Incrível a coincidência, mas logo após publicar o artigo “A Síndrome do Super-Homem” o tiroteio aqui aumentou exponencialmente. Domingo a correria chegou ao auge (comentário sobre esta expressão num artigo próximo). Segue uma descrição rapidinha porque estou demolido. 

Sábado à noite, após dois dias bem corridos devido a questões domésticas (busca documento aqui, leva ali, vai ao supermercado, vai na farmácia, etc.), achei que teria um momento de folga – uma janta na casa de amigos. Doce ilusão. 

Minha amiga, grávida de quase quarenta semanas, começou a sentir tontura, desconforto, “algo estranho”. Toca o Arthur pro hospital à 1h da madrugada carregando a grávida, duas amigas e o filho de quatro anos de uma das amigas. 

Atravessamos a cidade. Chegamos no hospital e a criança dormiu no carro, claro. As duas subiram com a grávida. Quem levou o pênalti de ter que ficar no carro cuidando da criança? Eu, claro. 

Quatro e meia da manhã e alguns exames depois recebemos a notícia de que estava tudo bem, que o parto não seria para aquele dia, que a grávida ficaria pelo menos mais umas quatro horas em observação e que podíamos ir embora. Fomos. 

Atravessamos a cidade. Ao chegar a quatro quadras de casa tocou o telefone. Era a grávida. “Estou liberada. Venham me buscar. Ai, ai, aaaaaaai…” Início das contrações. Tudo ao contrário do que nos informaram. Isso deve render outro artigo com o título “medicina degenerada”, mas outro dia.  

Voltamos ao hospital. Dia claro, já. Buscamos a grávida. “Mas peraí” – disse eu – “se as contrações já começaram, não é melhor já ficar no hospital? Não, não era. O médico disse para ela só voltar quando as contrações estivessem ocorrendo uma por minuto. 

Atravessamos a cidade. Chegamos em casa, a grávida saiu a caminhar um pouco pra cá, um pouco pra lá, interrompendo os passos para se contorcer de dor a cada quatro minutos. Sugeriram que eu fosse dormir um pouco para poder dirigir descansado quando chegasse a hora. 

Dormir? Depois de toda aquela adrenalina de atravessar duas vezes a cidade com o pisca-alerta ligado, buzinando para saírem da frente enquanto a grávida gemia e gritava no banco de trás? Difícil. Até que tentei, mas dali a pouco me avisaram: contrações de um em um minuto. 

“Eu tinha dito para me avisarem quando as contrações chegassem de dois em dois minutos! Ainda temos que atravessar a cidade! Vocês estão malucas?!” Bom, não adiantava reclamar. Todo mundo pra dentro do carro de novo. Correria de novo. 

Atravessamos a cidade. A grávida gemendo e gritando e eu fazendo malabarismos no trânsito. Chegamos ao hospital, elas subiram e quinze minutos depois a criança já tinha nascido. Nasceu antes que o médico chegasse à sala de parto.

Sorte que a natureza sabe o que fazer há alguns milhões de anos. Mas isso é outro papo. 

Atravessei a cidade. As outras me mandando mensagens pelo celular. Cheguei em casa e desabei na cama. Dormir? Só uma hora e meia depois, já na hora do almoço. A adrenalina não me deixou dormir antes. Almoço? Um copão de leite e umas bolachinhas que tinham sobrado do dia anterior. 

O sono da tarde não me descansou. Mensagens me acordaram às 16h. Voltei a dormir às 17h. Acordei todo errado às 20h. E ainda tive que ir buscar as acompanhantes no hospital. Janta? A do dia anterior, repetida. Comemos meio que dormindo em pé.

Não sei como, mas assisti o Domingo Maior na TV. Não sei o nome do filme, só para ilustrar o cansaço. Mas era um bom filme. Acho. A essas alturas não dá pra ter certeza de mais nada de tão cansado. 

Ah, sim: hoje foi o mesmo leva-e-traz de documentos, dentista à tarde porque uma antiga obturação quebrou e muito calor. Fácil desidratar-se e ficar ainda mais cansado. Mas acabo de jantar na casa da minha tia e estou excepcionalmente indo dormir cedinho. Isso se não me chamarem do hospital. 

Tempo para redigir este artigo: 18 minutos. Um recorde devido à exaustão. 

Boa noite para todos. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 15/10/2012 

22 thoughts on “Um dia de kriptonita

  1. Cuide de você, Kal El.

    E “trànsito” está errado. AHUAUAHUAHUAHUAHUAUAHUHHUUH!!!!!!

    Vai descansar, AGL, ou você não chega ao 18.

    Êpa! Dia do médico? Hmmmm… vocação bebemérita detected!

    1. HAUHAUAHUAHHAHH!!!! Escrevi “bebemérita”. E nem bebo (HIC)! Tambem precisava dormir um pouco.

    2. Um artigo inteiro de improviso em 18 minutos e o cara reclama que eu errei UM ACENTO, sendo que provavelmente eu atingi a tecla errada com o dedo porque a tecla do acento correto fica encostada.

      Assim não tem Super-Homem que agüente, tchê!

      Mas sempre pode piorar. Espera o próximo artigo, ainda para hoje.

    3. Esse “sempre pode piorar” me deixou preocupado.

      Escreva devagar. Por mais que eu queira mais um artigo seu. Podemos esperar.

      E viva mais devagar. Arthur, não adianta se estourar, o mundo continua ai e você que se ferra. Nesse caso houve uma emergência real, mas teria eu razão em desconfiar que você não melhorou da Supersíndrome? Você já come carrrrrne demais, o stress pode te pegar. Quero você aqui por muito tempo ainda.

      Na verdade nem o Super aguenta mesmo um ritmo sem paradas. Nos arcos de estórias onde ele tentou renunciar ao lado humano ele estava controlado ou pirado. Ele tambem errava. Quanto mais você.

    4. Calma. O artigo “sempre pode piorar” já está no ar. Não foi tão ruim assim. Ainda estou aqui escrevendo, não estou? 🙂

    5. Ufa! Não é o que eu temia!

    6. Fica tranqüilo. Não vou sair do armário. 😛

    7. Não era isso só {hã… isso significaria que ele está no armário?}me preocupei com algum diagnóstico ai, o resultado de algum exame perdido, algo assim.

    8. Não, eu não posso sair do armário justamente porque não estou dentro dele. Não me cria problemas com o Robson! 😛

  2. Nice artigo, uma crônica diverta

    1. É sempre mais divertido relatar a encrenca do que enfrentar a encrenca… E suponho que ler seja ainda mais fácil. 😛

    2. Porra, “diverta”, cara, “diverta”! Eu e o Gerson B estamos passando vergonha aqui.

      Mas parabéns pela camaradagem, você foi um bom amigo.

    3. “Divertida” essa “diverta” aí. 🙂

  3. Rafael Holanda

    16/10/2012 — 15:19

    KKKKKK!!!

    Parabéns pela sua habilidade de escrita, Arthur. Toda vez que vc escrevia “atravessamos a cidade…” eu imaginava um daqueles clipes em fast foward de um carro andando pelas ruas. Muito bom.

    1. Valeu, Rafael. 🙂

      Mas lá pela terceira ou quarta vez que atravessamos a cidade eu te garanto que o trânsito já parecia andar em marcha lenta. Ô diazinho demorado pra passar!

  4. Saudade de quando a gestante sentia contração e ia para o hospital.
    Era internada e pronto.

    Muita coisa mudou,para pior.

    1. Rafael Holanda

      17/10/2012 — 23:50

      Pergunta de noob: Não é mais permitido a grávida se internar? Por que?

    2. Não tem leito disponível. A triagem é “para quem realmente precisa”. Isso significa que a grávida pode ficar berrando de dor por aí até 15 minutos antes da hora do parto. Antes disso ela “não precisa” do hospital…

  5. E ainda querem me convencer que a vida de uma criança é valorizada.

    Se a vida fosse respeitada de fato,coisas assim não aconteceriam.

    Não valorizam nem a criança que ainda não nasceu,imaginem depois.

    Penso que só os embriões até 4 meses merecem atenção.

    1. Essa última frase diz respeito ao lado podre dos “pró-vida”. Gente que usa um discurso bonito para defender o direito dos que ainda não nasceram à vida… Mas faz isso pelos motivos errados e sem coerência alguma na hora de defender os direitos dos que já nasceram.

  6. Pois é…se descobrissem que a vida sempre deve ser cuidada.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: