Quão rápido o mundo pode mudar? (Ou: o crescimento populacional humano e suas conseqüências)

Quando pensamos em “mudanças no mundo” em geral pensamos em mudanças rápidas no estilo de vida devido à evolução tecnológica, como a que os telefones celulares e a internet trouxeram. Mas estão acontecendo mudanças muito mais importantes devido a fatores que estão sendo criminosamente negligenciados – como o crescimento da população humana. E isso vai mudar a sua vida, queira você ou não. Pense comigo. 

Imagine um lago com 750 m de comprimento máximo por 400 m de largura máxima, como o lago Enol, nas Astúrias:

Bonito, não é? Escolhi esta foto porque estava na primeira página da busca do Google para a palavra “lago” e o formato deste lago se presta bem ao argumento que quero apresentar.

Suponha agora que eu jogue neste lago um punhadinho de lentilhas-d’água:

E suponha que estas plantinhas comecem a crescer e se multipliquem dobrando de número a cada dia. A quantidade de plantinhas no lago seria, então:

Dia 1 = 1 punhadinho.

Dia 2 = 2 punhadinhos.

Dia 3 = 4 punhadinhos.

Dia 4 = 8 punhadinhos.

Dia 5 = 16 punhadinhos.

E assim por diante.

Lá pelo 30° dia, a superfície do lago estará completamente preenchida pelas plantinhas, o que resultará em uma catástrofe ecológica que matará quase toda a vida no lago. 

Minha pergunta é: se as plantinhas demoraram trinta dias para preencher toda a superfície do lago, em que dia as plantinhas ocuparam somente a metade de todo o lago? Escreva aí sua resposta e depois role a tela para baixo para conferir a resposta.

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Resposta: as plantinhas ocuparam metade do lago no vigésimo-nono dia.

Se você acertou, parabéns.

Se você disse “no décimo-quinto dia”, saiba que este é exatamente o motivo pelo qual o nosso planeta provavelmente será destruído por uma catástrofe climática sem que possamos fazer absolutamente nada para salvá-lo.

Você pensou em um crescimento linear, quando na verdade estava lidando com um crescimento exponencial.

No crescimento linear as quantidades de crescimento são constantes, iguais em cada unidade de tempo. Se a taxa de crescimento é de 2 unidades por unidade de tempo, você tem um crescimento deste tipo: 2, 4, 6, 8, 10, 12, 14, 16, 18, 20… 

O gráfico que mostra o crescimento linear tem a aparência de uma reta: 

No crescimento exponencial as quantidades de crescimento são crescentes, multiplicando-se por um fator fixo em cada unidade de tempo. Se a taxa de crescimento é de 2 vezes a cada unidade de tempo, você tem um crescimento deste tipo: 2, 4, 8, 16, 32, 64, 128, 256, 512, 1024… 

O gráfico que mostra o crescimento exponencial tem a aparência de uma curva cada vez mais acentuada: 

Você percebe que no início os crescimentos são semelhantes, mas logo se tornam absurdamente diferentes? Observe: 

Quando lidamos com crescimentos exponenciais, as velocidades crescem lentamente no início e vertiginosamente a partir de determinado ponto. As mesmas plantinhas que demoraram vinte e nove dias para ocupar a metade do lago demorarão apenas um dia para ocupar completamente a metade restante.

Certo. Mas onde eu quero chegar com isso?

Nesta foto:

Se você compreendeu a lógica do crescimento exponencial, sabe que o lago foi completamente preenchido no trigésimo dia, estava cheio pela metade no vigésimo-nono dia, estava com um quarto preenchido no vigésimo-oitavo dia e estava com um oitavo preenchido no vigésimo-sétimo dia.

Esta é a condição mostrada nesta segunda foto do lago: um oitavo preenchido e sete oitavos absolutamente livres. Mas veja bem o que isso significa: foram necessários vinte e sete dias para preencher apenas um oitavo do lago.

Se você estivesse acompanhando o “lento” crescimento das plantinhas na superfície da água, provavelmente só se daria conta de que o crescimento era mais rápido do que parecia na virada do vigésimo-sexto para o vigésimo-sétimo dia, certo? 

No mundo como é hoje, você passaria todo o vigésimo-sétimo dia revendo seus cálculos, daria o alerta no vigésimo-oitavo dia, passaria todo o vigésimo-nono dia discutindo com os outros moradores da região – que o chamariam de “catastrofista” e apresentariam argumentos de “cientistas dissidentes” para provar que “o lago nunca foi destruído antes”, que “é óbvio que as plantinhas que você colocou lá não podem destruir o lago”, que “o crescimento de plantinhas é uma coisa natural”, etc. – e só começaria a fazer alguma coisa lá pela metade do trigésimo dia, quando a catástrofe já estivesse tão nítida que seria tarde demais para fazer qualquer coisa útil. 

Em um mundo mais inteligente e saudável, se você tivesse acompanhado a cada dia a velocidade do crescimento das plantinhas, lá pelo quarto ou quinto dia você já saberia que tipo de crescimento elas apresentam e que conseqüências poderia esperar disso.

Se o seu interesse fosse salvar o lago de uma catástrofe ecológica, você jamais poderia esperar até o vigésimo-nono dia para começar a tomar providências. Quanto antes planejasse e começasse a executar uma intervenção, tanto melhor, porque menos energia (esforço) seria necessário para manter a população dentro de parâmetros viáveis a longo prazo. A partir de um determinado ponto, porém, o crescimento das plantinhas é tão rápido que não dá tempo para fazer mais nada, a catástrofe se torna inevitável.

A situação da população humana no planeta é igualzinha. 

Vou apresentar dois gráficos quase iguais sobre o crescimento da população humana no planeta, diferentes entre si somente pela amplitude do período representado. 

O primeiro mostra somente o período entre o ano 1400 e o ano 2000: 

Podemos perceber claramente uma forte inflexão na curva nos dois últimos séculos – muito parecida com o segundo tipo de crescimento de que falamos acima, o crescimento exponencial. Impressionante, não? 

Mas fica ainda mais impressionante quando observamos este fenômeno contextualizado na história da humanidade e com a devida atualização:  

Assim fica mais claro o que está acontecendo, não é? 

No dia 31 de outubro de 2011 atingimos a marca de 7 bilhões de seres humanos no planeta Terra. A população humana mundial está crescendo exatamente como as plantinhas do exemplo que abre este artigo. 

O que nos leva a uma pergunta interessante: 

Comparando a evolução da população humana sobre a Terra com a evolução da população das plantinhas no exemplo deste artigo, em que dia do ciclo estamos? 

Entendeu agora o título deste artigo? 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 11/07/2012 

 

43 thoughts on “Quão rápido o mundo pode mudar? (Ou: o crescimento populacional humano e suas conseqüências)

  1. Não sei no resto do mundo, mas no Brasil a dinâmica da população é diminuir. Não consegui achar o link do IBGE, mas se não me falha a memória, a partir de 2030 a população irá diminuir até estabilizar numa fração do que é hoje em 2050. Não creio em colapso, mas em uma revolução (talvez mais profunda que a Revolução Industrial) pelo envelhecimento populacional e pelos paradoxos de nosso atual sistema econômico fortemente baseado no crescimento.

    1. Não é bem assim. A população brasileira vai crescer até por volta de 2050 e depois começar a declinar em função dos baixos índices de natalidade. Hoje estamos com cerca de 1,83 filhos por mulher. A inversão se deu em 2006, único ano em que o Brasil teve taxa de natalidade de 2 filhos por mulher, que é a taxa de reposição da população. (Na verdade a taxa de reposição real é ligeiramente superior, próxima de 2,1 – por causa da mortalidade na infância e adolescência.)

      Atualização: resolvi dar uma procuradinha e encontrei dados discrepantes dentro do próprio site do IBGE… mas grosso modo é isso aí.

  2. Eduardo Marques

    11/07/2012 — 19:40

    Eu achava que essas teorias de que a população humana estava crescendo muito rápido estavam ultrapassadas. À medida em que melhora a qualidade de vida numa região, decresce a fertilidade. Se essas coisas que vc diz sobre a população estivessem corretas, a Europa estaria transbordando de gente e a África já estaria deserta há muito tempo. A preocupação de vários países hoje é justamente o contrário: a infertilidade e o envelhecimento da população. As teorias antigas de que a produção de alimentos não daria conta do recado não levavam em conta o desenvolvimento da tecnologia, que torna, segundo a ONU (não tenho fontes agora, perdão), a produção de alimentos no mundo suficiente para alimentar a todos. Equipamentos tecnológicos estão a cada dia mais econômicos e “verdes” justamente por causa desse desenvolvimento.

    Claro que se formos compara a épocas remotas a humanidade cresceu exponencialmente em números nos últimos séculos, da mesma forma como a tecnologia e a ciência. O que está acontecendo na história não pode ser analisado de uma maneira tão simplista.


    1. “Eu achava que essas teorias de que a população humana estava crescendo muito rápido estavam ultrapassadas.” (Eduardo)

      Não, infelizmente não é assim. A população no Brasil passou por uma transição demográfica violentíssima e estamos hoje com menos de 2 filhos por mulher (menos nas classes onde seria mais importante que isso diminuísse, o que é um problemão, diga-se de passagem). Considerado o mundo inteiro a população humana está crescendo de modo assustadoramente rápido. Confere no worldômetro: http://www.worldometers.info/pt/

      “As teorias antigas de que a produção de alimentos não daria conta do recado não levavam em conta o desenvolvimento da tecnologia, que torna, segundo a ONU (não tenho fontes agora, perdão), a produção de alimentos no mundo suficiente para alimentar a todos.” (Eduardo)

      Não é verdade. Nunca houve um ano no mundo de Malthus para cá em que não morressem milhões de pessoas de fome. Mas mesmo que temporariamente houvesse produção suficiente de alimentos para todos e distribuição adequada, de um modo ou de outro haveria um momento em que uma população sempre crescente atingiria um limite intransponível: a capacidade de suporte do meio físico, seja qual for a tecnologia, existente ou a existir, não pode ser expandida indefinidamente. E os meios pelos quais a natureza força qualquer população a se manter dentro dos limites da capacidade de suporte não são nada agradáveis.

      A grande questão que a humanidade enfrenta é: reduziremos nossos números voluntariamente ou a fome, as guerras, as epidemias e o colapso climático farão isso por nós?

    2. Nos países desenvolvidos a população diminuirá devido ao elevado custo de se ter um filho, nos países pobres haverá ajuda de epidemias, problemas climáticos e guerras.

    3. Será necessário um ajuste econômico para que o custo de vida ideal seja o de uma família com dois filhos.

  3. Lucas do povo

    11/07/2012 — 21:57

    Recomendo uma viagem para a Itália ou para o Japão, você vai se sentir uma criança perante tantos idosos. Em alguns lugares, a taxa de natalidade está alta (Como na África e Oriente Médio), mas em outras está estagnada (como no Japão e na maioria dos países europeus).

    Inclusive, é necessário um controle de natalidade para certos africanos e muçulmanos que tem filhos de maneira exagerada.

    1. Mas assim baixa a qualidade do pessoal, tem cada vez mais gente ignorante e póóóóbre!!!

      Tô zoando, mas é por ai. E isso È um problema.

    2. Os países que já efetuaram a transição demográfica não estão com problemas de população… estão com problemas culturais e econômicos devido à incapacidade de adaptarem suas economias a uma população que não cresce para alimentar a máquina capitalista de moer carne humana. O problema é ideológico.

      Mas de fato há países que exageraram na transição demográfica – como o Brasil – e que vão ter que passar por um período de readaptação no sentido contrário. Mas não é hora de falar nisso ainda. Daqui a duas décadas talvez.

  4. Isso me lembrou uma palestra no TED da Melinda Gates(esposa do Bill, é, daquele mesmo, da Microsoft):
    http://www.ted.com/talks/melinda_gates_let_s_put_birth_control_back_on_the_agenda.html

    No geral, sempre achei estranho o modo de vida baseado no crescimento contínuo de tudo(vendas, mercado, quantidade de pessoas, $, lucros de empresas, etc). Não tenho base para falar disso, mas nunca “senti” que isso fosse sustentável.

    Bem, só idéias soltas minhas, peço desculpas de comentários assim num local onde o foco é a discussão de idéias de forma mais racional.

    (Offtopic: Arthur, o que você acha das palestras do TED, em geral?)

    1. Minha internet está lenta demais para assistir vídeos. Tenho uma conta ilimitada, mas este mês a Claro limitou minha velocidade em 128 kbps quando atingi 1 Gb de transferência de dados. Ontem fui ao quiosque da Claro e ninguém soube dizer o que estava acontecendo. Hoje esqueci o celular em casa e só vou poder entrar em contato com a operadora mais tarde. Lei de Murphy.

      Mas enfim…

      O controle de natalidade nunca saiu da agenda dos ecologistas sérios. Quem fala contra o controle de natalidade é quem não entende nada de ecologia. Ou seja, o pessoal das “humanidades” e da economia. E os políticos, claro, odeiam o assunto – porque ele só tira votos, não ganha nenhum, afinal quem quer uma lei para garantir que o planeta não exploda se isso significa que ele mesmo terá que perder alguma liberdade?

      Quanto ao TED, acho excelente. Pena que nem todas as palestras são legendadas para o português. Volta e meia eu assisto com legendas em inglês mesmo (minha dificuldade é entender o inglês falado, na leitura eu me viro).

      E, Flash… fica tranqüilo, participa como quiser, tudo que eu peço é que o pessoal mantenha o respeito nos debates que surgem. Isso aqui é um blog, não é um círculo de palestras de ciência. Pode opinar à vontade.

  5. Achei um link que mostra que a diminuição da população se dará a partir de 2050. http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/projecao_da_populacao/2008/piramide/piramide.shtm

    1. Isso, era esse o dado que eu tinha. Aproximadamente.

  6. Seremos 220 milhões em ação salve a seleção em 2035, depois será o fiofó da cobra. E o gráfico 17 trás ótimas notícias para as feministas.

    1. E péssimas para as mulheres a partir da meia idade…

  7. Realmente o Brasil passou por uma transição fora do comum, há pouco tempo atrás os geógrafos analisaram e faziam previsões sombrias, que o Brasil teria uma verdadeira explosão populacional.
    O Brasil nos tempos de hoje corre os mesmos riscos que a Europa padece hoje em dia que é o envelhecimento da população, nesse caso o Brasil vai envelhecer mais rapidamente que a Europa que teve um processo de um século, já aqui, pelas projeções é provável que seja pela metade.
    A crise da Europa passa pelo aspecto populacional, pois se trata de um continente predominantemente de velhos. E se o Brasil não quiser passar os apuros semelhantes da Europa, é bom tratar com certa urgência a reforma do sistema previdenciário.
    O paradigma de país jovem já era, não vai tardar que isso não passará de lenda.Já o resto do mundo sobretudo o lado da Asia com exceção do Japão e da duas Coreias, com certeza vai criar uma pressão enorme sobre o planeta, é provável que a Índia e a China corresponda o que podemos considerar um verdadeiro colapso populacional, sendo que a Índia em menos de 50 anos supera a China, tanto na contagem populacional como demograficamente será extremamente populoso.
    O pessoal fazem previsão do fim do mundo, mas antes do mundo acabar, tenho quase que certeza absoluta que a humanidade se acaba antes, afinal os recursos naturais não são eternos, e os poucos que restarem os humanos vão disputar no tapa.Como diz na bíblia vai virar um inferno.
    E caso isso se confirme, espero que a longo prazo esteja bem mortinho…

    1. A longo prazo todos estaremos mortos, Alexandre… o problema é por que tipo de experiências teremos que passar até lá.

  8. Eduardo Marques

    12/07/2012 — 17:54

    Não, Arthur, o crescimento da população está caindo desde 1962. A população no Leste Europeu e no Japão está até diminuindo.

    http://en.wikipedia.org/wiki/Population_growth#Human_population_growth_rate

    Esse crescimento de que vc fala só é “assustador” porque são os números absolutos.

    1. Eduardo, olha bem o gráfico contido no link que postaste: o que está caindo é a taxa de crescimento, ou seja, a aceleração do crescimento.

      A velocidade do crescimento ainda está crescendo.

      Quando a taxa de crescimento atingir zero, a aceleração do crescimento vai parar, mas a velocidade do crescimento ainda vai aumentar por algum tempo, dependendo do formato da pirâmide etária, e então começar a diminuir.

      Quando a velocidade do crescimento começar a diminuir, a população ainda vai crescer por mais algum tempo, até que a velocidade do crescimento atinja zero.

      Somente então a população vai parar de crescer – e talvez começar a diminuir, dependendo do que tiver acontecido com a taxa de crescimento neste meio-tempo entre o início da queda da velocidade de crescimento e o alcance da velocidade zero de crescimento.

      E deveria ser óbvio que o crescimento só é assustador porque os números são absolutos… afinal, são pessoas reais que impactam o mundo real. As velocidades de crescimento e as acelerações de crescimento são cálculos que fazemos em cima do número real de pessoas reais, para calcular o impacto real sobre o planeta real.

      Se as mesmas taxas e velocidades fossem calculadas sobre uma população de dez ou vinte mil habitantes no planeta, eu não estaria preocupado. Haveria algumas gerações para lidar com o problema. Mas nós estamos com 7 bilhões de habitantes no globo, e tínhamos 6 bilhões em 1999, 5 bilhões em 1987, 4 bilhões em 1974 e eu nasci em 1968. Ou seja, só no meu período de vida a população do planeta aumentou em mais de três bilhões de pessoas, praticamente dobrou.

      O planeta teria aguentado tranquilamente dobrar de um para dois bilhões de pessoas, como de fato aconteceu entre 1802 e 1928, mas o terceiro bilhão registrado em 1961 deveria ter disparado todas as luzes vermelhas do planeta – era o 27° dia do ciclo – e somente os ecologistas se deram conta.

      A Rio-92, a Rio+10 e a Rio+20 negligenciaram vergonhosamente o problema da população, porque os esquerdistas – ignorantes em ecologia e com um viés ideológico de coitadismo – acham que, se a população é “vítima” da pobreza, então quem tem que resolver o problema são os ricos. E com isso estão condenando bilhões de pessoas à morte por fome, guerras, epidemias e todo tipo de catástrofe ambiental que virá em função da desestabilização climática do planeta, que já está em curso (e que provavelmente já é irreversível).

      Espera vinte anos e volta a comentar este artigo. 😛

  9. Talvez a solução seja substituir o fetiche do crescimento e consumo por algum outro fetiche mais sustentável: http://papodehomem.com.br/o-seculo-em-que-venderemos-o-que-as-pessoas-realmente-precisam-e-nao-o-que-elas-apenas-querem/.

    1. Este século será o século XXII, quando venderemos chances de sobrevivência em um planeta com o clima desestabilizado, os oceanos subindo, a terra arável encolhendo e as populações sendo deslocadas.

      Duvida? A gente aposta e entra numa câmara criogênica para sermos despertados daqui a cento e cinqüenta anos. Mas o valor da aposta tem que ser alto. Muito alto. 😮

  10. Arthur! Para responder à pergunta “em que dia do ciclo estamos?” gostaria de mais algumas informações! (É possível que googleando eu encontrasse as respostas, mas é possível que você seja mais confiável (ou talvez eu seja mais preguiçoso!)) As plantinhas crescem numa progressão geométrica de razão dois a cada vinte e quatro horas. E os humanozinhos? Em que tempo eles alcançam a mesma razão? E qual o limite teórico do nosso Enol? Quantos humanozinhos poderíamos enfiar nele para arrebentar o sistema? Talvez você me veja como um dos proteladores que gastam o vigésimo nono dia em averiguações matemáticas, mas concordará que esses dados são necessários até para dar o grito de alerta. Saudações de seu amigo Lentilha d´Água.

    1. Os humanos estão dobrando a taxas vertiginosas. Na tabela abaixo, a primeira coluna mostra o número total de seres humanos no planeta, a segunda mostra o ano em que tal número foi atingido e a terceira mostra o número de anos até atingir o próximo bilhão de pessoas.

      1 bilhão 1802 126
      2 bilhões 1928 33
      3 bilhões 1961 13
      4 bilhões 1974 13
      5 bilhões 1987 12
      6 bilhões 1999 11
      7 bilhões 2011 15
      8 bilhões* 2026 24
      9 bilhões* 2050 20
      10 bilhões* 2070 26

      (*) Estimativas do The World Factbook da CIA.

      Observa que a razão está mudando. Do primeiro para o segundo bilhão, dobramos em 126 anos. Do segundo para o quarto bilhão, dobramos em 46 anos. Do quarto para o oitavo bilhão, supostamente demoraremos 52 anos, mas isso é especulação. Os fatos reais vão somente até o sétimo bilhão de pessoas – e até o sexto bilhão as velocidades de crescimento só aceleraram, tendo começado a diminuir somente entre o sexto e o sétimo. O quanto realmente vão diminuir ninguém sabe – porque há pressuposições incertas e variáveis muito importantes que não podem ser medidas até que os fenômenos de fato ocorram. A má notícia é que todas estas variáveis só podem piorar o quadro, exceto uma. Vamos por partes.

      A principal pressuposição assumida por todos os modelos populacionais humanos é que a curva de crescimento da população humana seja uma curva de crescimento logístico, em forma de S. Esta é uma pressuposição extremamente otimista. Ela parte do pressuposto anterior de que a capacidade de suporte do planeta não é afetada pela população humana, algo do que qualquer cientista sério da área da ecologia deveria discordar com veemência.

      Quando uma população de herbívoros cresce na presença de predadores, ela se torna capaz de sustentar uma população maior de predadores – que por sua vez controlam o crescimento da população de herbívoros antes que a população de herbívoros consuma todo o estoque de alimentos que a sustenta.

      Mas quando uma população de herbívoros cresce na ausência de predadores, ela só é controlada pela ausência de alimento – que é consumido até a última folha até faltar, causando um colapso populacional abrupto e uma imensa mortandade por fome. (O mesmo ocorre com bactérias numa placa de Petri.)

      Este segundo tipo de crescimento populacional se chama de crescimento exponencial, em forma de J. Por que em forma de J? Porque, ao invés de a população atingir gradativamente valores mais próximos da capacidade de suporte do meio, ela cresce além da capacidade de suporte do meio, consumindo o “capital natural” até o momento em que se vê subitamente sem os recursos necessários a sua sobrevivência e colapsa rapidamente.

      Como os modelos matemáticos logístico e exponencial não levam em consideração a distribuição física dos organismos, o ajuste da curva não é perfeito – mesmo as populações com crescimento em J manifestam um certo efeito de dependência de densidade e disponibilidade local de recursos – o que torna difícil distinguir na prática um crescimento do outro até um pouco além do “ponto de virada” que distingue o J do S.

      O problema é que, uma vez que se tenha avançado o suficiente no crescimento populacional para que se possa perceber qual dos dois modelos se aplica, se for o modelo em J, não há mais nada o que possa ser feito para evitar o colapso – e a humanidade se encontra hoje exatamente neste momento nebuloso logo após a “virada do S” no qual ainda é impossível distinguir qual o modelo que se aplica.

      Supondo que o modelo que se aplique seja o S, as notícias são muito ruins: a partir daqui, se não controlarmos imediatamente o crescimento da população mundial, a tendência é que todas as pressões ambientais sejam negativas, isto é, que aumentem a mortalidade através de fome e carência de recursos, epidemias, catástrofes naturais, guerras, etc.

      Supondo que o modelo que se aplique seja o J, as notícias são muito piores: a partir daqui, se não controlarmos imediatamente o crescimento da população mundial e recuperarmos uma imensa quantidade de ecossistemas destruídos e aumentarmos a produção de alimentos simultaneamente, a tendência é que todos os fatores acima citados se manifestem com uma violência tal que filmes como The Day After (“O Dia Seguinte”) serão considerados otimistas.

      Por algum motivo que só posso compreender como “complexo de avestruz”, alertar para estas possibilidades e requerer prudência e cautela no gerenciamento da economia e da população humana é considerado “catastrofismo” ao invés de “responsabilidade”.

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      Tentando responder de modo objetivo sobre “o limite do nosso Enol”:

      Se a curva for em forma de S e o IPCC e todos os ecologistas estiverem totalmente errados quanto aos efeitos da reintrodução de carbono fóssil na atmosfera, no nível de consumo de recursos médio mundial, a Terra suportaria no máximo 5 bilhões de habitantes, ou seja, já passamos do limite há tempo e por isso estamos depauperando o planeta e reduzindo ainda mais esta capacidade para o futuro.

      Nas mesmas condições e nos padrões de consumo dos EUA a Terra suportaria no máximo 1,7 bilhões de habitantes, a pau e corda.

      Nas mesmas condições e nos padrões de consumo da Oceania a Terra suportaria no máximo 2,5 bilhões de habitantes.

      Nas mesmas condições e nos padrões de consumo da Europa a Terra suportaria no máximo 2,9 bilhões de habitantes.

      Nas mesmas condições e nos padrões de consumo da América Latina a Terra suportaria no máximo 5,2 bilhões de habitantes. (Ou seja, o nosso padrão de vida já é insustentável.)

      Nas mesmas condições e nos padrões de consumo da Ásia a Terra suportaria no máximo 7,4 bilhões de habitantes. (Mas a China vai arrebentar esta estatística em menos de três anos.)

      Nas mesmas condições e nos padrões de consumo da África a Terra suportaria no máximo 9,6 bilhões de habitantes.

      E o problema, é claro, é que o IPCC e os ecologistas não estão errados, pois a reintrodução de carbono fóssil na biosfera e a destruição de ecossistemas estão tornando o clima cada vez mais hostil.

      Aliás, acabo de perceber que com uma edição aqui, outra ali, isso poderia virar um artigo independente. Talvez eu faça isso nos próximos dias. 🙂

  11. Grato! Como tenho observado que a maioria não lê os comentários que não são os próprios, ou respostas aos próprios comentários, seria muito oportuno que seu último comentário se transformasse num post. O paralelo seria elucidativo, e extremamente útil, especialmente pelo seu método característico de espremer didaticamente um limão quando descreve um limoeiro.Um abraço do amigo e irmão Lentilha (quase no seco).

    1. Valeu. 🙂

      Eu só esqueci uma coisinha:

      “A má notícia é que todas estas variáveis só podem piorar o quadro, exceto uma.”

      A única variável que pode melhorar o quadro é a capacidade humana de controlar racionalmente o próprio comportamento ao invés de submeter-se às mesmas regras que limitam o comportamento (e as populações) dos demais animais.

      É. Estamos ferrados. 🙁

  12. Tem razão e esse é o diabo da questão.
    Como dizem tem horas que a ignorância é uma benção.
    É melhor não aprofundarmos, pois o buraco vai ficar cada vez mais embaixo.

    1. Ô se vai. No atual nível de consumo de recursos a Terra só suporta 5 bilhões de pessoas. Significa que necessariamente acontecerá uma queda de nível de vida médio – e sabemos muito bem que isso não costuma ser distribuído igualmente…

  13. Olá! ótimo post,parabéns.
    Gostaria que você me demonstrasse seu ponto de vista a respeito de uma questão.
    Meu professor na universidade(que é homossexual) me falou a respeito de uma teoria,na qual:
    “A HOMOSSEXUALIDADE,TAMBÉM SERIA UM CONTROLADOR DE NATALIDADE/DEMOGRÁFICO NATURAL”.
    Agora quero saber sua opinião a respeito disso.Desde já,muito obrigado!

    1. Eduardo Marques

      21/07/2012 — 14:32

      Como o Elvis disse (supondo que esteja respondendo a vc), isso só seria possível se a proporção de homossexuais aumentasse. Acho que não seria o caso de a homossexualidade controlar a natalidade, mas a liberação sexual, pois antigamente homossexuais se casavam e procriavam independente de sua vontade e creio que a tendência disso é diminuir. Mesmo assim, o controle que isso poderia representar é mínimo.

    2. Concordo com o Elvis e com o Eduardo. Isso só seria verdadeiro se a proporção de nascimentos de homossexuais aumentasse em função da densidade da população, o que aparentemente não é o caso.

  14. Isso só seria possível se a proporção de homossexuais variasse com a quantidade de população, e não somente o número de homossexuais. Eu não vejo como isso poderia ocorrer.

  15. Isso é uma novidade!
    A homossexualidade como controle de natalidade?
    Que doideira é essa?
    Então, por que raios os homossexuais querem direitos civis?
    Quer dizer que o homossexual seja feminino ou masculino não desejam constituir família? Duvido que essa tese tenha alguma sustentação, você deveria perguntar para outros homossexuais assumidos, o que acham disso?
    Esse seu professor deve estar é muito aloprado.

    1. Eu já havia ouvido essa ideia antes dessa forma: a homossexualidade tenha surgido espontaneamente na natureza como forma de controle populacional. Isso poderia ser verdade mesmo com as lutas por direitos civis dos homossexuais. Mas me parece muito implausível: não seria melhor, do ponto de vista da espécie, dentro desse raciocínio, não haver homossexuais? Assim, as espécies com homossexuais acabariam perdendo para as espécies sem homossexuais.
      Essa ideia parece levar em consideração a existência de uma “natureza” como um Deus guiando os fenômenos naturais, sem levar em consideração os mecanismos que permitem que a evolução seja um processo de auto-correção.

    2. Outro Eduardo

      21/07/2012 — 22:41

      Supondo que seja verdade, por que a homossexualidade supostamente estaria aumentando na população atual como controle de natalidade, nesta época em que o ser humano nunca viveu com tanto conforto? O que teria ativado esse processo?

    3. Eduardo Marques

      21/07/2012 — 23:29

      Tá, não ou outro Eduardo, coloquei meu nome errado aqui.


    4. “Esse seu professor deve estar é muito aloprado.” (Alexandre)

      Não é tanto alopração quanto desconhecimento de dinâmica de populações. A sacada do Elvis e do Eduardo sobre variáveis dependentes de densidade está correta, mas aposto que o professor do Alisson nem imagina o que seja isso.


    5. “Assim, as espécies com homossexuais acabariam perdendo para as espécies sem homossexuais.” (Elvis)

      Na trave. Mas elas teriam que ocupar exatamente o mesmo nicho ecológico para que isso acontecesse. E teriam que ter o mesmo consumo energético per capita também. E o mesmo ciclo reprodutivo e a mesma longevidade. Na prática estas coincidências são tão difíceis de acontecer que esse fator acaba não tendo chance de influir na competição entre espécies.


    6. “por que a homossexualidade supostamente estaria aumentando na população atual”? (Eduardo)

      Isso teria que ser um fenômeno dependente de densidade. Teoricamente até poderia acontecer, mas até onde se sabe não é o caso.

  16. Ou seja aquele paradigma do consumo desenfreado, sustentado pela cultura americana vai para o saco. Vai ser tragicômico, imagina a concorrência com os chineses e indianos caso toda a população assuma o mesmo padrão tão cultuado pelos americanos.
    Vai ser uma guerra, pois duvido que o americano médio vai abrir mão do seu direito de consumo.

    Com relação ao fato de ter nomeado o professor de aloprado, não tinha outro sinônimo para a falta de consistência lógica, mas tem razão, o correto seria estupidez ou simples ignorância.

    1. “Direito” de consumo? 😉

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