Não teve um filme chamado “a dama do lotação”? Pois hoje à tarde eu encontrei o tanso do lotação. 

Eu levei meu familiar que passou recentemente por uma cirurgia ao posto de saúde. Como não havia vagas próximas, parei em fila dupla para que ele descesse em frente ao posto de saúde. Logo que parei, abriu uma vaga pouco atrás de onde eu estava, mas eu já estava com a porta aberta e meu familiar já estava descendo do carro. 

Uma quadra atrás vinha andando bem devagarinho o único outro veículo circulando naquela rua, uma rua de bairro quase deserta. Como meu familiar está com uma certa dificuldade de movimentos, desceu bem devagar do carro.

Imagino que os motoristas daquela linha de lotação estejam pra lá de acostumados com cenas deste tipo. Mas o cara veio se aproximando, se aproximando, se aproximando… E eu fiz sinal com a mão para que ele não se aproximasse mais, engatei a ré para indicar que pretendia manobrar para estacionar e liguei o pisca-alerta para ter certeza de que o motorista do lotação entenderia a natureza da situação. 

Pois não é que o babaca dos infernos quase colou na traseira do meu carro, por mais que eu gesticulasse para que ele não se aproximasse? 

E, quando meu familiar desceu do carro, o lotação ainda deu sinal de luz para que eu andasse logo. Só que as minhas opções eram ou recuar dois metros para estacionar, ou dar a volta em um imenso quarteirão. E o cara sabia disso. 

Custava muito ter tido a consideração ou a gentileza de não colar o lotação na traseira do carro de alguém que obviamente está levando um paciente com dificuldade de locomoção a um posto de saúde para não obrigar o motorista a dar a volta na quadra abandonando o paciente em pé na rua? 

Pois bem, já que ele não se preocupou com o meu problema, eu também não me preocupei com o problema dele. Tão logo meu familiar desceu do carro, dei ré. Trinta centímetros, porque mais que isso colidiria, mas dei ré. E não desengatei a ré, para ele perceber que eu não estava disposto a seguir adiante – eu ia ficar ali complicando até ele dar a ré e abrir espaço para que eu estacionasse. 

E aí ele recuou. O desgraçado é mal intencionado, mas não é burro. Eu já tinha largado o paciente. Ele tinha horário a cumprir. Melhor recuar dois metros do que bater no meu carro por trás ou meter-se numa discussão de trânsito, perder o horário e incomodar-se no emprego. 

Manobrei tranqüilamente, ele abriu a porta e passou xingando, eu fechei a janela para não ouvir e nem dei bola. 

Algum tempo atrás eu teria tentado conversar: “O senhor não viu que eu estava trazendo uma pessoa com dificuldade de movimentos ao posto de saúde? Custava ter facilitado a manobra que eu estava sinalizando?” Mas a experiência de algumas décadas me ensinou que o melhor a fazer é o seguinte:

Sempre que uma pessoa mostrar quem ela realmente é,

acredite logo na primeira vez – e não tente mudá-la. 

O ser humano é o único animal que usa sua inteligência para criar problemas e provocar conflitos propositadamente quando seria extremamente fácil resolver problemas e evitar conflitos com um mínimo de responsabilidade, de esforço, de boa vontade ou de simples gentileza.

Maldita nave-mãe que não volta… (*) 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 03/10/2012

(*) Valeu pela frase, Mônica! 

25 thoughts on “O tanso do lotação

  1. Concordo.
    Tb houve uma certa disputa de poder, o que na circunstancia descrita caracteriza frustracao em niveis galopantes por parte do tanso.

    1. Acho que há frustração no sujeito, mas mais do que frustração o que há neste tipo de episódio é descaso ou prepotência. “Não é em mim que dói, então que se dane.” Mas basta inverter a situação para o sujeito se tornar um honrado filósofo com uma lanterna em busca de um homem justo – ou sair aos quatro ventos espalhando xingamentos, raiva, revolta, dizendo que ninguém presta, etc.

    2. Um frustrado, que precisa exercer um minimo poder para se satisfazer, porque provavelmente nao comanda coisa nenhuma em sua vida. Ali, vestido de motorista profissional, munido de veiculo grande, decidiu que exerceria o poder de te impedir de fazer o que querias.

  2. O ser humano é o único animal que usa sua inteligência para criar problemas e provocar conflitos propositadamente quando seria extremamente fácil resolver problemas e evitar conflitos com um mínimo de responsabilidade, de esforço, de boa vontade ou de simples gentileza.

    Você falava dele, de si, ou de ambos?

    1. Se eu achasse que estava lidando com uma espécie inteligente, eu teria tentado conversar com o indivíduo, analisado o papel da gentileza nas relações sociais e saído com a alma leve e a sensação de dever cumprido por ter tornado o mundo um lugar um pouquinho melhor.

      Como eu sabia que a tentativa acima só resultaria em xingamentos e tornaria mais provável um embate físico, sem que o sujeito nem de longe repensasse seus valores e modificasse suas atitudes com boa vontade, tratei de usar de condicionamento operante: “parar colado atrás de um carro manobrando na frente do posto de saúde = encrenca, incomodação, risco de problemas no trabalho”. Se ele for mais inteligente que um rato que toma choque quando pisa no arame, ele não fará a mesma coisa de novo.

  3. Como dizia o velho Ozzy: Não quero mudar o mundo, não quero que o mundo me mude. E quem se atrever mostre o dedo do meio.

    Gostei da sua atitude apesar de ser arriscada, vai saber se o sujeito fica enfezado e resolve sair no tapa. O trânsito está muito selvagem, o nível de educação e civilidade cada vez mais baixo.

    Caro Elvis, o lance é o seguinte, o que o Arthur quis dizer é que o ser humano é o único animal que usa a inteligência para complicar as coisas com o objetivo de ferrar com outros pelo simples prazer de praticar a maldade. Está no cerne do ser humano o sentimento de egoísmo, portanto se referiu a todos sem exceção.

    1. Ozzy como político é um ótimo cantor.

      Mas o que eu deveria fazer? Dar a volta inteira no quarteirão porque um cara sozinho na via resolveu parar colado na traseira do meu carro ao invés de atender minha sinalização e parar dois metros antes? O que eu estaria ensinando a ele com essa atitude?

  4. People don’t change.( Dr House)

    1. Existem exceções, felizmente.

  5. O que raios significa tanso? Literalmente…

    1. Pacóvio, palerma, sonso, vagaroso, burro.

  6. Você fez o que eu entendo que é certo, a falta de civilidade do sujeito é incrível. Você não cedeu e nem poderia. Ensinar para um ignóbil acho bastante difícil, palavras não resolve, aliás seria uma perda de tempo. O importante é que deu certo.
    Eu só escrevi aquilo porque se fosse em São Paulo, seria arriscado.E eu não seria o único a escrever aquilo.
    Aqui são registrado alguns casos em que a coisa descamba numa violência graças a atitudes meramente banais, ai você vê o nível de stress somado a selvageria que tomou conta dos motoristas do qual cada centímetro é uma batalha territorial. O bicho motorizado chamado motorista vira uma verdadeira besta dos infernos.

    1. Aqui já é meio ruim, mas não acontecem quase brigas de trânsito. Não quero nem imaginar como é em São Paulo.

  7. Mesmo em Porto Alegre motoristas saem loucamente munidos de sua maquina para fazer o que bem entenderem, como se o seu carro fosse na realidade um tanque de guerra.

    Tb acho temerario “reagir” pois muitos andam armados, e usam irresponsavelmente suas armas (o carro incluido nelas).

