Um dia de muito cansaço é pouco. Bom mesmo é quase morrer num acidente de automóvel no dia seguinte. Atenção para o “quase”, faz muita diferença no contexto… 

Passada a correria do domingo e o dia perdido de segunda-feira, até que consegui dormir razoavelmente bem na terça-feira. Tanto que resolvi dar uma “saidinha de final de semana” na terça-feira mesmo. E deu tudo certo, diga-se de passagem. O problema foi na hora de voltar para casa. 

Eu vinha pela Avenida Ipiranga, sentido bairro-centro, para pegar a Avenida Praia de Belas em direção à zona sul de Porto Alegre. Na esquina da Av. Getúlio Vargas, só ouvi um BLAM e o mundo começou a girar rapidamente em torno do meu carro, até que a calçada se aproximou por trás e me fez o favor de terminar de arrebentar a lateral direita do meu carro, que tinha acabado de ser atingido por um táxi que cruzara o sinal vermelho na Av. Getúlio Vargas. Se meu carro tivesse ido para o lado oposto da Av. Ipiranga, eu teria caído no Arroio Dilúvio, onde muita gente já morreu afogada em acidentes assim. 

Volta e meia morre alguém porque cai no Arroio Dilúvio. Não há proteção para evitar queda de veículos na maior parte deste arroio, que fica no meio de uma grande avenida de Porto Alegre.

Eu já me atirei na frente de um ônibus para salvar uma criança que seria atropelada. Eu já entrei no mar sozinho para tirar um cara maior que eu que estava em pânico e me deu uns três caldos até que eu conseguisse dominá-lo para salvá-lo. Eu já entrei em uma casa em chamas para tirar um senhor idoso do meio do incêndio. Em todos os casos permaneci absolutamente tranqüilo. Mas quando saí absolutamente ileso do carro abalroado e vi de longe que o motorista do táxi também estava bém, aí bateu o nervosismo. A adrenalina deve ser usada para um propósito útil. Por isso eu odeio bungee-jump, mas isso é outro papo. Voltemos ao acidente. 

Como eu dizia, a adrenalina foi muita. O que faz alguém que sabe que está nervoso demais para tomar as providências necessárias em uma situação de emergência? Liga para alguém que esteja calmo e saiba dar as orientações necessárias. Mesmo que seja às quatro horas e meia da madrugada. 

– Alô, pai? 

– O que foi, Arthur? 

– É o seguinte: eu estou bem, não me machuquei, mas houve um acidente de carro. Um táxi abalroou a lateral direita do Palio na esquina da Av. Ipiranga com a Av. Getúlio Vargas. O motorista do táxi também está bem, não havia passageiros, ninguém se machucou. Não há vazamento de combustível, os motores estão desligados, não há risco de incêndio e a posição em que os veículos ficaram não está obstruindo a via pública. O problema é que eu estou nervoso demais para pensar com clareza agora. Que outras providências devo tomar? 

Fora de brincadeira, essa foi a descrição exata que eu transmiti, praticamente palavra-a-palavra. Meu pai já sabe que em situações de stress eu ajo assim. E também sabe que nessas horas o melhor é ser o mais objetivo possível comigo. 

– Já ligaste para a EPTC? (Empresa Pública de Transporte e Circulação, responsável pelo trânsito em Porto Alegre.) 

– Ainda não. Ligo assim que desligarmos. O que mais? 

– Provavelmente vais ter que chamar o Guincho. O problema é pra onde levar o carro a essa hora. 

– Que tal se eu ligar pro [Fulano] (meu primo, que é taxista)? Ele deve saber aonde levar o carro e pode me ajudar a pensar com mais calma antes que comece a juntar gente aqui em volta. 

– Boa idéia. Liga pra ele. 

– Tá, depois te ligo pra dizer o que houve. 

Liguei para o meu primo. Ele já estava dormindo, mas veio me socorrer. Chegou antes da EPTC. Avisou para a gente não mexer nos carros e disse “gente, está tudo bem, agora é só burocracia”. Palavra mágica. Não anulou os efeitos da adrenalina, claro, mas me deu a certeza de que tudo terminaria bem. 

Por que a prefeitura de Porto Alegre não põe guard-rails em toda a extensão do Arroio Dilúvio? Sai mais barato enterrar pessoas do que enterrar um punhado de ferro?
Por que a prefeitura de Porto Alegre não põe guard-rails em toda a extensão do Arroio Dilúvio? Sai mais barato enterrar pessoas do que enterrar um punhado de ferro?

De fato, o pessoal da EPTC fez o que devia, do jeito que devia. Registraram a ocorrência, deram as orientações que pedimos quanto às próximas etapas burocráticas necessárias e foram embora. Ficamos eu e o taxista que me abalroou conversando numa boa. Gente fina, o sujeito. Reconheceu o erro e foi muito educado. Ninguém nem sequer levantou a voz o tempo todo. Lição de civilidade. 

Não sei se foi sorte ou azar, mas o meu carro saiu do local rodando. Se ele tivesse sido abalroado um metro mais para frente, a batida teria demolido a coluna central e acarretado perda total do veículo. Nesse caso a seguradora teria que me repor um veículo de mesmo preço. Como a pancada foi bem na roda traseira, a parte mais resistente da lateral do carro, é certo que eles vão dizer que vai dar para consertar. Ou seja, vou ficar com um carro batido e provavelmente meio torto. Delícia. 

Fui para casa dormir. Acordei com o dono do táxi me ligando para perguntar como exatamente tinha sido o acidente para poder acionar o seguro. Confesso que fiquei surpreso com a atitude dele. Foi muito objetivo, porém educado e solícito. Reconheceu que minha descrição do acidente era idêntica à descrição que o motorista do táxi havia feito, informou que iria acionar o seguro e que no dia seguinte o corretor de seguros dele faria contato comigo. Desligou desejando boa sorte num tom de voz que me pareceu sincero. 

O corretor de seguros nem esperou mais um dia, ligou dentro de duas horas. Passou o número do protocolo da ocorrência na seguradora, me deu o endereço e disse para eu passar lá no dia seguinte com esse número e meus documentos. Espero que a seguradora seja mesmo tão resolutiva quanto pareceu. Não tiro da cabeça a frase “sempre pode piorar”. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 17/10/2012 

 

18 thoughts on “Sempre pode piorar

  1. Rafael Holanda

    17/10/2012 — 23:44

    “Sempre pode piorar”. Mas não foi isso que aconteceu dessa vez, não é? Vejamos.

    Bateu o carro? Sim. É ruim? Sim. Foi o pior? Não. Seu carro poderia ter caído (com vc dentro) no córrego e pum! Fim da história. O acidente poderia ter sido pior e vc ter sofrido uma lesão séria (daquelas que te põem na categoria “deficiente físico”). O taxista poderia ter morrido/sofrido uma lesão. Algum transeunte poderia ter sido atingido por um dos carros. Etc…

    Além disso seu pai em vez de ajudar poderia entrar em pânico e apavorar outras pessoas, o que iria estragar ainda mais a situação. Seu primo poderia ter dito “só mais 5 minutinhos…” e só aparecer lá 2 horas depois. O taxista poderia ser um mal-caráter. O corretor de seguros poderia ser um mal-caráter. Enfim, poderia ser pior mas não foi.

    Ah sim! A seguradora pode sim não ser tão resolutiva quanto parece, mas não pense “sempre pode piorar”. Esqueça essa frase. Ao invés dela pense em tudo que aconteceu com vc e em todas as possibilidades listadas aqui por mim e pense “Foi melhor do que eu pensava”.

    Melhoras pra vc.

    1. Valeu pela injeção de ânimo! 🙂

      Podia ser pior, claro. Que bom que não foi. Mas ainda pode…

  2. Parabens, Mister A! Feliz mais um aninho!

    1. Torcendo pra que as coisas melhorem pra você. Este post me animou. Você tambem sabe pedir ajuda!

    2. Valeu, Gerson! Foste mais rápido que a postagem que eu tinha deixado engatilhada para o aniversário! 😮

    3. Quem não sabe pedir ajuda quando precisa é um tolo. 😉

  3. Apesar de tudo, foi surpreendente a atitude do taxista não esperaria uma coisa dessas. Realmente isso prova que a madrugada apesar de ser relativamente tranquila, ela guarda perigos que nunca imaginamos, às vezes podemos deparar com gente que está saindo de uma balada totalmente alucinado, já vi gente assim e dava até medo, não por ele e sim quem cruzasse o caminho dele.
    Tem lugares no centro de São Paulo que é extremamente sinistro para não dizer periculoso, pois você corre o risco de ser assaltado caso você esteja na madrugada. É o risco duplo, pode acontecer o que aconteceu contigo e já foram flagrados inclusive com fatalidade.
    Seja como for, redobre a sua atenção e não subestime, sei que sem querer relaxamos a guarda, está ai o problema.

    Boa a sua atitude e isso vale para outros, numa situação dessas realmente não dá para pensar com clareza e toda ajuda é bem-vinda.Desde que a pessoa não entre em pânico, ao invés de ajudar acaba atrapalhando.

    1. Eu acho que o cara do táxi estava cansado, provavelmente com sono e já sem condições de manter a atenção no fim de uma madrugada de trabalho. Na real fico com pena do cara, ele provavelmente vai levar uma ruim e ficar sem trabalho. Espero que o dono do táxi seja realmente compreensivo como pareceu e não o demita. Esse motorista nunca mais vai se distrair no trânsito!

  4. São pessoas assim que salvam a raça dos humanos.

  5. Que saga, hein? 😀
    Se as coisas deram certo até agora, provavelmente vão continuar no mesmo rumo. Não sei se acreditas em inferno astral, mas o seu acabou de acabar. =P

    1. Não, não acredito em inferno astral. Acredito naquilo em que posso meter o dedo e sentir com meus próprios sentidos e naquilo cujos efeitos posso detectar, como o raio-x. Inferno astral, astrologia, tarot, gnomos, fadas, unicórnios e outras coisas do gênero não entram na lista…

  6. Eduardo Marques

    19/10/2012 — 04:05

    Ainda bem que tudo terminou civilizadamente. Uma vez, eu bati numa moto na saída de um estacionamento e o motociclista já saiu gritando para a esposa, que estava atrás, anotar a placa do carro, mesmo enquanto eu dizia para entrar no carro para levá-lo ao hospital. Prioridades são prioridades. Ninguém se machucou, eu só dei o azar de bater numa ferida que ele já tinha no pé, mas no fim só paguei R$ 20,00 por uma peça quebrada da moto e ficar até tarde no hospital até um médico o atender.

    Também não sei qual é o grande custo de colocar botar uns negócios desses no chão. Aqui onde eu moro, tem uma pista perigosa ao lado de uma linha de trem. Não sei descrever direito, mas é uma avenida larga de mão dupla com um trilho no meio. O terreno do trilho foi aplanado e o da pista de asfalto não, deixando, por vezes, uma fenda enorme (mais de 2,5m de profundidade em alguns lugares) no meio da avenida em que carros passam em alta velocidade. Não sei de ocorrências nesse local específico , mas basta uma desatenção ou um motorista bêbado para cair na fenda do trilho. Reze para o trem não estar passando na hora. Eu mesmo já vi um ciclista cair nessa fenda (acho que mais de 2m no local). Aparentemente, o trem causou dois acidentes, só este ano:

    http://g1.globo.com/ceara/noticia/2012/08/acidente-em-linha-ferrea-deixa-nove-feridos-em-sobral-no-ceara.html

    http://g1.globo.com/ceara/noticia/2012/07/caminhao-colide-com-trem-em-sobral-no-interior-do-ceara.html

    1. Cara, que coisa genial deixar um buraco de 2,5m de profundidade sem proteção lateral no meio de uma avenida movimentada! Prêmio Jason Voorhees de criatividade!

  7. tiveste muita sorte de os danos terem sido materiais apenas.

    1. Ô! Melhor anjo-da-guarda do universo!

  8. Pessoas que são corretas e que fazem as coisas certas.

    1. Ainda existem. Mas já estão mais raras que o mico-leão-dourado.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: