Por favor, ajudem-me a entender isso, ou eu vou enlouquecer de tanto tentar sem sucesso: o que faz com que as pessoas insistam em comportamentos irracionais, querendo (whishful thinking) que o mundo inteiro funcione de modo a satisfazer seus desejos sem que elas tenham que fazer o que é necessário fazer para resolver seus problemas? 

Tenho uma amiga cuja filha está apanhando na escola quase todos os dias. Ela já conversou com os professores e com os orientadores educacionais da escola mais de uma dúzia de vezes (sem exagero) e o problema continua sem solução. Eu fiquei sabendo disso há uns poucos dias. Seguiu-se então um diálogo por torpedo mais ou menos assim: 

– Queres que eu te diga qual é a solução mais simples e efetiva para esse problema? – perguntei.

– Sim – respondeu minha amiga.  

– Põe a guria no karatê – disse eu – que em dois ou três meses ninguém mais bate nela. 

– Ah, eu não quero que minha filha aprenda a resolver seus problemas usando de violência – disse minha amiga. 

– Então põe a guria no aikidô – disse eu – que em seis meses ninguém mais bate nela. O aikidô é por excelência a arte marcial para quem precisa se defender mas odeia violência. Procura os vídeos sobre aikidô no Youtube e confere. 

– Ah, não adianta, – disse minha amiga – porque quando minha filha se defendeu de uma agressão as professoras acharam que a culpa era dela e trocaram ela de turma. 

– Peraí – disse eu – isso é outro problema. Primeiro resolve o problema da criança estar apanhando quase todo dia, depois resolve o problema de fazer os professores entenderem que ela está apanhando simplesmente por ser a menor entre trinta filhotes de primata confinados sem supervisão adequada num ambiente fisicamente restrito, tedioso e conflitivo. 

– … [Sem resposta.] 

Como ela não respondeu os dois ou três torpedos seguintes, a conversa ficou por aí. No dia seguinte comentei o assunto com alguém da minha família. Falei qual era o problema, contei quais as soluções que eu tinha sugerido e comentei que minha amiga, ao invés de fazer algo para resolver o problema que a atingia, queria que os outros mudassem seu comportamento para satisfazer os desejos dela de como o mundo deveria funcionar. Eis o que ouvi em resposta: 

– E o que tu tens a ver com isso? A filha é tua? Que mania de se meter na vida dos outros! Além disso, tuas “soluções” não resolvem porcaria nenhuma, a guria vai continuar apanhando por mais seis meses. 

Ou seja, dane-se o problema que eu estava relatando, o que esta pessoa queria era que outra pessoa (eu) mudasse o seu comportamento para que o mundo passasse a funcionar como ela gostaria que o mundo funcionasse. E o fato de minha solução não dar resultados imediatos por acaso justifica a não adoção de solução alguma? Nunca obter resultado é melhor do que demorar para obter resultado? Mas vamos manter o foco no exemplo principal, que é mais esclarecedor. 

Minha amiga está sofrendo com o problema da filha. A criança, obviamente, sofre muito mais, não somente por causa da dor física como pelo fato de ser isolada e ridicularizada. Como a mãe não pode acompanhar a filha na escola para defendê-la, as soluções possíveis são três: ou a escola passa a inibir o bullying de modo mais eficaz, ou a mãe troca a filha para uma escola que lide de outro modo com o bullying, ou a criança aprende a se defender. 

Mais de uma dúzia de reuniões sem nenhum resultado constituem uma amostra mais do que suficiente para perceber que a escola não vai fazer porcaria nenhuma para coibir o bullying. Mudar a criança de escola a mãe não quer, alegando que a escola é muito boa (affff…). E colocar a criança numa aula de artes marciais, que é o único modo de o menor da turma aprender a se defender das agressões dos maiores, a mãe não quer, alegando que “a violência não é a solução para a violência”. 

– Tá, mas então qual é a solução? – pergunto eu. 

– Elas [as professoras] têm que resolver o problema! – diz minha amiga. 

– Elas não o resolveram até agora e não parecem interessadas em resolvê-lo – digo eu. 

– Mas elas têm que resolver o problema! – diz minha amiga. 

E deste círculo vicioso não saímos mais. 

Assim como este, eu poderia citar dezenas de exemplos.

Tenho um amigo que quer ter filhos mas há vinte anos se recusa a fazer o tratamento hormonal necessário ou uma fertilização in vitro porque diz que os poucos espermatozóides que produz deveriam ser suficientes para fecundar um óvulo. Eu já me irritei tanto com isso que toda vez que ele toca no assunto eu digo: “ou muda de assunto, ou eu vou embora”. E se ele fala mais uma frase sobre o assunto, eu vou embora mesmo. Aliás, já faz dois anos que eu não o vejo justamente porque não aturo mais a ladainha insana e insuportável de quem diz que deseja desesperadamente resolver o problema mais importante de sua vida mas rejeita todas as soluções razoáveis existentes. 

Tive um conhecido que sofreu sufocações e fraquezas terríveis por anos a fio até morrer de enfisema pulmonar. Ele reclamava o tempo todo que não conseguia respirar direito, que sentia dores, que cuspia sangue, que não tinha força para subir as escadas de casa, etc. Mas não parava de fumar. “Eu não consigo parar de fumar” – dizia ele. “Então sofre sem encher o saco dos outros” – dizia eu. E todo mundo me criticava pela grosseria. Mas ninguém criticava a ladainha irritante de quem queria que a biologia humana fosse magicamente modificada para que o universo se comportasse do modo que ele queria. 

Eu simplesmente não entendo essa ordem de prioridades. Entre sofrer desejando uma solução mágica obviamente inexistente e adotar uma solução razoável a seu alcance, parece-me que a maioria das pessoas prefere sofrer esperando um fenômeno que toda a história e toda análise razoável indicam que nunca aconteceu e nunca acontecerá. E não adianta argumentar, nem esperar que aprendam com a experiência. 

Por quê? 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 02/10/2012 

 

62 thoughts on “Por que as pessoas preferem sofrer a adotar soluções razoáveis?

  1. E a mãe da criança ainda é jumenta de pagar por essa “qualidade” de ensino?

    1. A tal escola tem algumas centenas de alunos e é uma das líderes de aprovação nos vestibulares no estado onde mora essa minha amiga.

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