    1. No Brasil não existe mais isso de “muitos andam armados”, Paulinha. O governo viu que 66% da população votou “NÃO” no plebiscito do desarmamento e mesmo assim intensificou o desarmamento. Coisa típica de governo golpista. Mas o brasileiro se contenta com uma esmolinha e continua elegendo o algoz.

  8. Relato de São Paulo: uma vez eu estava num ônibus à noite, voltando da faculdade pra casa da minha mãe. O motorista do ônibus ultrapassou um carro porque precisava pegar os estudantes que estavam no ponto próximo dali, afinal de contas, nem a USP é o lugar mais seguro do mundo para se estar parado às 23h num ponto de ônibus. Ele parou, pegou os estudantes, e nisso o carro ultrapassou o ônibus. Dali a uns dez ou quinze metros, o motorista do carro foi pro meio da pista e diminuiu a velocidade pra uns 5 km/h, obrigando o motorista a andar devagar, sem conseguir ultrapassar, por mais ou menos uns 500 metros.
    Isso lá é coisa que se faça?

    1. Isso foi ridículo. Tem gente que não tem o menor senso de proporção. Quando eu engatei a ré na frente do lotação, tudo que eu queria era um espaço de dois metros para manobrar sem ter que fazer uma volta de quase um quilômetro, o que era perfeitamente justo.

      Eu não segurei o lotação um segundo além do estritamente necessário, não enrolei para fazer a manobra, não xinguei nem fiz gestos obscenos. Aliás, só não fiz um gesto de agradecimento pela “gentileza” do recuo do lotação porque o motorista já chegou xingando, então preferi ignorar.

      Se o motorista do lotação batesse no meu carro, nenhuma testemunha daria razão a ele, pois tinha acabado de deixar um paciente descer em frente a um posto de saúde e o único gesto que fiz e que todos viram foi apontar para a vaga que eu queria ocupar.

      A situação com esse ônibus foi completamente oposta. Neste caso a razão era do motorista do ônibus, não do carro.

      Se eu fosse motorista de ônibus, numa linha noturna, numa cidade violenta, numa região perigosa, e um carro fizesse isso na minha frente, eu imediatamente pensaria o seguinte: esse cara está querendo me fazer parar para assaltar o ônibus, ou está querendo provocar alguma violência. Em qualquer das hipóteses – bastante razoáveis – seria minha obrigação proteger os passageiros e minha própria vida. E imediatamente eu buzinaria, elevaria o giro do motor ao máximo para o cara se mancar que eu iria engrossar e ter a chance de cair fora e então aceleraria e arremeteria contra o automóvel.

      Isso se chama legítima defesa putativa: quando um comportamento é suspeito o suficiente para que tenhamos um bom motivo para acreditar que seremos alvo de violência iminente, não é culpável o dano causado pela adoção de medidas que visem defender a incolumidade física do provável agredido. E a conduta atípica e injustificada daquele motorista indicava que suas intenções eram muito possivelmente agressivas.

    2. Então, no seu caso o abuso foi do motorista da lotação, e eu não sei se eu faria o mesmo que vc fez porque eu nem sei dirigir direito… mas essa do ônibus aqui na USP foi de perder mais um pouco a esperança na humanidade.

    3. Eu me pergunto se todo mundo conseguiria perceber que os dois casos são diferentes. Duvido. Não vai faltar quem me acuse de usar dois pesos e duas medidas. Mas quem foi que cometeu a indelicadeza/abuso em cada um dos casos? Essa para mim é a questão central.

  9. Está ai um bom exemplo da bestialidade.

    1. [Comentário relativo ao comentário da Elise, logo acima.]

  10. Imagino que se lá tivesse um guarda de trãnsito as pessoas respeitassem mais as outras.

    1. Se bem que isso não é respeito, é medo das conseqüências. Respeito é quando o elefante evita pisar no carreiro das formigas.

  11. Também não precisava me xingar, só perguntei…

    1. HUAHUAHUAHUAHUA!!!

      Boa. 🙂

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