Este artigo poderia se chamar “as conseqüências políticas do refinamento gorilesco“, mas hoje é a data comemorativa da Revolução Farroupilha e feriado (nacional) estadual no Rio Grande do Sul, então o título menciona uma das frases do Hino Riograndense. 

Hino do Rio Grande do Sul

Como aurora precursora
Do farol da divindade
Foi o 20 de Setembro
O precursor da liberdade

Mostremos valor constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra

De modelo a toda Terra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra

Mas não basta pra ser livre
Ser forte, aguerrido e bravo
Povo que não tem virtude
Acaba por ser escravo

Mostremos valor constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra

De modelo a toda Terra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra

O fenômeno subjacente, entretanto, é o mesmo nos dois casos. Vamos direto ao ponto. 

Um povo que não cultiva a virtude – seja por que motivo for, incluindo a falta de refinamento necessário para perceber o valor da virtude – torna-se escravo tanto dos próprios vícios quanto dos indivíduos ou grupos suficientemente refinados para perceber a oportunidade e explorar os vícios do povo. 

O povo brasileiro culpa os políticos pela corrupção e pela má qualidade dos serviços públicos no Brasil. Mas isso tudo é culpa dos políticos? Não. A culpa é do próprio povo brasileiro. 

Vivemos em um país onde há uma democracia formal perfeitamente funcional – na verdade um sistema muito bom – no qual 100% dos políticos são eleitos diretamente pelo povo. Se ano após ano após ano o Brasil afunda na corrupção e na péssima qualidade dos serviços públicos, isso é escolha do povo brasileiro.

Povo que não tem virtude acaba por ser escravo – no caso de uma democracia, escravo de seu próprio descaso para com os assuntos do país. Não por outro motivo ao longo dos tempos diversos pensadores produziram variantes da frase “quem não gosta de política é governado por aqueles que gostam”. 

Eu vejo pessoas reclamarem que “não têm tempo” para fazer política. Ah, você não tem tempo para fazer política? Tudo bem, mas também não desperdice seu tempo reclamando da política. Ou você quer que “os outros” façam para você as coisas funcionarem do jeito que você gosta sem que você se digne nem sequer a gastar um mínimo de seu tempo para fazer valer a sua vontade? Espere sentado. 

Esse fenômeno – não desenvolver as habilidades ou virtudes necessárias para controlar de forma minimamente eficaz o ambiente do qual depende sua vida e sua qualidade de vida – explica não somente o atoleiro moral da política brasileira, mas também a maior parte das dificuldades pelas quais as pessoas passam. 

Tenho uma amiga que comprou o ponto de um estabelecimento comercial que atuava em uma área da qual ela não entendia patavinas. A antiga dona continuou trabalhando como funcionária, porque gostava do serviço mas não da administração (pagar o aluguel e as contas, atender fornecedores, zelar pela manutenção dos equipamentos, fazer propaganda, etc.). Minha amiga, achando que por ser dona do negócio podia apenas dar ordens, mandou a antiga dona continuar lidando com estas questões. Resultado: a antiga dona simplesmente abandonou o barco – e ainda avisou todas as clientes que passaria a atender em casa. Minha amiga, por não querer aprender a gerenciar seu próprio negócio, acabou com uma sala vazia em mãos, com diversas despesas fixas e sem clientes. Ela culpa “a sorte”, mas de quem foi a verdadeira culpa pela falência dela? Quem não tem a virtude do gosto pelo aprendizado acaba escravo do conhecimento alheio. 

Uma outra amiga que numa certa noite reclamou que estava com dor de dente. Como não havia possibilidade de obter atendimento adequado naquele horário, eu dei a ela um anti-inflamatório para ela agüentar a noite e procurar atendimento pela manhã. Alguns dias depois eu voltei a vê-la e ela reclamou novamente da mesma coisa. Eu perguntei: “mas tu não buscaste atendimento no dia seguinte?”. Resposta dela: “não precisou, a dor tinha passado!” Eu expliquei que a dor podia ter passado por um pequeno período de tempo, graças ao anti-inflamatório, mas que o problema continuava lá, só tinha ficado mascarado, ela precisava procurar um dentista – e dei a ela mais um anti-inflamatório para que ela passasse aquela noite. Isso aconteceu há dois meses e ela ainda não procurou um dentista. Quando ela tiver que arrancar os dentes que estão doendo, por absoluta impossibilidade de restaurá-los devido ao agravamento causado pela procrastinação em buscar a solução adequada, a quem ela vai culpar? Veremos. Se eu ficar sabendo, relatarei aqui. Quem não tem a virtude da previdência, acaba escravo das conseqüências de seu descaso. 

Eu poderia citar inúmeros outros exemplos. Quem lembra do artigo “A Síndrome do Cupim“? Lá há três exemplos claros de gente que destrói a própria vida por negligenciar virtudes simples e fáceis de cultivar. Ou do artigo “mulher incendeia a própria casa para afugentar perereca“? Ó, Céus! Não gosto nem de lembrar daquilo! 

Enfim… 

Se há uma certeza que eu adquiri na vida é que as pessoas que mais se incomodam são aquelas que menos querem se incomodar – porque elas não querem no curto prazo se dar o trabalho de cultivar virtude alguma, nem de desenvolver habilidade alguma, e acabam no longo prazo pagando um preço muitíssimo mais caro por sua negligência em qualificar-se e em fazer o que é necessário para obter os resultados que desejam. 

Você quer um corpo saudável e em boa forma? Durma bem, alimente-se bem, pratique atividades físicas adequadas, não fume, trabalhe em algo que lhe dê realização pessoal e afaste-se de pessoas, situações e hábitos que gerem stress. Ah, dá muito trabalho? Então aprenda a curtir sua aparência de barril, sua falta de fôlego, o pigarro do cigarro e a ansiedade e depressão advindas de uma vida tensa e sem sentido. 

Você quer um país saudável e com boa administração? Aprenda como funciona o país, envolva-se na política, fiscalize a administração ou torne-se um dos administradores. Ah, dá muito trabalho? Então curta a Copa do Mundo enquanto agoniza na fila da emergência do hospital. 

Causas geram conseqüências. 

Causas virtuosas geram conseqüências virtuosas. 

Causas viciadas geram conseqüências viciadas. 

Não existe mágica. Compreender isso e as conseqüências disso é uma virtude. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 20/09/2012

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Leia também: 

Eu quero uma revolução. Quem vem comigo?

O sapo, o escorpião e os protestos – ou: em quem votarão os manifestantes?

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Onde estão os indomáveis?

24 thoughts on “Povo que não tem virtude acaba por ser escravo

  1. A longo prazo dá muito mais trabalho não querer ter trabalho.

    1. Isso é algo que eu digo desde a adolescência!

  2. Este artigo ‘e otimo e completa de certa forma a “Sindrome do Cupim”. Por outro lado, ‘e antagonico em relacao ao “Quem certifica o certificador”.

    Interessante

    1. Por que achas que ele é antagônico ao do “quem certifica o certificador”, Paulinha?

  3. Sabe Arthur acho que a tua atitude acabou incentivando a tua amiga a se acomodar as vezes tem que passar uma noite em claro para tomar a providência correta.E olha só biólogo receitando anti-inflamatório sem saber se o caso é para este medicamento,ou talvez seja para antibiótico,que feio, da próxima vez posso te ajudar a prescrever a medicação correta através de alguns testes que tu mesmo pode fazer no dente da tua amiga, mas caso esta seja uma inimiga aí acho que vale a pena tu resolver sozinho.Espero que ninguém do CRO leia isto ,tchauzinho..

    1. Sim, e’ disso que trata meu debate inflamado com outros, em “quem certifica o certificador”.


    2. “biólogo receitando anti-inflamatório sem saber se o caso é para este medicamento,ou talvez seja para antibiótico,que feio” (Gabriela)

      Gabriela, tudo que eu podia fazer era ajudar a guria a conseguir dormir aquela noite para poder procurar ajuda pela manhã, tanto é que eu dei a ela UM comprimido, o suficiente para seis a oito horas de sono, não uma cartela.

      E eu só receitaria um antibiótico para alguém se eu tivesse certeza absoluta do que estivesse fazendo, porque sou da opinião de que posso fazer o que bem entender com meu próprio corpo, mas preciso ser EXTREMAMENTE RESPONSÁVEL quando lido com a saúde alheia.

      O meu conselho padrão para quem tem qualquer problema de saúde é sempre o seguinte: se der tempo, estude sobre seu caso e depois procure um médico; se não der tempo, procure direto o médico; em qualquer dos casos, depois de ir ao médico procure se informar muito bem sobre seu caso para poder melhor colaborar com o médico na próxima vez em busca da melhor solução possível.

  4. Mais um artigo brilhante.
    E eu acrescentaria a isso a questão do custo x benefício. Custo de manter / custo de mudar x Benefício de manter / benefício de mudar.
    Como no geral o povo é bem imediatista, e o custo de mudar a curto prazo é maior do que o benefício (que seria maior a longo prazo), o povo prefere a estagnação.
    Acho que isso influencia também essa postura.
    Abração e bom fim de semana.

    1. Valeu, Robson!

      De fato, a questão do gerenciamento de escala de tempo, ou “longo prazo versus curto prazo”, é um excelente indicador de cultivo de virtude.

  5. Caro Arthur! Como sempre seu timing e prosa criaram um belo texto que infelizmente não vai para as escolas (e nem para o congresso). Concordo que o sistema é bom embora não concorde com a sistematização. Parece que o já-pó-há-séculos Joseph-Marie Maistre ainda não pode ser desmentido. E “cada povo tem o governo que merece”, em parte por que deixa que os governantes governem, e em parte por que elege governantes que são a própria cara do povo. É uma evolução tristemente lenta!

    Mas a questão do anti-inflamatório levantou uma peteca circunstancial que não posso deixar de dar um tapa! Você sabia que – dependendo das idiossincrasias individuais, e das intolerâncias insuspeitas,e das reações adversas exclusivas, e dos efeitos secundários decorrentes das somatórias sutis, e de uma porrada de outras expressões lindamente saborosas que englobam ou descrevem o leque de variáveis imponderáveis quando o assunto é a relação indivíduo-fármaco – você pode desencadear desde uma alergia, até uma belo estreitamento das carótidas, passando por um sangramento em qualquer um dos oitocentos centímetros do aparelho digestivo? E isso sem falar do malefício de induzir uma amiga a acreditar que sua sapiência havia solucionado o problema dela! Pior do que isso só poderíamos fazer encaminhando a amiga não ao dentista, mas ao cardiologista do pai do seu amigo! 😀

    1. Só te matando, Romacof! 😛

      Sim, eu sei que um anti-inflamatório não é uma agüinha inócua e que existem riscos. Mas eu sabia que ela já havia tomado aquele anti-inflamatório específico algumas vezes, sem problemas. Isso é mais do que o primeiro profissional que receitou o medicamento a ela pela primeira vez sabia.

      Existe algum médico que de fato faça um teste cuidadoso antes de receitar cada medicamento? Tenho 43 anos (completo 44 mês que vem) e ainda não encontrei um único médico – em toda minha vida – que tenha feito um teste alergênico antes de me receitar algum medicamento.

    2. nao se faz teste alergeico para a maior parte dos medicamentos pelas seguintes razoes:
      1) o teste alergenico tem baixo valor preditivo positivo e negativo
      2) o teste alergenico causara’ anafilaxia no paciente que tive hipersensibilidade imediata, pois esta reacao, que ‘e a aguda, independe da dose
      3) o teste alergenico ‘e uma maneira de se esquivar de processo medico: o cara recebeu penicilina e morreu de anafilaxia, mas o medico nao e’ culpado porque o teste alergenico foi feito e negativo. ou seja, o teste alergenico nao serve ao maior interessado: o paciente
      4) o teste alergenico, alem de inutil doi demais.

      simples assim.

    3. Então eu estava tão habilitado a prescrever aquele comprimido quanto qualquer médico, certo?

      E ela correu o mesmo risco comigo que correria se tivesse feito uma consulta, pois teria ido comprar o medicamento numa farmácia e tomado em casa, sem nenhum recurso para socorrê-la em caso de reação anafilática.

      Na verdade ela correu menos risco tomando aquele comprimido na minha frente, porque pelo menos eu estava ali para sair correndo para levá-la ao hospital se necessário – ainda que sem a garantia de chegar a tempo, seria mais rápido do que de ônibus ou mesmo táxi…

  6. Mas não basta pra ser livre
    Ser forte, aguerrido e bravo
    Povo que não tem virtude
    Acaba por ser escravo (2)

    Amo esta parte.

    1. E eu a levo a sério! 😉

  7. Tava vendo esse video e logo depois lí o artigo:

    Lula, o câncer do Brasil.
    http://www.youtube.com/watch?v=86eTKcWrFMo

    1. Qualquer assunto de que se trate o Nelson volta a bater na mesma tecla. Descobri o motivo. Este é o piano do Nelson: http://tedioso.com/arquivos/upload/1332775888.jpg

  8. “Povo que não tem virtude
    Acaba por ser escravo”
    Em uma comunidade de orkut que faço parte abriram um tópico informando que, em caso de guerra com uma potência da OTAN, o Brasil tem munição pra 1 hora de combate. Isso mesmo, após 1 hora o efetivo, seja quanto for, terá de optar entre render-se ou prosseguir a batalha soprando bolinhas de papel de dentro de tubos de canetas BIC(que nem na escola).
    Muitos comemoraram alegando que só teriamos 1 hora de guerra. Quando li essas coisas me lembrei do refrão citado.


    1. “Muitos comemoraram alegando que só teriamos 1 hora de guerra.” (Roberto)

      Esse pessoal deve preferir se contaminar com o Ébola do que com o HIV. Afinal, seriam somente umas poucas horas de sofrimento, ao invés de vários anos.

  9. Caro Arthur.
    Ter duas amigas dessas, você pode dispensar todos os seus inimigos e outros estorvos idem.Uma que adia a resolução definitiva de um problema, tornando-o crônico. A outra virou dona de um negócio, acabou virando uma sanguessuga capitalista. Não quero ser cruel, mas não tem como não dizer: Bem feito!!! Gente folgada não é mole não.

    1. Hmmm… Vou fazer uma pergunta meio fora do proposto, mas… Achas que todo dono de negócio é uma sanguesuga capitalista? 😛

  10. Pelo contrário, há pessoas que por iniciativa própria não só alavanca a si mesmo como os outros também.Infelizmente quando chamei ela de sanguessuga foi a única coisa viável a se ver nela. Só queria os bônus e mandava o ônus para a outra. Um ônus da qual a outra não estava dando conta.Oras a outra abriu mão do negócio ao admitir repartição do negócio, pois justamente ela não se dava bem no aspecto burocrático. Em outras palavras essa sua amiga acabou virando uma mala sem alça, aliás esse seria o termo mais correto e não sanguessuga que acaba soando pejorativo demais e marxista fora de contexto.

    1. Certo, obrigado pelo esclarecimento!

  11. Pensar Não Dói » Onde estão os indomáveis?

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