Um cardiologista prescreveu SEIS diferentes medicamentos para o pai de um amigo meu. Fiquei preocupado com esse número. Gostaria de saber se mais alguém percebe e entende o problema do mesmo modo que eu. 

Minha preocupação é com as possíveis interações medicamentosas. Quando utilizamos um único medicamento, não há com o que se preocupar em termos de interações, mas quando utilizamos dois ou mais medicamentos sempre há que se ter cuidado com a possibilidade de interações adversas – ou interações complexas demais ou inesperadas que podem se tornar adversas devido a sua imprevisibilidade. 

No caso em tela, o número de interações medicamentosas possíveis é definido pelo somatório de todas as possíveis combinações entre seis medicamentos – e não são poucas. 

O total teórico, salvo alguma confusão devida aos vinte e oito anos desde que fiz um cálculo destes pela última vez e ao fato de eu ter feito a conta somente uma vez e de cabeça (corrijam-me se eu errei), é o somatório de n-1 combinações de n elementos combinados p a p, ou seja, o somatório de (n!/((n-p)!p!) onde n=6 e p varia de 2 até 6, portanto 15 + 20 + 15 + 6 + 1 = 57 combinações distintas, cada uma representando uma possível interação diferente.

Eu particularmente duvido que o médico que prescreveu todos estes medicamentos conheça sequer as primeiras 15 interações possíveis (A com B, A com C, A com D, A com E, A com F, B com C, B com D, B com E, B com F, C com D, C com E, C com F, D com E, D com F e E com F). Supor que ele possa prever todas as possíveis interações três a três, quatro a quatro e cinco a cinco, além da interação de todos com todos, a julgar por todas as conversas que tive com todos os médicos com quem conversei na minha vida, não me parece realista. E, no entanto, ele prescreveu isso. 

Na minha sempre nada modesta opinião, devidamente fundamentada acima, este médico não sabe o que prescreveu, não tem como prever os resultados de sua prescrição e não teria condições de fazê-lo mesmo que fosse o Dr. House com o cérebro turbinado. 

Quem concorda comigo que isso gera um risco da mais alta gravidade? 

E que sugestões os leitores teriam a fazer para resolver este problema? (As minhas serão apresentadas em breve em um artigo específico para isso.) 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 05/09/2012 

18 thoughts on “Interações medicamentosas

  1. O artigo ficou cerca de uma hora sem poder ser comentado… Não sei o motivo! Ando com problemas de conexão – a internet 3G da TIM é tão ruim quanto ou ainda pior que a internet 3G da Claro – e outros probleminhas que me impossibilitaram acessar a internet nas últimas 72 horas, mas estou de volta e vou tentar responder os comentários não respondidos dos últimos cinco dias entre hoje e amanhã.

  2. Não tenho formação médica, toda vez que alguém de casa toma remédio, pede a mim que leia a bula. Com um remédio tem n quantidades de efeitos colaterais que a princípio são esperados. Já fico assustado com os efeitos.O mais preocupante se a pessoa não tolerar o princípio ativo do remédio e acaba tendo um choque anafilático, em outras palavras ao invés de combater os sintomas ou a causa, acaba criando outros problemas. O remédio pode virar é veneno, simples.
    Esse médico só pode estar é maluco, seis remédios é demais, isso é um verdadeiro cocktail Molotov. Deus me livre de uma coisa dessa. Nem pensar uma coisa dessa. Pelo jeito esse médico não pensa, ele viaja na maionese.
    Torço pelo pai de seu amigo. Qualquer novidade nos noticie.

    1. Quem lê bula não toma remédio. 😛

      Mas veja bem, eu não acho que este médico em particular seja irresponsável. Ele segue os cânones da medicina, como mais abaixo podemos ver no depoimento do Romacof. O problema está na complexidade do organismo humano e no fato de que nenhum ser humano consegue mais reter todo conhecimento disponível sobre ele, sendo impossível prever além de certo ponto a eficácia de qualquer intervenção.

  3. conheço gente que tomava 9 remédios pra depressão e outros problemas na cabeça kkk

    1. NOVE remédios para depressão?

      Bota um tigre correndo atrás dessa pinta e me diz se ele/ela não vai ficar bem animadinho/a. 🙂

  4. Putz!!!!! Satisfaça uma curiosidade minha. Essa pessoa que tomava 9 remédios ainda está viva(o)? Segundo me consta a pessoa que toma remédio para depressão, fica com a vida sexual prejudicada, enfim se for homem, o dito cujo de baixo fica literalmente cabisbaixo.

    1. ainda tá viva sim, e não toma mais remédio, sobre a vida sexual eu não tenho informações aushasuhauh

  5. Bom,dos tantos medicamentos receitados pelo cardiologista,só tomo dois.

    Consultei vários amigos médicos e todos me disseram a mesma coisa:medicação preventiva.

    Discordo dela.

    Dos tantos remédios só preciso de dois propranolol e AAS-100.

    Não entendo isso de tomar remédio sem ter a doença.

    Assumo os riscos,vou morrer cedo ou tarde,não tem remédio que impeça isso,rs.

    1. Hmmm… Eu não vejo problema em tomar uma medicação preventiva. O problema é conhecer realmente todos os efeitos possíveis de cada medicamento e as possíveis interações.

  6. Você não viu gente hipocondríaca, às vezes por mera sugestão dizendo por exemplo que está pálido e logo acredita que está tendo sintomas e que aquilo é o começo. Pra isso é que serve os placebos, você dá para o sujeito e rapidinho ele melhora.

    1. Placebo é um medicamento excelente para hipocondria. 🙂

  7. Caro amigo (com tendência à iatrofobia) 😀 ! É bom ficar claro que não foram citados em seu post os medicamentos que o cardiologista prescreveu para o pai do seu amigo. Já vi receitas com planilhas de horários que poderiam causar inveja a complexos sudokus, mas, circunstancialmente, tais aberrações se fazem necessárias. Sou a prova viva (e possivelmente viva só por causa disso) de que na área cardiológica você necessita acreditar no profissional que mandou você fazer acrobacias sem treino e sem rede no Cirque de Soleil . Um hipotensor, mais um beta-bloqueador, mais um vaso-dilatador, mais um antiplaquetário, mais um abaixador para o colesterol e outro para os triglicerídeos, e isso se você não for diabético e se a glicemia não teimar em responder apenas a dois ou três hipoglicemiantes combinados, sempre torcendo para que não haja nenhuma intercorrência (com a graça do cara que cuida dessa joça, e que ele seja louvado, amém!), e nunca se dando ao luxo de ter fricotes. (Um panicozinho, vá lá! Mas é só!)

    Claro que alguém dirá que dislipidemias e hiperglicemias se concertam com dieta e exercícios, e doenças cardiovasculares acontecem por que os pacientes não foram previdentes. Da mesma forma que cada povo tem o governo que merece e ninguém envelhece na juventude. O fato é que eu estou dos dois lados da questão! Como paciente e como médico! E sei de todas as interações possíveis, e efeitos colaterais, e riscos de superdosagens, e doses letais, e vias de absorção, e vias de eliminação, e possibilidades de saturação, e níveis de fixação nas proteínas plasmáticas, e controles de transaminases, e provas periódicas de função renal, e não queira saber do tamanho da porra do nó que isso dá na cabeça e na consciência de quem tem a pretensão de ser correto. Sei, inclusive, quais os laboratórios fajutos, e quais os medicamentos que o governo fornece e que são de mentirinha. E digo que a corda bamba do prescrever, com todos os riscos em potencial, não perde em nada para a de tomar.

    Acho que o erro não está em prescrever seis medicamentos, e sim em não ter explicado o porquê de cada um deles. Mesmo que seja mentindo bem e convincentemente!


    1. “Sou a prova viva (e possivelmente viva só por causa disso) de que na área cardiológica você necessita acreditar no profissional que mandou você fazer acrobacias sem treino e sem rede no Cirque de Soleil. Um hipotensor, mais um beta-bloqueador, mais um vaso-dilatador, mais um antiplaquetário, mais um abaixador para o colesterol e outro para os triglicerídeos (…)” (Romacof)

      Sabe o que me assusta? É que às vezes isso dá certo, claro. Mas quem garante que um monte de gente que morre tomando estes coquetéis não morre justamente porque acreditamos nos rótulos ao invés de lembrar que nenhuma substância “sabe para onde deve ir e o que deve fazer”, como diziam meus avós?

      Nós não lembramos que não existe um “hipotensor”, um “beta-bloqueador”, um “vaso-dilatador”, um “anti-plaquetário”, um “hipoglicemiante”, etc. O que existe são a substância A, que entre outras coisas baixa a tensão, a substância B, que entre outras coisas tem um efeito beta-bloqueador, a substância C, que entre outras coisas relaxa as artérias, a substância D, que entre outras coisas reduz a aglutinação das plaquetas, a substância E, que entre outras coisas reduz a glicemia… e que entre essas tantas outras coisas que cada substância provoca algumas podem interagir de modo qualitativamente inesperado e quantitativamente não-linear, produzindo como efeito ninguém sabe o quê. E que isso pode levar à morte. E que essa morte será catalogada como “que pena, não deu pra ajudar esse” ao invés de entrar em grandes bancos de dados internacionais continuamente manipulados por megamainframes com Teraflops e Petabytes de capacidade em busca de correlações multivariadas que nenhum ser humano jamais descobriria com seu limitadíssimo cérebro primata.

      Minha bronca não é com a medicina, é com o maldito primata prepotente que se autodenominou “sapiens” e na verdade mal e porcamente consegue reconhecer suas próprias limitações e utilizar as ferramentas que cria de modo responsável e seguro.

  8. Caraca!!! Isso é assustador…
    Doença cardíaca é muito complexo e suas consequências mais ainda, Esse depoimento é bastante esclarecedor.
    O último parágrafo dá respaldo ao paciente ao invés de simplesmente ficar resignado é bom se esclarecer, afinal de contas é o seu corpo que está em xeque, portanto perguntar não ofende.

    1. O problema é encontrar um médico como o Romacof. Ou um engenheiro como o Romacof. Ou um professor como o Romacof. Ou um administrador público como o Romacof. Se desse pra clonar o Romacof com mente e tudo, daria para construir um país bem mais compassivo, racional e seguro. Mas podes ter certeza que a primeira utilidade que vão dar à clonagem desse tipo será a do episódio II de Guerra nas Estrelas. Esta é a humanidade.

  9. Oi Arthur, tudo bem com você? Espero que sim. Só pra te assustar um pouco mais com a medicina, na semana passada fiquei sabendo que uma criança de 8 anos que internou no hospital devido a uma inteiração medicamentosa, essa foi prescrita por um médico pediatra de Porto Alegre, a mesma permanece em estado grave na UTI. Eu acabei fazendo odondo e só após 20 anos de clínica de adulto, me sinto em condições de fazer Odontopediatria, gostaria que os profissionais da área da saúde fossem mais conscientes. Abraço.

    1. Tudo legal aqui. Problema superado. Mas esses episódios são mais comuns do que parecem, sabias? Eu mesmo já tive casos graves na família. Não é mole. Volta sempre, Gabriela!

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