De vez em quando pinta um texto sobre religião aqui no blog. Era inevitável que, mais hora ou menos hora, alguém me perguntasse no que eu de fato acredito. Tranqüilo. Eis aqui a explicação. 

Eu acredito que o Universo faça sentido.

Metafisicamente.

É isso aí. É uma crença irracional, porque não tenho como fundamentá-la nem tampouco é possível chegar a lugar algum por reductio ad absurdum dela ou de seu oposto. Um axioma a la Gödel.

Esta simples crença, todavia, é suficiente para alicerçar toda minha moralidade e toda minha atuação no mundo. Não preciso de preceitos, de revelações, de experiências místicas. Este axioma me basta.

Se o Universo não fizesse sentido algum, não vejo como seria possível ancorar a lógica, a ciência, a moralidade, a ética, a política ou a economia em qualquer coisa que o fizesse.

Um mundo assim desprovido de sentido estaria dividido entre e provavelmente somente duas correntes correntes filosóficas: o niilismo e o hedonismo. Como o niilismo não é lá muito eficiente em se reproduzir, sobraria – ou dominaria – o hedonismo em suas variadas formas, algumas extremamente amorais e por isso mesmo com poucos entraves para ampliar seu domínio sobre a disponibilidade de recursos hedônicos.

Despojada de consideração para com os outros e para com o futuro, o tipo de política predominante seria corrupta, hipócrita e falaciosa, e a economia seria dominada por grandes grupos cuja principal preocupação seria tão somente acumular recursos e poder, onde a lealdade para com aquele que enfrenta dificuldades seria mínima.

Em um mundo assim, a promessa de algum tipo de “salvação” através de preceitos simples, mecânicos e acríticos seria valiosa, pelo que passaria a ser explorada ativamente por espertalhões egoístas com alto poder de persuasão e fanatização de seguidores. Qualquer tradição que supostamente representasse “A Palavra de Deus” floresceria e arrecadaria fortunas com promessas mirabolantes a serem cumpridas após a morte.

E as poucas pessoas que achassem que o Universo tem algum sentido, ou que pelo menos é preferível viver como se ele tivesse algum sentido, porque pelo menos assim nos importaríamos de fato em proporcionar a cada um de nós mesmos – a humanidade – uma existência mais segura, mais confortável e mais feliz, seriam consideradas loucas, como se por não haver um sentido fizesse sentido condenar a maioria ao sofrimento enquanto uns poucos usufruem as maiores benesses de um breve espasmo de vida que vem do nada e vai para o nada.

Mas peraí!

Esse é exatamente o retrato do mundo atual!

É assim, então, que eu descubro que o planeta está do jeito que está porque, para a maior parte das pessoas, o Universo – e suas próprias vidas – simplesmente não têm sentido algum

Enfim, pelo menos em um ponto todos concordamos: eu também acho a minha crença irracional melhor que as outras… 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 14/09/2012 

28 thoughts on “Minha única crença irracional

  1. Manga-Larga

    14/09/2012 — 18:01

    Gostei do artigo Arthur, muito filosófico e profundo, gostei do jeito que você usou a recursividade.

    No meio do artigo quase que eu interrompo a leitura e escrevo um comentário lembrando que o mundo é bem como descrevestes.

    Quem sabe isso signifique que o universo não faz mesmo sentido? Aliás, é uma das bases da entropia, onde tudo tende ao caos. Eu sei lá se somos providos da aparelhagem sificiente pra entender o universo, quem sabe pra algum ser supremo toda esse caos faça sentido, mas não para nós.


    1. “Eu sei lá se somos providos da aparelhagem suficiente pra entender o universo” (Manga-Larga)

      Acredito que não. Mas acredito também que não seja necessário compreender o Universo em sua totalidade para escolher um guia de conduta. Um guia instrumental, baseado naquilo que conseguimos entender, é o máximo que podemos obter – e não é muito razoável nos exigirmos mais do que isso. O que me incomoda é que a maioria não está nem aí para Um Sentido enquanto guia de conduta, o que nos leva a um estilo de hedonismo altamente contraproducente para a grande maioria.

  2. “Sentido” em que sentido?

    1. Metafisicamente falando.

    2. Explica melhor. O que significa dizer que o universo faz sentido?

  3. Não seria uma crença irracional, não temos o conceito do belo? Então o universo pode ser o caos, pode ser a ordem. O universo pode ser o cosmo, aliás o cosmético é originário da palavra cosmo. Pode ser o fim ou apenas um começo. O que você descreveu é um verdadeiro exercício de ontologia. Isso é metafísica, afinal de contas é percepção que você tem da realidade. Se a partir do momento em que sua crença perde valor, então significa que você atingiu justamente o estágio do epistemologismo niilístico, justo o niilismo que tanto quer se desviar. É questão de perspectiva.
    É o que eu sinto ao mesmo tempo em que reflito.

    1. O belo também não é um tanto irracional?

  4. Depende de quem a contempla, não? Assim como o gosto de cada um. Como reitero é tudo questão de perspectiva.

  5. Eu gosto mesmo é do lindinho do Mário Quintana dizendo que ‘o importante não é saber se a gente acredita em Deus, mas se Ele acredita em nós…’ 😉

    1. É, aquele safado duzinferno tinha umas tiradas boas.

