Eu estava aqui pensando nos artigos que já anunciei e que ainda não escrevi e caiu a ficha do quanto a demora em publicar o que prometi me estressa. Ato contínuo lembrei do que em psicologia se chama de Síndrome do Super-Homem e resolvi ler novamente um pouco a respeito. Para minha surpresa, entretanto, as definições que encontrei estão longe de representar aquilo que analisei nas aulas de psicologia. Achei importante discutir o assunto aqui no blog

Não confunda a Síndrome do Super-Homem de que vamos falar com a síndrome biológica homônima causada pela presença de dois cromossomos Y. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Vamos definir claramente sobre o que vamos falar:

Síndrome do Super-Homem é a tendência de assumir mais responsabilidades perante terceiros do que é possível cumprir sem afetar a própria saúde física ou mental, ou mesmo do que é possível cumprir de qualquer modo. 

Por algum motivo maluco, tem gente por aí blogando sobre a Síndrome do Super-Homem como se fosse um excesso de auto-estima típico da juventude, ou uma forma específica de megalomania ou prepotência (“deixa que eu faço porque ninguém mais sabe fazer”), ou algum tipo de delírio autoritário de quem quer mandar em todos, ou uma forma de culpa por achar que precisa provar merecimento por ter mais do que os demais à volta, ou um modo doentio de lidar com uma vida moderna atribulada que cada vez nos traz mais compromissos e maior necessidade de organização e eficiência.

Gente, não é nada disso.

A Síndrome do Super-Homem é causada por uma grande dificuldade de dizer NÃO a solicitações ou expectativas de terceiros que poderiam facilmente ser atendídas isoladamente mas que tomadas em conjunto se mostram irrealizáveis devido à grande exigência de tempo e esforços requeridos pelo conjunto. 

Noutras palavras, a Síndrome do Super-Homem é causada por uma grande dificuldade de estabelecer prioridades e limites perante solicitações ou expectativas de terceiros.

Eu posso escrever um artigo sobre como ensinar matemática, física e estatística para adolescentes? Posso, claro, está em andamento. Eu posso escrever um artigo sobre ética? Posso, prometi faz tempo. Eu posso escrever um artigo sobre a utilidade dos protocolos na medicina e em outras profissões? Posso, já tenho a idéia em mente.

Eu posso escrever todos estes artigos com a qualidade que eu gostaria, num prazo razoável, e também cuidar de parentes doentes, ler os blogs dos amigos, cultivar minhas relações sociais virtuais e presenciais, trabalhar para prover meu próprio sustento, estudar os assuntos que me interessam, organizar um projeto político, aprender a tocar teclado, remar uma hora e dormir oito horas por dia, todos os dias? Não. Mas mesmo assim estou tentando, arrebentando minha saúde para fazer o impossível e me sentindo angustiado e culpado por não conseguir. Isso é a Síndrome do Super-Homem. 

Observe que não se trata de “incapacidade de perceber que não é possível realizar todas as solicitações ou expectativas”, pois isso seria um mero problema de treinamento de percepção ou mesmo de gerenciamento de tempo ou de recursos, facilmente resolvível com o uso adequado de uma agenda e uma calculadora. Também não se trata de “incapácidade de realizar todas as tarefas propostas”, pois tarefas auto-impostas não são solicitações ou expectativas de terceiros. A Síndrome de Super-Homem é resultado de um problema no relacionamento com o outro – Robinson Crusoé é imune a ela. 

O processo mental que leva a esse brete de abatedouro é simples, composto de dois elementos básicos: primeiro, cada nova solicitação ou tarefa que surge é percebida individualmente como factível; segundo, o indivíduo não consegue dizer NÃO a novas solicitações ou expectativas de terceiros apesar de perceber que já está sobrecarregado. Este é o cerne da questão. 

Até o parágrafo anterior eu tenho certeza e convicção técnica de cada afirmação. Agora começam as especulações e o bate-papo com o leitor. 

O que será que causa a Síndrome do Super-Homem? Ou, noutras palavras, o que será que causa “uma grande dificuldade de estabelecer prioridades e limites perante solicitações ou expectativas de terceiros”? 

A minha hipótese é uma combinação entre carência afetiva, baixa auto-estima e inabilidade social. Ao contrário dos que dizem que a Síndrome do Super-Homem é um certo tipo de megalomania ou prepotência, caracterizado por um certo desprezo pelo outro ou pela capacidade do outro, eu considero muito mais razoável que o mecanismo psicológico envolvido seja uma “Barganha Gregory House”. Explico. 

Gregory House é o personagem central de um seriado médico muito famoso. Provavelmente você conhece o personagem. Em um dos episódios (“Herança de Família”, terceira temporada) House revela uma parte importante de sua história, que explica boa parte do perfil psicológico do personagem. 

Na infância ou adolescência House e um amigo estão brincando e o amigo se fere. Chegando ao hospital, House nota alguém – que ele pensa ser um faxineiro – a quem ninguém dá atenção nem trata com respeito. O homem é tratado como se fosse invisível, até o momento em que a equipe médica percebe que não tem condições de tratar o garoto ferido (ou outro paciente, não recordo dos detalhes).

Neste momento a equipe chama o suposto faxineiro e ele se revela um excelente médico, que dá ordens à equipe, é atendido respeitosamente e resolve prontamente o problema, passando todavia a ser novamente ignorado tão logo não seja mais necessário. 

O tal medico era vítima de racismo. Pertencia a uma etnia desprezada na região onde vivia. Porém, quando sua competência técnica era necessária, os demais eram obrigados a tratá-lo com respeito e dar atenção ao que ele dizia. 

House, um completo desajustado social, interiorizou o conceito. Dedicando-se insanamente ao estudo da literatura médica e ciências correlatas e desenvolvendo uma habilidade ímpar para conectar informações possivelmente relevantes, ele se tornou o mais competente entre os mais competentes… E assim conquistou uma posição em que os demais são obrigados a respeitá-lo, porque precisam dele. 

Essa é a “Barganha Gregory House”, que eu considero um elemento fundamental no diagnóstico da Síndrome de Super-Homem. 

Outro elemento fundamental para o diagnóstico é a reação diferencial entre o não cumprimento de uma tarefa em relação à qual havia expectativas de terceiros e o não cumprimento de uma tarefa em relação à qual todas as expectativas eram estritamente pessoais. Por exemplo: se “frustrar a expectativa de meu amigo de ir assistir o futebol com ele nas quartas-feiras” for mais angustiante e estressante do que “frustrar minha própria expectativa de estudar saxofone nas segundas, quartas e sextas-feiras”, então provavelmente temos uma Síndrome do Super-Homem em foco. 

Observe que neste último exemplo é possível até mesmo que o indivíduo consiga optar corretamente e fique em casa estudando saxofone – mas ele não conseguirá fazer isso sem sentir culpa e angústia. Racionalizar e optar corretamente pode modificar positivamente o comportamento de quem tem a Síndrome do Super-Homem, mas não solucionará seu desconforto e seu sofrimento. 

As perguntas que ficam ao final do artigo são: a Síndrome do Super-Homem tem cura? Qual é a cura? 

Eu diria que, se minha hipótese estiver correta, “só” o que é necessário fazer é corrigir a carência afetiva, a baixa auto-estima e a inabilidade social do candidato a Super-Homem. É claro que essa é uma tarefa hercúlea cujos detalhes devem ser diferentes para cada pessoa, mas é o único caminho que lida diretamente com as causas do problema e que permite encontrar uma solução ao invés dos usuais paliativos que só tendem a piorar a situação. 

Constantes acusações de irresponsabilidade e de falta de organização só levam a vítima da Síndrome do Super-Homem a se organizar melhor e a encontrar mais espaço em sua agenda para se atolar ainda mais em inúmeras tarefas cujo objetivo é atender as solicitações e expectativas de terceiros – até que o stress a fulmine. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 12/10/2012 

29 thoughts on “Síndrome do Super-Homem

    1. … e corrigi-lo leva a problemas imediatos com amigos, relacionamentos, colegas e parentes.

    2. No curto prazo, com certeza. No longo prazo acho que vale MUITO a pena.

  1. suponho que vc já matou a charada apontando a carencia afetiva como causa dessa sindrome.quanto á baixa auto-estima e inabilidade social,creio que as 2 são frutos da 1ª.
    então “como corrigir a carencia afetiva já que é uma tarefa herculea?”
    hummm….. supondo que essa carencia seja tão inerente e que nos acompanha desde o nascimento até o suspiro derradeiro,talvez a pergunta seja: o que esta por tras ou o q vem antes disso? talvez o ego, esse monstro que se retroalimenta cada vez que cumprimos com eficiencia as demandas que a vida ou nós mesmos nos impomos. baixar a bola do ego (tentar pelo menos) talvez
    se refletisse em baixar tambem a carga de tarefas ou expextativas que carregamos.ter consciencia disso pode ser meio caminho percorrido faltando
    então o passo mais importante e árduo: descondicionar nossa mente dos hábitos nocivos que adquirimos (nos emputaram) ao longo da vida, criando a crença psicológica de q “ter”, “fazer” “adquirir” cada vez mais e mais (coisas/tarefas) nos agrega valor.

    1. Eu não acho que devamos tentar “reduzir nossas necessidades” no âmbito afetivo. Parece-me que essa “solução” é pior que o problema.

  2. Foi pros favoritos, preciso estudar isso…

  3. Ao meu ver, a cura está no bom humor. Como dizem que devemos solicitar as tarefas para os mais ocupados, aqui vai duas: Dá uma olhada na mensagem que te mandei no teu face e vai assistir o filme Intocáveis no cinema. Fica bem!

    1. Não achei a mensagem no Facebook. 🙁

      Mas esse papo de “solicitar as tarefas para os mais ocupados” não é bem assim, não…

      Aliás, estou exausto hoje.

  4. Não conseguimos agradar a todos…
    Aceitar essa realidade já é metade do caminho andado.

  5. Tô com esse problema [3]
    E preciso aprender a regular minhas prioridades com urgência…

    1. Acho que muita gente só não está com coragem de aumentar a contagem. 🙂

  6. Eu já tive esse problema.
    Hoje em dia meu grande problema é a procrastinação.
    Preciso de mais disciplina urgentemente.

    1. Tou como meu xaLá acima, adiar é um grande problema mas me sobrecarregar estou conseguindo superar.

    2. Também tenho problemas com a procrastinação.

      Um dia desses tenho que resolver isso. 😛

    3. “xaLá”?

      Depois sou eu que faço piadas infames.

      Cadê o Elvis pra esganar o Gerson numa hora dessas? 😛

  7. O sofrimento é fermento na vida do Super-Homem(sic).
    Assim falou o Zaratustra.

    1. Nietzche era um idiota, Rodrigo. Os fermentos da vida humana são o amor, a alegria, a compaixão e a equanimidade. 😉

  8. Esses sentimentos são absolutamente intrínsecos ao sofrimento. Existe sombra sem luz? Sofrer uma cirugia bem sucedida para retirar um cancer não lhe traria alegria? Pra mim sofrer com as ações da minha sombra me levam a conhecer a fonte de minha luz. Nosce te ipsum.

    A sua síndrome do super homem nada tem haver com o Übermensch de Nietzsche, eu sei, foi apenas um gracejo, no entanto ví pela sua resposta que cutuquei alguma ferida. Nietzsche foi mesmo um fanfarrão e cutucou muita gente, principalmente aqueles liberais que batem continência para o Rousseau (a “tarântula moral”), igualitarismo e toda essa groselha. Gostaria muito de saber o motivo da sua afirmação sobre a inteligêngia de Nietzche, haja visto a importância do bigodudo para o século XX.

    1. Não, não cutucaste nenhuma ferida, fica tranqüilo. Acontece que eu andei lendo Nietzche (saúde!) e fiquei PASMO com “a grande influência do monumental filósofo”… Nietzche não ficou doido no fim da vida, Nietzche sempre foi doido, preconceituoso, prepotente, fanfarrão e insuportável. Um verdadeiro troll ressentido. Reconhecer em Nietzche a importância que em geral se reconhece diz muito a respeito não de Nietzche, mas da loucura e descaminho da filosofia moderna.

  9. Ah tá. O problema então é a filosofia moderna?

    Loucura né?

    Hum…

    Vou ali e já volto!

    1. Não toleras divergências? Achas que os medalhões reconhecidos pela academia ou pela mídia são por isso de algum modo superiores ou inquestionáveis? Então vai pela sombra. Ou usa protetor solar. Dica do Bial.

  10. “Afirmações extraordinárias requerem evidências extraordinárias”
    Já ouviu essa?

    Eu não só tolero as divergências como às procuro.

    Inquestionável foi a sua argumentação:
    Nietzsche é louco
    A filosofia moderna é loucura e descaminho.

    Você foi quem acusou um filósofo cuja inteligência é inquestionável pela maioria de seus estudiosos, de idiota. O ônus da prova está contigo meu caro. Cadê as premissas? Cade as idéias?
    Se você leu mesmo a obra de Nietzsche, acho que consegue enumerar pelo menos 2 ou 3 premissas razoáveis para sustentar sua acusação. Não?

    1. Não, não. Isso aqui não é redação para ingresso em mestrado de “ciências” humanas. Isso aqui é um blog pessoal, onde eu exponho o que penso sem ter que me submeter a bancas examinadoras.

      Minha opinião sobre Nietzche? “Nietzche não ficou doido no fim da vida, Nietzche sempre foi doido, preconceituoso, prepotente, fanfarrão e insuportável. Um verdadeiro troll ressentido.” Uma opinião fundamentada em uma boa leitura.

      Não chamei Nietzche de idiota, centrei minha crítica num aspecto da personalidade dele que explica muitos de seus textos. E dei uma opinião bem simples sobre ele: ele não me impressiona nadica de nada.

      Não reconheço a suposta “monumental” relevância de Nietzche. Não perco meu tempo com ele. Quem quiser que o faça, porque não sou o ditador do universo para proibir isso – e não o proibiria se fosse, até porque isso lhe conferiria uma relevância que eu não reconheço. E fechamos o círculo.

      Ah, sim: Nietzche provavelmente me consideraria um idiota. Não me importo. 🙂

    2. Um único reparo importante: alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias? Sim, em se tratando de ciências. Nietzche não era um cientista. Não fez estudos com método científico e critérios objetivos de falsificabilidade. Era um cara que pensava sobre o mundo e escrevia sobre o que pensava. Um opinador. E opiniões por opiniões eu fico com as minhas. Valem tanto quanto as dele. O fato de ele ter milhões de leitores e eu algumas dezenas não significa nada no que diz respeito à correção tanto das idéias e afirmações dele quanto das minhas. Mera falácia ad populum (também chamada de ad numerum).

  11. Hahaha
    Meu caro, não estou e nem posso estar aqui para te examinar, pelo contrário, estou apenas tentando debater razoavelmente um assunto polêmico com alguém que tem opiniões contrárias as minhas. Entenda que a minha insistência no post anterior é apenas meu modo de tentar trazer a conversa para a arena das ideias do filósofo, que é o que interessa. Mas ok, deixa pra lá. Jáááá entendi!
    Alegações extraordinárias sim! E não estou comparando sua opinião sobre filosofia com ciência, isso seria ridículo. Subjetivamente achei extraordinária (não ordinária) e achei que mereceria uma alegação extraordinária (não-ordinária), pois você chamou Nietzsche de idiota sim. Refresque sua memória relendo seus próprios posts. Mas de qualquer maneira, a filosofia apesar de não se fundamentar no empirismo é muito mais do que a mera especulação no reino subjetivo. A filosofia utiliza a lógica, pra começar. Sem contar que Nietzsche além de filósofo era filólogo, e utilizava a filologia em seu trabalho.

    Então Ad populum não pode mas ad hominem pode? Que pena que você queira enveredar nesse tipo de conversa. Eu achei sinceramente que poderíamos ir mais longe e ter um debate interessante. Bobinho eu, né?

    Obrigado pela sua atenção de qualquer maneira.

    E um conselho de amigo: tente vencer seu preconceito com a personalidade do bigode e leia-o mais cuidadosamente, pode ser que voce se identifique.

    1. Mais duas coisas:

      1) Nem todo ad hominem é falacioso. Tu não contratarias um pedófilo para dar aulas no teu jardim de infância por melhores que fossem as idéias dele sobre educação infantil.

      2) Tudo bem, podemos ter começado mal. A palavra escrita tem esse problema: não tem entonação. Nem sempre identificamos corretamente o “tom” que o outro quis imprimir. Mas isso tem como ser corrigido com boa vontade e um pouco de esforço. Podemos começar de novo com o assunto de algum outro artigo. Ou tu podes escrever algo sobre Nietzche e eu posso publicar aqui para debatermos. Por mim está valendo.

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