Acabo de ler – meio atrasado – o artigo “Negar sopão é pouco. Temos que exilar os maltrapilhos de São Paulo” no “blog do Sakamoto”. E mais uma vez fico impressionado com o quanto um certo viés ideológico é capaz de nublar a razão até mesmo de pessoas inteligentes e esclarecidas como o Leonardo Sakamoto. Pense comigo. 

Sakamoto começa identificando e delimitando muito bem um problema grave: 

Da proibição de distribuição do “sopão” à população em situação de rua ao apoio aos especuladores imobiliários que mantém prédios fechados enquanto pessoas dormem em barracos precários, temos gasto muito tempo e inventividade para criar formas de excluir do convívio da metrópole paulistana aqueles para os quais nunca abrimos as portas dos direitos sociais e econômicos. 

A partir daí eu esperava que um defensor dos Direitos Humanos cobrasse do Estado soluções razoáveis para “abrir as portas dos direitos sociais e econômicos” para as pessoas “excluídas do convívio” social e econômico. Mas não é isso que Sakamoto faz. Nem a maioria dos que hoje se dizem defensores dos Direitos Humanos. 

Para meu desgosto e consternação, vejo a cada dia mais os “colegas de trincheira” da defesa dos Direitos Humanos assumirem uma postura impregnada por um ranço esquerdista que parece mais objetivar desprezar e reduzir as pessoas que tiveram algum sucesso na vida do que considerar e engrandecer as que não tiveram. 

Sakamoto diz que espera que as gerações futuras “não tenham dó ou piedade de nosso comportamento ridículo” e descreve este “comportamento ridículo” em cinco itens: 

1) Bloquear fisicamente os espaços abertos em “viadutos, pontes, túneis ou quaisquer locais públicos” para que não sejam invadidos por maltrapilhos. 

2) Construir prédios sem marquises, ou murados, ou com aspersores de água, para evitar que sob elas se instalem desocupados e usuários de drogas. 

3) Colocar separadores de assentos nos bancos das praças para evitar que se transformem em dormitórios de sem-tetos. 

4) Avançar as grades dos prédios o máximo possível (ele diz que “para além do limite registrado na prefeitura”) nas regiões com “alta incidência de seres indesejáveis”. 

5) “Lançar cloro nos locais de permanência dos sem-teto, (…) para garantir que não permaneçam no local”. 

E a partir daí o esquerdismo assume o controle e Sakamoto se perde nos argumentos, misturando a incompetência do Estado na promoção das liberdades e garantias fundamentais e do acesso econômico com a natural tendência de quem não está na miséria não querer sofrer com a imundície e com a insegurança. Nada mais, nada menos, do que todo miserável também gostaria de poder fazer. Ou seja, aspirações absolutamente lícitas e legítimas

Pior ainda, Sakamoto confunde o fato de o espaço púbico ser público com a pretensão de que todo o espaço público tenha sua estrutura e suas funções rebaixadas ao nível da mitigação da miséria. Este é o terrível nivelar por baixo esquerdista, que prefere criticar e colocar toda a responsabilidade sobre quem não está na miséria a capacitar os miseráveis para que possam subir na vida sem depender de bolsa-esmola e outras iniciativas enganadoras, meras formadoras de currais eleitorais, que em nada contribuem para que as pessoas construam uma autonomia verdadeira. 

Mas o que me incomodou mesmo foi isso aqui: 

A cidade não pertence aos que podem pagar por ela mas, sim, a todos. Mesmo que isso doa ao senso estético ou moral de alguém. Ou crie pânico para quem acha que isso é uma afronta à segurança pública e aos bons costumes. 

Fico pensando se o Sakamoto não consegue perceber o terrível desprezo pela urbanidade contido em suas próprias palavras. E a gravidade disso. 

Não construímos cidades para viver chafurdando na imundície e com medo da violência. O objetivo do ser humano em reunir-se em tribos, aldeias e cidades sempre foi, é e provavelmente sempre será aumentar sua qualidade de vida e sua segurança.

A vida na urbe (=cidade) se pressupõe mais refinada e segura do que sem a estrutura e os serviços possibilitados pela urbe. E obviamente não estou falando de “urbe” em oposição à “rural”, mas em oposição à “selvagem”, “incivilizado” e “sem refinamento”. É por isso que “urbanidade” é sinônimo de “afabilidade, civilidade, cortesia”. 

Mas o pessoal da esquerda sempre propõe um nivelamento por baixo. 

Se você não está satisfeito com o ajuntamento de usuários de drogas, mendigos, maltrapilhos e ladrões dormindo, copulando ou se estapeando embaixo da marquise do prédio em que você mora, se você não suporta o fedor de falta de banho, urina e excrementos em frente a sua porta, se você acha ruim que a calçada esteja intransitável devido aos papelões, trapos, latas e lixo rolando ao vento, então você não passa de um reacionário e precisa “crescer”. 

Eu estou cansado deste discurso. 

Eu quero a calçada da frente do prédio em que moro limpa, desimpedida e de preferência bem cheirosa. Eu quero os bancos das praças limpos e desimpedidos para que eu possa me sentar e conversar com os amigos no espaço público sem medo de ser assaltado. Em resumo, eu quero uma cidade limpa, segura e com boa aparência. Você não quer isso também? 

Se eu quisesse imundície e insegurança, eu me mudaria para um lixão e viveria no meio da bandidagem. Como eu não quero isso, e como eu sou um cidadão honesto, trabalhador e financiador de toda a estrutura e dos serviços do Estado, também não aceito que o lixão e a bandidagem se mudem para a frente da minha casa e do espaço cuja manutenção eu sustento. E isso é perfeitamente lícito e legítimo. 

Decorre daí que eu odeie ou que não me importe com o que acontece com a população pobre ou miserável? NÃO. Mas a “intelectualidade de esquerda”, por algum motivo absurdo, pensa que sim. E aí, “de frente para a tela de seu computador ou smartphone”, me nivelam por baixo àquela corja do outro extremo do espectro ideológico que chama “justiça social” de “comunismo stalinista”. 

Se “a cidade é para todos”, então a cidade é também para a classe baixa, para a classe média e para a classe alta, não somente para mitigar a desgraça dos mais miseráveis. Se a cidade é um ambiente criado para a melhoria da qualidade de vida e da segurança, então as medidas tomadas pelos pobre, remediados e ricos para proteger suas famílias e suas propriedades da degradação e da violência não podem ser vistas como expressão de egoísmo ou reacionarismo.

Conforto e segurança são aspirações lícitas e legítimas para todos… inclusive para quem já atingiu estes objetivos! Ou será que alguém quer conquistar estes benefícios da urbe somente para perdê-los logo em seguida? 

Importante

O parágrafo anterior deveria ser o último deste artigo, mas já sei o que aconteceria se eu terminasse por ali, então me vejo obrigado a me estender um pouco mais para tentar evitar más interpretações. 

A população miserável é sem dúvida alguma a mais necessitada da ajuda do Estado para conseguir atingir um nível mínimo de qualidade de vida que chamaríamos de “digno”. O que não pode ser feito é a monstruosa campanha de demonização das classes média e alta, como se o objetivo de todo ser humano não fosse viver bem, com conforto e segurança. Não faz o menor sentido criticar quem já alcançou os objetivos a que todos almejamos. 

Coisa bem diferente seria defender aqueles que se negam a reconhecer que possuem responsabilidade social e econômica. Isso me dá tanto nojo quanto as críticas a quem nada mais faz do que querer viver sem ser tragado pela imundície e pela insegurança. 

Eu bloquearia fisicamente os espaços abertos em “viadutos, pontes, túneis ou quaisquer locais públicos” para que não fossem invadidos por maltrapilhos, mas construiria milhares de moradias em regime de mutirão para aqueles que estivessem interessados em se ajudar. 

Eu construiria prédios sem marquises, ou murados, ou com aspersores de água, para evitar que sob elas se instalassem desocupados e usuários de drogas, mas criaria programas de capacitação profissional e geração de renda para aqueles que estivessem interessados em se ajudar.  

Eu colocaria separadores de assentos nos bancos das praças para evitar que se transformassem em dormitórios de sem-tetos, mas criaria albergues e casas de passagem com psicólogos, assistentes sociais e convênios com empresas que receberiam incentivos fiscais para colaborar com a recuperação e reinserção sócio-econômica daqueles que estivessem interessados em se ajudar.  

Eu avançaria as grades dos prédios o máximo possível nas regiões com “alta incidência de seres indesejáveis”, mas contrataria equipes para atuar durante as madrugadas na divulgação de informações e convites para que aqueles que estivessem interessados em se ajudar conhecessem os projetos de resgate de cidadania que citei nos parágrafos anteriores. 

E eu lançaria cloro nos locais de permanência dos sem-teto, para garantir que não permaneçam no local, e usaria a polícia para garantir que o espaço público não se tornasse dormitório e sanitário privado a céu aberto daqueles que não estivessem interessados em se ajudar, porque teria a consciência tranqüila de que estaria oferecendo alternativas dignas e acessíveis. 

Uma coisa é oferecer ajuda verdadeira e digna àqueles que estão interessados em se ajudar. Outra coisa é permitir que todo o resto da população seja incomodada e ameaçada e tenha seu ambiente degradado por quem não quer se ajudar. 

A direita erra ao atribuir somente ao indivíduo toda a responsabilidade por seu destino, como se as condições de vida desde a infância e as incríveis diferenças de oportunidades entre os cidadãos ou nada significassem, ou fossem facilmente superáveis. Mas a esquerda erra ao negar qualquer responsabilidade do indivíduo sobre sua recuperação sócio-econômica, como se fosse “a sociedade” que tivesse a obrigação de estudar, trabalhar e fazer escolhas morais – como usar ou não usar drogas, cometer ou não cometer crimes – no lugar de cada um. 

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. A tarrafa se joga com a água acima dos joelhos, mas com os pés firmemente apoiados na areia. Crie-se as condições para o desenvolvimento saudável e digno de todos, mas cobre-se de cada um o devido esforço para que se torne um cidadão autônomo e não um parasita. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 07/07/2012 

 

61 thoughts on “Alô Sakamoto: ridículo é nivelar por baixo

  1. Você vê como as pessoas interpretam de forma completamente distorcida.É quando você fala preto e o pessoal fala branco.
    É pra ficar mucho e mucho loco, não dá, fico admirado com a sua paciência ao lidar com essa gente.
    O problema das ideologias é que as ideias e seus conceitos ficam muito superficial e quando você rebate nisso, tanto a esquerda como a direita(perdoe-me o meu linguajar)ficam literalmente putos com a sua pessoa.Isso tem um nome se chama birra infantil, não tem jeito.
    Como diria o Aristóteles, a resolução dos problemas não está nos extremos e sim no meio, agora vai falar para essa gente isso.
    Ahhhhh!!!! Com certeza ficam ofendidos, daí vem esses rótulos ridículos na falta de um bom contra argumento.
    Você é uma pessoa virtuosa, disso não tenho dúvida.
    Paciência é uma virtude.Quem sabe essa gente chata melhore um pouco, quem sabe…

    1. Grato pelo elogio, mas sabe que eu me acho impaciente? Volta e meia “escrevo com o fígado” e exagero no tom. (Pergunta para o Gerson B e para o Romacof o que eles acham disso…) 😮

      Enfim, vivendo e se aperfeiçoando. 🙂

  2. Sakamoto levando um esculacho. Realmente, só pode ter surtado.

    http://www.cavaleiroconde.blogspot.com.br/

    1. O link correto é este aqui: http://cavaleiroconde.blogspot.com.br/2012/12/o-papa-doc-casaldaliga.html E eu achei o texto histérico.

      Na real acabo de entender algo importante para um blogueiro… Às vezes eu quero dar impacto a um texto e acabo escrevendo coisas naquele tom panfletário – e acabo sendo confundido com conservadores/reacionários beeeem de direita. Tenho que tomar mais cuidado com isso, porque tem gente achando que eu estou numa parte do espectro ideológico que não corresponde à realidade…

    2. Arthur—-> Nome claramente monarquista! De um rei opressor antifeminista que impediu a felicidade da pobre Guinevere (dai teus ataques aos feministas).
      Golgo—–> Referência ao Gólgota, local da tortura imperialista romana!
      Lucas—–> Padroeiro dos médicos, o que indica tuas ligações com a tenebrosa Máfia de Branco e as corporações internacionais de remédios.

      Viu, seu reaça? Decifrei as implicações do seu pseudônimo, direitista fascista! Zeigeist rules!

    3. Possível resposta n° 1:

      As férias vão te fazer bem, Gerson! 🙂

      Possível resposta n° 2:

      Eu vou pedir a meus irmãos Illuminati pra apagarem esse cara, ele sabe demais…

      Possível resposta n° 3:

      Hein? Hã? Quem é esse Zeitgeist? 😛

  3. ” acabo sendo confundido com conservadores/reacionários beeeem de direita.”

    Arthur, já lêu os ideais conservadores? Você ainda acredita na falácia de que conservador é um sujeito tacanho, averso a mudanças. Não tem nada a ver, conservador é um sujeito cauteloso, que analisa as coisas com critério, que defende as instituiçôes democráticas, a pluralidade de opiniões. Conservador é um sujeito realista e não idealista, o conservador naão que mudar o mundo, ele quer entende-lo e ver como pode conviver da melhor forma possível com ele adaptando-se. As coisas tem que evoluir pouquinho a pouquinho, nas relações de milhôes de seres humanos, naturalmente.

    1. Nelson, o problema com os conservadores reais é que eles se misturaram com reacionários e autoritários que em nada se assemelham aos ideais que descreveste. Quisera Deus que “conservador” no mundo real fosse sinônimo de “cauteloso” – neste caso não estaríamos è beira de uma catástrofe climática de escala planetária!

  4. Por exemplo, as leis evolui, demora séculos, são aprimoradas por milhares de seres humanos no caso concreto. Não é um sujeito barbudo sentado atrás de uma mesa, tentando inventar o mundo da cebeça dele.

    1. Milhares de seres humanos? Nelson, quantos por cento na população se interessam por aprimorar as leis?

  5. Brasileiro é o povo que paga 40% de imposto, com uns dos piores indices de educação, saúde e segunra do mundo e ainda se fiz muito satisfeito com governo que tem. As vezes penso que latino americano merece viver na merda em que vive.

    1. A resposta do por que isso acontece está contida no teu próprio texto: “… dos piores indices de educação…”.

  6. Segundo esse gênio chamado Sakamoto, ele diz que: quem garante que o embrião não vai nascer um lagarta, uma serpente e etc.Talvez ele pode está certo, a mãe dele pariu um JUMENTO pra ter tal idéia.

    1. HUAHUAHUAHUA!!!

  7. “A polícia e os chefes de quadrilhas puxam os gatilhos, mas nós é que colocamos as balas na agulha que matam os corpos e o futuro dessa molecada.”

    Sakamoto

  8. Ou seja, se alguém assaltar Sakamoto ou der um tiro na sua cabeça e matá-lo, a culpa não é do bandido que dispara a arma: a culpa é minha, sua, nossa, de todo mundo!

    Que dizer, se o cara atira na cabeça de alguém aqui no norderte. A culpa é do gaucho que tá lá fazendo um churrasco e nem sabe que existo. Esse é o nível dos professores desse país.

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