      Todo mundo pensa que Mário Quintana era um velhinho queridinho… hehehehe… Que nada, ele era o Gregório de Mattos Guerra gaúcho! 🙂

  6. Eu acredito que o Universo faça sentido.
    Mas creio que o meu limitadíssimo cerebro humano jamais conseguirá compreender a complexidade do sentido do Universo ou do Multiverso(se existir). Admito não ter capacidade pra calcular conceitos como eterno ou infinito por exemplo. Por uma razão muito simples; como eu mesmo disse, o cerebro humano é limitado. Eternidade, onipotência, onipresença, absoluto e infinitude extrapolam o límite do cerebro humano. Um humano pode calcular uma ordem de grandeza, não o TUDO em sí.
    Então nem esquento muito a cabeça com este assunto.

    1. Eu esquentei a cabeça com esse assunto até encontrar uma fundamentação que considerei adequada para um código de conduta coerente e sólido. Achei, fiquei tranqüilo. Agora só preciso salvar o mundo. 😛

  7. Vc talvez não concorde, claro, mas acho q a frase:

    “Eu acredito q o Universo faça sentido.”

    passa a impressão de q vc não acredita muito nisso. ¿Por quê? Pq vc usa ‘faça’ em vez de ‘faz’. Usou uma dessas regras gramaticais gerais, q geram mal-entendidos: “após ‘que’, usar o subjuntivo.”

    Acho q, em português claro, o q vc quis dizer foi:

    “Acredito q o Universo faz sentido.”

    Com o subjuntivo ‘faça’, a frase soa como “acredito ser possível q o Universo faça sentido”, q não soa muito confiante.

    Note a diferença entre estas duas:

    “Acredito q João seja honesto.”
    “Acredito q João é honesto.”

    A primeira demonstra uma ponta de dúvida q contradiz o q ‘acredito’ quer dizer.

    1. Sinceramente eu não tinha olhado por este ângulo. Criei a frase espontaneamente, embarquei no subjuntivo por causa do “que” (que eu faça, que tu faças, que o universo faça), não tive a intenção de passar dúvida.

      Mas quer saber de uma coisa? Eu tenho sim uma ponta de dúvida. Calhou de o subjuntivo ser mais adequado do que eu pensava. 😛

      Adorei a reflexão. Se encontrares outra do gênero aqui, põe a boca no trombone de novo! 😉

  8. Eu acredito…no que ninguém acredita,e isso faz muito sentido para mim,rs.

  9. Acabo de acrescentar a palavra “metafisicamente” no corpo do artigo. Isso havia sido respondido na caixa de comentários e achei o esclarecimento tão importante que decidi incluir a informação no corpo do artigo. Faço o registro para que os comentários feitos naquele artigo até o presente momento não pareçam inadequados por desconsiderar este dado.

    1. Sim, é perfeccionismo meu. 🙂

  10. Uma sugestão neotaoísta:

    Que tal “eu acredito que o Universo faça sentido
    Mas é possível que esse sentido não possa ser definido ou expressado”?

    Talvez seja por ai.

    1. Hehehehe… Não, eu prefiro assumir meu axioma de modo transparente a tentar maquiá-lo com ares de pseudo-respeitabilidade. 😉

    2. BUÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ… snif 🙁

      Magoei!

    3. Afff… 😛

      Gerson, a tua sugestão implicaria reconhecer que existe algo no mundo fenomênico que esteja além da capacidade de descrição no mundo fenomênico. Se a gente abrir essa brecha, fica sem argumentos coerentes para refutar os mágicos, adivinhos, videntes, telepatas, transcomunicadores, médiuns, incorporadores de espíritos e outras entidades, bruxos, adoradores de duendes, etc.

    4. Eu nem disse isso de forma absoluta. Eu apenas abri a possibilidade de que haveria algo que o intelecto não poderia entender.

      Esses fenômenos ai descritos tem efeitos que podem ser observados e avaliados, testados e refutados. O sentido do Universo talvez não.

    5. Uma coisa tipo assim a incompletitude de Gödel?

    6. Por ai. É só intuitivo, mas partindo da Relatividade incluindo o Princípio da Incerteza e chegando à teoria do Caos, tudo parece indicar que não dá pra parte intelectual abranger tudo, que sempre vai faltar algo. Que sempre falta algo pra saber tudo (e ai tou falando do mundo fenomênico), não dá pra recolher todos os dados, que quanto mais se olha algo mais se perde o resto. Como o pontinho Yin no extremo Yang e vice-versa.

      Quando se trata de algo que talvez esteja alem desse mundo, ou que talvez seja pessoal, subjetivo e varie de pessoa para a pessoa como o sentido da vida acho que pode ser ainda mais difícil.

      Talvez o Monty Pyton tenha a resposta. Talvez não. Mas na dúvida é bom não comer o último raminho de salsa.

    7. Isso tudo supondo que meu axioma esteja correto. Se não estiver, estamos até com sorte perto do que o mundo poderia ser.

  11. Arthur! Não é relevante que o nosso cérebro entenda o universo ou suas infinitudes matemáticas que permitem pensar na metafísica como corrente explicativa. Basta viver como se isso fosse uma possibilidade. Não é importante que faça sentido, mas apenas que a possibilidade de um sentido exista. No lado negro da força há o status quo do nadismo predominate e sufocante. Se formos extintos num brochante beco sem saida evolutivo é sinal que estávamos errados… ou muito possivelmente!

    1. Sim, para todos os efeitos práticos é isso mesmo. Uma coisa meio “aposta de Pascal” bem mais profunda.

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