Que saudade da Educação Moral e Cívica nas escolas! Apesar de todas as críticas que se possa fazer em relação aos conteúdos daquela disciplina, é inegável que ela pretendia estimular moralidade e civismo nas crianças e adolescentes – ao contrário da depravação moral e cívica característica do pensamento “politicamente correto” da atualidade. Analisemos um exemplo. 

Eu poderia ter escolhido um exemplo local, pois tais exemplos existem em abundância, mas o fenômeno que critico está acontecendo em escala mundial – e de fato eu lido diariamente com gente que pensa como os “educadores” da escola citada no exemplo – então vou aproveitar um exemplo retirado de um livro sobre ética que estou relendo. 

O trecho a seguir foi retirado das páginas 71 e 72 do livro “Como tomar decisões difíceis, ou como escolher na vida entre o certo e o certo”, de Rushworth M. Kidder: 

Não muito tempo atrás, num jantar com um grupo de alunos brilhantes e de excelente currículo acadêmico, numa das melhores faculdades de ciências humanas da Califórnia, eu lhes repeti uma história – que me foi contada como verdadeira – sobre um garoto de 10 anos que vivia numa das áreas mais problemáticas do Brooklin, em Nova York. Um dia, a caminho da escola, o garoto encontrou uma carteira cheia de dinheiro e cartões de crédito – e contendo identificação mais do que suficiente para o proprietário ser facilmente encontrado. Ele a levou para a escola, mas não encontrou ninguém ali – professor ou administrador – disposto a lhe dizer qual era a “coisa certa a fazer” com a carteira.

“Não podemos lhe dizer nem para ficar com ela nem para devolvê-la”, argumentaram-lhe, em suma, “porque estaríamos lhe impondo nossos valores. Além do mais, você é pobre e ele está muito bem de vida. O que sua mãe lhe diria se sugeríssemos que você devolvesse a carteira? Ela poderia ficar bem contrariada. Não, você tem que chegar a uma conclusão por si mesmo. Não podemos ajudá-lo.” 

Quando perguntei aos estudantes, naquela mesa no campus, o que achavam que deveria ter ocorrido, todos concordaram: os funcionários da escola, disseram, estavam absolutamente certos. Não há como impor seus valores a outros, não há nem mesmo como ajudar a instruí-los para que tenham uma noção mais clara de certo e errado. Essa criança simplesmente teria de aprender seus valores por si mesma. 

Eu não ficaria nada triste se uma bomba atômica caísse em cima dos imbecis que estavam presentes nesta reunião. O mal que este tipo de “pensamento” (hã?) traz ao mundo é gigantesco. É uma aposta no “quanto pior, melhor”, que promove a corrupção moral da sociedade e nos conduz passo a passo na direção de um sistema político cada vez mais intolerante, autoritário e repressivo.

“- Hein? Como assim, Arthur? Os estudantes disseram que não se pode impor valores e aí está você a afirmar que o que está sendo feito é conduzir a sociedade para o caminho exatamente contrário! Você está sendo incoerente, não está?” 

Não. A lógica é justamente essa. 

Educar é impor valores

Este é realmente o termo correto: imposição de valores. Não se pergunta a uma criança que valores ela deseja que lhe sejam inculcados – ela não sabe. Jamais uma criança terá como fazer este tipo de escolha. Esta não é a ordem natural das coisas. Não se pode deixar que as crianças cresçam para escolherem por conta própria que valores desejam ter, porque então elas já terão introjetado os valores ou desvalores propiciados pelos discursos e pelos exemplos a que tiverem sido impostas – incluindo aí as omissões de discursos e as omissões de exemplos.

Não existe a menor possibilidade de realizar o que se convencionou chamar de “educação neutra em relação a valores”. Se você não impõe valores, algum valor se impõe, e os principais valores que se impõem através de uma educação que se pretende livre de imposição de valores são a irracionalidade, a imoralidade e a intolerância.

O resultado da banalização e universalização deste conjunto de desvalores é uma sociedade que somente consegue resolver seus conflitos através da força. Um indivíduo que não pode ser chamado à razão por argumentos lógicos, que não pode ser chamado à moralidade por argumentos éticos e que não pode ser chamado à tolerância por argumentos humanitários só pode ser controlado pela força e pelo medo. 

E é isso mesmo que costuma ocorrer quando uma sociedade não impõe valores a seus membros: ela termina dominada pela força e pelo medo, justamente por aqueles membros que possuem menos valores racionais, morais e humanitários. 

Certo e errado não são questão de gosto pessoal

Não existe “a minha verdade” e “a sua verdade”. Dois e dois são quatro e não cinco. Matar é errado, a não ser em legítima defesa. Devolver uma carteira cheia de dinheiro ou não, da qual se sabe quem é o dono, é o certo a fazer. E demitir toda a cambada de imbecis que desencaminharam eticamente a criança que a eles recorreu em busca de orientação é corretíssimo e imperativo! 

Qualquer um que disser que não existem parâmetros para decidir entre o certo e o errado exceto as convenções sociais está errado – ou porque está mentindo, ou porque não entende nada do assunto. A ciência tem muito a dizer sobre questões morais e cívicas. O problema é que o conhecimento objetivo nessa área aniquila as pretensões ideológicas de quem acha que pode construir um mundo sem parâmetros morais para sua própria conveniência ideológica ou econômica. 

Ética não é conveniência

Pelo contrário, por definição a ética é inconveniente! Se tudo que fosse conveniente fosse ético, então não precisaríamos nos preocupar sequer em pensar no assunto. Só faz sentido falar em agir com ética quando percebemos que aquilo que é mais conveniente pode não ser o certo a fazer. 

Os argumentos apresentados pelos deseducadores daquela escola, de que o aluno era pobre e o dono da carteira era rico, e de que a mãe do aluno poderia ficar contrariada se eles dissessem ao aluno para devolver a carteira, são argumentos de conveniência, não de ética.

E daí se o aluno era pobre e o dono da carteira era rico? Isso por acaso torna certo a apropriação indébita da carteira? E daí se a mãe do aluno fosse ficar contrariada? As emoções mesquinhas de alguém sem senso ético por acaso transformam o certo em errado e o errado em certo? 

Depravação moral e cívica

A chafurda moral imposta pelos relativistas culturais está gradativamente desencaminhando a humanidade inteira e cada vez menos gente percebe o perigo. Aquilo que começa em pequena escala se multiplica, se avoluma e contamina todas as escalas e instâncias de uma sociedade – e atinge também o Estado que a regula, o que é gravíssimo, porque institucionaliza a corrupção (que nada mais é do que falta de ética). 

Três exemplos:

– O governo brasileiro vota na ONU pela não intervenção contra ditadores que massacram populações inteiras (Sudão, Líbia, Síria, etc.), ao mesmo tempo em que vota no Mercosul pela punição contra um país que depôs um presidente de acordo com a lei e praticamente ninguém comenta ou se importa com a incoerência. 

– O governo brasileiro propõe perda do pátrio poder e quatro anos de prisão para quem der uma palmada numa criança, ao mesmo tempo em que propõe uma pena de multa para quem invadir violentamente e apropriar-se da casa de uma família, e praticamente ninguém comenta ou se importa com a incoerência. 

– O governo brasileiro diz que a saúde no Brasil está ótima, quase perfeita, e investe centenas de milhões de reais na construção de estádios de futebol, ao mesmo tempo em que o povo morre ou fica mutilado nas filas das emergências dos hospitais, e praticamente ninguém comenta ou se importa com a incoerência. 

A depravação começa com coisas tão pequenas quanto a devolução ou não de uma carteira e acaba com mortes e mutilações em massa, injustiças absurdas e politicalha rapineira movida pela conjugação de interesses econômicos entre os políticos e os grandes deformadores de opinião deste país. Essa é a evolução natural da ausência de valores morais e do império da conveniência política e econômica. 

E praticamente ninguém comenta ou se importa com isso. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 07/08/2012

81 thoughts on “Depravação Moral e Cívica

  1. Ética não é inconveniência, encaro como necessidade, senão a sociedade humana se torna insuportável.Se o ser humano não estabelecer um limite, um padrão mínimo de convivência e confiança mútua é o que a ética a priori tenta nos garantir, claro desde que você tenha no mínimo boa fé para realizá-lo. Do contrário é melhor pegar as armas e sair atirando por ai aleatoriamente, pois todos são inimigos e ninguém é digno de confiança.Não vamos promover a anarquia, vamos promover o caos e o niilismo destrutivo, já que a existência do outro implica num estorvo insuportável.

    1. Digo que a ética é inconveniente porque a ação oposta é sempre (ou quase sempre) uma ação conveniente. Devo devolver a mala de dinheiro que encontrei na rua? Devo dizer “não” à gostosona que me convidou para “conhecê-la melhor” na festa da minha empresa a que minha esposa não pôde comparecer? Devo receber os créditos pela composição da música que meu parceiro de banda compôs quando estava bẽbado e nem se lembra disso? Em todos os casos o mais conveniente para mim é uma coisa, mas a atitude ética a tomar é outra.

  2. Primeiramente parabéns pela iniciativa do blog. Leio aqui a bastante tempo mas não comento. Gosto da leitura, embora não concorde com tudo.
    Venho só expor um pequeno problema na sua opinião. Quando se assume que a definição de certo e errado tem caráter absoluto, se está fazendo uma simplificação, pois em algumas circunstâncias concretas a ideia de certo e errado não é assim tão clara. Existem vários dilemas na Filosofia do Direito que expõe este fato.
    De resto, ótimo texto.
    Abraço

    1. Grato pelo elogio! 🙂

      “Gosto da leitura, embora não concorde com tudo.” (Mindigo)

      Tranqüilo! Como eu digo na minha página de apresentação:

      Concorde ou discorde de mim não porque eu reafirmo ou contrario as escrituras que você considera sagradas, não porque eu digo o mesmo ou o oposto do que um professor em que você confia ensinou, não porque eu adoto ou refuto aquilo que a maioria pensa, mas porque você leu o que eu escrevi, entendeu, refletiu a respeito e se posicionou segundo sua própria inteligência, experiência e sabedoria.”

      Tá valendo. 🙂


    2. “Quando se assume que a definição de certo e errado tem caráter absoluto, se está fazendo uma simplificação, pois em algumas circunstâncias concretas a ideia de certo e errado não é assim tão clara.” (Mindigo)

      Existem três tipos de dilema:

      – Entre o errado e o errado;

      – Entre o certo e o errado;

      – Entre o certo e o certo.

      No primeiro deles não há como acertar.

      No terceiro deles não há como errar.

      Em todos os outros casos, que compõe 99% de nossa experiência, a diferença está no grau de compromisso das pessoas com a ética. Mas a maior parte das pessoas opta pela conveniência na maior parte das vezes.

  3. Concordo discordando, se é que isso é possível. Concordo que os dilemas são essencialmente estes, se analisado de uma maneira genérica, e se não considerarmos que certo e errado são medidas de comparação, pois entre algo certo e outro algo certo um seria mais certo do que o outro, de maneira que o segundo seria errado. O problema é que muitas vezes a coisa certa a se fazer não está clara, ou a modalidade de “dilema” em que o indivíduo se encontra não é suficientemente bem explicada. Só para ilustrar com um exemplo bobinho, tirado daquele livro do Michael Sandel, se você fosse um médico e tivesse cinco pacientes, cada um precisando de um órgão específico (coração, rim, fígado, pulmão, pancreas), e tivesse um paciente saudável, que fosse compatível com todos os outros doentes, seria certo matar o saudável e pegar seus órgãos para salvar a vida dos demais? Kant diria que não, mas Bentham diria que sim.
    Outro bom exemplo é o dilema da flauta. Se você tem uma flauta muito cara, e opta por doá-la, para quem você doaria? Para o melhor flautista, que a utilizaria bem, ou para a pessoa mais pobre, que poderia vendê-la e sair da pobreza? Aristóteles e Lao Tsé doariam para o melhor flautista, Stuart Mill possivelmente para a pessoa mais pobre.
    Torturar, em geral, é errado. Torturar um terrorista que sabe onde está escondida a bomba que pode matar centenas de pessoas, por sua vez, já pode ser considerado o certo a se fazer. Se o terrorista suportar a tortura própria, que tal torturar a filha de cinco anos deste mesmo terrorista para que ele conte onde está a bomba? Complicado…
    Se você partir do pressuposto que o certo a se fazer é sempre perceptível a primeira vista, a própria ética, como um estudo organizado dos preceitos morais, seria dispensável. Para que sistematizar e discutir algo que é óbvio?
    Mas concordo com o seu ponto quanto ao texto. De fato, as idéias ultra-relativistas são bastante deseducadoras. Na situação narrada do texto, o certo era óbvio, e a conduta dos professores e funcionários foi completamente equivocada.

    1. Meu deus, Mindigo, você é um forte candidato ao Prêmio Revelação dos comentadores desse blog esse ano, que eu estou organizando :O
      Me passe sua bibliografia, por gentileza.

    2. É, o Mindigo estreou bem. 🙂

      Vai me dar trabalho… 😛

      (Com pressa agora, amanhã volto e comento melhor.)

    3. Entre Kant e Bentham a escolha para mim é simples e fácil. Não reconheço sequer a existência de algo intitulado “ética utilitarista”. Se é utilitarista, não é ética.

      Entre Aristóteles/Lao Tsé e Stuart Mill o dilema é interessante. É uma flauta, certo? Então eu me inclino a seguir Aristóteles/Lao Tsé e doá-la para o melhor flautista. Se fosse um piano, para o melhor pianista. Se fosse um rifle, para o melhor atirador. Se fosse um carro, para o melhor motorista. Se fosse um navio, para o melhor marinheiro.

      Se fosse seguir Stuart Mill, a flauta iria para o sujeito mais pobre, o piano iria para o sujeito mais pobre, o rifle iria para o sujeito mais pobre, o carro iria para o sujeito mais pobre e o navio iria para o sujeito mais pobre, que por ser um coitadinho se sairia melhor sempre.

      Se estiver correta a análise dos autores feita pelo Mindigo, Aristóteles e Lao Tsé recompensam a excelência, enquanto Stuart Mill recompensa o coitadismo.

      Quem acompanha o blog sabe que eu jamais apóio o coitadismo.

      Eu prefiro fazer uma vaquinha entre o flautista, o pianista, o atirador, o motorista e o marinheiro e pagar um curso profissionalizante para o sujeito mais pobre, de modo que ele se torne o melhor programador – e aí dar um bom computador para ele.

      Já o caso do terrorista é mais complicado, mas tem limites. Torturá-lo numa “situação bomba-relógio” é discutível, mas torturar a filha dele de cinco anos não é. Que morram meio bilhão de pessoas, mas não se tortura uma criança para que o pai preste informações.

    4. É… é difícil isso.

      Ao escolher não torturar a criança você está condenando, entre o meio bilhão de pessoas, muitos milhões de crianças. Então a decisão fica entre você assumir e sujar as mãos com o sofrimento de uma criança ou lavar as mãos e permitir com sua decisão que milhões de crianças morram, sofram com doenças, vejam seus pais morrerem, fiquem na miséria, etc.

      Eu acho que sei o que faria. Entre ter um rostinho me torturando e milhões de rostinhos (e cadáveres) ficaria do lado destes. E transferiria a culpa pro pai dela, ao me colocar na posição de ter a tortura como unica chance de salvar milhões.

      Detestaria, mas faria. Mas é melhor nem pensar nisso.

    5. Aí é que está… a rigor só somos responsáveis por nossas ações, não pelas de terceiros. E se tu torturas a criança e o cara não cede mesmo assim?

    6. Eu teria tentado o que estava ao meu alcance. E acho que se fosse o responsável pelas decisões da segurança essa responsabilidade recairia não só sobre as ações como sobre as omissões.

    7. Vou ver se escrevo algo sobre tortura e situações bomba-relógio pra gente debater isso. 😉

    8. Bem que você poderia escrever um artigo sobre esse dilema do terrorista e seus desdobramentos éticos.

  4. Vira inconveniência a partir do momento que o o certo significa o próprio sofrimento ainda mais quando temos a lei de Gérson onde o neguinho sempre quer levar vantagem, certo?
    Partindo disso, por isso aquele caso em que o casal de morador de ruas entregou o dinheiro aos seus respectivos donos, virou uma coisa emblemática, não é?
    Realmente se porventura, eles resolvessem ficar com o dinheiro, eu não censuraria, não é fácil, seria um dilema para mim se estivesse na situação daquele casal.No entanto sem hesitar eles devolveram o dinheiro, mostrando que eles são dignos,além de éticos apesar da pindaíba que eles vivem, num país como o Brasil em que a falta completa de ética de uma minoria, aquela que é considerada elite do país faz o que faz. Dinheiro na cueca, dinheiro na meia, e orações da propina.Isso mostra que nem tudo está perdido.
    O exemplo daquele casal acaba demolindo de vez aquelas teses pomposas descrita por você no texto, afinal de contas se trata de um valor universal e não relativo como eles acreditam.

    Interessante observação do Mindigo com relação a tortura, apesar dos nossos tempos contemporâneos pós-modernistas ainda temos vários paradoxos, o engraçado em que criticamos a tortura no mundo a fora e esquecemos que torturamos também aqui bem debaixo do nosso nariz.

    1. Mas foi o que eu disse: se o que é certo é inconveniente, falamos de ética, se o que é certo é conveniente, não falamos de nada, porque não há conflito, não há do que falar.

  5. “se você fosse um médico e tivesse cinco pacientes, cada um precisando de um órgão específico (coração, rim, fígado, pulmão, pancreas), e tivesse um paciente saudável, que fosse compatível com todos os outros doentes, seria certo matar o saudável e pegar seus órgãos para salvar a vida dos demais? Kant diria que não, mas Bentham diria que sim.”

    “Torturar, em geral, é errado. Torturar um terrorista que sabe onde está escondida a bomba que pode matar centenas de pessoas, por sua vez, já pode ser considerado o certo a se fazer. Se o terrorista suportar a tortura própria, que tal torturar a filha de cinco anos deste mesmo terrorista para que ele conte onde está a bomba? Complicado…”

    Excelente os questionamentos trazidos pelo Mindigo.
    A saída pra esses dilemas não é fácil e desde sempre se tem que admitir que inevitavelmente haverá perda em alguns casos. A estratégia que eu mais gosto(tanto porque vem de encontro com o que eu defendo como por ser a melhor a LONGO PRAZO) é a respeito total aos princípios. Princípios como não matar e não torturar por exemplo. Entendam bem, NO VAREJO seguir sempre os princípios será materialmente ruim em alguns casos(por exemplo, no caso dos pacientes não se mata um e cinco morrem), mas NO ATACADO seguir sempre os princípios éticos é o melhor.
    Seguir os princípios éticos “seletivamente”, abrindo “excecões à regra” tem alguns problemas. Um deles é que HOJE, a decisão do que é excecão é do super homem, AMANHÃ tal decisão pode ser do Lex Luthor. Este risco SÓ é eliminado quando você segue os princípios sempre, mesmo nas situações de varejo em que segui-los tenha um resultado materiamente pior.

    1. Isso é bem kantiano. Tranqüilo e robusto, desde que a gente não faça uma leitura ingênua demais de Kant.

      Uma composição particularmente interessante para a estruturação de uma ética poderosa, robusta e que melhor resolve o dilema “justiça versus compaixão” é Kant + Regra de Ouro.

  6. Pensei muito se deveria explicar que na minha postagem anterior, super homem e Lex Luthor são meras metáforas. Isso seria desrespeitar a inteligência dos leitores do blog.

    1. Relaxa. O pessoal da casa sabe que muitas vezes é necessário explicitar o óbvio para evitar as interpretações criativas do brasileiro.

  7. Pra deixar bem claro, caro Arthur.
    Não estou contestando o que você escreveu com relação a inconveniência que ética traz consigo mesmo. Fazer o que é certo implica sua dose de sacrifício, uma vez que você abre mão do seu bem-estar em prol da coletividade ou se preferir da polis, daí a complexidade do tema fora os dilemas que ela traz em muitos casos. A ética reflete o caráter do grupo ou da pessoa em situações em que o pensamento e o ato tem implicações sociais fora as consequências.
    O que o Mindigo deixou escrito, é uma coisa ótima para se refletir e o tema da ética é isso: A reflexão.
    Muitas dilemas não tem solução, pois ela coloca a pessoa entre a cruz e a espada.Até que ponto vai a sua autonomia e a sua liberdade e qual o preço a se pagar por isso.Até que ponto você se coloca no lugar da pessoa, até que ponto vai a sua decisão e hesitação, e quanto a sua consciência cobra disso mais tarde, a culpa e responsabilidade estão juntas.


    1. “você abre mão do seu bem-estar em prol da coletividade ou se preferir da polis” (Alexandre)

      Não necessariamente. Às vezes a pólis toda se ferra por causa de uma decisão ética. Por exemplo, não torturar a filha do terrorista é uma decisão ética que não beneficia ninguém – ou, dependendo do ponto de vista, beneficia o terrorista… Mas continua sendo a coisa certa a fazer!

  8. Essa questão da “bomba-relógio do terrorista” merecia um artigo a parte.

    1. Tá na fila. 🙂

  9. Arthur, quanto ao problema do terrorista, você acha que não seria certo torturar a filha de cinco anos do terrorista, mas achou questionável a questão de torturar o próprio terrorista. Mas se você tivesse que optar, optaria por torturar o terrorista ou não?
    Importante também ser chato em um aspectos da discussão: 1) a teoria ética de Kant e a “regra de ouro” são logicamente inconciliáveis em alguns dilemas particulares. Digo isso porque a idéia central do Kant é que ninguém poderia ser usado como um objeto em um processo privado ou estatal, pois o ser humano é um fim em si mesmo. Todos devem agir de acordo com uma lei abstrata que queremos que se torne uma máxima universal. Quando mentimos, por exemplo, ainda que tenhamos uma boa intenção, estaremos usando a “vítima” da mentira como um objeto, e não como um fim em si mesmo. Não há, assim, o direito de mentir em nenhuma hipótese. Entretanto, a idéia da “regra de ouro” é diversa: queremos agir como o outro como queremos que o outro haja conosco. A divergência prática encontra-se no fato de que o correto, para Kant, é, essencialmente, objetivo, enquanto que para a regra de ouro é subjetivo (uso os termos aqui de uma maneira não muito correta, mas não sei bem como expressar a idéia, espero que tenham entendido). Agora o exemplo prático da incompatibilidade: se temos uma tia muito enferma, que pode infartar a qualquer momento, cujo filho foi assassinado, e ela nos pergunta “meu filho foi assassinado?”, para Kant devemos dizer que ele foi assassinado, aplicando a máxima da “regra de ouro” poderiamos cogitar de dizer que “não, ele está bem”, pois não gostariamos de receber esta espécie de notícia nesta espécie de estado emocional.

    1. Parte 1

      “se você tivesse que optar, optaria por torturar o terrorista ou não?” (Mindigo)

      Esse é o tipo de pergunta em cuja resposta eu não gosto nem de pensar. Mas acho que a resposta é “depende”.

      Por exemplo, há uma diferença muito grande em passar do limite com alguém que tem toda a cara de estar apavorado, jurando que não é quem a gente acha que ele é e implorando para que a gente acredite nele, e passar do limite com alguém que está alegre, provocativo e arrogante, contando vantagem de seu feito sórdido e debochando dos interrogadores.

      A ética não é uma ciência exata.

    2. Parte 2

      “a teoria ética de Kant e a “regra de ouro” são logicamente inconciliáveis em alguns dilemas particulares.” (Mindigo)

      Depende do nível de leitura, acho eu.

      Que tal se estabelecermos que o mais universal imperativo categórico de Kant é a própria Regra de Ouro?

      .
      .
      .

      Uma coisa que me preocupa na análise de Kant é que ele tem claramente dois níveis de leitura, um deles sendo o nível da universalização da ação em si e o outro sendo o nível da universalização do processo de análise que leva à ação em si em cada caso particular.

      Não conheço o suficiente sobre Kant para saber se ele mesmo analisou esta segunda possibilidade, ou em que grau de profundidade o fez, mas este segundo nível de leitura me parece muito mais importante que o primeiro, que ao invés de educação ética tende a formar dogmas.

      Por exemplo: é certo matar alguém?

      No primeiro nível de leitura de Kant, o imperativo categórico é “não”. Mas essa é uma leitura ingênua, à qual falta refinamento para lidar com situações específicas.

      No segundo nível de leitura de Kant, o imperativo categórico é “somente em legítima defesa”. Essa é uma leitura que exige uma análise de contexto, coisa que eu não vejo nos comentários que costumo ler sobre Kant – talvez porque não tenha me dirigido a um fórum suficientemente qualificado, não sei.

  10. Roberto Tramarim

    18/08/2012 — 21:29

    Só mais uma coisa, não é uma questão matemática, é o que nos torna humanos, é o que faz valer a pena viver, é o que faz hierarquicamente mais lógico salvar a humanidade.
    Se pra salvar uma sociedade é necessário torturar uma criança, então não há mais nada a ser salvo.


    1. “Se pra salvar uma sociedade é necessário torturar uma criança, então não há mais nada a ser salvo.” (Roberto)

      É. 🙁

    2. Não é.

      Seria uma situação triste mas a culpa não seria necessariamente da sociedade. Ou daquela sociedade.

    3. Tomara.

      Mas troca “sociedade” por “Estado” e deu pra bola.

  11. “Outro bom exemplo é o dilema da flauta. Se você tem uma flauta muito cara, e opta por doá-la, para quem você doaria? Para o melhor flautista, que a utilizaria bem, ou para a pessoa mais pobre, que poderia vendê-la e sair da pobreza? Aristóteles e Lao Tsé doariam para o melhor flautista, Stuart Mill possivelmente para a pessoa mais pobre.”

    Esqueci dessa! Bom, eu não doaria a flauta, eu a venderia a prazo para o melhor flautista. O melhor flautista com a melhor flauta certamente ganharia muito dinheiro e me pagaria a prazo pela flauta. Com o dinheiro eu posso ajudar uma pessoa pobre a sair da pobreza. Uma razoável saída pra se privilegiar o mérito, garantir a qualidade e ajudar quem precisa. Se somos a espécie dominante do planeta por termos inteligência superior a das demais espécies, não basta dizer tal superioridade intelectual tal qual um diploma na parede, é necessário justificar a dita superioridade intelectual. Pensar não dói ;)!

    1. EXCELENTE! 😀

    2. A parte de “justificar a dita superioridade intelectual” é algo que tem me incomodado muito.

      Minha vida tem sido ver que há um muro de concreto no meio da estrada antes de todo mundo no ônibus e gritar “cuidado, tem um muro de concreto no meio da estrada!”.

      Resultado: ninguém me dá atenção, continuam acelerando e quando batem no muro de concreto botam a culpa em mim “por não ter avisado do jeito certo”.

      Estou de saco cheio disso. Preciso urgentemente começar a vender flautas a prazo pra poder comprar e dirigir meu próprio ônibus.

  12. Postei este artigo como tópico na comunidade de Direitos Humanos do Orkut. Vejamos se vai aparecer alguém para comentar…

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: