Dona Maria era cristã devota, filha de uma família tradicional de uma cidade de interior, vegetariana convicta e fundadora da associação protetora dos animais da localidade. E era médica. Trabalhava no posto de saúde de uma pequena comunidade rural a poucos quilômetros de onde moro. Atendia com zelo e competência os pacientes… até o dia em que fé e ciência se mostraram incompatíveis. 

História baseada em fatos reais. (*)

Pão e Peixe

Primeiro D. Maria começou a se recusar a atender os pacientes com DSTs (doenças sexualmente transmissíveis). Passava todos os casos para os outros médicos do posto. Depois D. Maria passou a se negar a examinar certos pacientes.

A princípio ninguém notou o padrão, mas com o tempo foi inevitável perceber que seus motivos eram religiosos. Inicialmente discreta, passou a comentar abertamente que “só contrai DST quem pratica a imoralidade” e que “gente que invoca espíritos é amaldiçoada por Deus, porque isso é proibido pela Bíblia”. 

Com o passar do tempo a situação se agravou. Além de não atender pacientes com DSTs e de evitar pacientes “não cristãos”, Dona Maria começou a trazer suas práticas religiosas para dentro do posto de saúde. A situação se instalou de modo aparentemente inocente, com Dona Maria recebendo os pacientes com um “Deus te abençoe”, complicou quando Dona Maria enveredou para imposição de mãos durante as consultas e explodiu quando Dona Maria foi flagrada exorcizando maus espíritos de um paciente epiléptico. 

Na mesma semana em que isso aconteceu, Dona Maria foi flagrada picotando com uma tesoura os preservativos destinados à distribuição gratuita enquanto resmungava algo como “em nome de Jesus eu te esconjuro, Satanás, Príncipe das Trevas, que traz a iniqüidade a este mundo”. 

Dona Maria foi imediatamente afastada de suas funções. E, a pedido da família e com o beneplácito do coordenador do posto, pediu férias. Isso garantiu um tempo a todos para pensarem no que fazer, uma vez que estava evidente que não se tratava de um caso de punição disciplinar – D. Maria estava com sérios problemas de saúde mental e precisava de ajuda, não de punição. 

Foi nessa época que eu tomei conhecimento do caso. 

Acontece que Dona Maria tinha uma filha adolescente… e a garota contraiu uma DST. Coisa simples, facilmente tratável com antibióticos, mas ela simplesmente não podia falar com a mãe e nem tampouco ir ao posto de saúde consultar com outro médico, porque sabia muito bem que as indiscrições entre colegas fariam o assunto chegar aos ouvidos de sua mãe. Para evitar castigos e surras ou o agravamento da doença, a garota me pediu socorro. 

Não foi difícil inventar uma solução: combinamos que, na primeira oportunidade em que nos encontrássemos os três, ela pediria à mãe para ir ao culto de um pastor conhecido da família, na cidade ao lado. Como a igreja desse pastor fica próxima a um supermercado, eu me ofereceria para dar uma carona, alegando que precisava ir ao supermercado. E, para garantir que ela teria permissão de ir comigo, levaríamos conosco ninguém menos que a mulher do pastor de sua congregação, que é técnica em enfermagem e já estava a par da situação, tendo se oferecido tanto para ajudar quanto para se certificar de que eu e a garota estávamos falando a verdade. 

Para encurtar a história, o plano deu certo. Aliás, muito mais certo que o imaginado. Levei a garota ao médico, ela fez a consulta, comprou os antibióticos adequados, e na volta o pneu do meu carro estourou na chuva e numa estrada de terra, obrigando-me a me sujar todo e assim confirmar o álibi para o atraso e para o fato de ninguém poder confirmar nossa presença no tal culto. Bastou dizer que o estepe estava furado e que elas tiveram que ficar me esperando ir à borracharia. 

Mas voltemos à saúde mental de Dona Maria. 

Chegamos à casa de Dona Maria, eu molhado como um peixe, gelado e espirrando, enquanto minhas caroneiras estavam sequinhas e quentinhas. D. Maria me censurou dizendo que, se eu tinha sido castigado assim por Deus, é porque alguma coisa errada eu tinha feito. 

E foi nesse momento que eu tive minha melhor idéia dos últimos anos. 

– É, Dona Maria – disse eu – a senhora está certa. 

Espanto geral. 

– Eu abandonei a dieta de Jesus – continuei – e agora estou pagando o preço. 

– Dieta de Jesus??? – esclamaram as três em uníssono. 

– É, gente. Não vão me dizer que vocês não conhecem a dieta de Jesus!!! 

Envergonhadas, as três disseram que não conheciam. E eu aproveitei a deixa: 

– É claro que vocês conhecem a dieta de Jesus! Vocês não lêem a Bíblia? O que é que Jesus comia? 

– Não há muitas informações na Bíblia sobre como Jesus Cristo se alimentava – disse a mulher do pastor – tudo que sabemos que Ele comia eram peixes, pães e frutas, além de que bebia vinho. 

– Exato, irmã – disse eu – e de que componentes eram feitos os pães da época de Jesus? 

– Ora, das mesmas coisas que um pão é feito hoje – disse ela – farinha, fermento, ovos e mais leite ou água. 

– E esses componentes – perguntei – eram industrializados e refinados? 

– Não – disse a mulher do pastor – é claro que não! 

– Pois então, irmã – completei – a senhora entende a minha falta? Por causa dos prazeres dos sentidos, eu passei a comer somente pães industrializados, feitos com farinhas refinadas e com ovos de grandes criatórios, onde as galinhas são criadas com ração industrializada, hormônios e venenos. Quase não como peixe, por pura preguiça de comer devagar para retirar as espinhas. Abandonei mais de metade da dieta de Jesus, é claro que minha saúde está fraca. 

– E você acha que é por isso que está espirrando? – perguntou a mulher do pastor. 

– O que eu acho, irmã – respondi – é que todo cristão tem a obrigação de seguir o exemplo de Jesus em tudo que estiver a seu alcance, e que um cristão achar que é mais sábio que o próprio Cristo é pura soberba, um pecado mortal. Só porque eu sou biólogo quer dizer que eu conheço mais sobre o que é bom para o corpo humano do que o próprio Cristo? Não, né? Eu preciso voltar a seguir o exemplo dEle. 

D. Maria ouviu esse diálogo quieta, caladinha. E eu aproveitei que a mensagem estava clara e caí fora para tomar um banho quente, deixando a mulher do pastor e a garota adolescente com um imenso ponto de interrogação sobre a cabeça. O problema de Dona Maria já não era grave o suficiente para eu colocar ainda mais minhocas na cabeça dela? Que raios pretendia eu? 

Ora, bolas… a dieta de Jesus salva. Pelo menos salva os vegetarianos radicais que destroem sua saúde devido à deficiência de vitamina B 12 (que é imprescindível para a saúde humana e só existe em alimentos de origem animal) e de ácidos graxos da família ômega-3 (que estão presentes em poucos vegetais e exigem um bom conhecimento de nutrição para garantir que as quantidades adequadas estejam presentes na dieta). Ambas as deficiências causam danos neurológicos graves. 

Dona Maria voltou das férias tão perturbada quanto antes e ainda com uma nova mania: a dieta de Jesus. Foi provisoriamente afastada do cargo por motivos de saúde. Interpretou aquilo como uma punição divina por não ter seguido o exemplo de Cristo quando era tão fácil fazê-lo. E tomou a decisão de seguir a dieta de Jesus com fervor. 

Passados alguns meses, Dona Maria começou a recuperar sua saúde física. Inicialmente percebeu que o cansaço que sentia diminuíra. Atribuiu o fato à dieta de Jesus e perseverou. Percebeu então que sua saúde mental também melhorava, pois sua memória parecia mais clara e seu raciocínio mais rápido e lúcido. E finalmente se deu conta do golpe em que caiu, passando a me chamar de “anjo com língua de demônio”. 

Hoje todos a chamam de Doutora Maria. 

E a mulher do pastor dá risadas e diz que a Doutora Maria recebeu uma Graça Divina por intercessão de Santa Be Doze e Santo Ômega Três. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 23/05/2012 

(*) Esta é uma versão alternativa de uma história que eu já contei de modo ligeiramente diferente em algum lugar pela internet. Os fatos relevantes são verdadeiros, mas eu altero alguns detalhes a cada vez para preservar a identidade dos envolvidos. 

6 thoughts on “A dieta de Jesus salva

  1. Oi! é primeira vez que comento aqui,sou um leitor assíduo do blog,parabéns pelo ótimo conteúdo do mesmo.
    Bem,não tem nada a ver com o post mas tem religião como tema,gostaria que você desse uma olhada e opinasse sobre esse vídeo(link abaixo):

    http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=Za0ZvliA3AM#!

    Um amigo me enviou esse vídeo pelo facebook,me chamando muito a atenção.Já enviei esse vídeo a várias pessoas e perguntei qual era o posicionamento delas com relação aos fatos ocorridos no vídeo,gostaria de saber a sua opinião,pois,sei que você tem opiniões bem distintas sobre alguns temas de acordo com seus posts.Opiniões essas que me abrem a mente e me ajudam bastante sobre o esclarecimento racional de certas questões.
    Desde já,muito obrigado!

    1. Assisti uns três minutos do início do vídeo e umas cenas soltas lá pelo meio. Não preciso poluir minha mente com o resto para saber a que conclusão chegar. E minha conclusão é simples e clara: briga de bandido e bandido.

      A TFP começa o escárnio já pelo TÍTULO do vídeo. Eles são uma das organizações mais intolerantes da direita raivosa. Dizer que são atacados por serem tolerantes ou por “defenderem o casamento tradicional” é muito mais do que uma mentira, é um deboche contra a inteligência de quem assiste o vídeo. Quem defende o casamento tradicional sou EU, que digo que esta é uma escolha digna que deve permanecer disponível e respeitada tanto quanto outras formas de relacionamento que as pessoas escolham para serem felizes sem prejudicar ninguém. A TFP só quer atacar o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

      Já os manifestantes que jogam substâncias ou objetos contra o pessoal da TFP estão simplesmente cometendo agressão. São uns otários sem compromisso ético fazendo exatamente o que os mal intencionados sem compromisso ético da TFP queriam obter com a provocação.

  2. Preciosa lição,caro amigo!

  3. Qual que era a DST da guria???

    1. Que raios de diferença faz? 😛

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *