado e intolerante, tratei de sincronizar meus movimentos com os períodos em que eles trocavam de posição para fumar, pois era o momento em que o último a fumar já estava suficientemente lúcido para tolerar meus movimentos e o outro ainda não estava doidão para que eu tivesse que voltar à imobilidade. 

No total foram três horas agachado no meio do mato, tendo que ficar imóvel sob a mira de um revólver a cada vez que um deles fumava. Este é o motivo pelo qual não atualizei o blog nem liguei o computador de sábado a quarta-feira: vocês não imaginam a dor nas costas que aquelas três horas em péssima posição causaram. 

Contra o resfriado, vitamina C e cama. 

Contra três horas agachado no meio do mato sob a mira de revólveres, anti-inflamatório, relaxante muscular e cama. 

Mas sigamos o curso dos acontecimentos. Veio a aurora. Nasceu o sol. Clareou o dia. Os ônibus começaram a passar por nós. Alguns carros também. A tensão aumentou. Eles já não se sentiam seguros. E resolveram me liberar. 

Arrumaram suas coisas. Observaram a aproximação de um ônibus. Saíram do carro. E o mais jovem disse: “tá, Alberto, vai embora”. Eu perguntei: “sério?”. E o mais velho disse: “sério, Alberto, anda de uma vez!”. Então ele jogou de volta para mim as chaves do carro, que havia recolhido quando estacionei, correram ambos para o ônibus que chegava e embarcaram. 

Surreal. Nem bandido estabanado de comédia pastelão foge de ônibus, mas eles fizeram isso. E me deixaram com o carro. Mas eu não estava em condições de aproveitar essa vantagem. 

Depois de três horas agachado e encurvado, custei para conseguir sentar novamente no banco do motorista e tive dificuldade de dirigir. Na hora nem pensei em perseguir o ônibus, fui direto para casa. Não lembrei que estava o tempo todo com o celular  no bolso – sorte que não tocou nenhuma vez. Eu só queria voltar a me sentir seguro, tomar um analgésico e me deitar para diminuir aquela dor nas costas. 

Como vocês podem perceber, estou bem. A dor nas costas já passou, não fui agredido, não roubaram meu carro. Perdi os R$ 140,00 que tinha na carteira, uma noite de sono e alguns dias de férias para ficar na cama, mas saiu barato a palhaçada em comparação com as alternativas possíveis. 

E ganhei um artigo para o blog

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 26/04/2012

30 thoughts on “Seqüestro-relâmpago

  1. Não é possível, Arthur, a gente não vive no mesmo planeta. Esse anjo da guarda é inacreditável! Completamente compreensível que não tenha tentado seguir o ônibus. Surreal, daonde essas piadas com “animus isso e aquilo”, e essas roupas extravagantes?

    1. Sinceramente, o que eu não consigo entender foi minha burrice em não lembrar da existência do celular no meu próprio bolso. Eu podia ter seguido o ônibus à distância, falando com a polícia, informando a placa do ônibus, a linha, o local onde estava a cada momento… e podia ter capturado os caras. Mas isso é fácil de dizer agora, na hora eu mal conseguia me mexer.

      A piada foi a melhor parte da noite. Como eles acharam que eu não tinha entendido, passou batida como se fosse mais um elemento do “terror” que eles queriam impor, mas na verdade foi o que me fez perceber que eles estavam mais no espírito da farra do que do crime. Ainda bem.

      Roupas extravagantes? Terno e gravata de cores clássicas? Ué.

  2. Você vê alguém sequestrando os outros para fumar cigarro, charuto, para beber whisky, refrigerante ou cheirar channel nº 5?

    1. Esse é o assunto do próximo artigo. 🙂

  3. Que ironia do destino, hein? Geralmente as pessoas qdo são sequestradas, são obrigadas a sacarem dinheiro da conta e no seu caso foi para ficar assistindo os dois caras fumarem crack. Não sei se eu estou certa, mas pelos seus posts me deu a impressão de que vc é a favor da liberação das drogas, pois acredita que assim diminuiria a violência e os crimes, como ocorre na Holanda. Desculpe se eu estiver errada, mas se for: que ironia do destino! Sei que vc passou por uma situação estressante e perigosa e fico feliz por estar bem, mas realmente parece coisa de filme pastelão tragicômico!

    1. Shoyee, eu sou 100% a favor da legalização de todas as drogas. E isso que aconteceu comigo é um argumento a favor de minha posição! Olha o que o Félix escreveu logo acima. Faz sentido, não faz?

  4. Ainda bem que saiste relativamente ileso.

    Sobre o risco de ser vitima versus legalizacao da droga: as belezas que te sequestraram sao CRIMINOSOS. Se o crack fosse legalizado eles te sequestrariam para te fazer assistir ou bem pior, participar, de outra coisa contra o teu gosto.

    Ao criminoso nao interessa o produto, mas sim a sensacao de sucesso relacionada a transgressao.

    Nao faca confusao entre os fatos.

    1. Paulinha, eles não precisariam se esconder – e conseqüentemente não precisariam seqüestrar alguém para dirigir para eles – se fumassem cigarro. Ou se bebessem álcool. Mas para usar uma droga ilícita eles preferiram esta estratégia porque ela era mais segura para eles. Ou seja, a proibição gera mais risco para todos os cidadãos – inclusive os abstêmios.

  5. Eduardo Marques

    27/04/2012 — 22:45

    Eu ando com bastante medo disso, ultimamente. Uma pessoa que eu conheço tb foi sequestrada algum tempo atrás. Diferente de vc, ela era mulher, ou seja, mais chance de ser estuprada/sofrer abuso. A gente sempre acha que isso só acontece com os outros.

    Aliás, “quidquid latine dictum sit, altum viditur”.

    1. Talvez eu deva passar a escrever o Pensar Não Dói em latim, então. 🙂

      E olha que esse é o SEGUNDO seqüestro que eu sofro. Me lembra de contar o primeiro na semana que vem?

  6. Para me precaver disso eu so ando a pé, com tenis velho, camiseta, sem dinheiro. Como minha casa esta num bom ponto de uma capital, é relativamente grande, estou armado ate os dentes aqui, e a casa trancafiada.

    1. No geral essa estratégia é funcional. O problema é o quanto a gente precisa se limitar em função da selvageria à nossa volta. Estamos a cada dia mais presos atrás de grades e com dificuldades de transitar em nosso país, enquanto os bandidos estão a cada dia mais soltos, lépidos e faceiros.

  7. Se o Alex de Kubrick estivesse entre os “engravatados” seu post não teria um final feliz! Discordo sobre a liberação irrestrita das drogas! O Jaime diz que estou sendo otimista quando digo que 80% da humanidade tem uma mentalidade torta. Se você adicionar uma droga química numa merda de cérebro as possibilidades de uma Laranja Mecânica eclodir são infinitas. Uma mentalidade positivamente criativa pode até produzir algo de que se diga: “oh! que lindo!”, mas também poderá sair alguma coisa como: “oh! que dor!” Imagine a liberação total e um estouro da massa bovina chapada…!

    1. exatamente

    2. Peraí… eu não defendo a “liberação irrestrita” das drogas e sim a “legalização inteligente” de todos os passos da produção ao consumo, passando pela distribuição e comércio. São coisas diferentes.

      Se alguém quiser beber (ou chapar a cabeça de crack) e dirigir, não deve ter autorização legal para isso. Mas também não pode ter a mera proibição… até porque não funciona, mas o principal motivo é que isso torna a sociedade um pouco mais fascista a cada dia.

      Gente, o fascismo consiste justamente nisso: a cada dia o Estado toma conta de um milímetro a mais do território privado, até que só sobra um cantinho contra a parede no qual não cabem nem os nossos dois pés – e aí o Estado nos destroça porque pisamos em área proibida, independentemente de termos ou não alternativa. Afinal, que fascista se importa realmente com o bem estar de alguém?

  8. Que bom que ficaste bem.

    Ainda estou tentando descobrir o significado de “segurança”.

    Num mundo onde a exclusão é cada vez maior e se torna sempre pior,não vejo motivo algum para se pagar impostos abusivos,sem um pingo de segurança.

    Nem quero imaginar o que teria acontecido,se fosse com uma mulher.

    A vida não oferece segurança,mas leis tortas,carros inadequados,e uma polícia
    despreparada geram coisas assim.

    Todos os carros teriam que sair da fábrica com dispositivos de segurança,segredos que só o dono do automóvel soubesse usar para se proteger.
    Algo como acionar a polícia sem que o bandido soubesse e sem por a vítima em grande perigo.

    Quero uma casinha no campo…

    1. Quando foi proposta a inclusão de GPS como item obrigatório nos veículos, o STF considerou a lei inconstitucional porque “feria a privacidade”, mesmo o equipamento podendo ser desligado pelo dono do automóvel.

      Lógico… imagina se todos os políticos e membros do judiciário (minúsculas propositais) pudessem ser rastreados!

      E viva o crime!

  9. As vezes fico imaginando como tanta coisa bizarra pode acontecer com você, Arthur.

    Nem eu, que quando era solteiro tinha comportamento promíscuo e libertino, tenho tanto caso absurdo.

    1. Meu pai diz que eu sou um pára-raio de encrencas. Eu prefiro dizer que sou um futuro escritor com muito material bom ofertado pelo destino para meu trabalho. 🙂

  10. Putz, foda, nē? Melhoras, amigo! Q Deus te abençôe!

    1. Não, f*d* não teve. 🙂

      Estou bem, foi só um susto. Valeu, Fê.

  11. Será que eu fui o unico que achou estranho o fato de alguem sequestrar uma pessoa em seu carro para fumar crack? Não entendi nada!!! Nunca vi isso antes. Como assim sequestrar e pedir pra ficar escondido fumando crack com eles?

    Não precisa de carro pra fumar crack oras, os crackeiros fumam em qualquer lugar.

    Não entendi nada!

    1. Crackeiro que fuma em qualquer lugar não anda de terno e gravata, com revólveres novinhos, nem domina vocabulário jurídico em latim.

      Eram dois cretinos que não precisavam fazer nada disso mas estavam de farra e resolveram “expandir seus limites”.

      Pior ainda de entender foi o fato de eles se evadirem do local de ônibus ao invés de aproveitar o meu carro. Só faz sentido se lembrarmos que eles estavam pra lá de chapados.

  12. Só li agora o artigo. Fico feliz que tenha saido ileso!

    1. Valeu, Victor. Tô de boa, foi só o susto.

  13. O Arthur sumiu de novo… a mais de uma semana não atualiza o blog.

    1. Toda vez que isso acontece me preocupo.

    2. Desculpa, gente. Foi uma baita mancada minha não avisar que passaria uns dias sem poder atualizar o blog. Isso não vai se repetir.

      A partir de hoje, sempre que eu souber que não vou poder atualizar o blog por mais de 72 horas eu vou avisar.

  14. Caraca.
    Inda bem que tá tudo bem!

    1. Eu que o diga! 🙂 Valeu, Mônica!

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