Duplipensar é um conceito definido por George Orwell no livro “1984” para expressar a estratégia mental usada pelo partido opressor para aniquilar a lógica e a racionalidade enquanto instrumentos de análise da realidade e assim permitir e justificar as piores atrocidades praticadas pelo partido para manipular a opinião pública e manter-se no poder. 

Segundo o próprio George Orwell, duplipensar é: 

Saber e não saber, ter consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade, crer na impossibilidade da Democracia e que o Partido era o guardião da Democracia; esquecer tudo quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza derradeira: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra “duplipensar” era necessário usar o duplipensar.

Segundo a Wikipédia, há uma definição mais sucinta: 

Duplipensar é a capacidade de guardar simultaneamente na cabeça duas crenças contraditórias, e aceitá-las ambas. 

Duplipensar é o que faz a presidente da República afirmar que “o Brasil tem um duplo desafio: o de democratizar o acesso às universidades e o de manter um alto nível de ensino e a meritocracia.” (G1) Mais exatamente, Dilma teria dito: 

“O Brasil precisa fazer face frente a esses dois desafios, não apenas um. Nada adianta manter uma universidade fechada e manter a população afastada em nome da meritocracia. De nada adianta abrir a universidade e não preservar a meritocracia.” (Dilma) 

O problema, caríssima presidente biônica, é que não se pode maximizar duas variáveis ao mesmo tempo. É matematicamente impossível. (Ou seja, é impossível.)

Isso é exatamente o que torna irracional e tendente à tirania todo e qualquer sistema político baseado no clichê “o maior bem para o maior número”: por mais que os wishful thinkers insistam na desejabilidade do impossível, é exatamente porque a meta é impossível que a partir de um certo momento ela só pode continuar a ser perseguida por uma sociedade se esta sociedade se tornar irracional e tendente à tirania. 

Talvez isso fique mais claro observando a fala de Mercadante. Ainda segundo o G1, “O ministro afirmou ainda que os cotistas poderão receber auxílio da universidade caso tenham dificuldade em determinadas matérias e que as instituições terão de adotar políticas de inclusão. Mercadante defendeu a manutenção da ‘excelência do ensino’.” Mais exatamente, Mercadante teria dito: 

“Se nós queremos a inclusão social, nós queremos manter a excelência da universidade.” (Mercadante) 

Ora, toda população humana apresenta uma distribuição normal de inteligência e habilidades cognitivas. O que o governo federal do PT está fazendo é impedir o ingresso dos mais inteligentes e melhor capacitados e forçar o ingresso dos menos inteligentes e pior capacitados. Se a qualidade média dos componentes está sendo ativamente piorada, é evidente que a qualidade média do conjunto todo também será piorada. 

E a qualidade do ensino, ó...

O mais impressionante, entretanto, não é o fato de Dilma Roussef e Aloísio Mercadante desconhecerem completamente os conceitos básicos da matemática – ou ignorá-los propositadamente – e sim o fato de um tipo de pensamento evidentemente contraditório ser erigido como programa de governo e praticamente ninguém protestar com base na racionalidade. 

Protestar contra uma política absurda porque ela está sendo implementada por A ou por B não é relevante – a razão correta para protestar contra uma política absurda é porque ela é absurda! 

O que me parece particularmente problemático é que, enquanto o duplipensar orwelliano era uma violência imposta pelo Partido, o duplipensar brasileiro é uma conveniência muito bem-vinda pela maioria miserável da população, que aposta na (pequena) possibilidade de ganhos pessoais de curto prazo em detrimento da (grande) queda geral da autonomia pessoal, justiça, segurança e qualidade de vida no país em médio e longo prazo.

Mas triste mesmo é ver que uma parcela razoavelmente instruída da população não poupa esforços para conferir legitimidade e corroborar a suposta desejabilidade do modo duplipensante de fazer política.

Haverá quem pense que eu estou exagerando, mas para mim quem pratica ou legitima o duplipensar comete um verdadeiro crime contra a humanidade

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 30/08/2012

33 thoughts on “Duplipensar virou política oficial

  1. Arthur, eu não tenho argumento suficiente pra criticar o sistema de cotas, porque eu nunca parei pra pensar nisso, mas quando este assunto veio à baila eu lembro de ter pensado “isso não vai dar certo”, embora não saiba dizer exatamente o porquê.

    E eu também nem teria por que comentar aqui, ante a minha ignorância no assunto, mas esse método de afirmar algo para negá-lo logo em seguida está virando padrão nas altas esferas políticas, não? É a impressão que eu tenho ultimamente, enquanto acompanho melhor as notícias.

  2. Quando li a notícia também achei que ela estava querendo agarrar dois pombos ao mesmo tempo em uma situação em que só se poderia fazer tradeoffs entre um e outro. Mas daí achei que ela estava simplesmente fazendo política, fazendo discurso, e não levei tão a sério.

  3. Na universidade, mais importante que a bagagem que o aluno trás do ensino médio é a postura com que ele irá enfrentar a nova realidade do ensino superior. Desde que seja dado o suporte adequado com a devida cobrança, até pode funcionar. Mas desconfio que as cotas seguirão o mesmo caminho da inclusão de crianças deficientes no ensino regular, ie, joga no colo do professor e manda ele se virar.

  4. Putz!!!!!
    Isso é um verdadeiro exercício de autofagia.

  5. Vai ficar cada vez pior, temos problemas sérios no ensino fundamental que se infere no ensino médio e agora desaguará em berços esplêndidos nas universidades.Vamos nivelar tudo por baixo em nome da “democracia”.
    Podemos concluir que o projeto deles é alienação do povo, não tem outro termo, quem tiver, aceito sugestões.
    Estamos ferrado a longo prazo, vida longa aos camaradas do poder!!!!

  6. Hoje eu soube de uma coisa:
    Na Alemanha, o que a gente chama de Ensino Médio lá eles separam em quatro “módulos”: Hauptschule, Realschule, Gesamtschule e Gymnasium. O primeira é um curso, digamos, pra alunos-problema, por exemplo alguém meio lerdo ou meio briguento. O segundo tem um nível um pouco melhor do que o primeiro, e o quarto é indicado aos alunos que parecem estar aptos a seguir carreira acadêmica. Já o terceiro é uma mistureba dos outros três. Por um motivo o qual eu já esqueci, todos os tipos de alunos são enviados à Gesamtschule, desde o inteligente que não foi pro Gymnasium até o lerdinho ou o bagunceiro que não foi pra Hauptschule. Pois bem, nessas escolas a principal reclamação dá conta que os alunos mais preparados não conseguem desenvolver suas habilidades por causa dos alunos mais atrasados, o que nivela a coisa toda por baixo, porque tecnicamente não dá pra dar uma aula avançada pra uma turma onde 1/3, digamos, não vai entender nada. O contrário dá pra fazer, claro.
    Logo após o comentário da professora, eu e a colega que estava ao meu lado comentamos uma com a outra, quase instantaneamente, que essa Gesamtschuleparecia muito com o sistema de cotas…

    1. e se um aluno do Hauptschule ou do Realschule começar a se destacar, ele vai pro Gymnasium? Ou vai ficar fazendo um ensino médio meia-boca?

    2. e se algum aluno do Gymnasium ir mal nas notas, ele é rebaixado?

    3. Nosso ensino médio também é assim: primeiroanochulé, segungoanochulé e terceiroanochulé.
      Brincadeiras a parte, e já disse isso em outros posts, a maior desgraça do ensino brasileiro foi a união das turmas com bons e maus alunos na esperança que os bons puxassem os maus.

    4. no Brasil se separarem uma turma de bons e outra de ruins, todas as turmas de ruins vão se juntar e criar um movimento social exigindo cotas nas universidades porque não tiveram acesso a um ensino de qualidade… kkk

    5. Wagner, as duas coisas podem acontecer. Há um período, digamos, experimental, de cerca de dois anos, onde as “capacidades” são avaliadas. Mas o mais “usual” é que um aluno do Gymnasium decaia. Para que um aluno da Hauptschule ou da Realschule “suba”, é preciso que ele seja muito, mas MUITO esforçado, para que fique provado que ele está na escola errada. Já para “cair” do Gymnasium é mais “fácil”.
      Este sistema tem lá suas críticas porque as crianças são selecionadas com 10 anos [nos estados de Berlin e Brandenburg a idade é 12 anos, daí o “período experimental”]. Mas aparentemente dá certo.

    6. Independentemente deste método específico, uma coisa é certa: misturar alunos com interesses e capacidades muito diferentes invariavelmente nivela por baixo. Uma catástrofe.

    1. as vezes é preciso criar palavras diferentes pra diferenciar o que é parecido…

      por exemplo, pra quem vê de fora nudismo e naturismo é tudo “andar pelado”, o mesmo vale pra ocupação e invasão…

      outro erro do conde é que a diferença entre invasão e ocupação não foi criada pela esquerda, são termos militares que existem desde antes da usp e do mst, o que a esquerda fez foi aplicar essa distinção na política…

  7. O que é a religião? Mencanismo de dominação das elites sobre as massas. O que é o amor paterno? Escravização dos pais sobre as crianças. O que é o casamento? É a escravização das mulheres pelo patriacado. É claro que isso é baseado no ódio, na mágoa.

  8. O individuo que odeia todos os valores de civilização, odeia tudo que humanidade produziu de mais belo e de demais sublime e resolve subverter-la é uma pessoa doente. A novilíngua é um mecanismo de engenharia social que foi planejado a décadas.

  9. A vida (e não a matemática!) comprova que o casamento é uma fórmula em que a soma de duas unidades resulta em um e meio. (Ilustrando: 1 + 1 = 1,5!) Ou cada um admite uma auto redução para 0,75 ou nunca haverá igualdade ou uma união estável. Um inteiro mais metade de um sempre gerará assimetria. E teremos a submissão do escravo (ou, no máximo, o ideal sado-masoquista). Se a soma ultrapassar o um e meio haverá choque e ruptura, ou, em casos extremos, tragédia. Isso juntando dois indivíduos que, a princípio se gostam muito. No varejo podemos afirmar, sem correr o risco de sermos paradoxais, que a igualdade é muito mais deferente!

    Há a necessidade da diversidade! As capacidades e as necessidades são diferentes. O tabuleiro exige a presença dos peões para que as peças maiores evoluam. O movimento de cada um é seu atributo. E pode ser a sua riqueza. Mas há momentos que a dama deve ser sacrificada para manter um peão vencedor! Uma sociedade que teima em enfiar todos em uma faculdade de engenharia jamais terá bons e felizes encanadores. E sem nunca cair na realidade terá multidões de diplomados entrando pelo cano.

    Não acredito num sistema que aprova todos até o terceiro ano mesmo que não tenham sido alfabetizados. Não acredito num sistema que considera a faculdade o ideal universal do saber. Não acredito num sistema que desconsidera a obviedade de que a capacidade mental humana não é uniforme. Não acredito num sistema que não oferece opções educacionais proporcionais às possibilidades cognitivas individuais.

    1. O casamento é uma matemática engraçada onde dois viram um e um vira nada.

    2. [2]-zão pro Romacof! 🙂

      Mas os dois erraram sobre o casamento.

      No casamento, 1 + 1 costuma dar 3, 4, 5… 🙂

  10. não se pode maximizar duas variáveis ao mesmo tempo. É matematicamente impossível.

    Eu entendi o que você quis dizer, mas isso só é verdade se as variáveis tiverem uma correlação inversa.

    1. O que é o caso.

  11. André! É mais ou menos nessa linha zen que se chega ao orgasmo, embora (acho!) a intenção do Arthur não seja provocar divagações sobre o casamento (ou sobre cotas!). Acredito que a intenção seja pensar sobre o discurso oficial (tentando não sentir dor!) que aponta em duas direções excludentes e esquece que tudo na natureza usa o chapéu de Gauss.

    1. Só o que eu quero é um pouco de coerência, porque sem coerência não há viabilidade!

  12. Não acredito num sistema que considera a faculdade o ideal universal do saber. [romacof]
    Pois é, eu vejo muito disso onde eu estudo, que deveria ser um dos “celeiros” de mentes pensantes. Estas criaturas só se interessam pelo diploma porque “precisa fazer faculdade”, e não aproveita esse tempo pra pensar na vida, no universo e tudo o mais. Daí temos um bando de gente com diploma na mão que serve de “inocente útil”, usando uma expressão do Arthur.

    1. Rindo muito aqui com a referência a pensar “na vida, no universo e tudo o mais”. 🙂

  13. Rafael Holanda

    02/09/2012 — 12:16

    Tá aí. Seria uma boa uma série de artigos comparando as tendências do governo brasileiro com a obra de Orwell.

    O outro artigo poderia ser sobre a novilíngua, ou como 50% da população ainda é considerada “minoria social”.

    1. É… 52% é “minoria”… 😛

  14. A novilíngua é a própria essencia da mentalidade revolucionária, a falsificação da realidade. O que é a mentalidade revolucionária é um individuo ou meia duzia deles que se acham os eleitos pela história que tem o dever de reforma toda a sociedade a sua imagem e semelhan ça, o que nenhum grupo de pessoas deveria ter esse direito.

  15. Veja o nosso congresso onde meia duzia de revolucionários que se arrogam no direito a ditar como 190 milhôes de pessoas devem se comportar. Não pode portar armas, tem que falar presidenta e não presidente, os pais não podem da uma tapa no filho, a mulher tem o direito de assassinar o filho no ultero e etc.

  16. ” uma conveniência muito bem-vinda pela maioria miserável da população, que aposta na (pequena) possibilidade de ganhos pessoais de curto prazo em detrimento da (grande) queda geral da autonomia pessoal, justiça, segurança e qualidade de vida no país em médio e longo prazo.”

    É como o invidividuo que pula do prédio achando que é super home curtindo aquela brisa momentânea sem saber que vai se esborrachar lá na frente.

  17. A última foi a “invasão” do campus da USP onde eles chamavam de ” ocupação”.

  18. Comissão da verdade, no livro de Orwell se chama minitério da verdade, será coincidência, kkk..

  19. Nelson não aprende, rsrs.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *